Depósito
de carros eléctricos na Margem Sul, Almada – Era assim, na Outra Banda, há trinta anos! A estes maravilhosos
carros, de Lisboa, não sei o que lhes aconteceu. Recuperados noutros países
foram uns tantos. Recordo-me de ter pensado, na altura, que cada carro destes,
à espera de destruição e vandalismo, poderia ser restaurado e vendido a cidades
e museus que não desprezam os carros eléctricos. Naqueles tempos, Lisboa
parecia apostada em destruir os carris e as viaturas o mais depressa possível.
Foi o que fez. Era a modernização! Nesses mesmos anos, pela Europa fora,
faziam-se esforços para recuperar linhas similares, em França, na Alemanha, na
Suíça… Depois disso, alguma sensatez se desenvolveu nas cabeças dos nossos
vereadores, secretários de Estado e Ministros: nem todas as linhas foram
destruídas! A carreira do 28 é quase monumento nacional. Experiência a não
perder. Há dias, recomeçou a carreira do 24, só em parte, mas já está aí,
carregadinha de passageiros e de bem-estar!
DN, 6 de Maio de 2018
domingo, 6 de maio de 2018
domingo, 29 de abril de 2018
Sem emenda - Tentar perceber a saúde
Na União Europeia, Portugal é o
quinto país, à frente de vinte, com mais médicos por habitante! Muito acima da média!
Quase o dobro do Reino Unido e do seu National Health Service!
Na UE e na OCDE, é o quarto país com
menos habitantes por profissional de saúde, melhor do que a média! Na União
Europeia, Portugal é o país com mais médicos de família por habitante. Mas é
verdade que também é um dos países com menos enfermeiros por habitante.
Na Europa, Portugal é um dos
países com menos camas hospitalares por habitante, está em sétimo lugar. Mas,
abaixo, estão por exemplo a Dinamarca, a Espanha e o Reino Unido!
Os vencimentos dos médicos estão,
em termos absolutos, entre os mais baixos da Europa. Em paridade de poder de
compra, estão na primeira metade, acima da média. Como parte do PIB, o total
dos vencimentos dos médicos está entre os mais elevados da OCDE. Isto é, os
médicos têm uma das maiores fatias do PIB. Ganham pouco, mas o PIB é muito
pequeno.
Em despesa pública e privada com
a saúde, por habitante, Portugal fica ligeiramente abaixo da média, atrás de
catorze países e à frente de onze. Mas, em percentagem do PIB, fica em sétimo
lugar, acima da média e à frente de mais vinte.
Com todos estes dados, é difícil
perceber por que razão há “falta de médicos” e filas de espera para consultas e
cirurgias.
As organizações mais credíveis
(UE, OCDE, OMS, INE) surpreendem-nos com observações favoráveis e elogiosas,
mas os partidos denunciam um verdadeiro inferno e os utentes queixam-se. A
esquerda diz que a direita “destruiu” o SNS. A direita garante que a esquerda
nada fez de jeito em três anos.
Pelas más razões, a saúde está de
novo no centro do debate político e das tensões sociais. O tempo e as filas de
espera aumentam. Os custos sobem, os preços também. O orçamento não chega. O
défice cresce. Há luta de classes no sector.
Tudo leva a crer que a saúde
esteja em crise. Não se conhecem bem as causas, mas parece que tem havido menos
investimento. Só que não se sabe se isso é realmente importante. A diminuição
de investimento não parece ter sido assim tão grande. E convém não esquecer que
a saúde é há muito considerado o sector de actividade onde há mais desperdício
e pior gestão.
O debate político sobre a saúde e
o Serviço Nacional de Saúde está a ficar insalubre. Com a aproximação de mais
um orçamento, do ano eleitoral e da revisão das alianças, os nervos estão
tensos. Os ânimos ficam exaltados e a reflexão simples.
Esquerda e direita pensam menos.
