domingo, 15 de abril de 2018

Sem Emenda - As Minhas Fotografias

Vendedor de fotografias no Chiado – Hoje, no Chiado, depois de longas crises de despovoamento e declínio, há de tudo, movimento, música (às vezes estridente e incómoda…), animação, bebidas, compras e turismo. Infelizmente, já saíram muitas das lojas antigas e interessantes, substituídas agora por comércios sem carácter, iguais aos do mundo inteiro. Este senhor encontrou um nicho de mercado e instalou, ou antes, pendurou a sua loja em local que passou a ser o dele. Arranjou maneira de reproduzir fotografias famosas, do bebedouro de Joshua Benoliel a Madonna com máscara ou nua a pedir boleia. Há sempre por ali turistas interessados. Mas o herói daquele comércio é sem dúvida o carro eléctrico, “o amarelo” de Lisboa, o 28…

DN, 15 de Abril de 2018

domingo, 8 de abril de 2018

Sem emenda - A liberdade é melhor do que a censura

Perante os evidentes abusos cometidos pelas grandes operadoras de “redes sociais”, eleva-se o clamor: mata, esfola, proíbe, censura, vigia, controla e regula! São estas as palavras-chave que descansam os incautos e os virtuosos, mas acabam por permitir aos operadores continuar a fazer os seus negócios, com mais ou menos exigências, mas negócios apesar de tudo.
A verdade é que estas “redes” correspondem a objectos de sedução e criam necessidades de consumo (artificiais, pois claro, como praticamente todas as necessidades de consumo). Fomentam novos costumes e hábitos. Estabelecem padrões de comportamento. Resultam de uma enorme capacidade de manipulação do mercado e de um formidável talento para inventar necessidades sedutoras e irresistíveis.
Estas “redes” vieram para ficar. Sejam as mais conhecidas (as ditas “sociais”, a começar pelo famigerado Facebook), sejam todas as outras, fechadas, discretas, profissionais ou diletantes. Há comportamentos, hábitos, sistemas de educação e de ciência, circuitos artísticos e de informação e sobretudo negócios que já não dispensam as “redes”.
Estas vivem das decisões individuais de centenas de milhões de pessoas que, no mundo inteiro, aderem e utilizam. Sem essa adesão, não há “redes”. O único controlo que se conhece é o exercido por governos ditatoriais que têm os meios políticos e técnicos para filtrar e censurar como querem e entendem. Também existe o “acompanhamento” feito por empresas e Estados (mesmo democráticos, como se vê agora), que espiam, gravam e observam. É talvez este o sistema prevalecente.
Proibir estas “redes”? Só as ditaduras. Controlar? Ilusão total. No dia seguinte ao estabelecimento de um qualquer procedimento, logo a seguir os operadores de “redes” inventarão outros sistemas e outras “redes”. Vigiar e regular? Fora de questão. Primeiro, porque já se faz e ou as pessoas não sabem, ou sabem e não se importam, ou os Estados e as empresas que o fazem não confessam. Segundo, porque, neste capítulo, o Estado merece tanta confiança quanto os operadores e as empresas.
A solução para este problema, se é que tem solução, é a velha e santa liberdade. Informada, pois claro. Por outras palavras: quem pode deve dar meios para que o cidadão decida. Informar e publicar listas exaustivas dos perigos, das faculdades concedidas, dos dispositivos que não estão explícitos mas que podem funcionar (localização das pessoas, listas de contactos, inventários de preferências, actividades viciosas e virtuosas, etc. …) e dizer o que se deve recear, o que se pode esperar, o que se pode fazer para contrariar, como se pode apagar uma APP, como se pode não descarregar os dispositivos… Publiquem-se as listas dos intrusivos e dos que perseguem os cidadãos.
Cada um decida por si. Quanto mais informado melhor. O Estado (e já agora jornais, televisões, universidades, associações privadas…) pode elencar os perigos e as soluções, as ameaças e as vacinas. Mas deixem a cada um escolher os seus vícios, os seus defeitos, as suas virtudes, os seus prazeres e a sua curiosidade… E defender a sua privacidade. Ajudem cada um a saber às quantas anda e o que pode fazer…
Há muito a fazer. Pelo Estado, pelos cidadãos, pelas associações, pelas universidades, pelos organismos de defesa dos consumidores… A palavra de ordem é avisar. Informar sobre as consequências e os efeitos, sobre os perigos e as ameaças. Que acontece a quem se inscreve no Facebook? Que se deve fazer para evitar ser perseguido pelo telemóvel, pelo computador e pelas redes? Que APP se deve liquidar para que não saibam com quem se anda, a fazer o quê e aonde? Isso é que ajudaria o consumidor e o cidadão! Isso é que dava meios para escolher melhor, para defender a liberdade e para ajudar à autonomia de cada um.

