O Presidente da República não se dirigiu ao Parlamento. Nem mensagem, nem encontro. Recebeu os partidos, o que é outra coisa. É bom que se faça. É útil o Presidente falar directamente com os partidos, mas não substitui a relação institucional entre ele e o Parlamento. Numa altura em que as realizações e a acção do Parlamento se degradam, definham ou se reduzem ao trivial, seria talvez interessante que o Presidente tomasse a iniciativa de enviar mensagens ao Parlamento, competência constitucional tão subavaliada por todos os seus antecessores. Raramente, nestes cinquenta anos, o Presidente se dirigiu ao Parlamento directamente, utilizando uma prerrogativa constitucional: sete vezes em meio século.
O Presidente da República convocou o Conselho de Estado, órgão de consulta, onde se encontram representados algumas das instituições nacionais (governo, parlamento, justiça, partidos políticos, regiões autónomas). Fez muito bem. Mas este órgão é de consulta, sem competências próprias. Sem decisões. Sem que o teor dos debates seja conhecido. É certamente uma conversa útil, mas sem influência na vida nacional. O comunicado oficial da reunião nem sequer menciona os assuntos mais difíceis, como sejam as manifestações, as cargas policiais e a questão da habitação. Como também não se sabe o que cada membro pensa ou disse: bom para o clima de confiança, mau para a opinião pública.
Os manifestantes das praças públicas de Lisboa e do Porto não se dirigiram ao Parlamento. Nem directa, nem indirectamente. Mensagem? Audiência? Manifestação? Nada. Os manifestantes não solicitaram audiência ao Presidente da AR, nem à Conferência de Líderes, nem à Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias, a mais adequada para a circunstância. Um dia, como tantos outros grupos de interesses, os manifestantes limitaram-se a exprimir-se diante do Parlamento, o que não é a mesma coisa.
O Primeiro-ministro, sentindo que está também a perder o pé, porque a razão já a tinha perdido, decidiu falar com os partidos. Muito bem. Que fez ele? Foi ao Parlamento? Escreveu mensagem ao Parlamento? Pediu uma reunião parlamentar e um debate especial? Nada. Nadinha! Convocou os dois maiores partidos, PS e Chega, para uma reunião com ele, como se fossem sindicatos ou associações de empresas. E eles foram. Embora em reuniões separadas, estavam ali, em representação, 77% dos votos e 209 deputados de um total de 230. Foram simplesmente excluídos os pequenos partidos, a quem terão sido destinados ministros. Mas, na verdade, o mais importante não reside aí, mas sim no facto de o Parlamento, como instituição, ter sido excluído! Pura e simplesmente. Alguns partidos parlamentares vão falar com o Primeiro Ministro, o Primeiro ministro não vai falar com o Parlamento. Os partidos são recebidos pelo Primeiro ministro numa sala de reuniões do governo, não no hemiciclo, à vista de toda a gente, nem sequer em salas recatadas do Parlamento adequadas mais a reuniões de trabalho e menos a espectáculos e encenações.
O Primeiro ministro, após noite difícil de manifestação e de rumor nacional condenatório das cargas policiais, decide tomar a iniciativa, apresentar-se e correr riscos. O que faz? Vai ao Parlamento? Nada. Nem pensar nisso. Vai às televisões, às 20.00 horas, tempo de telejornais. Os canais de televisão perfilam-se. Tal como nos tempos do Estado Novo (mas só havia um canal…) ou da revolução (também só havia um…), o Primeiro ministro perfila-se diante dos portugueses, isto é, diante das camaras de televisão. Ao todo, às 20.00, podiam contar-se 8 (oito) canais de televisão com o mesmo plano, o do Primeiro Ministro rodeado de bandeiras de Portugal e da Europa. Vimos e ouvimos uma monumental campanha de propaganda durante vinte e sete minutos, em monólogo de púlpito. Prometeu mundos e fundos e dispôs-se a discutir com os dois maiores partidos nos seus aposentos (não no Parlamento). Criticou os governos anteriores, pois claro, na mais medíocre escapatória dos maus governantes portugueses que há dezenas de anos, sem distinção de partido ou credo, fazem a mesma coisa. Garantiu que Portugal nunca esteve tão bem como agora. Prometeu que os portugueses ainda ficariam melhor com as medidas que o governo vai tomar e já prepara. Banalidades no estado puro. Demagogia na perfeição.
As quezílias entre partidos e grupos parlamentares impedem uma qualquer acção importante da instituição relativamente aos problemas graves do momento, seja a questão das manifestações na praça pública, sejam a interpretação dos direitos de manifestação e as cargas policiais. Ou ainda as questões fundamentais de habitação, juventude, emprego jovem e acesso à universidade. Assim é que o próprio parlamento se limita à sua função de arena, útil, mas insuficiente, desvalorizando a sua função soberana. Tem-se a impressão de que só existem partidos e grupos partidários, isto é, que não existe o Parlamento.
Pode parecer uma questão pelo menos bizantina. Mas não é. As instituições só ganham força própria se ficarem independentes das parcelas que as integram. Um parlamento é mais do que a soma dos grupos parlamentares e dos partidos. Mudam os votos, os deputados e os partidos, mas o parlamento fica. Podem até mudar a cor política e a doutrina maioritária, mas a instituição mantém-se. Quando há força eleitoral, o seu regimento pode mudar, de acordo com a vontade da maioria, mas segundo regras institucionais estabelecidas. A instituição não é totalmente independente do soberano, das maiorias apuradas e da vontade expressa pelos representantes legítimos dos cidadãos, mas exige regras e comportamentos que lhe dão força e autonomia. Sem alteração prévia da Constituição, as competências, os poderes e as funções do parlamento sobrepõem-se à vontade conjuntural de um governo ou mesmo de uma maioria de partidos. É isso que faz uma instituição. É como instituição que o parlamento deve ser considerado. É por isso que a Assembleia da República representa todos os portugueses, não apenas os que votaram.
Do modo como está a ser tratado, o parlamento português é mais uma associação de partidos do que uma instituição.
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