SARAH ADAMOPOULOS seleccionou um pouco mais de trinta pessoas a quem pediu para contarem um pouco da sua experiência de criança. Este é o resultado. Atraente e estranho. Não se trata de uma amostra representativa. São escolhas de Sarah, feitas, creio, ao ritmo e à circunstância de amizades, conhecimentos, camaradagens e afinidades. Muitos deles vêm das letras e das artes. Valem por eles, não valem por universos estatísticos. Mas têm comunidade de experiência e de recordação. A felicidade, em primeiro lugar. Quase todos os entrevistados tiveram infâncias felizes. Depois, vem o espaço, que é uma maneira de sentir a liberdade. Referem os espaços largos da infância e queixam-se da falta de espaço, hoje, o que também quer dizer falta de liberdade. A descoberta do mundo, a seguir. E a descoberta dos outros. Para quase todos, eram tempos em que os pais davam o exemplo e ensinavam coisas, enquanto as mães davam afectos. Vindos de meios cultivados, aprenderam artes e letras: com os pais ou em escolas privadas, nesta que é mais uma revelação da miséria cultural da nossa escola de ontem e de hoje.
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Nem todos estes relatos são iguais. Seria injusto dizê-lo. E pouco objectivo. São histórias diferentes e circunstâncias variadas. E diversos os estilos e os factos. Mas quase todos têm um traço comum: uma infância feliz! Por outras palavras, tempos doces e despreocupados. O carinho dos pais. A atenção dos professores. A revelação da escola. Os jogos e as brincadeiras. Um mundo a descobrir.
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É preciso reconhecer: são clichés! Podem ser verdade: os clichés não são geralmente errados. Mas é certo que são só uma parte dos factos. São o fruto de escolhas contemporâneas e da memória actual. Com certas recordações, não se está a ajustar contas com o passado, mas sim com o presente. O que parece estar em causa é o que se não tem hoje, não o que se tinha ontem. Estes relatos valem mais pelo que se tem ou não tem como adulto, do que pelo que se era ou não era como criança.
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Não creio que exista período da vida mais insólito, para não dizer mais duro ou difícil, do que a juventude, incluindo nesta a infância e a adolescência. As ambições são desmedidas. Os medos permanentes. Os atrevimentos excessivos. O capricho e o amuo são regras de vida. Pensam-se e fazem-se tontarias. Sofre-se, em igual medida, com o amor e a falta dele. Fantasia-se, deseja-se e receia-se o sexo de que se não percebe nada. Os pais nunca compreendem. Os irmãos são sempre incómodos. Vive-se quase sempre à beira do desespero. O egoísmo e a inveja são leis. A contradição é um modo de vida: é na juventude que se encontra a mais completa combinação de crueldade e doçura. E nada disto impede que os jovens sejam também generosos, disponíveis, curiosos e criativos. É neste caos que, muitas vezes, nasce a revolta. Que é o melhor que a juventude traz.
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Sempre tive dificuldade em perceber por que razão as pessoas se reclamam de uma infância feliz. Ou por que motivo apagam as memórias das dificuldades e elegem apenas as da felicidade. Porque sentem as pessoas tanta necessidade de exibir uma juventude encantadora, feliz, mágica? Quando ouço ou leio relatos de infância e juventude, estou sempre à espera dos sentimentos previsíveis. Não tinha o que queria, nunca tinha tudo o que queria. Sentia-se fechado, preso e abafado, tinha vontade de partir, de ir para longe. Os adultos não compreendiam. Os pais não se abriam e não explicavam dúvidas e problemas. Doces, não eram um modelo. Severos, eram odiosos. Os adultos mentiam, omitiam ou proibiam, geralmente sem explicar porquê. Era assim, porque era assim. Rapazes e raparigas, sem conhecimento nem experiência, percebiam-se mal uns aos outros. Zangas e lutas eram tão desmesuradas quanto os desejos e as paixões.
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Fico à espera de ler e ouvir esses sentimentos, mas são raros, muito raros, as testemunhas que os transmitem. O essencial dessas recordações é o que constrói a “infância dourada” e a “juventude feliz”. Mas, quando falo discretamente com eles, sem os pais por perto, sem outras presenças, o que me dizem (quando dizem, do fundo da sua insondável reserva...) em nada se parece com esse período mágico e leve que recordam os seus pais e de que eles seguramente falarão dentro de trinta anos. Contam-me (quando me contam...) a insatisfação e a frustração. Queixam-se da falta de liberdade e de meios. Lamentam a incompreensão dos adultos. Mudam com frequência de projectos e de ambições. Garantem-me que a juventude deles é pior e muito mais difícil do que a dos seus pais. É muito fácil assegurarem que não têm futuro. Ou que este é sem esperança.
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É natural que assim seja. As cabeças não estão organizadas, os sentimentos muito menos. Sabe-se pouco. É-se forçado a entrar na vida dos outros, dos adultos, dos que têm poder sobre eles. Já se quer parecer grande, mas não se consegue. Vive-se quase sempre em competição. Os adultos avaliam tudo. É nesta altura que mais espaços se antevêem, mais possibilidades se adivinham, mas é também nesse tempo que se aprendem os limites, as fronteiras, os termos dos direitos, o peso dos deveres. Cada ano que passa, da infância à adolescência, é mais um ano de interditos e de obrigações. Não podia deixar de ser de outra maneira, mas essa é uma aprendizagem dura. A minha experiência diz-me que a infelicidade e a felicidade preencheram a minha juventude em quantidades exageradas. Ora uma, ora outra. Simultânea e sucessivamente.
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Nunca saberemos exactamente se as recordações que Sarah Adamopoulos recolheu são verdadeiras ou não. Podemos confiar nela, que não inventou. Mas não sei se podemos confiar neles, que recordaram. Alguns testemunhos deixam eles próprios as dúvidas. Eu próprio conheço isso. Tenho recordações vivíssimas de factos passados com os meus três a sete anos. Lembro-me das circunstâncias, das roupas, da luz do dia, dos ruídos e até dos cheiros. Estou a ver a minha mãe, no Porto, em 1945, a calafetar as janelas com cortinas, jornais e cobertores, pois havia exercícios de prevenção e era necessário esconder as luzes de improváveis aviões inimigos. Lembro-me de um médico, tinha eu três anos, a limpar-me a cabeça de um horroroso eczema. Ainda hoje sei como eram as senhas do racionamento que durou até aos meus seis ou sete anos. Lembro-me do meu primeiro acidente, tinha eu três anos, que me deixou uma marca na mão para toda a vida. Lembro-me de ter querido sovar um irmão através de uma janela e de ter apenas conseguido cortar as minhas veias. Recordo o modo como, com os meus irmãos armados em cow-boys, quase queimámos vivo o Mário, que era o nosso índio. Será realmente que me lembro disto tudo? Não será que são memórias feitas mais tarde, ao ouvir histórias? André Gago, nesta colectânea, resume bem o problema: “Talvez não passe de uma fantasia, isto de pretender ter recordações de uma altura da vida a qual se diz ser impossível ser recordada. Mas, se não é uma recordação, é uma fantasia bem urdida”.
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Um dos indícios mais certeiros de que a memória da infância é um ajuste de contas com o presente reside no facto de quase todos os testemunhos fazerem, directa ou indirectamente, implícita ou explicitamente, a comparação das juventudes do seu tempo com as de hoje. Rogério Ribeiro diz simplesmente: “As crianças não tinham então o poder que têm hoje sobre os pais”! E Rui Reininho não tem dúvidas em afirmar que as crianças do seu tempo tinham menos liberdade e menos oportunidades: “Hoje é tudo mais agradável”! Já António Vitorino de Almeida tem a certeza de que “Antigamente, a infância era infinitamente melhor”! E Baptista Bastos, quando recorda Lisboa de há várias décadas, surpreende-nos: “A cidade nessa época era muito afectuosa. Tenho a memória de uma cidade que me inspirava um profundo afecto...”.
Creio que estão todos a falar de hoje, claro.