DN, 8 de Abril de 2018

Sem Emenda - As Minhas Fotografias

Arvoredo e Antero de Quental no Jardim da Estrela, em Lisboa – Este é sem dúvida um dos mais belos jardins urbanos de Lisboa e do país. Pequeno, com menos de 5 hectares, foi inaugurado em 1853, tendo sido mandado construir uns anos antes por Costa Cabral. Foi rebaptizado Jardim Guerra Junqueiro, mas a designação caiu em desuso. Aqui viveu em tempos, numa jaula, o famoso Leão da Estrela. Hoje, recebe todos os dias crianças, velhotes, jogadores de sueca e bisca, namorados, feiras de várias especialidades, grupos de pic-nic e gente avulsa à procura de paz. Que encontra. Várias estátuas povoam o jardim, quase todas espatifadas e grafitadas. Salva-se, como um fantasma no meio da verdura, este Antero de Quental, da autoria de Barata Feyo. O Jardim tem uma encantadora colecção de árvores. Infelizmente, como quase sempre em Portugal, estas não são identificadas, não se lhes conhece o nome vulgar nem a designação erudita, muito menos a data aproximada de nascença. Falta de lucidez e de cultura das autoridades.

DN, 8 de Abril de 2018

domingo, 1 de abril de 2018

Sem Emenda - As Minhas Fotografias

A navegar na rede – Na praça D. João I, no Porto, um grupo de jovens procura Pokémons… Ou Pokémons Go, como alguém me corrigiu logo. Ou lá o que seria! Verdade é que, em toda esta praça, umas dezenas de jovens passavam a sua tarde em grande animação. Se procurassem gambozinos, seriam rapidamente considerados rústicos. Ou pior. Mas, sendo Pokémons, são vistos como pequenos génios, entretidos com jogos de elevado teor cerebral e com reminiscências culturais indiscutíveis. Alguns dos presentes contactavam directamente Snorlax e Picachu. Enquanto outros, mais sofisticados, preferiam, Kabutops e Pinsir. Para um laico, qualquer tentativa de perceber o que ali se passava era inútil. Era como se falassem em aramaico.
DN, 1 de Abril de 2018

Sem emenda - Apanhados nas redes

Primeiro, a terminologia. Rede social não é sujeito, é veículo. Sujeito é uma empresa, um Estado, uma agência de informações ou qualquer outro operador. Engana-se quem pensa que as redes sociais fazem e acontecem. Nada! Para o melhor e o pior, as empresas, os Estados e as organizações é que fazem e acontecem…
Depois, o drama. Em poucos dias, milhões de aderentes do Facebook abandonaram a rede. Mas centenas de milhões ficaram e até aumentaram o seu uso, a fim de ver o que se passava. Milhares de accionistas deixaram de o ser, mas muitos milhões continuaram e até houve uns tantos que compraram acções na expectativa de vir a ganhar qualquer coisa. O valor da empresa na Bolsa diminuiu dois ou três mil milhões de dólares, mas ainda se eleva a centenas de milhares de milhões, várias vezes o PIB português.
Sabia-se que empresas das redes inquiriam, agregavam informação, usavam o GPS, vigiavam pessoas e movimentos, interpretavam hábitos e costumes, detectavam preferências, construíam “narrativas” individuais e colectivas e finalmente vendiam. O que se passou foi uma confirmação, não uma novidade.
Os utilizadores dão voluntariamente os dados e até gostam de ser seguidos. Uns sentem-se importantes. Outros gostam de se exibir. Outros ainda querem coscuvilhar e têm gosto em espreitar. Poucos são os inocentes, os que não sabem que os dados se vendem. Todos sabem que as redes não são uma dádiva desinteressada dos Estados e dos capitalistas.
Toda a gente sabe que os dados dos cidadãos, crédulos e incrédulos, são comprados por quem tem dinheiro e interesses: comerciantes de tudo e fabricantes de qualquer coisa. Os publicitários e as agências de sondagens descobriram nestas redes fontes inesgotáveis de informação. Outras profissões e instituições se interessaram também: políticos, câmaras municipais, polícias, espiões e autoridades fiscais. Sem falar em máfias, seitas e clubes desportivos. Enfim! Quase toda a gente com poder. E quem não tem poder, julga adquirir algum por esta via. Por isso, estas redes têm passado impunes sem que ninguém as incomode!
As redes deixam passar o que lá se coloca. O histórico da vida de cada um, as deslocações, os movimentos bancários, a navegação na NET, tudo lá está e pode ser usado. Mas a vontade do próprio é o factor decisivo. Sem ela, nada a fazer. O indivíduo que se sente importante dá os seus dados. O que quer saber dos outros dá para a troca. O coscuvilheiro dá para receber. O curioso e o sôfrego querem estar ao corrente de tudo e dão o que têm para obter o que pretendem. As empresas que operam as redes perceberam estes instintos e fazem a colecta. Depois, articulam e fazem bases de dados. A partir de um certo momento, têm algo que vale milhões e é muito mais do que a soma das partes.
Mais uma vez: a vontade e as decisões do utilizador estão na base de tudo. Ora, os próprios gostam do exibicionismo ou não se importam. Os “likes”, por exemplo, dão a muitos a sensação de estarem a votar, a dar uma opinião e a contar para alguma coisa. E estão, na verdade, a dar o nome, a localidade, as preferências, os hábitos, os segredos, as deslocações, as relações sociais, tudo!
As revelações recentes sobre o Facebook, a maior de todas as redes, comoveram muita gente. Os concorrentes lançaram-se ao ataque. Os adversários juntaram-se para denunciar e tirar algum proveito. Depressa surgiram propostas para corrigir, proibir, censurar, taxar, forçar o escrutínio, evitar os abusos… Há mesmo quem pense em vigiar tudo, como os americanos, ou censurar, como os chineses e os norte-coreanos. Uma obsessão: controlar! Uma hipótese: censurar ou proibir! Uma sugestão: nacionalizar! Um voto piedoso: regular!
Comum a estas emoções, às propostas insensatas que se ouvem e aos gemidos de escândalo que nos chegam, um fio condutor: as culpas são das redes, os cidadãos estão inocentes e foram enganados! Nada mais errado, como se verá.
DN, 1 de Abril de 2018

