sábado, 14 de fevereiro de 2026

Grande Angular - Nova etapa, nova vida

 A intervenção nocturna de Luis Montenegro, durante as emissões dos resultados eleitorais, ficará na história como um dos piores exemplos de carácter. O que ele fez é de mau perdedor e de oportunista. Tentou pôr ovos nos ninhos dos outros. Tentou tirar os louros a quem os ganhou. Deu os parabéns a quem não foi à festa. Propagandeou o governo e as suas próprias decisões durante 10 minutos, tentou ocultar as eleições e os seus resultados, mal felicitou o vencedor, não se despediu convenientemente de quem termina, não saudou os concorrentes e não agradeceu a quem ganhou e a quem perdeu. Não ofereceu o seu apoio.

 

Despedimo-nos, já com saudades, do Presidente Marcelo. Saúda-se a eleição de António José Seguro, de bom agoiro. Sem grande esforço, apenas continuando a ser o que sempre foi, pode o novo Presidente contribuir de modo efectivo para os alicerces de uma solução estável e eficiente. Os portugueses mostraram que queriam a democracia e que eram capazes de, à margem das vontades expressas pelos grandes partidos, derrotar tentativas antidemocráticas. Num frente-a-frente com a democracia, Ventura foi derrotado de modo contundente. Nem que fosse só por isso, os portugueses merecem respeito e soluções políticas que lhes dêem alguma esperança. E um futuro decente.

 

O clima político é favorável. Portugal é um país ferido, magoado pelos vendavais e pela destruição de bens, de projectos e de vidas. Os portugueses necessitam de enorme esforço financeiro, de engenharia, de socorro, de saúde, de transporte, de reconstrução… A ideia de que Portugal necessita de “proximidade” é demagógica e tola. Portugal necessita de acção rápida, muito rápida. Quando se vê, hoje, em 2026, numa obra do metropolitano em plena construção, um cartaz dizendo “inauguração em Abril de 2023”, percebe-se rapidamente do que Portugal necessita. O ambiente é favorável, mas os dirigentes políticos necessitam perceber que, mais do que aproveitar a onda, a acção tem de ser mais honesta do que nos tempos em que as contas partidárias eram o único critério de êxito político. 

 

A demissão de Maria Lúcia Amaral (que foi, na Academia, no Tribunal Constitucional e na Provedoria de Justiça, uma das mais formidáveis servidoras do Estado que Portugal conheceu em décadas) parece ter marcado um ponto de mudança. Coincidiu com esse facto a transformação dos governantes em agentes de viagem, curandeiros e publicitários. A evolução dos acontecimentos trouxe-nos espectáculos desmoralizadores. O governo, sem candidato à presidência e com a neutralidade do primeiro ministro, optou pelo silêncio. Pouco depois, sob pressão dos vendavais, preferiu a palavra e a viagem. Foi fartar, vilanagem… Em cada canal, um ministro. Em cada ministro, um guarda-chuva. O entendimento que certas pessoas, especialmente ministros, têm da proximidade (palavra chave da nova democracia) traduz-se em visitas aos locais, desfiles junto dos desastres, conversa encenada com idosos ou feridos, uma mão protectora numa cama de hospital e um tabuleiro com refeição frugal numa fila de espera. Por cada visita a um local ou cada presença “no terreno”, seguem jornalistas, mais uns tantos autarcas e dirigentes locais, sem falar nos coletes da protecção de alta visibilidade. Momentos houve em que era possível, nos quatro canais de informação, ver outros tantos ministros a dizer as banalidades habituais. É bem visível toda a diferença entre estar presente e mostrar-se, ou entre ajudar e desfilar. É tão chocante ver Ventura distribuir garrafas de água antes das eleições, como ver Montenegro pisar a lama depois.

 

O novo presidente da República pode ser um factor favorável. O governo minoritário não é solução. O Chega, preparado para a perturbação, para não dizer chantagem, não é receita. Um partido socialista torturado entre a oposição e a colaboração, não é futuro. A fusão entre a direita democrática e a não democrática, assim como entre a esquerda democrática e a não democrática, é o desastre. A aliança entre o PSD e o Chega tem tudo para levar ao drama. As tentativas de governar “à la carte”, um orçamento com este, uma lei laboral com aquele, o serviço de saúde com um e a segurança social com outro, apenas produzem incerteza.

