domingo, 17 de junho de 2018

Sem Emenda - As Minhas Fotografias

Turistas em fila de espera, Martim Moniz, Lisboa – Foi há pouco tempo, três anos, e era assim. Os eléctricos, designadamente o 28, estavam em ascensão. O turismo também. Muitos “amarelos” estavam já destruídos, abandonados, vendidos… Mas ainda sobravam os suficientes para a ressurreição. Hoje, não há eléctrico que não esteja sempre esgotado, cheio, à cunha. E muita fila de espera. Em Portugal (e noutros países imprevidentes, deve dizer-se…) é sempre assim: algo com êxito? Fila de espera. Uma coisa interessante? Fila de espera. Cuidado de saúde, segurança social, um procedimento administrativo, uma certidão? Fila de espera. O problema é que as filas de espera para a Arena e o Rock in Rio, por exemplo, são facultativas e dependem da escolha de cada um. Enquanto as filas de espera para os transportes públicos, a Segurança Social e o Centro de Saúde são necessidades, frequentemente urgências e muitas vezes desespero.

DN de 17 Jun 18

domingo, 10 de junho de 2018

Sem Emenda - As Minhas Fotografias

Costureiro de homens em Savile Row – Não! Não se trata de efeitos das transformações culturais e de costumes decorrentes da alteração das relações entre géneros… Pelo contrário, este senhor alfaiate e costureiro de roupa para homens é representante de uma velha dinastia ou cadeia de alfaiates homens para homens. Fica numa rua famosa, Savile Row, em Mayfair, Londres. São dezenas os alfaiates que ainda lá trabalham e produzem ou reparam fatos e camisas de excepcional qualidade e também de excepcionais preços… Nesta rua, tinha a sua sede, há muito, a Royal Geographic Society, onde os nossos exploradores de África do século XIX, Serpa Pinto e Hermenegildo Capelo, iam preparar as suas expedições e encontrar os seus colegas locais. Segundo Júlio Verne, o senhor Phileas Fogg, o da “Volta ao mundo em oitenta dias”, vivia aqui. Foi também aqui que os Beatles deram, no telhado de um prédio, o seu último concerto, interrompido pela polícia que o mandou terminar por “excesso de ruído”...

