domingo, 24 de junho de 2012

Luz - Passeio em Berlim, Unter den Linden, 2010



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Esta avenida, cujo nome é literalmente “Debaixo das Tílias”, foi uma das glórias de Berlim no século XIX. Numa das extremidades, encontra-se a Porta de Brandenburgo. Não muito longe, o Reichstag. Embaixadas (Americana, Russa, Britânica, etc.) ficam ali, assim ciomo museus, Ópera e Universidade. A avenida cruza várias outras famosas, incluindo Friedrichstrasse e Wilhelmstrasse. Era talvez o centro da cidade em grande parte do século XIX e nas primeiras décadas do século XX. Depois da guerra e da divisão, a avenida ficou no “lado de lá”, a Leste. Manteve-se um sítio interessante e mesmo “chique”, na versão comunista, mas obviamente declinou. Depois da reunificação, o restauro, a reciclagem, o aproveitamento e a reorganização têm sido formidáveis. Sem que tivesse havido uma decisão política, sem que se tenham aprovado decretos disparatados e voluntariosos, o grande centro de Berlim, de negócios, de turismo, de cultura, de ciência e de arte voltou a deslocar-se e regressou a estas paragens. A famosa Ilha dos Museus está por ali perto. A Câmara da cidade tem mantido uma disciplina severíssima, depois de ter criado normas e regras que impedem, por exemplo, a demolição sem justificação e a construção de arranha-céus. Unter den Linden voltou a ser o eixo central da cidade.

domingo, 17 de junho de 2012

Luz - Palais Royal, Paris 1998

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Palácio parisiense que nunca perco quando visito a cidade. Já aqui publiquei várias imagens com alguns apontamentos sobre a história do palácio, dos seus jardins, dos bares e restaurantes, assim como das tertúlias literárias e dos cafés políticos (quase sempre revolucionários) que o palácio albergava. Arcadas deste género, com os seus enfiamentos geométrico, sempre foram uma tentação para a fotografia.

domingo, 10 de junho de 2012

Luz - M’Zab, Sara, Argélia, 1972

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Vindo não se sabe donde, indo para qualquer sítio, este homem transporta ramos de palmeira, certamente de tamareira. O M’Zab é ao mesmo tempo um vale, um oásis e uma região da Argélia, na parte Norte do Sara. É um sítio maravilhoso, composto de cinco cidades muito especiais habitadas pelos Mozabites, uma tribo de Berberes. A mais importante é Ghardaia. A que mais me impressionou é Beni Isguen. São pequenas cidades com uma arquitectura fabulosa, a ponto de terem sido consideradas há duas ou três décadas património mundial da UNESCO. Diz-se que o jovem Corbusier se inspirou naquelas construções muito bem adaptadas às condições de clima, extremamente seco e árido. Quando por ali andei, o termómetro chegou aos 50 graus! Quando viajávamos de carro, pelas pistas ou pelas estradas, era frequente um acontecimento destes: de repente, sem que se perceba o destino ou a origem, aparecia uma pessoa! Com ar de quem estava perfeitamente orientada! Só se via areia para um lado e para os outros!

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Estudar em tempos de crise (*)

TENHO GRANDE prazer e honra em estar convosco neste dia tão especial para os antigos estudantes e futuros profissionais. Em muitos países, este dia é considerado um dos mais importantes da vida de cada um. Desejo-vos felicidades e um longo percurso profissional e pessoal!

Não vou ao ponto de considerar a juventude ou o estudo como período de quarentena ou de estágio, mas há algo disso. Quarentena, como disse um historiador francês, ao falar daquele período em que se não está cá nem lá... Ou estágio, como dizem os vinicultores, quando deixam os seus vinhos a preparar... Mesmo sabendo que os estudantes trabalham cada vez mais e que os trabalhadores são obrigados a estudar, a verdade é que a partir de agora a vida para muitos de vós vai mudar. A vossa participação na vida colectiva adquire hoje novo sentido. A responsabilidade para com a vossa comunidade assume nova feição. A assunção de uma ideia de estratégia e de construção do futuro é agora definitiva e premente. Apesar de saber que a vida adulta e profissional é, para muitos, feita de mudança, pode ligar-se o dia de hoje ao fim de uma longa transição. Os sentimentos essenciais de preparação, investimento, urgência, esperança e independência vão evoluir, conhecer novas formas.

Para alguns, o estudo foi um prazer. Para outros, um sacrifício. Para uns foi fácil. Para outros, uma corveia, um fardo a exigir árduo esforço. Quase todos se terão sentido adiados, em preparação, em permanente processo de diferimento. A todos direi o mesmo: foi uma decisão justa! Estudar e aprender é certamente o que de mais certo fazem e fizeram até hoje.

Já ouço vozes que murmuram nesta sala. Então e o desemprego? E a crise económica? E a falta de saídas profissionais? Só vos posso dizer em palavras simples: sem estudos, sem diploma, sem grau, seria pior. E quem o não tivesse, arrepender-se-ia toda a vida.

Apesar das frustrações actuais, mau grado o desemprego de milhares de licenciados e graduados, não obstante a incerteza que parece dominar a nossa existência contemporânea, uma preparação cultural, profissional e técnica é de indiscutível valia. Tiveram razão os que insistiram e persistiram. Sabe-se hoje que um graduado ou titular de um qualquer diploma superior tem muitas mais possibilidades de encontrar emprego, de formar uma empresa ou de criar a sua própria actividade independente, do que outra pessoa sem grau ou diploma. Há países em que a razão é de um para cinco, isto é, o diplomado tem cinco vezes mais possibilidades de encontrar o seu emprego do que o que não fez estudos superiores.

Vale a pena determo-nos um pouco mais nesta questão do emprego e do desemprego dos universitários e dos titulares de diplomas de estudos superiores. Que pensar do desperdício de recursos e da frustração dos licenciados que, um ano depois do seu grau, ainda hoje trabalham em “call centers”? Como olhar para esta enorme despesa, seja das famílias, seja do Estado, com uma preparação que nem sempre tem saída? Qual a racionalidade deste investimento que tantas vezes parece não ter retorno? É imaginável, em tempos de crise, baixar drasticamente o esforço de estudo e aprendizagem? É aconselhável, em tempos normais ou de dificuldades, planificar os estudos, isto é, formar e preparar apenas as pessoas que poderão ter emprego e que correspondam às necessidades da sociedade, das empresas e das instituições?

As minhas respostas a estas perguntas são todas negativas. Por várias razões. A primeira é porque se trata de tarefa absolutamente impossível. Por mais sofisticadas que sejam as técnicas de previsão, por mais rigorosos que sejam os métodos de ponderação da incerteza, nunca foi possível prever as necessidades profissionais com dezenas de anos de antecedência. Ora, é disso que tratamos: das necessidades económicas, sociais e técnicas de uma geração em relação à seguinte. Em educação, quando planificamos, é para gerações, não para dois ou três anos. Regimes ditatoriais, Estados que se julgavam omniscientes e governos convencidos que dominavam o futuro tentaram, mas nunca conseguiram. Ao decretar hoje que precisamos, dentro de vinte ou trinta anos, de dois mil médicos, três mil advogados ou quatro mil engenheiros, estamos a fazer o necessário para cometer um erro difícil de corrigir. Nenhum dos métodos seguidos até hoje, seja a planificação central, seja a total liberdade de escolha (ou a “mão invisível”, como se poderia dizer...) produziu uma qualquer solução para este problema. Mesmo em Portugal, que não tem ditadura, planificação ou omnisciência, podemos comparar duas tradições. A do planeamento, como é o caso da Medicina e da Enfermagem; e as da “mão invisível”, nos casos de muitos cursos como sejam o ensino, a sociologia, a comunicação social, as relações internacionais, o jornalismo, os recursos humanos e a gestão de empresas. No primeiro caso, a insuficiência é absurda e o recurso a profissionais estrangeiros é permanente. No segundo caso, o desemprego é abundante e a frustração quase geral.