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Na minha experiência e numa visão simplificada, os adultos dividem-se em duas grandes categorias. Por um lado, os que dizem que os jovens, no seu tempo, eram mais cultos, mais empenhados, tinham “causas” e trabalhavam, enquanto os de hoje são uns valdevinos, inúteis, superficiais, sem valores, preguiçosos e abúlicos. Por outro, os que garantem que os jovens de hoje são autênticos génios, sabem tudo, têm tudo, são autónomos, portam-se como gente grande, têm uma visão do mundo e são quase enciclopédicos, enquanto os do seu tempo eram amorfos, oprimidos, viviam como numa reserva, limitavam-se a obedecer e quase não tinham existência. O que é realmente interessante é que não têm razão. Nem uns, nem outros.
domingo, 31 de agosto de 2008
Tão felizes que éramos!
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Prefácio de «Infância, quando eles eram pequeninos», Sarah Adamopoulos - Nelson de Matos, Lisboa 2008.
quinta-feira, 28 de agosto de 2008
Luz - Tomar - Aqueduto
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Aqueduto construído pelos monges há quatro ou cinco séculos, para abastecer o convento, o mosteiro e a cidade de Tomar. Os locais chamam-lhe os “Pegões”, como noutras partes do país. É um magnífico aqueduto, muito bem conservado. (1995).
domingo, 24 de agosto de 2008
Aniversário do incêndio do Chiado
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A RECUPERAÇÃO DO CHIADO teve boas e más soluções. Mas o problema não é apenas, nem sobretudo, o do gosto. É o do ambiente geral que se vive no centro da cidade. A noite do Chiado é de abandono, a sugerir um princípio de vida marginal. Ao fim-de-semana, a “cena” repete-se. Como, aliás, em grande parte da Baixa pombalina. O que se passa neste centro histórico é lamentável.
As causas têm de ser encontradas em questões mais gerais: a lei das rendas, a especulação, os horários dos comércios, o privilégio aos centros comerciais, a prepotência camarária... Tudo foi muito mais grave do que o incêndio!
Daqui a vinte anos, gostaria de ver um Chiado com residentes, rendas livres, mais emprego, divertimentos e comércio aberto dia e noite”.
As causas têm de ser encontradas em questões mais gerais: a lei das rendas, a especulação, os horários dos comércios, o privilégio aos centros comerciais, a prepotência camarária... Tudo foi muito mais grave do que o incêndio!
Daqui a vinte anos, gostaria de ver um Chiado com residentes, rendas livres, mais emprego, divertimentos e comércio aberto dia e noite”.
«Expresso» de 23 de Agosto de 2008
quinta-feira, 21 de agosto de 2008
Luz - Uma vinha nova em socalcos modernos.
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.Nas extremas, podem ver-se socalcos e patamares mais antigos. Nestes socalcos modernos, deve assinalar-se o facto de muitos deles estarem amparados por muros antigos, daqueles que já quase se não fazem hoje. Em cada socalco, apenas dois “bardos”, duas filas de videiras devidamente aramadas. A grande distância entre os dois bardos é feita em previsão da passagem das máquinas. Esta vinha parece excepcionalmente bem tratada. (2007).
domingo, 17 de agosto de 2008
As referências na criação
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NINGUÉM É ABSOLUTAMENTE ORIGINAL. Ninguém cria a partir do nada. Criar começa por ser “acrescentar qualquer coisa”. Um olhar, um facto, uma interpretação ou uma composição. Mesmo as “revoluções”, estéticas, filosóficas ou científicas, têm como ponto de partida a vontade de romper e de renovar os termos das questões anteriores.
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As escolas, os estilos, as correntes de pensamento e as modas fazem-se por sucessivos desenvolvimentos, por acrescentos e variações ao que estava previamente adquirido. Quando ocorrem rupturas ou fundações, os seus responsáveis não estão libertos das ferramentas anteriores, da linguagem, das formas de expressão ou do saber acumulado. No século XX, artistas, pensadores e cientistas multiplicaram-se em rupturas e criação de novos “paradigmas”. Por vezes, fizeram-no de modo abrupto, com violência na destruição do que os antecedia. Mesmo assim, não dispensavam filiações de método ou de inspiração, nos antigos gregos, no Renascimento ou nas Luzes. Sócrates ou Galileu, Leonardo ou Bach, Shakespeare ou Mill inspiraram à distância de milhares de milhas e de séculos.
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É por isso que as referências são essenciais. Umas são explícitas, conhecidas e assumidas. Outras são implícitas, escondem-se por detrás da nossa memória, dentro do nosso conhecimento e à volta da nossa experiência ou do que julgamos ser a nossa experiência. Mesmo esta, frequentemente traidora, é muitas vezes a aprendizagem da experiência dos outros. Quantas vezes não julgamos sinceramente estar a ser originais e não nos limitamos a repetir o que assimilámos? Por isso a crítica e o debate são essenciais à honestidade e ao rigor.
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As referências são muitas vezes o resultado de um acto de liberdade. A escolha de referências é fruto de uma selecção e de uma aprendizagem. Por isso podem ser contraditórias. Na Sociologia, escolhi por exemplo Tocqueville, Marx, Weber e Aron, entre outros, reconhecendo a quase absoluta incompatibilidade entre eles. Cada um trouxe-me algo, a síntese, se é que existe uma, é minha. Terei sido inteiramente livre nas minhas escolhas? Não terei já sofrido influências e condicionamento? A minha resposta é ambiciosa: a liberdade reside na capacidade de escolha de influências. Por isso falo de referências, não de mestres, patrões, mentores ou ídolos.
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Na Fotografia, os nomes que povoam a minha memória são August Sander, Stieglitz, Steichen, Eugene Smith, Walker Evans, Dorothea Lange, Edward Weston, Cartier-Bresson, Sebastião Salgado, Castello Lopes e outros, diferentes e contraditórios. Não sigo ninguém, tento não copiar e procuro a minha maneira (e quantas vezes não consigo encontrá-la de modo nítido...). À medida que se interioriza a experiência de outros, tentamos modificá-la, dar-lhe nova vida. É o que fazemos mais ou menos livremente, com mais ou menos capacidade de inovação. Mas não conseguimos, nem queremos, afastar todas as inspirações e todas as experiências. Essas são as referências. Caso contrário, seriam o catecismo e a regra.
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Na ciência, na política, na filosofia, na música ou na pintura, a nossa liberdade mede-se pela capacidade de escolha de referências, o que implica empatia e crítica, em doses variáveis, mas elevadas. A nossa criatividade consiste na capacidade de acrescentar, modificar e variar o legado que recebemos.
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Lisboa, 2008
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As escolas, os estilos, as correntes de pensamento e as modas fazem-se por sucessivos desenvolvimentos, por acrescentos e variações ao que estava previamente adquirido. Quando ocorrem rupturas ou fundações, os seus responsáveis não estão libertos das ferramentas anteriores, da linguagem, das formas de expressão ou do saber acumulado. No século XX, artistas, pensadores e cientistas multiplicaram-se em rupturas e criação de novos “paradigmas”. Por vezes, fizeram-no de modo abrupto, com violência na destruição do que os antecedia. Mesmo assim, não dispensavam filiações de método ou de inspiração, nos antigos gregos, no Renascimento ou nas Luzes. Sócrates ou Galileu, Leonardo ou Bach, Shakespeare ou Mill inspiraram à distância de milhares de milhas e de séculos.
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É por isso que as referências são essenciais. Umas são explícitas, conhecidas e assumidas. Outras são implícitas, escondem-se por detrás da nossa memória, dentro do nosso conhecimento e à volta da nossa experiência ou do que julgamos ser a nossa experiência. Mesmo esta, frequentemente traidora, é muitas vezes a aprendizagem da experiência dos outros. Quantas vezes não julgamos sinceramente estar a ser originais e não nos limitamos a repetir o que assimilámos? Por isso a crítica e o debate são essenciais à honestidade e ao rigor.