A primeira é totalmente a favor do Estado e contra os privados. A segunda é o
contrário. O que não parece ajudar muito. Este clima não é propício ao rigor
dos factos e do diagnóstico. Concretamente, não se sabe por que razões o país
tem tão bons indicadores quantitativos (médicos, hospitais, camas, equipamentos,
consultas, urgências), alguns muito bons resultados (esperança de vida,
mortalidade infantil, vacinações) e tão maus índices de qualidade (espera,
acidentes, desigualdades, preços dos medicamentos, horrendas condições de
espera e atendimento nos serviços públicos).
Será que um dia, como já
aconteceu duas ou três vezes desde 1974, poderemos voltar a tratar da saúde sem
fanatismo político? Será que se poderá olhar a sério para a organização dos
hospitais? Para a exigência de condições decentes de atendimento? Para as horas
de serviço dos médicos e dos enfermeiros? Para a necessidade de estabelecer a
exclusividade de funções? Para os efeitos nefastos da acumulação de funções
públicas e privadas de tantos profissionais? Para a inflação de custos de
medicamentos e equipamentos? Para a diminuta prestação de cuidados continuados
e paliativos e de cuidados aos idosos e doentes no domicílio? Para o facto de
os blocos operatórios funcionarem poucas horas por dia, muito abaixo dos
padrões de segurança e eficiência?
Sem a estupidez do fanatismo
político, a saúde e o Serviço Nacional de Saúde poderiam ser a mais formidável
realização da democracia portuguesa.
DN, 29 de Abril de
2018
Sem Emenda - As Minhas Fotografias
Almoço em Alfama, com
sardinha e turista – Na Casbah lisboeta, ali para os lados
de Santo Estêvão, duas senhoras, certamente turistas, mostram ao que vieram.
Uma faz contas à vida, depois das sardinhas e da mousse de chocolate. Outra,
com parceiro, preparara-se para atacar uma dúzia de sardinhas, o que revela
fome e um estômago de respeito! O turismo já mudou as grandes cidades. Agora, a
respectiva temporada é quase o ano todo. Há vinte anos, era no Algarve. Há dez,
em Lisboa e no Porto, uma novidade. Há cinco, uma alegria. Hoje, já começa a
ser motivo de insatisfação: tuk-tuk, enchentes, barulho, carteiristas, preços
dos restaurantes, alojamentos, rendas de casa, despejos de inquilinos antigos…
É o costume: há sempre alguém que aproveita, há sempre alguém a rosnar!
DN, 29 de Abril de 2018
domingo, 22 de abril de 2018
Sem emenda - Dois casos
Parece que nada liga um caso ao
outro, o interrogatório de José Sócrates e os pagamentos em duplicado de
viagens aos deputados insulares. Mas há uma linha indelével: a da facilidade
com que se abusa da debilidade institucional.
O caso dos bilhetes dos deputados
seria risível, não fosse o tom agressivo utilizado pelos que se aproveitaram.
Em vez de se defenderem e de rectificarem, passaram ao ataque com a habitual
grandiloquência: é legal, legítimo, eticamente irrepreensível e “tenho a
consciência tranquila”! O problema é mesmo esse, terem a consciência tranquila!
Podiam ao menos dizer que iriam
ver o que se passava. Que talvez houvesse um aspecto das leis a clarificar. Que
a solução adoptada tinha defeitos e seria corrigida. Qualquer coisa… Qualquer
coisa que não fosse defender a matilha e garantir que tudo era legal e
eticamente a toda a prova… e que só os inimigos da democracia se lembrariam de
pôr em causa políticos tão nobres e deputados tão impolutos…
Legal? Não se sabe bem. Legítimo?