 

O mais provável é que, dentro de horas ou dias, se iniciem as grandes manobras da política portuguesa dos próximos tempos. O Chega quer derrotar ou armadilhar o governo, afim de o substituir ou com ele partilhar funções. O Governo quer durar anos, a fim de ganhar daqui a três, votando até lá ora com o Chega ora com os socialistas. Estes vão fazer a demonstração da sua moderação, aprovando ou criticando, sem nunca contribuir para derrubar. Queiramos ou não, infelizmente, estas vão ser as tarefas e as prioridades. Inúteis.

 

Era evidentemente bom que o governo durasse três anos e que a solução tivesse futuro. Seria bom que os esforços feitos no imediato, para reconstruir, fossem anunciadores de um novo clima político. Já é lugar comum, mas é certo que os próximos anos de Portugal, da Europa e do mundo serão perigosos. É certo e sabido que a União Europeia vai conhecer transformações difíceis. Os preços da energia vão subir, os dos alimentos ainda mais. As pressões da imigração vão ser cada vez mais fortes. Toda a instabilidade política será severamente castigada pelas populações. Tal como outros países, Portugal necessita de estabilidade, de firmeza de liderança, de democracia e de respeito pelos direitos dos cidadãos. Os nossos métodos de vida em comum precisam ser revistos, com relevo para a eficácia, o controlo de gastos e de obra, a prevenção e a fiscalização. Os portugueses precisam de viver com horizontes superiores a meses, sem o sufoco da demagogia e do curto prazo.

 

Chamem-lhe o que se quiser. Central, com ou sem bloco. Coligação ou aliança. Pacto ou confluência. O nome é trivial. O que interessa realmente é o governo de duração garantida, de maioria inequívoca e de programa moderado. Capaz de criar estabilidade política e de reorientar recursos. Decidido a dirigir operações de inquérito competente às obras e às despesas. Sempre com debate esclarecedor e sempre com a democracia a funcionar. 

 

Reparar os estragos, ajudar os feridos, sarar os magoados e reconstruir o país devastado vai demorar semanas e meses. Reconstruir ainda mais. Prevenir e corrigir necessita de muitos anos e décadas. Por isso era bom começar já.

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Público, 14.2.2026

Grande Angular - O dever de servir

 As últimas eleições autárquicas, legislativas e presidenciais, realizadas em menos de um ano, tiveram, cada uma, os seus centros de interesse e os seus temas de luta política. Umas vezes, eram diferentes, de uma eleição para outra. Outras vezes, eram os mesmos, até sem qualquer espécie de relação com o sentido principal da eleição em causa. Em todas se falou, por exemplo, de imigração, de corrupção e de justiça, são os sinais dos tempos. Com ou sem sinceridade, a propósito ou não, eram problemas de actualidade que não podem ficar excluídos de um debate eleitoral. Mas há um tema que foi central em todas as eleições, mesmo a despropósito. Como também é primordial nos debates parlamentares, nas visitas presidenciais ou nas assembleias municipais. E recorrente na imprensa, nas televisões e nas redes sociais. Trata-se, evidentemente, dos serviços públicos e de utilidade pública. De tudo quanto pode ser abrangido por essa designação genérica. Que inclui aspectos essenciais da nossa vida, como a saúde, a educação e a segurança social. Mas também os cuidados com os deficientes, os idosos e os inválidos. Assim como os serviços de justiça, dos registos, do notariado, da burocracia e da imigração. Além do atendimento relativo aos grandes serviços de telefone, correios, gás, água e electricidade. Para já não falar dos evidentes, constantes, essenciais e sempre críticos transportes públicos. Em praticamente todos estes serviços, sectores, instituições e empresas, vive-se, há bastantes anos, em crise cada vez mais aguda.

 

As filas de espera na saúde são conhecidas. Agora, foram ofuscadas pelos partos em ambulância assistidos por bombeiros sempre generosos, mas nem sempre qualificados. Ou por mortos à espera de admissão. Ou pela necessidade de fazer centenas de quilómetros para uma emergência. A saúde em Portugal, dominada retoricamente pela ideia do Serviço Nacional de Saúde, é um dos principais factores de promoção da desigualdade social e da injustiça em Portugal.