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As referências são muitas vezes o resultado de um acto de liberdade. A escolha de referências é fruto de uma selecção e de uma aprendizagem. Por isso podem ser contraditórias. Na Sociologia, escolhi por exemplo Tocqueville, Marx, Weber e Aron, entre outros, reconhecendo a quase absoluta incompatibilidade entre eles. Cada um trouxe-me algo, a síntese, se é que existe uma, é minha. Terei sido inteiramente livre nas minhas escolhas? Não terei já sofrido influências e condicionamento? A minha resposta é ambiciosa: a liberdade reside na capacidade de escolha de influências. Por isso falo de referências, não de mestres, patrões, mentores ou ídolos.
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Na Fotografia, os nomes que povoam a minha memória são August Sander, Stieglitz, Steichen, Eugene Smith, Walker Evans, Dorothea Lange, Edward Weston, Cartier-Bresson, Sebastião Salgado, Castello Lopes e outros, diferentes e contraditórios. Não sigo ninguém, tento não copiar e procuro a minha maneira (e quantas vezes não consigo encontrá-la de modo nítido...). À medida que se interioriza a experiência de outros, tentamos modificá-la, dar-lhe nova vida. É o que fazemos mais ou menos livremente, com mais ou menos capacidade de inovação. Mas não conseguimos, nem queremos, afastar todas as inspirações e todas as experiências. Essas são as referências. Caso contrário, seriam o catecismo e a regra.
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Na ciência, na política, na filosofia, na música ou na pintura, a nossa liberdade mede-se pela capacidade de escolha de referências, o que implica empatia e crítica, em doses variáveis, mas elevadas. A nossa criatividade consiste na capacidade de acrescentar, modificar e variar o legado que recebemos.
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Lisboa, 2008
quinta-feira, 14 de agosto de 2008
Luz - Colombo
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Grande mãe! Num centro comercial, apesar do barulho, mau grado o movimento, uma mãe ajuda o filho nos trabalhos de casa. Tive curiosidade de perguntar porquê ali: longe de casa? Ela trabalhava ali? À espera de boleia do marido? Inventei mais dez razões. Acabei por preferir não saber exactamente. Só sei que, naquela tarde, admirei aquela mãe. E, já agora, a criança, cuja colaboração para os trabalhos era indispensável! (2006).domingo, 10 de agosto de 2008
A Grande obra e a Administração Pública
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EM TEMPOS RECENTES, dois casos agitaram a opinião e a imprensa: o aeroporto de Lisboa e o comboio de alta velocidade, o TGV. E ainda vão animar os debates públicos durante algum tempo. Estes casos envolvem obras públicas, grandes obras públicas. Implicam escolhas e decisões. Têm evidentes dimensões políticas, económicas, financeiras, regionais e sociais. Delas decorrem custos, vantagens e inconvenientes. Estão em causa interesses vários e muitos conflitos de interesses. É normal que assim seja. Estas duas serão, talvez, as mais caras e mais vultuosas obras públicas da história de Portugal. Além de traduzirem um enorme esforço da população presente, um grande contributo da engenharia e da técnica em geral, constituem uma condicionante do desenvolvimento futuro da sociedade e do país. De estranhar seria que projectos desta amplitude não desencadeassem discussões vivas.
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Como me parece evidente, as decisões finais devem ser políticas. Não se imaginam empreendimentos desta natureza decididos apenas na óptica técnica. O problema, entre nós, é que muitas vezes a decisão política não é tecnicamente informada, não repousa sobre bases sólidas, não decorre de estudos sérios com bases objectivas e científicas. A escolha não é entre “política” e “técnica”, é entre “tecnicamente fundamentada” e “sem fundamentos técnicos”. É por exemplo imaginável que se tome uma decisão que não seja economicamente mais barata ou tecnicamente mais recomendável, mas que social e politicamente tenha argumentos de peso. Desde que não seja um disparate técnico, evidentemente.
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Antes destes casos, outras obras tinham comovido a opinião e a imprensa. O Centro Cultural de Lisboa, a EXPO de Lisboa, as pontes sobre o Tejo, as obras do Terreiro do Paço, a Casa da Música no Porto, a ponte Europa em Coimbra, o Eixo Norte-sul em Lisboa e outras. Igualmente discutível e importante foi um programa lançado pelo governo há vários anos e que condicionava o desenvolvimento ou a requalificação urbana de muitas cidades portuguesas, era o PÓLIS.
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Também aqui, em todos estes casos, estamos perante obras públicas, com todos os interesses envolvidos, debates, conflitos e escolhas políticas inerentes a estes processos. Tudo normal. Com algo mais de comum a várias destas obras: os atrasos na realização, o crescimento ou a “espiral de custos”, os trabalhos a mais, as indecisões, os graves incómodos causados à população, etc. Nalguns destes exemplos, por acréscimo, as nuvens de corrupção surgiram no horizonte. Houve dúvidas sobre os concursos, sobre os custos derivados de incidentes ou de mau planeamento, sobre os preços finais das empreitadas, sobre as verdadeiras causas dos atrasos, sobre as escolhas de empresas e de grupos financiadores...
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Um outro dossier importante, envolvendo obras públicas relevantes, é o dos bairros sociais, geralmente de iniciativa camarária, com ou sem a participação de empresas, proprietários e promotores privados. Nestes casos, as discussões foram semelhantes a todas as outras. Mas com diferenças específicas. É o caso das adjudicações que tinham regimes especiais. E o de uma lei do Parlamento que isentou as câmaras de procedimentos normais e amnistiou os autarcas que tinham cometido irregularidades de acordo com as leis previamente existentes.
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Com estas breves referências, quero simplesmente assinalar a actualidade das questões envolvendo obras públicas, grandes obras do Estado. As discussões têm vários temas centrais. A preparação das decisões em todas as suas vertentes, a começar pelas implicações sociais e a longo prazo. A adequação das decisões. A competência informada das escolhas. A utilidade, a estratégia e o planeamento da obra. A informação do público. A durabilidade e a qualidade dos materiais. A honestidade dos processos.
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Ora, podemos verificar que, pelo teor dos debates recentes e pelos incidentes relativos a outras obras, as discussões públicas, além de terem razão de ser pela importância do que está em causa, decorrem ainda do facto de, em Portugal, os processos de decisão não serem aparentemente informados, públicos e competentes. Assim como da falta de esclarecimento dos interessados. Ou, finalmente, da fenómenos aberrantes ligados a estes projectos ou a este tipo de obras.
Exemplos destes últimos são os custos excessivos, quando comparados com os orçamentados. Os atrasos na duração das obras, muitas vezes longe de qualquer margem de imponderabilidade. A má qualidade e o curto prazo de vida de alguns empreendimentos públicos que, poucos anos volvidos, já necessitam de reabilitação (quando esta é possível...). E a desonestidade de certos procedimentos, o que põe em causa o interesse geral e o bem comum, assim como a igualdade de oportunidades para os vários interessados.
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Não creio estar a revelar nada de sensacional: as obras públicas são, em Portugal, tema de grande controvérsia. Das estradas às barragens, dos monumentos aos bairros sociais, das pontes aos aeroportos, do caminho-de-ferro aos portos, todas estas decisões envolvem polémica excessiva. Estou convencido de que isso resulta de várias causas. Da carga política que os governos conferem às suas obras. Da falta de experiência de processos democráticos de decisão. Da ausência de competência técnica no seio da Administração Pública. Do primado exagerado da política sobre a técnica. Das ligações excessivas do poder político aos interesses económicos e mesmo de uma relativa promiscuidade.
