Os últimos dias foram de antologia. O Presidente da República saudou os partidos disponíveis para algum entendimento. Os partidos aplaudiram. O governo anunciou a entrega do seu orçamento. Mesmo sem ler, o PS declarou a sua disponibilidade para, com uma abstenção colaborante, deixar passar o orçamento. Quase sugeriu que a via ficava aberta a outras negociações. O Chega declarou que ia ler o orçamento e depois tomaria uma decisão, não deixando de aludir à sua abstenção cúmplice na lei do arrendamento uns dias antes. O Chega esperava que a negociação possível excluísse o PS. O PS gostaria que, depois do orçamento, o governo deixasse o Chega sozinho. O governo saiu da toca e alertou: estava preparado para negociar, ora com um, ora com outro, um dia o PS outro dia o Chega. Sem mudança de rumo: o PSD continuaria a governar sozinho. Os apelos do Presidente da República tiveram como resposta a negativa do governo. A esperança de ver um princípio de entendimento que desse consistência ao governo morreu na praia.
A música não é desconhecida. É a mais permanente na vida política portuguesa. Curiosamente, não parece que se trate apenas de caprichos da classe política, de propensão dos políticos para a intriga e da vontade de todos de apenas pensarem nos seus partidos. Se olharmos para as últimas décadas, veremos que quase todas as tentativas de criar consensos ou “blocos” e de fazer alianças duráveis com poder efectivo foram rapidamente afastadas. O Bloco Central de Mário Soares e Mota Pinto faz figura de excepção. O resto da nossa vida política e parlamentar foi dominado pelo zelo egocêntrico e pelo isolacionismo dos partidos. Inventou-se o governo minoritário, retocou-se a Constituição a fim de permitir governos sem maioria, criou-se a “moção de censura construtiva” a fim de proteger os minoritários. Idealizaram-se práticas de vizinhança cúmplice e de oposição afável a governos minoritários. Criou-se mesmo uma famigerada “geringonça” através da qual se protegia um governo minoritário, com poderes reduzidos, assim como se dava alguns meios de afirmação aos partidos que estavam ao mesmo tempo na situação e na oposição. Estes últimos transformavam-se em cúmplices irresponsáveis com elevada capacidade de chantagem. Deu tudo mau resultado.
A demonstração, por difícil, não está feita, mas é realmente possível que estas aventuras por terras de minorias e intrigas sejam parcialmente responsáveis por atrasos na vida social e económica portuguesa, assim como por adiamentos nas reformas dos serviços públicos e da Administração. Perdeu-se tempo e vigor. Desperdiçaram-se oportunidades. Não se encontrou o sentido da responsabilidade. Não se aproveitou a possibilidade de dar um papel significativo ao Parlamento, sem necessariamente diminuir o Governo e o Presidente da República. Mas tivemos orgulhosamente mais de quarenta ministros da Educação!
Será que se trata de vícios dos políticos? De defeitos dos partidos? De doença incurável da democracia portuguesa? Ou será que não existe nenhuma vontade da população, dos cidadãos, de encontrar soluções negociadas, dialogadas, mais ou menos equilibradas e pacíficas? Será que, nos portugueses, radica mesmo um sentimento arruaceiro e intriguista que prefere sempre o desconcertante, o erro e a falta de preparação? Há poucos estudos sobre este tema, o das preferências dos portugueses relativamente a estilos de governo. Mas tem-se a impressão de que existe uma inclinação marcada pelo imprevisto, pelos golpes e pela intriga. É sabido, por exemplo, através de sondagens feitas ao longo dos anos, que uma relativa maioria de portugueses desconfia ou receia a maioria absoluta. As experiências recentes, uma do PSD (com Cavaco Silva) e duas do PS (uma com Sócrates e outra com Costa), não foram suficientes para enraizar uma clara estima pela maioria parlamentar. Mas vale a pena continuar o combate. Aprender a viver com maioria parlamentar e com governos de legislatura só nos faria bem.
Na verdade, a reforma política com mais efeitos benéficos, imediatos e visíveis, a curto prazo, é certamente a que consiste na obrigatoriedade de aprovação parlamentar de governos e programas. A nomeação do Primeiro Ministro, pelo Presidente da República, seria precedida ou confirmada (opções a discutir) pelo Parlamento por maioria absoluta. O governo deveria apresentar-se no Parlamento, mas seria obrigatório o voto de aprovação positiva (não contando as abstenções) do governo e do seu programa. Só então, escorado na nomeação pelo Presidente e na maioria parlamentar, um governo poderia começar a trabalhar. É bom recordar a muita gente que não sabe: um governo pode tomar posse, governar e orientar a vida pública sem nunca ter sido aprovado pelo Parlamento.
Uma das características mais evidentes do sistema de governo português, assim como das respectivas práticas parlamentares, é o grau de agressividade verbal. De permanentes insultos. De desconfiança e acusação. De duplos sentidos e de insinuações. Tudo sempre com berraria, esgares violentos, expressões desequilibradas e réplicas mal-educadas. Vejam-se os Parlamentos dos países democráticos através do mundo. Raros são tão crispados e violentos como o português. Parece que em Itália, de vez em quando, se chegou a vias de facto. Tal como na Coreia do Sul onde era habitual, há poucos anos, discutir no meio de luta corpo-a-corpo. Possível. Mas raramente se encontra a constante algazarra agressiva dos nossos deputados. Há dias, no Parlamento francês, discutia-se as “manifes” e os estudantes: apesar da gravidade da situação, todos, governantes e oposição usavam de tom civilizado e racional. Há poucos meses, em Washington, discutia-se no Congresso a guerra do Próximo Oriente: com ar grave, mas em tom sério. Até em Espanha, aquando dos acontecimentos de Ceuta, os debates revelavam civilidade. Por cá, é o que se sabe. Evidentemente, a seriedade e a boa educação nos debates não têm relações directas com as maiorias parlamentares e os governos de minoria. Mas traduzem a insegurança e a falta de crença nos mecanismos parlamentares. E são o reflexo desta realidade que é a de um Parlamento e de uma democracia frágeis, sempre à espera de intrigas e à procura de golpes de malandrice. Ou antes: de um Parlamento que é sobretudo uma oficina de produções televisivas. Ou de matéria-prima para os comentadores dos telejornais.
Público, 10.10.2026