Que fazer então? A meu ver, simplesmente deixar a sociedade ajustar-se, permitir que as decisões sejam tomadas pelos próprios, fazer com que a formação seja a mais aberta possível e a mais flexível que se imagina. Ao mesmo tempo, organizar o acesso aos estudos e às profissões de modo a não deixar degradar a qualidade das formações e a promover o rigor. Estudar é certamente um direito social; mas também é uma faculdade ligado ao mérito. E não esqueçamos nunca que a formação técnica e cultural é ela própria geradora de novas aspirações e novas necessidades.

De qualquer maneira, o critério essencial para a organização dos estudos superiores não é para mim o da adequação às necessidades económicas e empresariais do futuro. Muito mais importantes são os critérios ligados ao progresso humano, à liberdade e à autonomia dos cidadãos; ao desenvolvimento da ciência e da cultura; e à promoção do conhecimento e da procura da verdade.

Por outro lado, o desígnio essencial, o objectivo mais importante do ensino e da formação superior não é o da aprendizagem de uma profissão e de uma técnica, critérios certamente interessantes, mas não suficientes. O decisivo numa formação superior é a cultura geral, o raciocínio e o método. Numa expressão simples: aprender a pensar! Por mais sofisticadas e operacionais que sejam as técnicas aprendidas e dominadas, é a capacidade de raciocínio, de relação entre disciplinas e abordagens, de análise e de crítica, de adaptação a novas situações, de inovação e de interrogação, que dá conteúdo e missão ao ensino superior. Qualquer ofício, qualquer profissão aprendida com o enquadramento da cultura geral e da interdisciplinaridade própria do ensino superior adquire uma versatilidade e uma polivalência de incalculável valor.

Esta linha de pensamento conduz-nos a outro aspecto bem actual. Na Europa em geral e em Portugal em particular (tal como em mais dois ou três países mediterrânicos), vivemos um tempo de crise e dificuldade que tem levado a políticas de austeridade, de poupança e de contenção de despesas. Tanto despesas públicas, como privadas. Tanto despesa como crédito. O endividamento das famílias, das empresas, dos bancos e das Administrações Públicas é de tal monta que ninguém escapa aos programas ditos de austeridade e de contenção. Portugal é um dos países mais atingidos e mais empenhados nesse esforço. A este propósito, convém perguntar: como administrar esse programa de austeridade? Que sectores devem ser mais atingidos e mais poupados? Será que a educação e a formação devem estar incluídas nos sectores onde a austeridade se faz sentir? Será que todos os sectores da vida colectiva devem ser atingidos por igual? Será que faz sentido poupar alguns sectores? Quais? Com que critérios?

A minha resposta é a seguinte.  Tal como os grupos humanos, as classes sociais, as instituições e as empresas, todos os sectores devem ser objecto de poupança e austeridade. Todos os sectores devem sobretudo ser objecto de reforçada luta contra o desperdício. Mas alguns sectores devem ser protegidos de um excesso de austeridade. Sem privilégios, devem ser objecto de algum esforço. Entre esses, a educação sem qualquer dúvida. Porquê? Porque é, a prazo, um sector com capacidade reprodutiva e com potencialidade para proporcionar um retorno. Direi também o mesmo na sua formulação negativa: porque é um dos sectores em que um recuo geracional mais desgaste ou mais estragos produziria. Um excesso de austeridade, em tempos de crise, pode simplesmente ser irrecuperável na geração seguinte. Pode deixar cicatrizes que dificilmente saram. E diminuirá seguramente as próprias capacidades e energias para ultrapassar a crise.

É possível que outras pessoas digam algo de parecido a propósito de outros sectores, da saúde à segurança social, do emprego à segurança pública, do ambiente à energia ou da indústria à produção alimentar. É possível, sim. Isso faz parte do debate democrático a que só uma decisão informada e pública pode dar continuidade e solução. Ora, a verdade é que não sentimos isso neste nosso actual tempo de crise. Que se saiba, que seja conhecido e partilhado por muitos, os Portugueses não realizaram nem assistiram a um debate sobre as alternativas e as prioridades. Têm assistido, isso sim, a uma sucessão de decisões e medidas destinadas a poupar e conter a despesa em todos os sectores imagináveis, sem que haja, a meu ver, a perspectiva que aqui sublinhei, a de preservar as situações que podem melhor permitir a recuperação ulterior.

Gostaria ainda de alertar para um segundo ponto: esta ideia de que estudar em tempos de crise é aconselhável, recomendável e ainda mais necessário do que habitualmente parece aplicar-se exclusivamente às autoridades e aos poderes públicos. A maneira como exprimi o meu ponto de vista pode sugerir isso. Se é esse o caso, aproveito para corrigir. Esta ideia, na minha opinião, diz respeito a toda a gente, públicos e privados, pais e filhos, escolas e famílias, empresas e instituições. Incluindo estudantes. Em tempos de crise, o melhor que podem fazer, para além de procurar e encontrar soluções de sobrevivência própria e dos seus, o melhor que podem fazer, dizia, é estudar e preparar o futuro, seja este o tempo de duração da crise, sejam os tempos que virão depois. E, para isso, o esforço público não é suficiente. O contributo das famílias é indispensável. Não só em termos quantitativos, mas também qualitativos. Na verdade, a decisão de cada um é mais inteligente e mais sensível do que a regra burocrática e administrativa, universal e abstracta. A regra, do ponto de vista dos direitos, é fundamental. Mas, vistas as coisas do lado da vida real e dos percursos familiares e pessoais, a decisão individual e concreta é essencial.

A este propósito, desejo referir uma outra questão relativa ao contributo das famílias. Não se pense que este é apenas ou deve ser apenas financeiro. A participação das famílias na vida escolar e académica deveria ser muito superior à que é actualmente. Mais eficiência, mais rigor e menos desperdício seriam talvez de esperar. Mas também escolhas mais certeiras. E organização de cursos com mais racionalidade. A este propósito, sabemos que a situação em Portugal não tem evoluído bem, nem no melhor sentido. O sistema escolar português tem uma tendência acentuada para expulsar da escola os pais, tal como as comunidades e as empresas. Ora, essa evolução, sobretudo em tempos de crise, é negativa. O envolvimento das comunidades e o empenho permanente dos pais são, a meu ver e de acordo com experiências conhecidas em outros países ou em certos estabelecimentos privados portugueses, essenciais para estruturar escolas com melhor performance e mais adequadas às necessidades reais das pessoas. Devo dizer mesmo, no que aos pais diz respeito, que em Portugal é desconhecida a cultura dos “deveres dos pais” perante a escola dos filhos. Parece que a pressão se faz no sentido de que a escola os deve substituir em todas as tarefas e missões. Os próprios pais, muitas vezes, pretendem delegar a totalidade dos processos educativos na instituição. Chega-se mesmo a falar da “formação integral do cidadão” como missão da escola, o que me parece errado sob todos os pontos de vista. À escola compete muito, mas não tudo. E talvez nem sequer a maior parte.

Como dizia no início desta exposição, não acredito na capacidade política de prever as necessidades profissionais, técnicas, culturais e económicas para as próximas gerações. Mas acredito na capacidade humana de decidir sobre a sua própria vida e as suas expectativas. Uma experiência que conhecemos bem é a do “numerus clausus” para os estudos de Medicina. Por um lado, creio que o princípio do dispositivo do “numerus clausus” é positivo. Com efeito, o acesso ao ensino superior, ainda por cima a estudos especialmente caros, condicionado pelo mérito parece-me certo. É necessário merecer frequentar os graus mais elevados de formação e ensino, não se trata meramente de um direito de cidadão ou de um direito social. O “numerus clausus” é um dos mecanismos conhecidos para submeter o acesso às escolas superiores a um critério de mérito.