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É antiga a tradição das “Grandes Obras”. O seu eco e as suas realizações vêm de longe, da Mesopotâmia, do Egipto, da Grécia ou de Roma. Dos Incas ou dos Azetecas. Da Idade Média ou dos grandes impérios orientais. Até chegarmos ao século XIX, quando, com o crescimento urbano, com a indústria e todo o seu aparato tecnológico, as grandes obras se transformaram numa constante da acção das autoridades. Era o último grito da acção governativa esclarecida e progressista. A Inglaterra, a França, a Alemanha e os Estados Unidos, em meados do século XIX, são imensos estaleiros de “grandes obras” que vão moldar os tempos até aos nossos dias. Foram os tempos de afirmação do orgulho nacional, de consolidação dos Estados nacionais e da instalação dos governos e das Administrações Públicas modernas. Foram os tempos de um enorme optimismo e de uma confiança ilimitada no poder da indústria e da construção. Foram, por excelência, os tempos do “Grand Oeuvre”.
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Através da história, estas “grandes obras” tiveram múltiplos objectivos. A consolidação de um regime. A comemoração de um deus ou de um poderoso. O estabelecimento de um poder. A consagração de uma nação. A criação de uma capital, de um comércio ou de um porto. A conquista de um território. A defesa de um país. O abastecimento de um povo. A criação de emprego. E outros ainda.
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São trabalhos de grande envergadura, que ocupam gente, tempo e espaço. São obras públicas pagas pelos poderes e pelos contribuintes. São em geral obras que resultam da acção política e da vontade dos dirigentes de organizar a vida colectiva.
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Antes destes casos, outras obras tinham comovido a opinião e a imprensa. O Centro Cultural de Lisboa, a EXPO de Lisboa, as pontes sobre o Tejo, as obras do Terreiro do Paço, a Casa da Música no Porto, a ponte Europa em Coimbra, o Eixo Norte-sul em Lisboa e outras. Igualmente discutível e importante foi um programa lançado pelo governo há vários anos e que condicionava o desenvolvimento ou a requalificação urbana de muitas cidades portuguesas, era o PÓLIS.
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Também aqui, em todos estes casos, estamos perante obras públicas, com todos os interesses envolvidos, debates, conflitos e escolhas políticas inerentes a estes processos. Tudo normal. Com algo mais de comum a várias destas obras: os atrasos na realização, o crescimento ou a “espiral de custos”, os trabalhos a mais, as indecisões, os graves incómodos causados à população, etc. Nalguns destes exemplos, por acréscimo, as nuvens de corrupção surgiram no horizonte. Houve dúvidas sobre os concursos, sobre os custos derivados de incidentes ou de mau planeamento, sobre os preços finais das empreitadas, sobre as verdadeiras causas dos atrasos, sobre as escolhas de empresas e de grupos financiadores...
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Um outro dossier importante, envolvendo obras públicas relevantes, é o dos bairros sociais, geralmente de iniciativa camarária, com ou sem a participação de empresas, proprietários e promotores privados. Nestes casos, as discussões foram semelhantes a todas as outras. Mas com diferenças específicas. É o caso das adjudicações que tinham regimes especiais. E o de uma lei do Parlamento que isentou as câmaras de procedimentos normais e amnistiou os autarcas que tinham cometido irregularidades de acordo com as leis previamente existentes.
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Com estas breves referências, quero simplesmente assinalar a actualidade das questões envolvendo obras públicas, grandes obras do Estado. As discussões têm vários temas centrais. A preparação das decisões em todas as suas vertentes, a começar pelas implicações sociais e a longo prazo. A adequação das decisões. A competência informada das escolhas. A utilidade, a estratégia e o planeamento da obra. A informação do público. A durabilidade e a qualidade dos materiais. A honestidade dos processos.
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Ora, podemos verificar que, pelo teor dos debates recentes e pelos incidentes relativos a outras obras, as discussões públicas, além de terem razão de ser pela importância do que está em causa, decorrem ainda do facto de, em Portugal, os processos de decisão não serem aparentemente informados, públicos e competentes. Assim como da falta de esclarecimento dos interessados. Ou, finalmente, da fenómenos aberrantes ligados a estes projectos ou a este tipo de obras.
Exemplos destes últimos são os custos excessivos, quando comparados com os orçamentados. Os atrasos na duração das obras, muitas vezes longe de qualquer margem de imponderabilidade. A má qualidade e o curto prazo de vida de alguns empreendimentos públicos que, poucos anos volvidos, já necessitam de reabilitação (quando esta é possível...). E a desonestidade de certos procedimentos, o que põe em causa o interesse geral e o bem comum, assim como a igualdade de oportunidades para os vários interessados.
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Não creio estar a revelar nada de sensacional: as obras públicas são, em Portugal, tema de grande controvérsia. Das estradas às barragens, dos monumentos aos bairros sociais, das pontes aos aeroportos, do caminho-de-ferro aos portos, todas estas decisões envolvem polémica excessiva. Estou convencido de que isso resulta de várias causas. Da carga política que os governos conferem às suas obras. Da falta de experiência de processos democráticos de decisão. Da ausência de competência técnica no seio da Administração Pública. Do primado exagerado da política sobre a técnica. Das ligações excessivas do poder político aos interesses económicos e mesmo de uma relativa promiscuidade.
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É antiga a tradição das “Grandes Obras”. O seu eco e as suas realizações vêm de longe, da Mesopotâmia, do Egipto, da Grécia ou de Roma. Dos Incas ou dos Azetecas. Da Idade Média ou dos grandes impérios orientais. Até chegarmos ao século XIX, quando, com o crescimento urbano, com a indústria e todo o seu aparato tecnológico, as grandes obras se transformaram numa constante da acção das autoridades. Era o último grito da acção governativa esclarecida e progressista. A Inglaterra, a França, a Alemanha e os Estados Unidos, em meados do século XIX, são imensos estaleiros de “grandes obras” que vão moldar os tempos até aos nossos dias. Foram os tempos de afirmação do orgulho nacional, de consolidação dos Estados nacionais e da instalação dos governos e das Administrações Públicas modernas. Foram os tempos de um enorme optimismo e de uma confiança ilimitada no poder da indústria e da construção. Foram, por excelência, os tempos do “Grand Oeuvre”.
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Através da história, estas “grandes obras” tiveram múltiplos objectivos. A consolidação de um regime. A comemoração de um deus ou de um poderoso. O estabelecimento de um poder. A consagração de uma nação. A criação de uma capital, de um comércio ou de um porto. A conquista de um território. A defesa de um país. O abastecimento de um povo. A criação de emprego. E outros ainda.
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São trabalhos de grande envergadura, que ocupam gente, tempo e espaço. São obras públicas pagas pelos poderes e pelos contribuintes. São em geral obras que resultam da acção política e da vontade dos dirigentes de organizar a vida colectiva.
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São muitas vezes obras úteis e necessárias. Outras vezes não. Mas são sempre obras a que os poderosos conferem elevado estatuto de propaganda. Com essas obras, pretende-se melhorar a vida dos cidadãos, mas também “ficar na história”, atávico desejo de soberanos e dirigentes. Por isso há expressões consagradas. Como as “Obras faraónicas” ou os “Elefantes brancos”. E os belgas têm mesmo uma tradição que designam de “GTI”, os “Grands Travaux Inutiles”. É possível consultar nas enciclopédias exemplos e listas destes “grandes trabalhos inúteis” feitos em diversos países e que incluem aeroportos sem movimento, túneis sem saída, sedes de governo desocupadas, barragens sem água ou desaproveitadas, auto-estradas sem destino e colossais estaleiros inacabados. Mas também obras que acabaram por ser utilizadas, de uma maneira ou outra, mas que se revelaram excessivas nos custos e nos esforços.
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As grandes obras não são sobretudo inúteis, deve reconhecer-se. Mas há qualquer coisa de gigantesco, de projecção exibicionista, de propaganda e de desejo de omnipotência por parte daqueles que sonham com a sua realização e que as levam a cabo. As grandes obras de Napoleão III e a nova Paris dos finais do século XIX eram uma afirmação desse tipo. As grandes obras ligadas às Exposições internacionais e universais, desde meados do século XIX, são igualmente uma afirmação de poder e império. Os grandes canais do Suez e do Panamá, para além da utilidade evidente, tinham essa dimensão assertiva e, aliás, impressionaram o mundo! O Túnel da Mancha, de finanças e economia mais que duvidosas, entra nessa categoria de obras. Como a cidade capital de Brasília. E como, recentemente, “Les Grands Travaux” de François Mitterrand, que não se coibiu de restaurar, e assumir como republicana, essa tradição imperial. No seu plano de “grands travaux”, constavam um arco de triunfo, uma biblioteca nacional, uma ópera, uma cidade das ciências, vários museus, ministérios, palácios e pontes.