DN, 10 de Junho de 2018

Sem emenda - Mistérios por desvendar

Hoje é Dia de Portugal! Dia das Comunidades! Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas! Dia da Raça! Dia da Raça portuguesa! Dia de Camões! Cada designação vale um regime, um tempo e uma moda. Uma boa maneira de comemorar o país seria conhecer melhor e estudar mais. E desvendar mistérios.
Onde estão realmente as fontes da profunda desigualdade social em Portugal? Na lei? Na propriedade? Nos sistemas de sucessão e herança? No fisco? Nos costumes? Na religião? Na falta de liberdade? No analfabetismo? Na pobreza? Por que razões Portugal é mais desigual do que países com menos rendimento (Polónia, Roménia), parecidos (Grécia e República Checa) e com mais rendimentos (Reino Unido, França)?
Por que razões a mobilidade social é tão reduzida em Portugal? Por que é tão difícil “subir na vida”? Por que motivos o crescimento do produto, tão impressionante nos últimos quarenta anos, teve tão pouca influência na diminuição dos graus de desigualdade?
Por que motivos teve Portugal taxas de analfabetismo únicas na Europa em 1900 (80%, contra 2% a 10% nos países do Norte) e até aos anos 1960 (mais de 35%)? E ainda está hoje em último lugar entre todos os países industrializados? Onde estão as causas? Pobreza? Catolicismo? Ausência de Reforma? Atraso geral? Ignorância das elites? Ruralidade? Falta de indústria? Fraqueza da sociedade civil? Centralismo do Estado?
Como se explica o facto de a Justiça em Portugal não se ter reformado nem modernizado depois do 25 de Abril? E por que razão foi tão difícil ou impossível a Justiça adaptar-se à democracia, ao Estado de Direito, à integração europeia, ao capitalismo e à economia de mercado?
Quem são hoje os militares em Portugal? Que influência têm na sociedade e na política? Que pensam dos assuntos públicos? Exercem cargos ou funções de poder? Serão simples burocratas ou funcionários públicos? São meros contratados? Há que recear alguma intervenção política dos militares nos próximos anos? Ou há que desejar uma sua intervenção?
Como se explica o facto de não haver liberalismo em Portugal? Nem liberais? Nem partidos liberais? E o facto de “liberal” ser mesmo um insulto político?
Por que nunca se contou, com investigação rigorosa e completa, a história das reprivatizações em Portugal, com passagens de pessoal dos partidos para as empresas e vice-versa, com homens de palha e testas de ferro  dos partidos que eram mandatários de capitalistas, com “barrigas de aluguer” da política portuguesa que serviam de intermediários de aventureiros que não podiam concorrer directamente? Por que ainda não se fez um verdadeiro “Gotha” dos governantes, deputados e gestores que fizeram carreira na política, nos partidos, nas empresas públicas e depois, alternada ou sucessivamente, nas empresas privadas que eles próprios reprivatizaram?
Por que não se sabe realmente o que se passou com as escutas telefónicas (relativas a Sócrates) mandadas destruir por Noronha do Nascimento e Pinto Monteiro? Quem ficou a ganhar com tal destruição? Se não tinham importância, por que foram destruídas? Se eram muito importantes, por que se destruíram? Por que se diz hoje com tanta insistência que, afinal, não foram destruídas?
Quem foram os responsáveis pela quase destruição do BCP, da PT, da CIMPOR, do BPN, do BPP, do BANIF?
Como foi realmente possível fazer um buraco de mais de 5 mil milhões no BPN? Onde está esse dinheiro? Como foi possível fazer um buraco de mais de 9 mil milhões no Grupo Espírito Santo? Onde está esse dinheiro? Como foi possível que, já depois da “resolução”, ainda tivessem fugido do BES mais de três mil milhões de euros?
Quanto é que a CGD gastou, empatou e perdeu em negócios estranhos levados a cabo por decisão política, designadamente no BCP, no BES, no GES, no BPN, no BPP e na PT?
Por que nunca se fez um “atlas” ou um elenco completo de todas as Parcerias Público Privadas, uma a uma, com indicação dos beneficiários, dos bancos envolvidos, dos sobrecustos suportados pelo Estado, dos riscos atribuídos sempre ao Estado e dos benefícios sempre concedidos às das empresas privadas?


