Ainda não se sabe o que vale o orçamento. Apesar dos louváveis esforços do ministro Miranda Sarmento, o governo explicou mal. O Primeiro-ministro reduziu o documento a uma gigantesca peça de propaganda sobre si próprio, sobre as colossais benfeitorias do governo e sobre as maravilhosas obras que se propõe levar a cabo nos próximos anos. Não sem fazer o que sabe melhor: dizer mal do PS e dos governos anteriores. Está convencido de que basta dizer que “a culpa é de António Costa” para atrair os eleitores à sua competência.
O ministro Luís Neves, cada vez mais merecedor do antigo título de “Ministro do Interior”, deu cabo de tudo, do que tinha aparência de benfeitoria. Conseguiu proeza rara: ser autor da virtude e desconhecer o erro. Assumir responsabilidade pelo que aconteceu nas ruas do Porto e de Lisboa durante as últimas semanas. Garantir que é ele que manda nas polícias. Elogiar o comportamento policial durante as manifestações. Distanciar-se das polícias no que se refere a tudo o que incomoda a opinião, nomeadamente as cargas de pancadaria. Assegurar que são as polícias que definem os modos e os tempos de actuação, que é o mesmo que dizer “eles são os culpados”. Mostrar a sua responsabilidade em tudo o que lhe parece que correu bem e a sua absoluta irresponsabilidade em tudo o que sente que correu mal.
O Primeiro-ministro exibe um sorriso satisfeito e confiante como poucos. Ou é muito bom actor ou é inconsciente. Ele acredita na sua própria publicidade, nas permanentes campanhas em que se envolve, sempre rodeado de ministros e de secretários de Estado, seguido de directores gerais e profissionais de comunicação. Nunca explica o que é, nunca analisa o que está, diz que vai fazer e acontecer. Os seus profissionais chamam-lhe optimismo, mas é assim que eles se enganam e acreditam na ilusão.
Este período de incerteza e de manifestação social (transportes, jovens, polícias, custo de vida, etc.) tem revelado fraquezas do governo. A sua incapacidade para desenhar um futuro político, com alianças ou maiorias, com programas e causas. A sua falta de coesão e de pensamento, substituídos por uma frenética campanha de publicidade. A sua paralisia psicológica devida a trapalhadas financeiras, empresariais e pessoais. A sua incerteza quanto ao futuro.
O orçamento passou com maioria relativa. Ou antes, o orçamento passou com a abstenção do PS. Com votos contrários das restantes esquerdas. Com a oposição brutal do Chega, carregada de ciúme e despeito. Talvez seja uma boa oportunidade para confirmar esta melancólica verdade: não importa o que está no orçamento, não interessa saber o que lá se propõe e é indiferente saber com quem se vota. O que realmente se procura é uma escapatória, uma abstenção de favor, uma sensação de que se ganhou graças a uma esperteza.
A atitude dos socialistas merece reflexão. Talvez se perceba a sua decisão, apenas por receio de enfrentar já novas eleições. Fica-se com a impressão de que não quer deixar o seu nome associado à dissolução do Parlamento, a mais eleições e a mais instabilidade. Mas a verdade é que o PS tem de fazer melhor. Tem de explicar as razões pelas quais considera nefastas as eleições. Tem de esclarecer o que o leva a garantir a abstenção, isto é, para todos os efeitos, a aprovação, antes mesmo de ver o documento e de estudar as suas propostas. Tem de nos dizer por que entende que o orçamento não é assim tão mau. Ou finalmente garantir que o orçamento é mau e enviesado a favor dos mais ricos, demonstrando tudo isso, mas sublinhando que as novas eleições poderão ser ainda piores para a população e o país. Nada disto é fácil. Nem claro. Nem seguro. Por isso tem de ser explicado. O PS esforça-se por se mostrar suave, responsável e colaborante, tudo qualidades estimáveis. Mas corre o risco de exibir ignorância e atrapalhação.
A dupla responsabilidade do PS é muito difícil de assumir e de conseguir. Por um lado, tem de encorpar a sua doutrina, libertar-se das chagas recentes dos seus anteriores líderes e respectivos planos. Pelo que tem de se mostrar menos colaborante com o governo, menos disponível para cobrar as facturas do PSD e reparar os estragos do governo. Por outro lado, tem de elevar a confiança do eleitorado, de todo o eleitorado, não apenas do seu, mostrando ser capaz de assumir responsabilidades nacionais. Tem certamente de mostrar que não abre crises só por abrir ou só porque entende ser esse o papel da oposição. As duas responsabilidades são contraditórias. Mas podem ser desempenhadas com rigor, desde que os seus dirigentes sejam claros e directos. Francos e afirmativos. O PS deve em particular definir a sua doutrina relativamente ao mundo novo que se prepara, desde as novas relações internacionais (e o papel de Portugal) às novas condições sociais criadas com as crises do trabalho, da imigração, da precariedade e do emprego jovem. Por vezes, o PS parece estar a viver uma geração em atraso. É melhor do que viver ao lado, mas não é suficiente.
O PS ficou certamente satisfeito com as crises e manifestações das últimas semanas. Não desgostou ter visto a incompetência do governo e o desnorte de vários dos seus ministros. O mal dos adversários contenta qualquer um. Mas não basta. É cada vez mais necessário que os socialistas sejam capazes de entender e de explicar o momento que vivemos, a condição social dos que sofrem, a ansiedade dos que não têm casa, emprego e futuro. A preocupação com a coreografia política e com as artes e manhas da ginástica partidária não é suficiente para compreender, explicar e propor soluções para uma mudança de rumo.
A agitação recente tem alguns motivos evidentes: a crise da habitação, o alojamento estudantil e o emprego jovem. Mas percebe-se bem que o clima geral é bem mais grave e inquietante. O aumento do custo de vida é confrangedor. A perda de rendimento é assustadora. O recuo salarial em muitos sectores do trabalho é flagrante. Há perda de esperança e há desânimo. Há real inquietação, tanto por motivos externos ligados aos conflitos internacionais, como por causas internas de carência e insegurança. Se o Primeiro-ministro está convencido de que os seus projectos resolvem este estado de espírito, está muito enganado. Leia o mundo. Veja as pessoas. Perceba a condição dos outros.
Público, 31.10.2026

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