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Em Portugal, tudo é um pouco mais modesto, mas as “Obras Públicas” do Estado Novo tinham estatuto mítico, com especial lugar para os Palácios da Justiça, as pontes e as barragens. E a democracia reavivou esse valor: o Centro Cultural de Belém, a EXPO e o Parque das Nações, a ponte Vasco da Gama e a Casa da Música ficam bem nessa tradição.
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As discussões recentes, nas quais avultam, como disse, o aeroporto de Lisboa e o comboio de alta velocidade, revelam a falta de preparação das decisões, mas sobretudo o seu lado secreto, a sua dimensão despótica e a sua afirmação orgulhosa e ciumenta. Noto, à margem, que nestes casos do aeroporto e do comboio, o governo garante que todos os estudos foram feitos e que a decisão é firme e sólida, mas não só tais estudos não foram conhecidos a tempo, como não é do conhecimento público que se tenham feito estudos de previsão e de implicações sociais. Se estudos existem, são técnicos, económicos e financeiros, não sociais, apesar de terem sérias implicações na sociedade e nos comportamentos.
São muitas vezes obras úteis e necessárias. Outras vezes não. Mas são sempre obras a que os poderosos conferem elevado estatuto de propaganda. Com essas obras, pretende-se melhorar a vida dos cidadãos, mas também “ficar na história”, atávico desejo de soberanos e dirigentes. Por isso há expressões consagradas. Como as “Obras faraónicas” ou os “Elefantes brancos”. E os belgas têm mesmo uma tradição que designam de “GTI”, os “Grands Travaux Inutiles”. É possível consultar nas enciclopédias exemplos e listas destes “grandes trabalhos inúteis” feitos em diversos países e que incluem aeroportos sem movimento, túneis sem saída, sedes de governo desocupadas, barragens sem água ou desaproveitadas, auto-estradas sem destino e colossais estaleiros inacabados. Mas também obras que acabaram por ser utilizadas, de uma maneira ou outra, mas que se revelaram excessivas nos custos e nos esforços.
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As grandes obras não são sobretudo inúteis, deve reconhecer-se. Mas há qualquer coisa de gigantesco, de projecção exibicionista, de propaganda e de desejo de omnipotência por parte daqueles que sonham com a sua realização e que as levam a cabo. As grandes obras de Napoleão III e a nova Paris dos finais do século XIX eram uma afirmação desse tipo. As grandes obras ligadas às Exposições internacionais e universais, desde meados do século XIX, são igualmente uma afirmação de poder e império. Os grandes canais do Suez e do Panamá, para além da utilidade evidente, tinham essa dimensão assertiva e, aliás, impressionaram o mundo! O Túnel da Mancha, de finanças e economia mais que duvidosas, entra nessa categoria de obras. Como a cidade capital de Brasília. E como, recentemente, “Les Grands Travaux” de François Mitterrand, que não se coibiu de restaurar, e assumir como republicana, essa tradição imperial. No seu plano de “grands travaux”, constavam um arco de triunfo, uma biblioteca nacional, uma ópera, uma cidade das ciências, vários museus, ministérios, palácios e pontes.
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Em Portugal, tudo é um pouco mais modesto, mas as “Obras Públicas” do Estado Novo tinham estatuto mítico, com especial lugar para os Palácios da Justiça, as pontes e as barragens. E a democracia reavivou esse valor: o Centro Cultural de Belém, a EXPO e o Parque das Nações, a ponte Vasco da Gama e a Casa da Música ficam bem nessa tradição.
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As discussões recentes, nas quais avultam, como disse, o aeroporto de Lisboa e o comboio de alta velocidade, revelam a falta de preparação das decisões, mas sobretudo o seu lado secreto, a sua dimensão despótica e a sua afirmação orgulhosa e ciumenta. Noto, à margem, que nestes casos do aeroporto e do comboio, o governo garante que todos os estudos foram feitos e que a decisão é firme e sólida, mas não só tais estudos não foram conhecidos a tempo, como não é do conhecimento público que se tenham feito estudos de previsão e de implicações sociais. Se estudos existem, são técnicos, económicos e financeiros, não sociais, apesar de terem sérias implicações na sociedade e nos comportamentos.
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Retomando o meu argumento. No essencial, os governos preferem escolher antes de estudar e decidir antes de debater. Recorrem à política do facto consumado e a uma atitude de teimosia, como se o seu futuro estivesse dependente dessa decisão. Não percebem que associar a população, os técnicos e os interessados, em vez de os enfraquecer, aumenta o seu poder, confere-lhes prestígio e autoridade.
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As causas desta atitude são muitas e variadas. A vontade de um governo “ficar na história” é evidentemente uma razão. Como é o desejo de, através das obras, os governos prosseguirem outros objectivos colaterais, como sejam os de conquistar adeptos e eleitores, empregar mão-de-obra, melhorar estatísticas de emprego e investimento, agradar aos financiadores dos partidos ou encontrar pretextos para ir colher fundos europeus.
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Mas há outras causas. A erosão da competência técnica da Administração Pública, efectiva ao longo das últimas décadas, é uma. Outra, as relações entre o poder político e os poderes económicos que não se processam à vista dos cidadãos. O “marialvismo” partidário de que sofrem os governos também é responsável. As esperanças eleitorais que os governos depositam na realização de obras também contribuem para este comportamento. A debilidade do Parlamento, como instituição independente e de debate político, facilita este estado de coisas. Finalmente, a fragilidade da sociedade civil e das associações técnicas, profissionais e científicas ajuda os apetites dos governos. Apesar da sociedade plural, aberta e liberal em que vivemos, os governos recentes têm revelado um apetite insaciável, uma vontade crescente de dominar e controlar a vida económica e social.
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Vem a este propósito referir os novos regulamentos de certificação profissional que retiram estas competências às Ordens. É criada uma agência governamental que será encarregada disso. Quer dizer, o acesso à profissão e à certificação de cursos passa a ficar regulado pelas instituições políticas e administrativas, estatais. As sociedades profissionais, técnicas e científicas, são retiradas do circuito. Estas não são boas notícias.
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O Estado deixou nascer e proliferar o número de cursos superiores, universitários e politécnicos, de toda a espécie, uma espécie de multiplicação metastática de que o governo é responsável. Mais ainda, que o governo estimulou, dado que encontrava aqui uma maneira fácil de resolver outros problemas. Os estabelecimentos públicos não tinham capacidade suficiente para acolher toda a procura. O governo desejava ver as estatísticas do desemprego jovem mais brandas. Esta era uma maneira de ir buscar fundos europeus para a formação. Como era um modo de incentivar e apoiar a iniciativa privada na área do ensino superior e da formação. Não se pode dizer que eram as melhores razões.
Retomando o meu argumento. No essencial, os governos preferem escolher antes de estudar e decidir antes de debater. Recorrem à política do facto consumado e a uma atitude de teimosia, como se o seu futuro estivesse dependente dessa decisão. Não percebem que associar a população, os técnicos e os interessados, em vez de os enfraquecer, aumenta o seu poder, confere-lhes prestígio e autoridade.
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As causas desta atitude são muitas e variadas. A vontade de um governo “ficar na história” é evidentemente uma razão. Como é o desejo de, através das obras, os governos prosseguirem outros objectivos colaterais, como sejam os de conquistar adeptos e eleitores, empregar mão-de-obra, melhorar estatísticas de emprego e investimento, agradar aos financiadores dos partidos ou encontrar pretextos para ir colher fundos europeus.