DN, 10 de Junho de 2018

domingo, 3 de junho de 2018

Sem emenda - Dados e cidadãos

O debate público sobre a protecção de dados prossegue. Os mails cruzados a este propósito, diariamente, por pessoas e organizações, são às dezenas e às centenas. Todos tentam proteger-se ou adoptar os novos procedimentos legais. A pressão vinha de trás, a União Europeia ocupava-se do assunto há muito, mas as aldrabices do Facebook e as intrusões russas e americanas aceleraram tudo. Ficámos com receio legítimo dessas poderosas máquinas, das multinacionais maléficas e do capitalismo internacional. Assim como de todos os serviços de espionagem e similares, americanos, pois claro, ingleses, os mais inteligentes, israelitas, os mais eficientes, russos, os mais selvagens, chineses, os mais não se sabe bem o quê. Verdade é que a desconfiança aumenta. Com a ideia de que estamos a proteger os dados, corre-se o risco de passar ao lado do essencial. Na verdade, aquilo de que deveria tratar-se era de proteger os cidadãos. Evidentemente, uma coisa leva à outra e vice-versa. Mas é mais interessante colocar a tónica no cidadão. É por ele que se devem proteger os dados. Não o contrário.
As dívidas dos ricos à banca, designadamente à Caixa Geral de Depósitos, estão também no centro dos debates. As razões são especiais, mas estamos novamente no domínio da protecção de dados e de cidadãos. Como se trata de ricos, ninguém parece incomodar-se muito. Mas estamos a entrar em zonas perigosas. É difícil perceber por que razão é moralmente aceitável publicitar as dívidas dos ricos e não as de toda a gente. Ou por que será razoável divulgar qualquer dívida que seja. Como, além de ricos, estão em causa alguns aldrabões, não só ninguém se importa, como é crescente o número dos que aplaudem. Mas o certo é que os aldrabões também são cidadãos. O tema é mesmo muito sério.
Outro assunto que diz respeito ao cidadão e aos dados e vem mesmo a propósito é o das facilidades que o Multibanco e os terminais do comércio de retalho oferecem à devassa. E quem sabe se ao roubo e à chantagem. Esta semana, num restaurante, um indivíduo entregou o seu cartão para pagamento da factura que lhe foi apresentada. O mesmo aconteceu a uma senhora, sem relações com o anterior, que ia pagar o que comprou numa loja do centro comercial. Em ambos os casos, as pessoas em questão não sabiam se tinham dinheiro que chegasse. Para evitar vergonhas, disseram qualquer coisa como “Não sei se há saldo disponível. Se não houver, diga-me para eu mudar de cartão. Ou pagar em notas”. Solícitos, os empregados disseram mais ou menos o mesmo: “Mas olhe que eu posso ver o saldo”. Os clientes ficaram surpreendidos e acederam. Depois de digitar o PIN, como se fosse para pagar normalmente, os empregados mostram, a um, o saldo que tem no banco (não apenas dos movimentos do Multibanco, mas sim em toda a conta bancária); à outra, oferecem-lhe uma longa tira de papel impressa na qual estão enumerados, com nomes e montantes, todas as receitas e despesas na sua conta, incluindo renda de casa, serviços domésticos, débitos directos, levantamentos, vencimento, prestações, aforros, etc. Não é possível imaginar maior devassa!
Dá para pensar no que acontece ou pode acontecer cada vez que num comércio o funcionário diz, com ar desolado, “Pode por favor digitar outra vez o seu PIN? É que houve uma anomalia…”. Com que direito, com que autorização, um serviço fornece os dados pessoais de uma conta bancária? Compreender-se-ia, provavelmente, que esses serviços dissessem ao comerciante que aquele cliente, naquele momento, tinha saldo para cobrir aquela quantia. Mas desvendar os movimentos, os saldos, as entidades que pagaram ou receberam, com datas e montantes, tanto do serviço de Multibanco como da conta bancária… Não lembra ao diabo!
Os bancos sabem o que se passa? Como se defendem? As autoridades reguladoras e outras conhecem estes mecanismos? E permitem? A Comissão Nacional de Protecção de Dados está ao corrente desta situação? Fez alguma coisa? A União Europeia e o BCE sabem e permitem? Nos outros países europeus também é assim? Os nossos governantes e os deputados sabem disto? E aceitam? E não se importam?

DN, 3 de Junho de 2018

Sem Emenda - As Minhas Fotografias

Os contentores e a cidade, Lisboa – Poucas pessoas se passeiam hoje pelo rio Tejo. Se o fizessem, é o que veriam em vários pontos da cidade e dos cais. É o que vêem os passageiros dos cruzeiros e os que atravessam o rio, todos os dias, para trabalhar. A imagem é curiosa, presta-se a exercícios fotográficos. Mas não se pode dizer que seja o mais belo ponto de vista urbano que se imagina. Os contentores prolongam-se na cidade, o casario mergulha nos contentores. Seria preferível vermos Lisboa ribeirinha asseada, de bairros e colinas, de árvores e parques, de avenidas e pérgulas. Também ficaríamos felizes se, em vez de contentores, que deveriam estar em Sines, tivéssemos a alegria de ver grandes planos bem abertos do novo terminal de cruzeiros, de Carrillho da Graça, da nova torre de controlo, de Gonçalo Byrne, ou ainda o MAAT, de Amanda Levete e a Fundação Champalimaud, de Charles Correa. Para já não falar da Torre de Belém, de Francisco Arruda! Mas enfim… Tejo é Tejo e Lisboa é Lisboa!
DN, 3 de Junho de 2018

