Foi uma das mais belas construções políticas da humanidade nos séculos XX e XXI. Fará, no próximo ano, setenta anos. Começaram por ser seis países, são actualmente quase trinta. Conseguiu uma rara associação entre desenvolvimento e democracia, entre liberdade e solidariedade social. Percorreu o difícil caminho que vai das identidades nacionais a um destino comunitário e mais ou menos federal. Apesar de não ter componente militar, foi argumento e exemplo de paz. Coincidiu com o mais longo período sem guerra na história da Europa. Vários foram os caminhos percorridos, de diversos modelos de associação especializada do carvão e do aço à própria NATO, do Mercado Comum à Comunidade Europeia, da EFTA à CEE. As ditaduras do Sul, Portugal, Espanha e Grécia, mal deixaram de o ser, logo quiseram integrar a Europa, abreviatura de Comunidade ou União. Mais tarde, as ditaduras comunistas do Leste, pouco depois de se livrarem do abraço soviético, russo para todos os efeitos, não esperaram muito para solicitar a adesão ou para se candidatarem. A força de atracção da União foi enorme. Nem sempre as relações entre União e nação foram fáceis, mas nunca faltou a vontade de encontrar soluções.
O mundo mudou e a Europa acompanhou. Da afirmação de dezenas de independências em todos os continentes à liquidação de restos coloniais foi um passo rápido. Da quase nova fundação da democracia em várias regiões, designadamente na América Latina, ao colapso do comunismo na Europa de Leste, foi novo processo histórico que deixou marcas no mundo. A Comunidade Europeia fortaleceu-se e consolidou-se. Transformou-se em protagonista das relações internacionais. Já não eram só os Estados nacionais, passou a haver uma nova entidade. Nem tudo foi simples, mas a Europa foi destino e sonho de povos e Estados.
A burocracia aconteceu. O demónio da uniformização instalou-se. As grandes potências americana, chinesa e russa deram-se ao trabalho de enfraquecer a Europa. A globalização, que de início parecia amiga, depressa se revelou adversária. As novas forças políticas, militares e económicas do Próximo Orienta e da Ásia, perceberam que a Europa era um bom parceiro, se tivesse pouca força. Um parque temático cultural, sem real capacidade. Os novos grandes impérios nacionais, o americano, o chinês e o russo, sem esquecer as segundas linhas da Índia e do Brasil, começaram a explorar as fraquezas da União: a sua falta de identidade nacional.
O pior estava para vir. O BREXIT, o absurdo abandono da União pela Grã-Bretanha, foi um dos piores erros e dos maiores disparates da política inglesa e europeia da nossa história moderna. As dificuldades mundiais e europeias despertaram novas forças políticas de extrema-direita e de extrema-esquerda que gradualmente se transformam em protagonistas de primeira ordem. Partidos políticos desapareceram, novos surgiram, para os quais a Europa e a União são parceiros menores. O nacionalismo surgiu com força significativa, eventualmente dominante nalguns países e com capacidade de ameaçar a União e as democracias.
É provável que a Europa tenha ido longe demais. A vontade de se sobrepor aos Estados nacionais enfraqueceu-a e debilitou-os. A ilusão da “democracia europeia” impediu gerações de ver os erros que se cometiam. A invenção de um “Parlamento Europeu” nada resolveu. Perdeu-se o equilíbrio entre os Estados e a federação, ficando esta aparentemente a ganhar. Na verdade, perderam todos. A invasão da Ucrânia foi quase um golpe de misericórdia. A Rússia prepara-se para destruir um país e liquidar um povo, ameaçando outros vizinhos, todos europeus. A guerra no Próximo Oriente e a nova política do petróleo nada trazem de bom para a Europa. Com razão, os europeus de Leste começam a recear a Rússia e a comportar-se com duplicidade.
A Europa deu-se conta de que tinha abandonado a indústria e subestimado a agricultura, ficando agora mais pobre. Antes, deslocalizavam-se indústrias festivamente, hoje fecham-se fábricas melancolicamente. A União entregou-se nas mãos russas e outras para o petróleo, o gás e minérios essenciais. Ao mesmo tempo, assistiu, impotente e frágil, à eclosão da grande crise migratória mediterrânica: milhões de muçulmanos, árabes ou não, africanos e asiáticos preparam-se para refazer vida na Europa, a qualquer preço. Sem previsão e com pouca capacidade para tratar dos novos problemas, os Estados europeus e a União deixaram-se enterrar na pior polémica imaginável, a dos preconceitos. A falta de determinação para tratar racionalmente da questão tem todos os efeitos errados: agrava os problemas e desperta a reacção nacionalista.
Para lá das suas fronteiras, nada de bom se anuncia para a Europa ou para a União. No Atlântico, a política americana de Donald Trump é um dos mais graves perigos. Ameaça alguns países. Alicia outros. Ignora quase todos. Relativiza a União. Enfraquece a NATO. Como nunca antes, a América quer mandar nos europeus, usar os países e a economia, estrangular a União e dividir a NATO, eventualmente liquidá-la.
A Sul da Europa, no Mediterrâneo e no Próximo Oriente, o trafico de emigrantes é hoje o principal factor de crise humanitária, de convulsão política e de divisão dos povos europeus. A União e os seus Estados têm-se revelado impotentes e confusos, sem saber o que querem ou o que podem, sem coragem e sem preparação. Além disso, que não é pouco, Mediterrânio e Próximo Oriente são já também enormes problemas militares e energéticos para toda a Europa.
A Leste da Europa, a invasão da Ucrânia foi a primeira demonstração. Seguiram-se as provocações permanentes nos Estados bálticos e na Polónia. Sem falar na Escandinávia, na Roménia e na Bulgária: as guerras híbridas são já realidade. Toda a Europa de Leste, assim como parte da Europa Central, começam a ser exemplos de perturbação e de inquietação.
Sem paz, sem o primado do Direito internacional, com poucos recursos próprios (militares, industriais e energéticos) e sem aliados de confiança, a Europa tem diante de si um caminho difícil de evitar: o da debilidade e da insignificância. É triste. É perigoso. É grave. Mas a Europa, a sua União, os seus Estados e as suas Nações transformam-se gradualmente em parceiros menores e factores de crise. Irrelevantes para a paz, o desenvolvimento e a democracia no mundo.
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Público, 26.9.2026