Por outro lado, o dispositivo, tal como o conhecemos, levou a consequências desastradas. Falta de médicos em vários sectores. Dificuldade em expandir tanto a saúde pública como a medicina privada. Partida para o estrangeiro de centenas de estudantes de medicina. E problemas muito sérios com a acumulação de vínculos profissionais públicos e privados. Mas sobretudo criou uma situação insustentável: estudantes da categoria de “Muito bom”, dezassete ou dezoito valores, são recusados à entrada da faculdade da sua escolha! Um país que assim procede não está bem! Como é sabido, o que acontece em Medicina pode acontecer também noutras áreas académicas. Muito está em causa. É dificultada a reposição de uma geração de cientistas e profissionais. Ficam em crise o direito e as expectativas de quem merece ter acesso às instituições de formação superior. É desvalorizada a ideia de justiça e de recompensa para quem cumpre os seus deveres e alimenta fundadas esperanças. Sem esquecer que o acto de formação e aprendizagem cria por si uma dinâmica de crescimento e progresso. Desengane-se quem pense, por exemplo, que Portugal fica a ganhar com os que vão estudar Medicina para Bucareste, Salamanca, Barcelona ou Praga. Desse modo, alegadamente, poupar-se-iam recursos portugueses, ficando o país a lucrar, depois, com o respectivo regresso. Na verdade, além das frustrações e do desperdício de tempo, o país perderia os efeitos muito positivos de uma disciplina em expansão e desenvolvimento. Sem falar, com certeza, no improvável regresso de muitos desses emigrantes.

Volto ao ponto de partida. Deixo-vos os meus votos de felicidade e de bom trabalho. A maior parte dos vossos estudos superiores desenrolaram-se em pleno clima de crise e de dificuldades. Não sei quais foram os sentimentos predominantes durante estes anos. Imagino que tenham sido de incerteza. É natural. Mas quero dizer-vos mais uma vez: tiveram razão! Parabéns e felicidades.
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(*) - ISLA – Lisboa, 30 de Maio de 2012

domingo, 3 de junho de 2012

Luz - Museu, São Petersburgo, 2011

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Esta é a Galeria Militar do Museu Hermitage, em São Petersburgo. Está decorada com três centenas de retratos de Marechais, Generais e outros oficiais que se ilustraram durante a Grande Guerra Patriótica (a de 1812, contra os exércitos de Napoleão). A Galeria foi construída poucos anos depois e manteve-se desde então. Muitos dos quadros foram pintados por um pintor inglês importante, George Dawe. Entre os retratados, contam-se o Czar Alexandre I (ao fundo, à direita, em quadro de maior dimensão), o príncipe Kutuzov (quem não se lembra da “Guerra e Paz”, de Tolstoi?) e o Duque de Wellington. A presença de estrangeiros, aliados dos Russos contra Napoleão, é assegurada por vários ingleses, alemães, austríacos e prussianos.

domingo, 27 de maio de 2012

Luz - Foz do Douro, Porto, 1985

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É um dos paredões preferidos pelos pescadores da Foz, de Miragaia e dos bairros dos arredores. É praticamente no local da foz do rio, no ponto de encontro com o mar. Ao fundo, atrás do areal, terras de Gaia e da Afurada.

domingo, 20 de maio de 2012

Luz - Miranda do Douro, 1978

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Uma das mais pequenas cidades portuguesas. Já foi sede de diocese (ainda hoje, o título oficial é Bispo de Miranda e Bragança). Terá hoje perto de 2.000 habitantes. O concelho não chega a 8.000. Já não vou lá há mais de vinte anos. Nos anos setenta, as ruas e os edifícios eram assim...

domingo, 13 de maio de 2012

Luz - Mercado, Barbados, 1971


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Estive aqui, quase de passagem, há quarenta anos. É a ilha mais a Leste das Caraíbas. Já havia, por aqui e ali, uns “resorts” de turismo, praia, caça ao tubarão, pesca grossa e daiquiris... Tudo um pouco pindérico. Era o princípio do novo mundo actual. Na cidade, muito pequena, já se notavam placas à entrada dos edifícios com nomes sonantes e insólitos de empresas financeiras e aparentadas: o início dos paraísos fiscais. Mas, no essencial, esta ilha era ainda a que vinha dos romances de aventuras e de piratas. Azáfama aparente e correrias nos mercados, vida tropical por excelência, notando-se uma altíssima densidade de bares e tabernas por metro quadrado. Nas ruas dos arredores e no campo, os aromas eram estranhos. Demorei umas horas a perceber que se tratava de refinarias de beterraba, de fábricas de melaço e de destilarias de rum um pouco por toda a parte, geralmente artesanais. Cheirava a açúcar queimado, a melaço e álcool. Música local porta sim, porta não (Não consigo identificar o género... Fazia lembrar a que se tocava muito na Jamaica e na Trinidad, com instrumentos improvisados, restos de bidões de lata, rodas de carros, etc.). Deve ser esta uma das ideias que se faziam os europeus do Paraíso perdido...

domingo, 6 de maio de 2012

Luz - Memorial do Holocausto, Berlim, 2010

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Perto de Unter den Linden, da porta de Brandenburgo, do Reichstag e da Potsdamplatz, foi erigido, este memorial do Holocausto inaugurado em 2005. O monumento, se assim se pode chamar, foi evidentemente objecto de polémica. Muita gente contra, muitos a favor. Com Judeus dos dois lados. A sua simplicidade é total. São cerca de 2.700 destas colunas, iguais em tudo, menos na altura. Vistas de cima, criam uma impressão ondulante fascinante. Pode-se deambular entre as colunas, ao longo dos corredores. O silêncio é quase absoluto. Os grafitos inexistentes. Há um pequeno museu subterrâneo, mas, cá fora, nenhuma alusão directa e explícita é feita ao Holocausto, ao horror, nem sequer a um cemitério. Não são as formas que comovem: é a simplicidade, o despojamento.

domingo, 29 de abril de 2012

Luz - Matança de porco, Estremoz, 1979

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As principais operações estão terminadas. O animal está cortado e desfeito. Cada um dos participantes fica com o seu quinhão ou encarrega-se de arranjar uma parte.

domingo, 22 de abril de 2012

A Coesão social

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NÃO FORA A ANSIEDADE que aflige milhões de cidadãos, no Ocidente e no resto do mundo, e poderia dizer que vivemos momentos fascinantes. São momentos de transição. E tempos de síntese, esperemos. Temos, creio, a sensação nítida de que vivemos um momento inesquecível em que muitos dos erros cometidos se tornaram evidentes e muitas das necessidades do futuro parecem indiscutíveis. Em toda a Europa, mais de meio século de paz e de crescimento económico chega ao seu termo e parece exigir novos modos e novas ideias, que todos reclamam, mas que ninguém descobriu. Em Portugal, mais de trinta anos de crescimento, de reformas e de melhoramento da nossa condição, chegam igualmente ao fim, mas de modo brutal. Uma crise sem igual e uma incerteza sem equivalentes próximos tingem o quotidiano de apreensão.

Ao contrário de uma ilusão criada há algumas décadas, estamos sem consciência clara do que queremos, do que podemos e do que seremos. A crença na previsão e no planeamento cresceu e enraizou-se durante os anos serenos de desenvolvimento e de prosperidade. Mas agora que tais actividades seriam mais necessárias do que nunca, percebemos melhor a sua irrelevância em tempos difíceis. Prever e antecipar parecem hoje actividades fúteis. Com menos meios e recursos, com menor autonomia de decisão e com superior dependência, temos dificuldades em preparar o futuro. No que não estamos sós: outros, na Europa, conhecem uma condição igual ou parecida. O que em nada nos consola. Apenas nos revela que a situação é realmente difícil e complexa e que os problemas são de monta. Todos os dias procuramos soluções na Ciência e na técnica, mas não as encontramos. Tentamos saber o que vai ser dentro de anos, o que serão as gerações que vêm a seguir, e não conseguimos.