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Mas há outras causas. A erosão da competência técnica da Administração Pública, efectiva ao longo das últimas décadas, é uma. Outra, as relações entre o poder político e os poderes económicos que não se processam à vista dos cidadãos. O “marialvismo” partidário de que sofrem os governos também é responsável. As esperanças eleitorais que os governos depositam na realização de obras também contribuem para este comportamento. A debilidade do Parlamento, como instituição independente e de debate político, facilita este estado de coisas. Finalmente, a fragilidade da sociedade civil e das associações técnicas, profissionais e científicas ajuda os apetites dos governos. Apesar da sociedade plural, aberta e liberal em que vivemos, os governos recentes têm revelado um apetite insaciável, uma vontade crescente de dominar e controlar a vida económica e social.
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Vem a este propósito referir os novos regulamentos de certificação profissional que retiram estas competências às Ordens. É criada uma agência governamental que será encarregada disso. Quer dizer, o acesso à profissão e à certificação de cursos passa a ficar regulado pelas instituições políticas e administrativas, estatais. As sociedades profissionais, técnicas e científicas, são retiradas do circuito. Estas não são boas notícias.
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O Estado deixou nascer e proliferar o número de cursos superiores, universitários e politécnicos, de toda a espécie, uma espécie de multiplicação metastática de que o governo é responsável. Mais ainda, que o governo estimulou, dado que encontrava aqui uma maneira fácil de resolver outros problemas. Os estabelecimentos públicos não tinham capacidade suficiente para acolher toda a procura. O governo desejava ver as estatísticas do desemprego jovem mais brandas. Esta era uma maneira de ir buscar fundos europeus para a formação. Como era um modo de incentivar e apoiar a iniciativa privada na área do ensino superior e da formação. Não se pode dizer que eram as melhores razões.
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Nalgumas áreas disciplinares, tanto nas engenharias como em certos campos das humanidades (relações públicas, comunicação social, recursos humanos, gestão) e das técnicas sanitárias, apareceram centenas de cursos por todo o país, cada um com uma designação mais estapafúrdia ou mais especializada, na tentativa de se encontrarem “nichos” de mercado. Todo este crescimento foi, a maioria das vezes, feito sem atenção à qualidade do ensino, ao rigor da formação e à capacidade técnica e científica dos docentes e formadores.
Nalgumas áreas disciplinares, tanto nas engenharias como em certos campos das humanidades (relações públicas, comunicação social, recursos humanos, gestão) e das técnicas sanitárias, apareceram centenas de cursos por todo o país, cada um com uma designação mais estapafúrdia ou mais especializada, na tentativa de se encontrarem “nichos” de mercado. Todo este crescimento foi, a maioria das vezes, feito sem atenção à qualidade do ensino, ao rigor da formação e à capacidade técnica e científica dos docentes e formadores.
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Muito depressa se verificou que a nova situação comportava graves defeitos e riscos. Em muitos casos, a preparação técnica e científica dos diplomados deixava muito a desejar. Nem a academia, nem a economia e os empregadores, nem as comunidades técnicas, científicas e profissionais se reconheciam nestes novos cursos e nestes novos especialistas. Haveria talvez excepções, com certeza, mas o panorama geral era preocupante.
Muito depressa se verificou que a nova situação comportava graves defeitos e riscos. Em muitos casos, a preparação técnica e científica dos diplomados deixava muito a desejar. Nem a academia, nem a economia e os empregadores, nem as comunidades técnicas, científicas e profissionais se reconheciam nestes novos cursos e nestes novos especialistas. Haveria talvez excepções, com certeza, mas o panorama geral era preocupante.
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Assim surgiram iniciativas e pressões para encontrar processos de certificação profissional. Havia tradições, concretizadas nos famosos exames de admissão às Ordens, mas não eram suficientes, nem sobretudo contemplavam a imperiosa necessidade de informar o utente, o cliente ou o consumidor, como se quiser. Algumas Ordens, a começar pela dos Engenheiros, criaram um mecanismo de certificação de cursos. Em vez de esperar pelos diplomados de boa ou má qualidade, este processo de reconhecimento ou certificação dava a conhecer, desde o momento da candidatura por parte do estudante, do valor conferido aos vários cursos e às várias instituições.
Assim surgiram iniciativas e pressões para encontrar processos de certificação profissional. Havia tradições, concretizadas nos famosos exames de admissão às Ordens, mas não eram suficientes, nem sobretudo contemplavam a imperiosa necessidade de informar o utente, o cliente ou o consumidor, como se quiser. Algumas Ordens, a começar pela dos Engenheiros, criaram um mecanismo de certificação de cursos. Em vez de esperar pelos diplomados de boa ou má qualidade, este processo de reconhecimento ou certificação dava a conhecer, desde o momento da candidatura por parte do estudante, do valor conferido aos vários cursos e às várias instituições.
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Foi uma inovação importante e interessante. Esperava-se que este processo se alargasse a todas as áreas de formação superior e de qualificação profissional. Tratava-se de um mecanismo de controlo técnico que protegia os candidatos, defendia os padrões técnicos de uma profissão e preservava os critérios de exigência. E poderia ter mesmo mais uma vantagem de valor incalculável: era um incentivo ao melhoramento de estabelecimentos e de cursos de menor qualidade que, excluídos da certificação ou do reconhecimento prévio, tinham de “fazer pela vida” e elevar os seus padrões de funcionamento.
Foi uma inovação importante e interessante. Esperava-se que este processo se alargasse a todas as áreas de formação superior e de qualificação profissional. Tratava-se de um mecanismo de controlo técnico que protegia os candidatos, defendia os padrões técnicos de uma profissão e preservava os critérios de exigência. E poderia ter mesmo mais uma vantagem de valor incalculável: era um incentivo ao melhoramento de estabelecimentos e de cursos de menor qualidade que, excluídos da certificação ou do reconhecimento prévio, tinham de “fazer pela vida” e elevar os seus padrões de funcionamento.
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Poderia haver riscos de poder corporativo, de “closed shop” ou de favoritismo. Com certeza. Mas, em democracia e com liberdade de informação, esse risco era bem menor do que aqueles que decorrem da certificação estatal.
Poderia haver riscos de poder corporativo, de “closed shop” ou de favoritismo. Com certeza. Mas, em democracia e com liberdade de informação, esse risco era bem menor do que aqueles que decorrem da certificação estatal.
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Esta, com efeito, é perigosa. Não tanto pela segregação política (que pode existir), mas sobretudo pela tendência laxista e demagógica que se detecta na actuação das instâncias políticas e administrativas. Assim como pela incompetência técnica de que os organismos estatais, nestas áreas, dão sobejas provas. O poder político e estatal usa critérios, para a sua acção, que ultrapassam em muito as fronteiras da avaliação técnica e científica. O poder político e administrativo tem de ter em conta regras próprias, como sejam a gratificação eleitoral, o pagamento de promessas políticas, os equilíbrios regionais e políticos e os compromissos de vária ordem que escapam aos princípios e às regras técnicas e científicas.
Esta, com efeito, é perigosa. Não tanto pela segregação política (que pode existir), mas sobretudo pela tendência laxista e demagógica que se detecta na actuação das instâncias políticas e administrativas. Assim como pela incompetência técnica de que os organismos estatais, nestas áreas, dão sobejas provas. O poder político e estatal usa critérios, para a sua acção, que ultrapassam em muito as fronteiras da avaliação técnica e científica. O poder político e administrativo tem de ter em conta regras próprias, como sejam a gratificação eleitoral, o pagamento de promessas políticas, os equilíbrios regionais e políticos e os compromissos de vária ordem que escapam aos princípios e às regras técnicas e científicas.
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E não se pense que se trata, da minha parte, de um pré-conceito ou preconceito contra o Estado e o poder político. Este tem as suas áreas de competência, assim como regras e critérios de acção, que não incluem, em primeiro lugar, o rigor científico ou a qualidade técnica. A melhor prova que temos e que nos deveria fazer reflectir seriamente é justamente a proliferação de cursos e estabelecimentos de qualidade medíocre: esta só foi possível graças à cumplicidade activa e ao estímulo do governo e da administração. Note-se que não se tratou de silêncio ou inércia, mas sim de apoio e envolvimento activo. Nenhum estabelecimento e nenhum curso poderiam ter nascido sem autorização e reconhecimento do governo. O seu currículo recente faz do Estado e do governo entidades incompetentes (e mesmo perniciosas) para avaliar ou certificar cursos, formações e qualidade técnica ou científica.
