As tempestades perfeitas são aquelas em que um conjunto de factores negativos e de circunstâncias desfavoráveis se transforma, por uma qualquer razão, em acidente ou desastre de enormes proporções, com implicações naturais, humanas e sociais de toda a ordem, com efeitos mortais e imensa ruína. A “perfeição” da tempestade reside na conjugação de factores de vária ordem e de diversa natureza. Assim como na sua concretização em simultâneo e na destruição causada às pessoas, às coisas e aos bens. Por comparação, as tempestades imperfeitas ficariam aquém na destruição e nos efeitos letais, mas partilham a mesma ideia de conjugação de circunstâncias e de factores de vária natureza. Por analogia, aplica-se o termo a outras situações, designadamente políticas, com características semelhantes: a conjugação de várias circunstâncias provoca desastres e acidentes.
Perfeitas ou imperfeitas, as grandes tempestades políticas e sociais têm sempre muito de comum, de geral e de local, de universal e de autónomo. Também têm muito de estrutural, assim como bastante de circunstancial e temporário. A junção de todos estes elementos é mortal. Seja para quem for. Até para a democracia e as liberdades. A coincidência de alguns destes elementos ou factores pode provocar crises terríveis, desiguais e assimétricas. É possível que não haja ligação ou nexo entre as reais ameaças antidemocráticas dos Estados Unidos, do Brasil e de França e as crises da habitação na Europa. É provável que nada de comum exista entre a agressão russa à Ucrânia, o massacre de Gaza e o aumento do custo de vida. Como é talvez crível que não haja relações directas entre a crise do Estreito de Ormuz, a ocupação de Ceuta e as crises nas escolas secundárias e universitárias de Paris. Mas não falta quem pense, com alguma razão, que existe um clima, um contexto e uma tendência geral com a qual todos estes acontecimentos e outros têm nexo e coincidência.
Vivemos circunstâncias difíceis, próximas do que se poderia designar como ameaça de tempestade perfeita. Crises locais, como em Ceuta, no Porto, em Tirana, em Madrid ou em Paris. Nacionais, como em Espanha, França, Alemanha ou Brasil. Regionais, como na Europa, no Próximo Oriente ou nos Estados Unidos. Com guerra (centenas de milhares de mortos na Ucrânia e no Próximo Oriente), com crise de energia, com aumento do custo de vida e com rarefacção de matérias-primas e de alimentos. Sociais, com desemprego, emprego precário, baixos salários, imigração desregulada e falta de habitação. Humanitárias, com uma brutal redução de ajuda filantrópica e um aumento colossal de populações carentes e desfavorecidas. Políticas e culturais, com as redes sociais a retirar legitimidade à democracia, com o poder do dinheiro a sobrepor-se a qualquer outra entidade tradicional ou instituição democrática. E internacionais, com o poder militar e a força bruta a imporem-se como substitutos da moral, da cultura e do direito internacional. O catálogo é seguramente incompleto, mas temos aqui circunstâncias suficientes para trazer o mundo à beira da inquietação, quem sabe se do medo, mãe e pai de tantos desastres.
O redesenho da balança de poderes no mundo é propício a motivar crises locais e nacionais, como se vê no Brasil e outros países latino-americanos, em vários países europeus ou em África. A guerra do Próximo Oriente já transformou o mundo dos negócios, as indústrias de armamento, os transportes marítimos e o custo de vida no mundo. A invasão da Ucrânia mudou a economia da energia, a técnica e a ciência da guerra contemporânea e a coesão europeia. A destruição de Gaza e de parte do Líbano, depois da Síria, tem o condão de comover as juventudes dos países ocidentais que, nas ruas, enfeitados com lenços palestinianos, exigem casas, lugares nas universidades e professores nas escolas. A desregulação das migrações, a desordem nas políticas laborais e a exploração de mão-de-obra migrante barata criaram um insuportável clima social, com reflexos de natureza política e cultural.
Entre nós, aqui na Europa, os poderes centrais, os partidos tradicionais, as instituições da direita democrática e os grandes movimentos de esquerda moderada estiolam, perdem força, desaparecem ou sofrem estertores lamentáveis. Diminuem as possibilidades de diálogo e de negociação racional, aumentam as forças de separação, de controvérsia e de liquidação mútua. Crescem a olhos vistos os movimentos radicais de direita, populistas, nacionalistas, por vezes racistas e xenófobos, à procura de alternativas antidemocráticas. Ao mesmo tempo, organizam-se movimentos cada vez mais radicais de esquerda, revolucionários, com a pretensão de ultrapassar a democracia, afastando-a.
A globalização, de que tanto se esperava para o progresso e a liberdade, acaba por se transformar em ameaça. De Madrid a Paris e do Porto a Tirana: parece haver uma onda, como aquelas das claques de futebol. Há tanto de comum nas circunstâncias que logo apetece ligar as coisas. A crise da habitação e o aumento do custo de vida estão presentes em toda a parte. As crises na educação universitária e agora até nas escolas secundárias anunciam-se ferozes. A perda de oportunidades de emprego após os estudos parece universal. As reacções a estes fenómenos parecem-se cada vez mais umas com as outras: desfiles nas cidades, acampamentos nas praças públicas, juntamentos nas avenidas e nas grandes ruas, caixotes de lixo a arder, barricadas improvisadas e batalhas de pedras da calçada. Tudo isto com cargas de pancadaria policial geralmente desajustadas e exageradas. Sem esquecer, evidentemente, as provocações esquerdistas repetidas e os distúrbios de extrema-direita preparados. Tudo isto à mistura com bandeiras do Hamas e foices e martelos ressuscitados, o que aliás retira força genuína aos movimentos, mas aumenta o folclore.
Parece haver um padrão. Dir-se-ia uma conspiração. Não é uma coisa, nem outra. Há, isso sim, circunstâncias comuns, a globalização em marcha, a volúpia bilionária e o narcisismo de Trump. Veleidades terroristas, presunção revolucionária, intervenção islamista, imperialismo russo e o olhar vicioso chinês. E que ninguém diga que os problemas vêm do estrangeiro. Não. São de todos. Mas, em cada caso, nasceram aqui.
Público, 17.10.2026

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