Certezas com as quais nascemos e vivemos são hoje restos de doutrinas impotentes. O Estado, como configuração política de uma nação e de uma vontade colectiva, é uma caricatura do que foi. O mercado, como lugar de troca, de progresso e de livre escolha, mais parece um embuste. Os direitos individuais, como fonte dos projectos colectivos, são quase esquecidos. Os direitos adquiridos, no que alguns têm de reserva de dignidade e de certeza, são cada vez mais considerados dispensáveis, obsoletos ou descartáveis. A relativa autonomia dos povos livres em combinação com uma razoável independência dos Estados nacionais: eis um equilíbrio delicado que está evidentemente hoje em mau estado. Estas realidades e estes valores estão em causa, fortemente em questão. Sabemos já que não permanecerão como sempre foram. Mas não fazemos a mínima ideia do que serão, naquilo que se transformarão. Não sabemos sequer se a transformação será um progresso. Aliás, esta última noção está ela própria em causa e as nossas gerações aprenderam, ao longo do século XX, que o processo histórico não é sempre progresso. Em tudo o que perdemos, em nome do progresso, incluem-se valores e tradições, culturas e liberdades, costumes e sentimentos cuja falta se faz sentir em permanência. A globalização, a metrópole, as massas, a rapidez, o automatismo, a competitividade e a uniformidade geraram valores contrários à comunidade humana, ao pensamento, à qualidade estética, ao brio e à compaixão. Nem sequer a dimensão do que se ganha é suficiente para esquecer o que se perde. Pode até ganhar-se mais, em proporção, do que se perde. Mas o que se perde é, muitas vezes, uma amputação de humanidade e de cultura.


Os Estados e as nações, tal como os conhecemos durante décadas ou séculos, deixam gradualmente de existir e cedem os seus lugares a conglomerados sociais, políticos e regionais em busca do seu nome.

Os dois grandes pensamentos únicos do século XX, o da glória do Estado e o do endeusamento dos mercados, depois de revelarem toda a sua extensão de malfeitorias e de êxitos, demonstram ser incapazes de resolver o presente crítico, quanto mais o futuro.

Os Estados, como expoente da organização política, esqueceram frequentemente os seus cidadãos. E mesmo quando lhes garantiram sobrevivência e segurança, nem sempre lhes protegeram os seus direitos individuais.

Os mercados, esse lugar de racionalidade implícita, passaram a reinar sobre tudo, não só sobre a economia e a produção, o que seria razoável, mas também, como diria Michael Sandel, sobre tudo o que não lhes diz respeito: o espírito, o amor, a arte, a moral, a cultura, a educação e a saúde. “Tudo se compra, tudo está à venda”, eis uma frase banal e caricatural que se transformou em dolorosa verdade.

Como disse no início: esta transição é fascinante! Poucas coisas são espiritualmente mais cativantes do que ver as sociedades mudar, os comportamentos alterarem-se e os valores evoluírem. Além de perceber, com certeza.

O problema é que esta transição é perigosa. Já tem deixado, pelo caminho, mortos e feridos, valores perdidos e espíritos destruídos. A certos preços, com determinados custos, as transições não valem a pena. Ou são condenáveis. Ou representam momentos negros na história da humanidade. As dezenas de milhões de mortos, a destruição de cidades, o assassinato de milhões de civis, a reinvenção da tortura e o totalitarismo como jamais se tinha conhecido foram, no século XX, preços elevados de mais, mesmo sabendo que depois vieram décadas de paz e de democracia a uma grande parte do mundo.

Sem comparar o momento actual com aqueles anos de horror, podemos reflectir no preço a pagar por mais uma transição de era e de ciclo. Depois do primado do pensamento dominante que elegeu o Estado como fonte e condição de bem-estar, chegou o domínio da ideia do mercado como fonte de liberdade. De ambos retirámos benfeitorias indiscutíveis. A segurança social e a protecção dos fracos, por um lado, a liberdade e a responsabilidade individuais, por outro. Mas também tivemos o império do colectivo, a opressão do indivíduo e o menosprezo pela liberdade, tal como tivemos, depois, o desprezo pelo sofrimento, o elogio do mais forte e a transformação em mercadoria de tudo quanto é humano.

Não soubemos, até agora, criar a síntese. Não é seguro que o saibamos fazer. Há quase cinco anos que, com as sucessivas crises financeiras, seguidas de graves perturbações sociais e políticas, os homens e as mulheres do nosso tempo vivem tempos de aflição, de insegurança e incerteza.

O desemprego a níveis jamais vistos, a pobreza em expansão, os sistemas de protecção em crise de recursos, os milhares de falências e insolvências e a iminente ruptura de serviços públicos estão aí a confirmar o realismo do veredicto acima resumido. Poupanças de vidas inteiras perdidas! Vidas activas terminadas aos quarenta anos! As políticas parecem recuar perante a enormidade. Os Estados revelam fragilidades insuspeitas. A União Europeia e outros arranjos internacionais, ainda há duas ou três décadas as partes mais visíveis do sonho optimista e voluntarioso, demonstram não estarem preparados para defrontar uma crise omnipresente.

Destes anos, um único valor parece ter saído fortalecido: ganhar, ganhar a todo o custo, vencer, vencer a todo o preço. Transformar o vizinho em rival e destruir o rival. A competitividade e a produtividade, necessárias, com certeza, importantes, certamente, deixaram de ser instrumentos para se tornarem fins em si próprias. A última palavra consiste em ganhar mais que todos. O que quer dizer ganhar à custa de todos.

A capacidade destas doutrinas para desumanizar a sociedade é ilimitada. A pobreza é agora um merecido castigo. A desigualdade, uma condição necessária à vitória dos melhores. A injustiça, uma desculpa dos fracos. A Europa, durante séculos relativamente imune a estes valores, deixou-se contagiar, talvez por uma certa lenda americana. É hoje frequente assistirmos a situações em que a mais dura eficiência e o mais ácido pragmatismo dominam qualquer veleidade humana de compaixão ou solidariedade. De beleza ou de cultura.

É verdade que aquelas ideias vieram corrigir graves defeitos na organização das sociedades. Com efeito, as doutrinas que defendiam o Estado como principal fonte de liberdade, de segurança, de bem-estar e de desenvolvimento, mostraram amplamente a sua perversa impotência. Não conseguiram escapar à corrupção, ao despotismo burocrático e à ineficiência. Por isso a confiança nos mercados e a fé nos direitos individuais pareciam marcar uma nova era. Mas aconteceu o pior: a desregulação, em vez de nos salvar da burocracia, da corrupção e da ineficiência, condenou-nos a novos males, os da impiedade e os do mercantilismo. E os de uma nova corrupção, a financeira e política, de dimensões inéditas na história recente da humanidade. É verdade que a massificação democrática de bens e serviços, a começar pelos low costs de toda a espécie, nasceu desta desregulação, de que resultaram benefícios indiscutíveis. Mas as crises financeiras e económicas que se seguiram têm igualmente de ser contadas. E a estas crises, uma sucede, a social, que agora temos diante de nós, com o seu pior emblema, o do desemprego crónico, praga maior cujas consequências a prazo são ainda inimagináveis.

É assim natural que, nestes tempos de crise, o termo, a ideia e a noção de coesão social se tenham transformado no denominador comum de muitas preocupações, de planos políticos e de esperança. Como sempre, sabemos do que se fala, mas nem sempre temos consciência das implicações.

A coesão social está no centro das preocupações dos sociólogos e dos filósofos desde o início do século XX. A questão é de facto essencial. Que permite que os cidadãos vivam juntos, em sociedade? O que agrega os indivíduos e os grupos e lhes permite encontrar e definir regras para a vida em comum? Que factores integram regras e normas, assim como hábitos e costumes, que definem e estabelecem uma ordem social, um modus vivendi em conjunto? Por que se acredita no Direito? Por que se respeita a Constituição? Por que se seguem códigos de conduta? Por que se acata livremente o poder político? Por que se respeita o vizinho e a propriedade? Poder-se-á responder que é o medo, a repressão e a força coerciva do Estado, mas não chega. A pergunta seguinte é óbvia: por que se aceita a força coerciva do Estado? A coesão social parece ser cada vez mais uma resposta adequada. Mas o que faz a coesão social? Como nasce? De que resulta?