domingo, 27 de maio de 2018

Sem emenda - O Socialismo português

O socialismo português é coisa que não existe. E ainda bem. Se existisse, seria qualquer coisa má, como o soviético, ou risível, como o venezuelano. Existem, isso sim, socialistas. E um partido que faz anos, 45, dirige o actual governo e está em congresso. Já se sabe que só vai discutir o futuro, não o que está para trás. Não se vai falar de Sócrates, muito menos do seu governo, que nunca existiram. Não se vai debater a corrupção, obra da direita ou de gente que não existiu. Vai falar-se de grandes problemas, de questões de estratégia a longo prazo e do futuro, entidades com as quais se reduz qualquer congresso à insignificância litúrgica. As tentativas (e vai haver algumas) de debater problemas reais produzirão efeitos às duas da manhã numa sala vazia. Mais uma vez se verá como a separação entre eleição e debate foi, para a maior parte dos partidos, solução para esvaziar os congressos e entronizar a demagogia.
No século passado, houve quem julgasse que existia um socialismo português. Uns tantos militantes, alguns militares e pouco mais. Foi-se aprendendo que o melhor socialismo era o adjectivo, não o substantivo. Este é um despotismo, aquele é uma inspiração. Curiosamente, com as crises na globalização, no euro e na União, o substantivo voltou a estimular alguns espíritos. Isso também aconteceu no PS, por causa dos aliados de esquerda que tão bem fizeram ao PS e que tão mal se preparam para lhe fazer. Só que já se percebeu que o debate sobre o socialismo em Portugal é conversa para entreter congressistas.
De qualquer modo, é verdade que o PS está num momento excepcional da sua vida. O PS vai refazer a sua identidade e definir o seu papel na sociedade. Na verdade, hoje, o PS existe por um acaso estatístico e um golpe de sorte irrepetível. Não fora o período de austeridade, talvez o PS não fosse hoje mais do que uma colecção de cromos. Aqueles quatro anos criaram um descontentamento de que o PS teve a sorte de beneficiar.
O que será, então, o PS do futuro? Para que servirá? Como resistente ao fascismo, trave mestra do pensamento da esquerda, já fez o que pôde, mas nem sequer foi o principal. Já a resistência ao comunismo fez a sua glória, em Portugal e na Europa, foram os anos de ouro. É a sua principal identidade histórica, mas não haverá, felizmente, segunda oportunidade. Fundador da democracia, com certeza, mas não foi o único. Responsável pela integração europeia, sem qualquer dúvida, mas não esteve sozinho. Foi co-autor do Serviço Nacional de Saúde, teve o talento de ter feito a primeira lei, mas o desenvolvimento foi obra de vários. Na criação de riqueza, a sua autoria é quase nula. Já no endividamento, a sua responsabilidade é maior. Reformas da educação e da segurança social: para o bem e o mal, andou por lá, sem originalidade, foram muitos os autores. Na justiça, o seu envolvimento foi profundo, mas inútil, quem sabe se nefasto. No combate à desigualdade, na descentralização, nas autonomias regionais, nas privatizações, nas revisões da Constituição, no euro, nas auto-estradas e nas parceiras público privadas, o PS esteve em todas, no melhor e no pior, no activismo e na inutilidade, com outros, sem marcas especiais nem currículo digno desse nome.
As promessas que o PS vai deixar no fim deste congresso são conhecidas e pertencem à galeria dos lugares comuns imortais. Igualdade social, de géneros, de etnias e de origens! Segurança! Descentralização! A cultura! O mar! Estamos conversados. Onde o esclarecimento falta é naquela que poderia ser a mais profunda marca do PS nas próximas décadas: a luta contra a corrupção! Contra os negócios de Estado, os favores e o nepotismo. Contra as cunhas e a promiscuidade. Contra a ocupação partidária do Estado. Contra a dependência dos plutocratas e dos sindicatos.
Com o seu currículo recente, é difícil imaginar um PS capaz de corrigir as causas da corrupção e de barrar os caminhos que a ela conduzem. Mais uma razão para fazer desse desígnio o mais importante do seu futuro próximo. Com liberdade e justiça, é aquilo de que Portugal mais precisa.

DN, 27 de Maio de 2018