O tempo dirá. É provável que esta última encíclica, a primeira do Papa Leão XIV, com o belo título de “Magnifica Humanidade”, se transforme num marco histórico. A par de outras que, no passado, como a Quadragesimo anno (de 1931, de Pio XI) e a De rerum novarum (de 1891, de Leão XIII), marcaram uma diferença na doutrina da Igreja e na sua influência no mundo. As reacções da hierarquia católica e dos fiéis, assim como as das restantes religiões e dos não crentes, dos poderes seculares, dos governos e das Academias, dos políticos e dos cientistas, determinarão a sua importância e o seu impacto. Mérito intelectual a Encíclica tem. Importância e consequências dependerão do mundo e do século. O pensamento expresso no documento não é absolutamente novo. Em muitos aspectos, parece até redundante. O que é novo e poderá ter efeitos importantes é o facto de ser pensamento papal e doutrina da Igreja.
Aparentemente, o seu tema principal é o da Inteligência Artificial, à qual dedica longos parágrafos e considerações específicas. Na verdade, a Encíclica abrange muito mais do que isso. Visa a ciência e a técnica, nos seus fundamentos e nas suas aplicações. Invoca a responsabilidade humana e a liberdade, assim como os valores humanos da paz e da democracia. Ocupa-se, evidentemente, da doutrina católica e da Igreja relativamente a estes grandes temas, mas muitos são tratados sem referência obrigatória à doutrina. Na verdade, as questões relativas à responsabilidade moral e à liberdade poderiam ser pensadas por qualquer pessoa ou entidade, crente ou pagão.
Mais ainda. O Papa aventura-se em terrenos difíceis para a Igreja. Discute o poder do dinheiro ou da força militar. Contesta o primado do poder sobre as outras dimensões da vida, como a solidariedade, a compaixão e a cultura. Contraria expressamente a afirmação do poder como critério de vida, do poder sobre os outros, do poder contra os outros. Nega a ideia, tão defendida por esse mundo fora, de que quanto mais poder, melhor. Afasta o poder da técnica e da ciência quando utilizado para fins que não são a afirmação dos valores humanos. Não se deixa confinar numa atitude conservadora de recusa da inovação e do avanço da ciência: antes pelo contrário, festeja o progresso, desde que ao serviço da humanidade e da igualdade.
Uma das grandes virtudes da Encíclica e da doutrina expressa reside no alargamento dos quadros de pensamento e valores. Por exemplo, contesta a uniformidade: opõe-lhe a diversidade, que considera factor de liberdade e de dignidade humana. Nega a idolatria do lucro que subjuga os mais fracos. Sublinha o facto de a técnica e a ciência libertarem uma parte da população, mas deixarem para trás a maior parte da humanidade. Defende o fortalecimento da Doutrina social da Igreja como contributo maior para a igualdade social. Coloca a dignidade do trabalho no centro da humanidade, defendendo a justiça do salário como exigência da sociedade livre. Considera valor maior da humanidade a diversidade de indivíduos de comunidades, de etnias, de países e de Estados.
Aborda também o sistema económico, lutando contra a concorrência sem limites e contra a concentração, em reduzidos círculos de pessoas e famílias, de poderes de toda a espécie, económicos, sociais, culturais ou políticos. Os direitos das pessoas e a questão social deveriam estar no centro e no topo das prioridades e das atenções, defende o Papa. Nesse sentido, não é aceitável que a exaltação da liberdade individual e da iniciativa privada, assumidas por uns tantos, vivam com o não reconhecimento da dignidade do trabalho ou dos direitos para as maiorias.
Entre os valores humanos defendidos pela encíclica, contam-se o bem comum e a casa comum. A procura do bem comum é o que dá vida e dignidade a um povo. Sempre com a ideia de que a casa comum é uma casa diversa. “Cabe ao Estado a tarefa de garantir a coesão, a unidade e a organização justa da sociedade civil, para que o bem comum possa ser realmente alcançado com a contribuição de todos”. O bem comum é atingido com a diversidade de projectos pessoais e nacionais. Para isso, o principal meio ou instrumento, e valor ao mesmo tempo, é a justiça social.
A Encíclica propõe substituir a civilização do poder, da força, da eficácia e do lucro pela civilização do bem comum, da liberdade, dos valores humanos e do amor. Elogia o multilateralismo, o diálogo e a diplomacia. Condena a substituição do direito internacional pelo direito do mais forte. Sublinha o papel da Inteligência Artificial na prossecução da guerra e na utilização de armas cada vez mais mortais e poderosas. E afirma que a IA se deve submeter a critérios e valores. Como a democracia, a justiça e a liberdade. Ou a igualdade, a dignidade do trabalho e o emprego. A Inteligência Artificial, as ciências cognitivas, a robótica e a biotecnologia não devem poder condicionar os direitos das pessoas, os valores humanos.
Princípios, regras e valores expressos são, um a um, conhecidos e comuns. A novidade é a sua junção coerente. Muito do que se diz é banal, mas, dito pela Igreja, adquire outro significado. Formulado pela Igreja, com força e carácter de doutrina, o pensamento desta encíclica pode ficar na história como o das suas antecessoras mais famosas. Importa tentar perceber o seu valor e a sua capacidade de inspirar, não só católicos e cristãos, mas sobretudo gente de outras religiões. E não crentes. No mundo actual, a força de valores superiores ao realismo da luta de classes ou ao utilitarismo das realizações económicas parece reduzir-se todos os dias. Sobretudo se formos buscar valores humanos, não transcendentes. Ora, esta encíclica, apesar de sublinhar evidentemente os valores do divino e de a eles submeter os valores humanos, não deixa de ser inspiradora na definição destes últimos valores como razão superior de ser e estar, de agir e conviver em sociedade. Mais do que pretender trazer para a sociedade as regras e os valores da Igreja, esta Encíclica parece ter como objectivo principal o de trazer para a Igreja os valores humanos do mundo. Qualquer cidadão se sentirá reconfortado por sentir que uma Igreja, para além do amor ao seu Deus, cultiva e defende valores humanos universais: o trabalho, a democracia e a liberdade.
Este Papa é também o homem que não se deixou intimidar por Trump, a quem respondeu com meia dúzia de palavras na mais radical serenidade que se pode imaginar.
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Público, 30.5.2026

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