Entre as muitas respostas que vão sendo dadas ao longo dos tempos, uma merece especial menção. A coesão depende do sentimento de pertença. Não se confunde, mas depende. A coesão social é a força que mantém um grupo humano ou uma comunidade ligada, mesmo em tempos de dificuldades. A coesão é uma espécie de força centrípeta que mantém pessoas e grupos ligados, mesmo quando forças centrífugas exercem pressão em sentido contrário. A coesão une quando outras forças afastam. A coesão aproxima, quando outros factores separam. Quer isto dizer que a coesão nasce onde existe um sentimento comum, uma história partilhada, uma tradição, um interesse e uma identidade. A coesão depende do sentimento de pertença a uma comunidade local, regional ou nacional. Mas também de sentimentos de pertença a agrupamentos de livre escolha. A questão não é apenas de tradição e de identidade. O sentimento de pertença tem mais valor do que isso. Traduz um conforto moral, mas também um interesse. Ao pertencer a um grupo ou uma comunidade, espero sempre deles a satisfação de alguns interesses e necessidades, a começar pela segurança. Ao sentir que pertenço a um grupo, predisponho-me a estabelecer um permanente comércio com e ele: a dar e a receber. Até porque, em geral, este sentimento está ligado não só a uma tradição e uma cultura, mas também a um quadro local e a um território, assim como a uma forma política de governo e administração. Ao pertencer a um grupo ou uma comunidade, estou preparado para respeitar os outros, desde que me sinta respeitado.

Muitas das dificuldades que a Europa atravessa hoje, mais propriamente a União Europeia, resultam da inexistência de sentimento de pertença europeia tão forte quanto o sentimento de pertença a um Estado nacional. Assim como do facto de as diferenças nacionais e regionais não serem entendidas como ameaças à coesão social.

Destes sentimentos ficaram inúmeros testemunhos culturais. Entre tantos outros, vale a pena recordar George Orwell e o seu orgulho em pertencer à comunidade inglesa, a uma sociedade onde se tinham reconhecido os direitos e as liberdades, a um povo culto e amante da Natureza. A uma sociedade, dizia, que permitia o orgulho, à direita e à esquerda, de a ela pertencerem. A um povo que bebia chá, apesar das diferenças de classes.

A coesão social está modernamente associada a conceitos de justiça, igualdade e solidariedade. São obviamente sinais dos tempos. Mas não se trata de conceitos semelhantes. Uns poderão ser instrumentos de outros, não mais do que isso. Coesão não é sinónima de justiça ou de igualdade. É possível que a injustiça ameace a coesão. Como é provável que a desigualdade em excesso ponha em causa a coesão. Mas são conceitos e realidades diferentes.

A coesão social está associada, isso sim, a conceitos de sobrevivência, reprodução, organização comum e costume. Coesão social pode conviver com liberdade ou não. Com democracia ou não. Com igualdade social ou não. Com liberdades individuais ou não. Que dizer da tribo amazónica que era de tal modo coesa que quando um indivíduo se perdia do grupo, inevitavelmente morria, sem capacidade para sobreviver, nem sequer, em geral, para encontrar o seu grupo? Aliás, o castigo máximo que o grupo administrava aos seus membros era o ostracismo, a expulsão do grupo. Não se pode negar a coesão a este grupo. Mau grado a inexistência da autonomia pessoal e da liberdade individual tal como as entendemos. Mas outra coisa é a coesão social em entidades complexas, em sociedades divididas em regiões, autarquias, classes sociais, etnias e instituições. Aqui, as regras são diferentes. A coesão e a liberdade, a coesão e os direitos individuais têm coexistência difícil e exigente. Nestas sociedades, a coesão necessita ser cultivada e alimentada. A coesão exige informação e explicação. A coesão exige cuidado e respeito.

Além de coesão social, é costume falar-se também de coesão regional ou até de coesão internacional. Creio tratarem-se de variantes da primeira. Ou de pretextos ideológicos. Não consigo imaginar outras formas de desenvolvimento que não sejam diferentes entre si, umas das outras. Não creio que o “desenvolvimento igual e harmonioso ” seja deste mundo. Assim sendo, as formas de coesão a cultivar entre várias regiões ou entre vários países são arquitecturas da coesão social. Ou são simplesmente ilusões e flores de retórica. O que hoje os países em dificuldade pedem aos países ricos da Europa e que designam por solidariedade é uma ficção. Os Estados servem para defender interesses nacionais e assim será por muito tempo. Os países menos desenvolvidos têm de defender a lógica da coesão internacional, isto é, a solidez da União. Portugal e outros países têm de defender os seus direitos e, em nome da União, compensar o egoísmo excessivo dos países mais afortunados.

Está ameaçada a coesão? Muito, a começar pela perda do sentimento de pertença. Tudo ou quase tudo nas modernas tendências de desenvolvimento parece contrariar este valor. As comunidades locais dispersam-se nas grandes áreas metropolitanas. Os subúrbios das grandes cidades criaram áreas em mosaico de indiferença e de contiguidade estanque: as micro comunidades não formam autarquias ou comunidades. As migrações misturam populações inteiras sem necessariamente as juntar. A globalização dos mercados retirou identidade e origem à produção, assim como defesa e segurança. A cultura global ou universal destrói as formas mais conhecidas de demarcação de identidades e de pertenças. A competitividade sobrepôs-se definitivamente aos valores de solidariedade. O mercantilismo deu valor monetário a tudo, consciência, beleza, sublime e sentimento. A gestão eficaz separou as gerações e as famílias. A ajuda funcional e a protecção institucional desumanizaram a solidariedade.

Todas estas grandes tendências contrariam a ideia herdada de coesão. Ou antes: evoluíram mais depressa do que as formas de coesão. A sociedade de informação, o comércio, as finanças e a economia avançaram rapidamente, depressa de mais, não foram acompanhadas pela evolução de formas sociais e políticas que garantissem a coesão e acompanhassem o desenvolvimento acelerado do mundo material e da informação. Da família ao bairro, do grupo à Igreja, do sindicato à empresa; do clube ao partido e à associação, da freguesia ao município; e da região ao Estado: eis uma sucessão de pertenças que estruturam um sentimento, definem referências, são servidas por uma linguagem e uma cultura e alimentam a coesão.

A coesão está ameaçada. Sim. Vemo-lo todos os dias. No desemprego, nas migrações de desespero, nas falências, no abandono e na desistência. A desigualdade, a injustiça e a pobreza podem ser sérios perigos. Tal como o desenraizamento, causa da quebra do sentimento de pertença. Contra esses, todos os meios devem ser utilizados. As políticas sociais possíveis. A informação permanente e honesta por parte dos governos e das empresas. A capacidade de explicar as políticas e os sacrifícios. A capacidade para ouvir. A vontade de diálogo com forças políticas, económicas e sociais. Eis hábitos e práticas actualmente em sério défice.