Não era. Moral? Nem pensar. Tudo grita que ensurdece, tudo brilha que cega: o
sistema era falível, o pagamento era duplo, o reembolso não era devido, quase
todos se calaram com boa ou má-fé… E não percebem o mal que fizeram. E não
entenderam que a democracia estava a perder. E não lhes ocorre pensar um
segundo que talvez não sejam imaculados e que a ética republicana, assim
interpretada, é a da feira da ladra! E as instituições, fracas e capturadas
pelos partidos, não parecem capazes de reagir e de rapidamente sanar a
situação, a fim de evitar sequelas.
O segundo caso, o da divulgação
em canais de televisão do interrogatório de José Sócrates, brada aos céus. Outros,
incluindo os banqueiros arguidos, já por ali tinham passado. E também aqui não
se viu, até agora, uma reacção institucional que traga decência e civilidade à
justiça.
Mesmo em democracia, um
interrogatório feito pela polícia é sempre um momento de debilidade pessoal.
Seja ou não bandido ou aldrabão, tenha ou não um currículo violento, possua ou
não músculos ou capital, partilhe ou não ferocidade com animais selvagens, um
arguido ou um suspeito está sempre, durante o interrogatório, em situação de
inferioridade, facilmente amedrontado, quase sempre em fragilidade psicológica.
Mesmo quando reage com fúria destemperada, como foi o caso, o arguido está
assustado e luta pela vida. Em pleno interrogatório, sobretudo se tem algo a
esconder, se há culpa, se procura defender-se, qualquer pessoa, mesmo valente
ou violenta, merece, porque é uma pessoa humana, um pouco de respeito. Uma justiça
decente tem em consideração a humanidade das pessoas e dos processos. O que
estão a fazer com José Sócrates é imperdoável. Como foi com os banqueiros e
outros. A falta de respeito pelo arguido não é apenas isso: é sobretudo falta
de respeito pelos cidadãos, por nós todos.
Não é o interrogatório que está
em causa. A gravidade reside na sua divulgação, na exploração dos sentimentos
dos mirones sem mais que fazer do que espiolhar a vida e o sofrimento dos
outros. Um ou dois canais de televisão divulgaram longos pedaços daquele
nauseabundo processo. Ninguém lhes foi às mãos, nem a justiça, nem as
instituições que devem zelar pela qualidade do espaço público.
Não se trata de liberdade de
expressão, nem de justiça democrática. Nem uma nem outra devem recorrer à
indecência. A Justiça deve ser para todos, incluindo acusados, arguidos,
culpados e prevaricadores. O Direito é para todos, incluindo ladrões e criminosos.
Os direitos fundamentais são para todos, incluindo os transgressores. Como a
democracia é para todos, incluindo os não democratas.
Três instituições essenciais, o
Parlamento, a Justiça e a informação, foram postas em causa. Os responsáveis
pela divulgação desta grosseria não se dão conta do mal que fazem. Não se importam,
nem percebem os danos que causam às liberdades e ao seu país.
DN, 22 de Abril de
2018
Sem Emenda - As Minhas Fotografias
Estação Oriente,
Lisboa – Bela estação esta desenhada pelo arquitecto espanhol Santiago
Calatrava. Inaugurada em 1998, tem o nome mais fino de Gare do Oriente. Vista
de longe, impressiona. No interior, há planos de elevada fotogenia e podem
fazer-se imagens graficamente muito interessantes. É esteticamente uma bela
obra. Mas não há bela sem… Os serviços prestados deixam a desejar. O conceito
centro comercial é pindérico. O circuito dos passageiros é difícil. Quando chove
ou faz vento, a Gare é desconfortável. É este um ponto alto da renovação do
caminho-de-ferro português que se arrasta. Apesar do aumento de passageiros em
algumas linhas, a renovação tarda. As linhas estão velhas e tremem. As
carruagens estão nas últimas e trepidam. As casas de banho dos Alfas são um
monumento definitivo à imundície e ao design absurdo que faz objectos
impraticáveis. É de qualquer modo garantido: melhor do que o comboio, não há.
DN, 22 de Abril de 2018
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