E não se pense que se trata, da minha parte, de um pré-conceito ou preconceito contra o Estado e o poder político. Este tem as suas áreas de competência, assim como regras e critérios de acção, que não incluem, em primeiro lugar, o rigor científico ou a qualidade técnica. A melhor prova que temos e que nos deveria fazer reflectir seriamente é justamente a proliferação de cursos e estabelecimentos de qualidade medíocre: esta só foi possível graças à cumplicidade activa e ao estímulo do governo e da administração. Note-se que não se tratou de silêncio ou inércia, mas sim de apoio e envolvimento activo. Nenhum estabelecimento e nenhum curso poderiam ter nascido sem autorização e reconhecimento do governo. O seu currículo recente faz do Estado e do governo entidades incompetentes (e mesmo perniciosas) para avaliar ou certificar cursos, formações e qualidade técnica ou científica.
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Talvez não seja de estranhar, dadas as tendências conhecidas e recentes. Mesmo previsível, não deixa de ser condenável. Há cerca de dois anos, o governo aprovou, quase sem oposição, a famigerada lei de nomeações de altos cargos da função pública. Com essa lei, tornou legal a prática furtiva anterior que consistia na nomeação de amigos e clientes para os postos dirigentes da Administração. Esta lei fez o impensável: legalizou os “jobs for the boys”. Os responsáveis pela Administração passaram a ter os seus mandatos coincidentes com os das legislaturas. Têm de ser legitimados pelo eleitorado. Vêem os seus mandatos cessar com as eleições. Ligam as suas funções ao ciclo eleitoral dos deputados e dos ministros. É-lhes exigida “confiança política” e não, em primeiro lugar, currículo técnico e científico, experiência administrativa, muito menos isenção e independência, que deveriam ser os seus primeiros atributos.
Talvez não seja de estranhar, dadas as tendências conhecidas e recentes. Mesmo previsível, não deixa de ser condenável. Há cerca de dois anos, o governo aprovou, quase sem oposição, a famigerada lei de nomeações de altos cargos da função pública. Com essa lei, tornou legal a prática furtiva anterior que consistia na nomeação de amigos e clientes para os postos dirigentes da Administração. Esta lei fez o impensável: legalizou os “jobs for the boys”. Os responsáveis pela Administração passaram a ter os seus mandatos coincidentes com os das legislaturas. Têm de ser legitimados pelo eleitorado. Vêem os seus mandatos cessar com as eleições. Ligam as suas funções ao ciclo eleitoral dos deputados e dos ministros. É-lhes exigida “confiança política” e não, em primeiro lugar, currículo técnico e científico, experiência administrativa, muito menos isenção e independência, que deveriam ser os seus primeiros atributos.
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As “grades obras públicas” constituem um bom exemplo da evolução actual da nossa colectividade e da Administração Pública. Nesta evolução, sublinhei algumas tendências que me parecem negativas. Poder político a mais. Falta de preparação das decisões. Secretismo nos trabalhos prévios. Relações pouco claras ou mesmo duvidosas entre os políticos (nacionais ou autárquicos) e os interesses económicos e financeiros. Voracidade crescente do governo que pretende alargar e consolidar o seu poder de controlo da sociedade, da técnica, da ciência e da economia. E ausência de poderes independentes, alternativos, de equilíbrio e de ponderação que tornam melhores as decisões, mais bem aceites e mais competentes. Só me resta dizer, para concluir, que vale a pena estarmos atentos. E vale a pena contrariar esta espécie de despotismo crescente.
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Dia Nacional do Engenheiro - Ordem dos Engenheiros
Figueira da Foz, 24 de Novembro de 2007
As “grades obras públicas” constituem um bom exemplo da evolução actual da nossa colectividade e da Administração Pública. Nesta evolução, sublinhei algumas tendências que me parecem negativas. Poder político a mais. Falta de preparação das decisões. Secretismo nos trabalhos prévios. Relações pouco claras ou mesmo duvidosas entre os políticos (nacionais ou autárquicos) e os interesses económicos e financeiros. Voracidade crescente do governo que pretende alargar e consolidar o seu poder de controlo da sociedade, da técnica, da ciência e da economia. E ausência de poderes independentes, alternativos, de equilíbrio e de ponderação que tornam melhores as decisões, mais bem aceites e mais competentes. Só me resta dizer, para concluir, que vale a pena estarmos atentos. E vale a pena contrariar esta espécie de despotismo crescente.
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Dia Nacional do Engenheiro - Ordem dos Engenheiros
Figueira da Foz, 24 de Novembro de 2007
quinta-feira, 7 de agosto de 2008
Luz - Vale do Douro, perto do Cachão da Valeira
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Já quase não há vinha, é quase tudo mortório e olival. Estes terrenos, nesta zona, são muito duros para cultivar vinha. (2008).
quinta-feira, 31 de julho de 2008
Luz - Araucária - S. Miguel
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Vista através de uma janela de casa de Ponta Delgada, São Miguel, Açores. As araucárias são belas árvores vindas das Américas. Há várias espécies. Esta é, creio, uma araucária chilena. Em São Miguel, há vários jardins absolutamente fantásticos com numerosas espécies de árvores, arbustos e plantas de todo o mundo. Desde o século XIX que os micaelenses cultivam um muito especial fervor pelas árvores. Três nomes se distinguem desde então, pelos jardins que plantaram e pelas espécies exóticas que mandaram vir de todos os continentes: José do Canto (esta imagem foi feita no jardim dele e da casa dos seus descendentes), Jácome Correia e António Borges. Eram amigos, mas também competiam entre eles para ver quem tinha o melhor jardim ou a espécie mais rara. Todos os seus jardins estão ainda lá, bem arranjados, bem mantidos e visitados por toda a gente. Nesse aspecto, os açorianos são bem melhores do que os portugueses do continente! (1992).
quinta-feira, 24 de julho de 2008
Luz - Ciprestes - Tomar
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Clicar na imagem para a ampliarOs portugueses não calham bem com os ciprestes. Esta maravilhosa árvore foi especializada em cemitérios. São raros os que não habitam silenciosamente os locais ditos do “eterno repouso”. De vez em quando, no Douro, na Estremadura, no Ribatejo, encontram-se uns ciprestes, poucos ou muitos juntos, sem que se saiba como lá foram parar. Aqui, perto de Tomar, uma parte da estrada é bordejada por eles. Benditas mãos que para lá os trouxeram! (1992).
quinta-feira, 17 de julho de 2008
Luz - Na famosa quinta do Vale Meão, no Pocinho
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Clicar na imagem para a ampliarOs terrenos estão preparados para receber vinhas novas. De muito pequena dimensão, as novas plantas mal se distinguem. Já foram colocados os “esteios”, antigamente em pedras de ardósia, hoje em madeira preparada, que permitem melhor a mecanização, com menor destruição. As novas vinhas já estão aramadas. No Douro, cada linha de esteios aramados chama-se “bardo”. Esta quinta do Vale Meão foi mandada plantar pela Ferreirinha, a Dona Antónia, nos anos oitenta do século XIX. Durante algumas décadas, entre 1960 e 1990, era daqui que vinha o principal vinho para o Barca Velha. Hoje, nas mãos da família Olazabal, produz vinho com o seu próprio nome. Os Olazabal são descendentes directos da Ferreirinha. (2007).
quinta-feira, 10 de julho de 2008
Luz - Cornwall
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Passeava na Cornualha, há vinte anos. De repente, à beira mar, esta longa fila de pescadores. O mais estranho é que, apesar do emprenho e do esforço dos pescadores (fazia frio, chovia de vez em quando), não havia um único peixe pescado. Estive por ali cerca de uma hora, ninguém saiu, ninguém pescou. (1986).