Existe uma real dificuldade em conceber a coesão, em tempos de crise, sem abdicar da diferença, dos conflitos e dos interesses contraditórios. Ora, a coesão pode ser compatível com a luta de classes, com a competição partidária e com a concorrência. A coesão social é isso mesmo, o que junta os diferentes, mantendo-os, não os eliminando. A coesão que destrói diferenças, esbate interesses e remove contradições é uma coesão imposta, isto é, uma forma de despotismo. A coesão não implica unanimidade, nem consenso absoluto. Coesão implica justamente a ligação de diferentes. E implica liberdade e direitos humanos que fortalecem a coesão. A solidariedade, a associação e a entreajuda são infinitamente mais fortes quando repousam numa cultura forte de direitos individuais. Por isso sentimos, com razão, que a coesão social é factor a preservar em tempos de crise e transição. Sem coesão, podemos esperar o pior. Com coesão, para a qual devem contribuir cidadãos e autoridades, indivíduos e empresas, seremos capazes de muito.
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Encontro Nacional de Fundações / CPF – Centro Português de Fundações
Lisboa, 13 de Abril de 2012

domingo, 15 de abril de 2012

Luz - Marché aux Puces, Plainpalais, Genebra, 1972

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A variedade de objectos, insólitos ou não, é tão grande nesta espécie de Feira da Ladra quanto a da loja chinesa de Hong Kong publicada anteriormente. O grande terreiro de Plainpalais, no centro da cidade, foi legado em testamento, por um proprietário, “ao povo da cidade de Genebra”. Há mais de cem anos! Ainda hoje se mantém, apesar do tráfico e das construções à volta e apesar de um estacionamento subterrâneo construído nos anos oitenta. A vontade de benfeitor foi respeitada. E as decisões das autoridades têm-se mantido sábias!

domingo, 8 de abril de 2012

Luz - Loja de Hong Kong, 1998

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Uma loja de bric-à-brac em Hong Kong. Com atenção, encontra-se aqui uma variedade insólita de mercadorias. Cachimbos de ópio, budas, divindades orientais, dragões, cavalos de terracota, cromos, lenços, soldados do Exército Vermelho e, em lugar de destaque, a Rainha Isabel II da Grã-Bretanha!

domingo, 1 de abril de 2012

Luz - Lituânia, Vílnius, 1995

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Nos jardins de Vilnius, bem perto do centro da cidade, alguns passeantes, entre os quais duas irmãs, apanham o sol do Outono.

domingo, 25 de março de 2012

Luz - Jardins do Palais Royal, Paris, 1995

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Quando em Paris, volto sempre a este palácio e seus jardins. No centro da cidade, bem perto do Louvre, é um sítio de refúgio e calma. A arquitectura é serena, equilibrada e deslumbrante, sem os excessos franceses dos tempos de Luís XIV e seus descendentes. O palácio foi mandado construir por Richelieu nos inícios do século XVII. Foi residência de vários nobres e familiares dos reis (que em geral preferiam o Louvre...), mas foi sobretudo local de animação, de tertúlias e de intriga política. Muitos cafés se instalaram ali, até um dos mais famosos restaurantes de Paris contemporâneo, o Grand Vefour. Dos seus cafés e jardins partiram vários cortejos e marchas revolucionárias em direcção a Versailles ou à Bastilha. Ali se namorou intensamente, a ponto de escritores e poetas se referirem com malícia ou ironia aos costumes vigentes nas suas arcadas e sob as belas árvores.

domingo, 18 de março de 2012

Luz - Império do Divino Espírito Santo, Terceira, Açores, 2011

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São estranhos locais de culto e de peregrinação! De cores berrantes, espalhados por toda a ilha. São os locais de agregação de uma Irmandade do Divino Espírito Santo, cada uma com as suas tradições, os seus membros e as suas cerimónias. Este particular culto vem, em Portugal, dos séculos XIII e XIV. Nos Açores, desde muito cedo, depois do povoamento. Mas terá sido sobretudo no século XIX que se consolidou e se organizou, territorialmente, à volta dos Impérios. Estes são típicos dos Açores, da ilha Terceira muito especialmente, onde são particularmente garridos e ornamentados. Várias são as actividades rituais conduzidas pelas Irmandades. Talvez a mais importante seja o cortejo ou peregrinação anual e a reunião de todos à volta do Império, com recolha de alimentos e dons, que serão ulteriormente distribuídos pelos mais pobres. Por vezes, o clero desempenha algum papel, mas, geralmente, são as populações que tratam de tudo. Pode quase dizer-se que, neste culto, há uma relação directa, sem intermediários nem sacerdotes, entre as pessoas e o Divino.

domingo, 11 de março de 2012

Luz - Ilha Terceira, Açores, 2011

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Imagens como esta repetem-se ao infinito! Algumas ilhas açorianas, particularmente dedicadas à pastagem, à carne e ao leite, oferecem esta paisagem geométrica. Muros em pedra seca (sem argamassa) e parcelas de pastagem muito bem aproveitadas. A pedra é escura, entre o basalto e a pedra-pomes, de origem vulcânica. Sobre a origem dos muros e das divisões de prédios, há, como sempre e em qualquer sítio, várias teorias. Todas elas com alguma verdade. Em certos casos, constituem a marca da propriedade. Noutros, a divisão entre prédios para que o gado possa ir pastando com alguma ordem: assim a erva vai crescendo num, enquanto é comida noutro. Noutros ainda, um dispositivo bem simples para deixar o gado pastar sozinho, sem necessidade de manter um pastor todo o dia. Mas também há uma explicação bem prosaica: havia pedra a mais e, para poder cultivar, semear e trabalhar a terra, era necessário retirar a pedra: a melhor, mais barata e mais útil maneira de o fazer era justamente construir muros!

sábado, 10 de março de 2012

Passatempo «Nascer em Portugal» - Resultado

O prémio foi atribuído ex aequo a José Batista e a Rui Silva. Pede-se-lhes que, nas próximas 48h, escrevam para medina.ribeiro@gmail.com indicando as suas moradas, escrevendo em assunto «Passatempo Jacarandá».

domingo, 4 de março de 2012

Luz - Hay-on-Wye, 1996

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Esta aldeia fica exactamente na fronteira entre Inglaterra e o País de Gales. Já aqui mostrei muitas fotografias feitas ali, aquando de várias visitas que fiz. É uma aldeia maravilhosa, com as delícias esperadas do mundo rural inglês bem conservado, bem aproveitado, limpo, arrumado, com rio, floresta, montanha, bosque, animais, quintas e herdades, terrenos de cultura e de passeio. Na aldeia, há alguns “Pubs” fantásticos, onde se bebe excelente cerveja ou cidra, onde se come boa carne de vaca e inesquecíveis trutas pescadas no rio Wye. Como se isso não bastasse, a aldeia ficou famosa no mundo inteiro porque abriram dezenas de alfarrabistas. Como dizem os urbanos “modernos”, os habitantes descobriram um “nicho”. Todos os comerciantes de panos, mercearia, sapatos, comidas e bebidas e tudo o mais, arranjam maneira de vender livros antigos num canto da loja. Em certos casos, no Castelo ou no antigo Cinema, por exemplo, são enormes livrarias com milhares de livros em segunda mão. Passear umas horas ou uns dias naquela aldeia é uma experiência única: nas ruas, respira-se livros! Até os analfabetos gostam! Para além de tudo, a aldeia oferece todos os anos dois festivais: um de Literatura, reputado no mundo inteiro, outro de Jazz. Não me canso de recomendar: toda a gente deveria reservar umas férias para uma vez ir a Hay-on-Wye!

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

"Nascer em Portugal" - Passatempo com prémio

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A propósito do tema "Nascer em Portugal" que, no passado dia 17, se debateu no Palácio da Cidadela de Cascais, sugere-se aos leitores que também contribuam para esse debate.

O autor do melhor comentário que venha a ser afixado até às 24h do próximo dia 8 de Março será premiado com um exemplar de um livro da FFMS.

Seguem-se alguns tópicos, que não pretendem ser limitativos.
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A - Políticas públicas para a população. A necessidade da sua formulação, da explicitação, da tentativa de definição de uma certa coerência.