 

O desumano tratamento administrado pelas empresas de telefones, de correios, de água, de gás e de electricidade é crescente e de refinamento sádico. As avarias não reparadas, os equipamentos deficientes, os aumentos de preços injustificados e as esperas por atendimento são proverbiais. Uma sua grande especialidade reside nos “contratos de fidelização” (até vários anos) que são verdadeiros artifícios de exploração e escroqueria, autênticos expedientes para disfarçar a ilegalidade absoluta da prática de monopólio e de contrato leonino.

 

A destruição e a privatização hipócrita, integral ou parcial, de grandes empresas públicas dedicadas aos serviços, como nos casos dos petróleos, do gás, dos correios, dos aviões, das telecomunicações, da energia e da água são exemplos flagrantes do que se pode designar como decadência programada. 

 

Os transportes públicos ultrapassam qualquer esforço de ficção negativista ou de crítica descabelada. Atrasos, desconforto, exploração, aumento de preço, falta de higiene, insegurança e violência são as suas realidades quotidianas. Os transportes urbanos foram relegados para uma miséria indisfarçável. As redes de comboios nacionais, regionais e suburbanas foram abandonadas e negligenciadas talvez a favor dos automóveis, talvez por desprezo e incompetência e talvez por interesses ilegítimos. Certo é que os transportes de caminho de ferro de passageiros são o que há de mais próximo do inferno na terra. Tal, aliás, como os transportes aéreos, cujo retrato mais fiel é o dos aeroportos, com horas de espera para sair ou entrar no país, com desconforto crescente, com aumentos de preços impostos e horários inesperados e incertos.

 

Em muitas cidades, a começar por Lisboa, o espaço público é um dos mais confrangedores exemplos da decadência social e da miséria criados pelas novas miragens do turismo às dezenas de milhões, dos transportes improvisados, da rapidez na criação de falsos empregos e de empresas fictícias. Grande parte da Baixa de Lisboa, um dos mais belos tecidos urbanos públicos históricos da Europa, é hoje uma “terra devastada”, de destruição por desleixo e de ruína deliberada. O asseio público e os serviços de limpeza e manutenção atingem o grau zero decadência. Os centros históricos das cidades portuguesas, a começar por Lisboa, são cada vez mais territórios marginais e infernos sociais. Exemplos de desleixo e desmazelo. Casos flagrantes de marginalidade tolerada e fomentada.

 

A Administração Pública, o Estado, as autarquias e as empresas públicas têm-se revelado, ao longo das últimas décadas, desleixadas, incompetentes e sobretudo desinteressadas. A ideia de que pode haver dignidade e brio num serviço público é talvez cultivada, aqui e ali, por um funcionário, um cidadão, um técnico ou um trabalhador. Mas é valor com pouco eco e limitado interesse. E nenhum dever de organização, de cuidado e de humanidade. Pode tratar-se de mero desleixo. De obsessão propagandística. De absoluto desmazelo. De ausência de liderança. De incompetência. De voracidade e desejo de lucro. De falta de cultura e de ideal moral. Ou de tudo um pouco. Ou muito de tudo. Mas que ninguém duvide: esta absoluta falta de humanidade e de qualidade será um princípio de morte. A democracia e a liberdade terão cada vez menos pessoas que as defendam quanto menos razões tenham para viver com sentido social e com valor humano.

 

As inundações e os vendavais, as chuvadas e os deslizes de terra, foram outros tantos obstáculos, perigos ou desastres que a sociedade soube mal enfrentar, porque sobretudo quem tinha a missão de ordenar, inspirar, organizar e liderar não o fez, não soube fazer, não percebeu a tempo e não se sentiu empenhado. Para, tardiamente, tentar fazer propaganda.

 

Há cem, duzentos ou mais anos que a ideia de “servir o povo” ou servir a população alimentou programas políticos de esquerda ou direita, europeus ou asiáticos. Poderiam ser slogans sem consequência. Tratava-se por vezes de oportunismo político. Mas também de sentido de missão. E de responsabilidade pública. E de necessidade de dar espírito a quem pedia ou alma a quem oferecia humanidade. Cuidar do bem comum é talvez a missão mais elevada de qualquer funcionário, governante ou autarca. Entre nós, tem falhado.

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Público, 7.2.2026