domingo, 25 de março de 2018

Sem emenda - A prova de fogo

Os incêndios de floresta de 2017, dos piores da história de Portugal, dos mais mortais da Europa e do mundo no último século, deixaram feridas não cicatrizadas nas famílias, nas autarquias, nos campos e na natureza. Assim como na segurança colectiva e na confiança dos cidadãos. Agora, há relatórios de investigações, ao que parece competentes e independentes. O que, mesmo havendo polémica, como em tudo, já é um progresso. A conclusão essencial é devastadora: confirma-se, se é que era necessário, o falhanço dos sistemas de prevenção, de protecção e de socorro. Por outras palavras, a segurança foi muito deficiente. Mas aplaude-se o pagamento de indemnizações, o que, além de humano, é o reconhecimento de responsabilidades.
Há também relatórios sobre o desaparecimento de armas e munições das Forças Armadas e das Polícias. Relatórios mais discretos e não inteiramente públicos, não se percebe porquê. A conclusão primordial, a partir do que se sabe, comprova o que era evidente: fracassaram os sistemas de vigilância e de segurança.
O problema da segurança colectiva é muito grave. Dos mais sérios que se conhece. Mas, entre nós e nos tempos que correm, questão tão séria quanto a da segurança é certamente a da Justiça e do Estado de direito, o que implica apuramento de responsabilidades e capacidade de correcção de erros e negligências. Eis por que os próximos meses serão absolutamente decisivos. Serão a prova dos nove e a prova real para a nossa justiça. Poderemos verificar se tudo será diluído pelo sistema político e pela ineficiência. Ou se, pelo contrário, por uma vez, a justiça vai até ao fim.
Obcecados com as questões sociais (os de esquerda) ou económicas (os de direita), os governos portugueses estão a deixar instalar-se uma deriva de impunidade e de ineficiência da justiça. O assunto é sério: é a erosão do Estado de direito.
A segurança colectiva e a protecção civil constituem apenas um capítulo da fragilidade crescente do Estado. A privatização e a reprivatização de empresas e grupos, feitas em condições de poucas garantias, deixaram o país mais fraco. Até porque, em certos casos, algumas privatizações tiveram como destinatários Estados estrangeiros, o que é irónico e arriscado. Um Estado fraco e endividado vende de qualquer maneira.
Coladas às operações de privatização, as desventuras da banca portuguesa aumentaram a fragilidade do país. Constituíram a mais drástica destruição de valor levada a cabo na história recente, só comparável aos efeitos económicos da revolução de 1975 e às consequências económicas da descolonização. Além desse estranho fenómeno que é o da destruição de valor, assistimos, nas sucessivas crises bancárias, à apropriação de recursos e ao desvio de capitais, mais próprios do roubo do que da falência. Como muitos desses bens e recursos eram de milhares de pessoas, vieram os contribuintes compensar as vítimas dos assaltos. É uma nova figura de culto em Portugal: os custos públicos dos roubos privados.
Com a destruição de valor e o roubo de capitais, verificou-se ainda, sob a capa da internacionalização, um autêntico massacre de empresas que tinham conseguido uma posição interessante em áreas de inovação e desenvolvimento, como no caso dos cimentos, das telecomunicações e da energia. Esta reconversão de serviços públicos e de grupos nacionais em redes internacionais foi levada a cabo por gestores sem escrúpulos. Nada do que precede se fez sem intervenção directa do Estado, sem a colaboração de governos e sem a cumplicidade de governantes.
Mais uma vez: a Justiça em causa. Há, na verdade, dos incêndios às armas, entre o BES e o BPN, entre a PT e a EDP, entre Angola e China, entre o Brasil e a Venezuela e entre os vários grandes processos em curso, verdadeiras “causes célèbres”, um fio condutor: é o da ineficiência da Justiça.
Tudo está em saber se a democracia e o Estado de direito podem sobreviver à ausência da Justiça.
DN, 25 de Março de 2018