1. Mais informação, mais dados. Mais debate público.
2. Mais participação de entidades civis e privadas.
3. Mais participação de técnicos e cientistas.
4. Mais cuidadosa definição de critérios e prioridades relativamente a natalidade, fecundidade, família, naturalidade e nacionalidade.
5. Avaliação das políticas orçamentais, fiscais, laborais, educativas, sanitárias e de segurança em função dos critérios e prioridades de políticas de população.
6. Assegurar a estabilidade de políticas de população e demografia durante anos ou décadas.
7. Redefinição das políticas de nacionalidade, de imigração e de retorno de emigrantes.
8. Exame das políticas de urbanização e de habitação.
9. Exame das políticas de família.

A tradição portuguesa é a da fragmentação. As várias políticas elaboram-se, com critérios diverso e próprios, com efeitos seguros na população e nas suas dinâmicas, mas também fragmentados e contraditórios. O emprego, a lei laboral, a saúde, a segurança social, a nacionalidade, o fisco, as leis de família, a educação, a habitação e o urbanismo podem facilmente ter efeitos contraditórios na população, ora incentivando ora penalizando a natalidade, o casamento, as famílias numerosas, o cuidado dos velhos, a entrega das crianças a escolas e creches, etc.
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B As políticas de população deveriam incidir directamente sobre:

1. Natalidade e fecundidade.
2. Maternidade e paternidade.
3. Mortalidade infantil.
4. Envelhecimento.
5. Idade de reforma.
6. Estrutura familiar.
7. As responsabilidades da família na educação, na saúde e no envelhecimento.
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CA grande dificuldade: pode o Estado ter preferências? Que género? Que envolvam matéria ideológica e de escolha política? Deve o Estado ser indiferente ou neutro?

Defendo, por exemplo, o reforço do papel das famílias nos cuidados aos idosos, aos inválidos e no acompanhamento activo dos filhos em idade escolar. Para o que proponho políticas públicas de incentivo e protecção, a começar pela fiscalidade e a segurança social. Mas sei que esta preferência implica escolhas e prioridades políticas.

Caso particular da fecundidade (número de filhos, idade da mãe e do pai, etc.). Conhecem-se mal as razões da quebra de fecundidade durante as últimas décadas. A FFMS vai talvez, em parceria com o INE, conduzir um estudo sobre a fecundidade. Situação económica? Escolhas profissionais? Novas prioridades? Dificuldades? Vontade de ter mais tempo para outros fins? Família subalternizada? Novos modelos de vida? Novos padrões culturais?
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DA mitologia da “crise da demografia portuguesa”. Baixas natalidade e fecundidade. Muitos filhos fora do casamento. Casamentos tardios. Primeiros filhos tardios. A necessidade de combater estas tendências. Mais natalidade, mais fecundidade, casamentos mais cedo, filhos mais cedo... Porquê? Por que é melhor? Por razões raciais? Politicas? Culturais? Não haverá racismo e xenofobia nestas afirmações e nestes mitos?
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EO que pretende o Estado português? Que pretendem as autoridades e os dirigentes nacionais? As suas pretensões são aceites pelas populações? Há alguns consensos, mesmo relativos, ena área da população? Fomentar a natalidade de “Portugueses”? (Que se entende por “Portugueses”? São só ou sobretudo os Brancos e os Cristãos?). Acolher imigrantes? Promover casamentos mistos? Promover a natalidade com pai ou mãe solteiros? Casamento e união de facto são iguais e indiferentes? As escolas devem substituir as famílias na educação dos filhos? As instituições devem substituir as famílias no cuidado dos idosos? Facilitar ou dificultar a maternidade de solteiras vivendo sozinhas? Maternidade precoce ou tardia? Neutralidade financeira, política e fiscal perante as decisões relativamente ao número de filhos? Preferência natalista, por exemplo? É legítimo que o Estado tenha uma política de população com preferências, prioridades, critérios e escolhas? Ou deve ser indiferente às várias opções?
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F Questões que ficam sempre por responder:

As proclamações sobre a natalidade, as famílias, a fecundidade e o futuro demográfico dispensam em geral muita reflexão. Admitem-se facilmente princípios e profissões de fé, mas nem sempre os argumentos são explícitos e fundamentados.
1. Por que é melhor ter mais filhos? Por que as taxas de natalidade e fecundidade mais altas são melhores? Quais são os critérios? A liberdade? A igualdade? O desenvolvimento? O melhoramento cultural? A segurança dos projectos de vida? A independência nacional?
2. É legítimo que o Estado adopte uma doutrina? É legítimo que o Estado favoreça a natalidade e beneficie as famílias que têm mais filhos, em detrimento dos que não têm ou têm poucos?
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GFalsos problemas

1. As questões de natalidade e de fecundidade não são problemas das mulheres. São de todos.
2. Não ter filhos não é um problema.
3. Ter poucos filhos não é um problema.
4. A questão da natalidade e da fecundidade não é um problema da população branca e caucasiana.
5. Problema é o de uma mulher ou um homem quererem ter filhos e não poderem (por razões biológicas, sociais ou outras).
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HContra a corrente

• Nasce-se muito menos em Portugal. Mas nasce-se muito melhor.
• Vive-se mais em Portugal. E vive-se muito melhor.
• Que a crise económica e social desta última década não esconda o panorama mais vasto que é o do progresso de bem-estar, das condições sanitárias e da esperança de vida.
• Não vivemos uma situação dramática do ponto d vista demográfico. Dramático é não perceber. Dramático é não estudar as causas e os efeitos.
• A ideia de que a queda da natalidade e da fecundidade é um sinal inequívoco de crise económica e social, de declínio moral e civilizacional, não resiste à análise, feita esta em termos de médio e longo prazo e em termos comparativos internacionais. Há países mais ricos e com mais natalidade. Há países mais ricos e com menos natalidade. Os países mais pobres do que Portugal têm geralmente menor fecundidade e menor natalidade!

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Luz - Hassi Messaoud, Argélia, 1972

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Algures no deserto do Sara, a caminho de Hassi Messaoud (o centro de exploração do petróleo e do gás argelinos) um inesperado poste de linhas telefónicas. Ao fundo, a linha de tendas de um grande grupo de Beduínos.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Luz - Graduation Day, New England, 1978

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Infelizmente, não recordo a cidade onde foi feita esta fotografia. Poderia ter sido em Boston, Providence, Newark... Mas a imagem seria a mesma em qualquer destas cidades. Graduados da Universidade, rodeados de familiares, passeiam-se e festejam um dos mais importantes dias da vida de cada um...

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Luz - Genève, 1973

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Na Baixa de Genebra, na Praça do Comércio, as caixas onde se vendiam os jornais diários. Bons tempos! Bastava incluir a moeda na ranhura e retirava-se, sem chaves ou cadeados, o jornal que se pretendia! A passar ao lado das caixas, de barbas e óculos escuros, o meu irmão Nuno que tinha vindo visitar-me. Os cartazes dos jornais anunciavam o que consideravam ser a “manchette” do dia. Como se pode ver, as Manifestações contra a guerra colonial portuguesa estavam na ordem do dia. Da esquerda para a direita, as tendências políticas dos jornais eram: “Domaine Public”, esquerda moderada, intelectual; “Le Courrier”, direita cristã; a “Voix Ouvrière”, comunista; “La Suisse”, direita liberal.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Luz - Genebra, 1973

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Ao lado de uma montra típica de uma relojoaria suíça, um cartaz que nos diz qualquer coisa. Fazia parte de uma campanha organizada por militantes de esquerda suíços, com a ajuda de alguns portugueses, a fim de denunciar as cumplicidades existentes entre a Suíça e Portugal, a propósito da guerra colonial. O pretexto era o “Comptoir Suisse”, grande feira comercial realizada todos os anos. Em 1973, o convidado especial desse ano era Portugal. O cartaz pede ainda o reconhecimento da Guiné-Bissau, cuja independência estava em curso de aprovação nas Nações Unidas. A imagem incluída no cartaz era muito conhecida: vista de um helicóptero, com metralhadora apontada, vê-se uma aldeia “indígena” organizada e alinhada pelos militares portugueses.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Luz - Genebra, 1971

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Senhora elegante a passear numa das ruas da Baixa. Num dos letreiros, a indicação da Casa Davidoff, uma das mais famosas marcas de charutos e cigarros. O gerente e proprietário era o senhor Zino Davidoff, que conheci nos anos sessenta. Era um russo emigrado, muito simpático, grande especialista de charutos, sobretudo de “cubanos”. Acolhedor, recebia quem por lá passava de vez em quando e ensinava os ignorantes na matéria, como eu, a apreciar os seus charutos. Durante muitos anos, depois da revolução cubana, Zino continuava a produzir em Cuba os seus charutos e a aconselhar o governo a explorar o melhor possível os seus recursos e a aproveitar a extraordinária experiência cubana. Depois de uma fase muito má e desorganizada, logo a seguir à revolução, os “puros” cubanos recomeçaram uma vida de glória e prestígio. Ao que constava, Zino Davidoff teria sido um dos principais responsáveis por esse renascimento. Sei que, um dia, zangaram-se e Zino foi continuar a fazer os seus charutos para outros países, nomeadamente a República Dominicana.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Luz - Garrafas da Ferreira, Gaia, 2006

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Em Vila Nova de Gaia, num dos velhos armazéns da Casa Ferreira (também conhecida por “A Ferreirinha”). A empresa e a marca pertencem hoje à Sogrape. Esta fotografia foi tirada na sala de provas. As garrafas presentes, de vinho do Porto, vão passar o exame. Pela janela, avistam-se antigos edifícios da cidade do Porto.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Luz - Gaia, armazém da RCV, 2006

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Pipas em repouso e vinho a envelhecer num velho armazém, em Vila Nova de Gaia, da Real Companhia Velha.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Luz -Foz do Douro, Porto, 1985

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É um dos paredões preferidos pelos pescadores da Foz, de Miragaia e dos bairros dos arredores. É praticamente no local da foz do rio, no ponto de encontro com o mar. Ao fundo, atrás do areal, terras de Gaia e da Afurada.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Luz - Fabrico de tonel na Quinta do Vale Meão, Pocinho, 2006

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No centro da imagem, meio tonel em vias de ser montado. Não se trata de um tonel novo, mas sim de uma espécie de restauro, a partir de madeira e aduelas de tonéis mais antigos. Na parte interior das madeiras, vê-se o “sarro” de anos e anos de vinhos envelhecidos aqui. Depois de devidamente raspados, servem para uma segunda (ou terceira...) vida!

domingo, 25 de dezembro de 2011

Luz - Ensaio para o baile, São Petersburgo, 2010

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Parece que as danças de salão têm um êxito formidável na Rússia democrática. Diz-se que também antes. Cartier Bresson, por exemplo, fez algumas fotografias formidáveis de danças de salão em associações recreativas. Quando por lá andei, nos anos sessenta, viam-se alguns exemplos. Muito mais modestos. Agora, neste hotel de luxo, há bailes com frequência. A nova burguesia russa e as classes médias fazem filas para poder entrar. E é tudo muito organizado. Nas vésperas, há horas e horas de treino. Aqui, era o ensaio geral para o dia seguinte. As senhoras já se vestiam a rigor.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Novo ciclo: a incerteza

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COMO QUASE sempre na vida, os ciclos terminam antes que as pessoas se dêem conta. Algures em meados da década de noventa, os tempos da fartura e da prosperidade tinham acabado. Desde então, o crescimento estagnou, primeiro, desceu para níveis negativos, depois. Iniciou-se então uma época “entre ciclos”, durante a qual se mantiveram as ilusões e a euforia, agora condimentada com doses inultrapassáveis de demagogia. Vivia-se como se tudo fosse ainda possível, como se os cofres do Estado, das empresas e das famílias estivessem recheados. Como se ainda houvesse agricultura, floresta, pescas e indústria. Como se o investimento estrangeiro continuasse a procurar a nossa economia. Em poucas palavras, como se progresso interminável estivesse garantido. O Estado prometia e pagava. As famílias gastavam. A banca aproveitava. As empresas endividavam-se. O financiamento externo não cessava. Os avisos que alguns deram não tinham sequer eco, foram considerados sinais de senilidade e pessimismo. O futuro continuava radioso.

A crise internacional e o colapso nacional mostraram a dimensão inacreditável do desastre e da demagogia. A fragilidade nacional surgiu em proporções inesperadas. A produção nacional era insuficiente, o consumo não parava de crescer. O défice público aumentava sem travões nem sensatez. A dívida externa e interna, sobretudo a primeira, atingia níveis dramáticos. A balança comercial afundava-se. Os emigrantes enviavam menos remessas e os imigrantes mandavam mais. O investimento externo reduzia-se. A expatriação de capitais aumentava. A deslocalização de empresas acelerava. Passámos a viver em desequilíbrio crescente e à custa dos credores. O ataque à dívida soberana resultou imediatamente, não por efeito de conspirações malignas, mas em consequência de uma vulnerabilidade total. O país, o Estado, a banca, muitas empresas e muitas famílias faliram. A assistência financeira externa foi indispensável. Começou a viver-se um novo ciclo que ainda não tem nome, mas cujos contornos são já conhecidos. A nova realidade do desemprego, da quase falência do Estado social, da falta de competitividade, da austeridade e do crescimento insuportável dos impostos veio para ficar. Iniciámos um longo período de crescimento muito baixo ou nulo. As oportunidades serão cada vez menos. A emigração será maior.

Há muita gente que não acredita neste brando diagnóstico. Como não acreditou, durante década e meia, nos sinais de desgoverno e de decadência. Mas a vida acabará por impor a sua lei e a força da realidade. Tão cedo, antes de vários anos, os Portugueses não voltarão a ter os níveis de rendimento, de bem-estar e de desafogo que conheceram, de modo crescente, durante duas ou três décadas. As classes médias perderão algo que tinham, trabalhadores e classes mais desfavorecidas sentirão apertos maiores e apoios sociais menores. Na melhor das hipóteses, com muito trabalho, com um enorme esforço de reorganização do Estado e das finanças públicas e com uma imensa acção de atracção do investimento externo, os Portugueses terão, dentro de cinco a dez anos, as primeiras impressões de um melhoramento real das suas vidas.

Entretanto, as consequências políticas desta situação tornaram-se visíveis ou previsíveis. O Parlamento nacional encontra-se marginalizado e sem regresso. A política nacional está dependente e condicionada nos mais ínfimos pormenores. A Comissão Europeia foi espatifada. O Parlamento Europeu foi confirmado na sua mirífica irrelevância. As instituições europeias estão à mercê das duas grandes potenciais regionais e dos grandes grupos financeiros multinacionais. Partidos e sindicatos europeus brilham pela sua ausência. As empresas europeias põem-se ao abrigo nacional ou multinacional, mas certamente não europeu. Nenhum movimento europeu se revelou até hoje com capacidade para emprestar a voz aos cidadãos, que, de qualquer maneira, se sentem menos europeus do que nunca.

Pior que tudo: não há alternativa. Portugal (tal como qualquer outro país) terá de encontrar as suas soluções no quadro europeu. Não parece haver solução portuguesa para a portuguesa crise. O ultimato alemão e europeu é insuportável, as instruções para a revisão constitucional são intoleráveis e a interferência na escolha dos dirigentes políticos é inadmissível. Mas não se conhece outra solução, a não ser a aquiescência ou a resignação. No quadro europeu, seguindo as regras de disciplina financeira e vivendo um longo período de austeridade e de crescimento quase nulo, Portugal terá a hipótese de preservar alguma aparência de democracia e uma reduzida margem de bem-estar e de apoio social. Mesmo se com independência mitigada. Fora da Europa, com algum proteccionismo, com a reestruturação da dívida e eventualmente a cessação de pagamentos, os Portugueses conhecerão a pobreza e perderão o pouco que lhes resta de democracia. Não há volta a dar. Acreditem.

«Correio da Manhã» de 18 Dez 11