Passeava na Cornualha, há vinte anos. De repente, à beira mar, esta longa fila de pescadores. O mais estranho é que, apesar do emprenho e do esforço dos pescadores (fazia frio, chovia de vez em quando), não havia um único peixe pescado. Estive por ali cerca de uma hora, ninguém saiu, ninguém pescou. (1986).
domingo, 6 de julho de 2008
Eurico Figueiredo, “Guerrilheiro sentimental”
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"Com saudades do exílio”! Foi com esta dedicatória que o Eurico me ofereceu um exemplar do seu livro. Devo dizer, fiquei minutos parado a olhar para esta frase. Parece absurdo. Ou mentira. Ou romantismo barato. Não é uma coisa, nem outra, nem aqueloutra. É muito sério. Também já me aconteceu ter saudades do exílio!
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Esta frase obriga-nos a duas reflexões. A primeira: não estamos bem aqui; ou não estamos sempre bem; ou não estamos tão bem quanto imaginávamos há trinta anos. É, em parte, natural. Nunca estamos tão bem quanto gostaríamos. Mas também quer dizer que o nosso país não está bem. Depois de grandes mudanças, de desenvolvimentos notáveis, de melhoramentos indiscutíveis, vimos descobrindo, há dez ou quinze anos, que há esgotamento de energias, que persistem males na sociedade difíceis de resolver, como a demagogia, a corrupção, ou, simplesmente, noutro registo, o atraso e a ignorância.
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A segunda reflexão: os tempos de exílio, apesar das saudades, apesar das dificuldades, foram bons. Talvez não para toda a gente. Mas, para muitos, foram anos bons. Para mim, foram. Para o Eurico, foram. É verdade que nos sentíamos sempre diminuídos na condição de estrangeiro ou imigrante, nunca éramos realmente iguais em tudo a todos. Mas aprendemos, vimos, falámos e pensámos como nunca o teríamos feito em Portugal. Se eu voltasse atrás, sei hoje que poderia alterar ou trocar muito ou algo do que vivi. Mas o exílio, não! A ponto de ainda hoje, nos piores momentos da nossa vida colectiva, eu pensar e dizer que “se fosse mais novo, voltava a partir”! Pergunto-me se o Eurico não pensa a mesma coisa de vez em quando.
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Estas histórias do Eurico, aquelas que são mais propriamente sobre exilados políticos, têm um enorme mérito: não mostram o exilado como vítima nem como herói! Houve vítimas, houve pequenos heróis, por uma ou outra razão. Mas o pior, nestas e noutras coisas, é depois tirar partido, tentar ganhar reputações póstumas ou posteriores. Houve vítimas da repressão, da tortura e da prisão. Também houve vítimas da exploração e da xenofobia. Mas, falar disso tudo, mais tarde, com a intenção de se valorizar ou de obter recompensas, é detestável. Neste livro, Eurico nunca o faz. Olha para aqueles exilados políticos e emigrantes económicos com ternura e realismo, mas também com uma intensa ironia. Neles, procura a malandrice, o expediente, o acaso. Sem esquecer que a decisão de emigrar ou de se exilar tem, muitas vezes, outras circunstâncias: um erro, uma traição, um amor, a vontade de viver livre, a procura de melhor emprego ou um acaso. Naqueles tempos, para mim, normal era querer fugir, querer viver, querer conhecer. Estranho era ficar resignado, deixar-se abafar, contentar-se com a tristeza reinante.
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Este livro parece ser de memórias e de autobiografia, mas não é uma coisa nem outra. Apesar de sabermos que estão aqui memórias e pedaços de biografia.
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Estas histórias não são verdadeiras memórias, não tem nomes verdadeiros, nem de pessoas, nem de sítios. Não se sabe o que é ficção, especulação, real ou arranjado. De qualquer maneira, para algumas pessoas, são memórias “à la clef”, com uma espécie de código críptico só para uns. Como se fazia por vezes no século XIX. E raramente hoje. Algumas destas histórias, conheço-as no essencial, consigo colocar nomes e sítios onde estão os disfarces.
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A este propósito, não podemos deixar de, uma vez mais, nos queixarmos desta nossa sina que é a de termos poucas memórias, poucas biografias e poucas recordações ou autobiografias. É grande a pobreza de recordações em Portugal. Sinceramente, nunca soube exactamente porquê. Os portugueses têm vergonha do que foram? Mentiram e não querem reconhecer? Guardam os segredos e as vidas para a confissão católica? Têm medo de ferir outros? Não querem desgostar? Esperam sempre alguma coisa de outros?
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Sobre algumas das situações a que Eurico alude aqui (emigração, exílio, clandestinidade e guerra colonial), existe uma literatura paupérrima. Só agora, começaram a aparecer alguns livros sobre a guerra do Ultramar. Sobre a vida na emigração, ainda menos. Sobre a clandestinidade, quase nada. Sobre o exílio, igualmente. Parece que os portugueses têm medo da memória!
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Quanto ao livro. Quero realçar o estilo seco, enxuto, factual, sem pieguice. Com uma dualidade surpreendente. Nos temas mais urbanos, mais cosmopolitas, Eurico escreve como um urbano, um cosmopolita. Nos temas e situações mais populares, mais rústicos, Eurico consegue trazer até nós uma linguagem rústica, antiga, sem o fetichismo de alguns escritores useiros deste método, como Aquilino. E sem a pletora de arcaísmos e coloquialismos rústicos que, para muitos escritores, é uma tentação irresistível, mas que acaba quase sempre mal. Eurico evita esse deslize com sabedoria.
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Estas são histórias de um país pobre e abafado, da vontade de partir ou da necessidade de fugir. Por causa da guerra, da polícia, da liberdade, do dinheiro, dos empregos e dos amores.
Muitos dos que queriam viver tinham de partir. Sobretudo os que queriam escapar à sua condição de pobres, de ignorantes e de submissos.
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Este material poderia ser matéria-prima para um livro neo-realista, choramingas, mas, neste caso, não é. Entre o realismo seco e factual e uma enorme ternura contida, Eurico conta as suas histórias.
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Conheci Eurico há quase sessenta anos! Tantos! Aqui mesmo, em Vila Real. Ele é mais velho. Creio, aliás, que é a primeira vez que nos encontramos de novo em Vila Real, quase 50 anos depois!
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Sempre olhei para ele como olham os mais novos: para perceber, para aprender, para eventualmente copiar. No princípio, ele não me ligava nenhuma! Era mais velho, devia achar que eu era um puto provinciano.
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Ele ia para Lisboa. Ser ele estudante na capital aumentou a minha curiosidade. Queria saber dele, mas queria saber de Lisboa, da universidade, da capital, das raparigas, da intriga e da política. Quando vinha a férias a Vila Real, procurava-o. Bebíamos copos, falávamos. Passeávamos na Avenida, quando havia Avenida! Nessa altura, já me ligava. Parece que tinha prazer em ajudar-me a abrir os olhos.
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Cedo comecei a fazer perguntas sobre a política, o comunismo, o socialismo, a democracia. Falava-me como falam os mais velhos, com o sentimento de estar a ensinar, devagar, com cuidado, mas aberto.
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Uma altura houve mesmo em que o Governador Civil me chamou ao seu escritório e me avisou: “Andas de mais com o Eurico Figueiredo! Olha que ele não é boa companhia”! Foi quanto bastou para eu ver aumentar a minha curiosidade e o acompanhar ainda mais.
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Depois, encontrei-o em Coimbra, vinha ele quase deportado de Lisboa, impedido de continuar naquela universidade. Foi um ano difícil, o de 1962 para 1963. O governo fechou a Associação Académica. Fazíamos política e resistência como podíamos. Alturas houve em que dezenas de estudantes estavam presos. Foi um ano de chumbo, mais um.
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Ao fim desse ano, fugi eu para a Suíça. Poucos anos depois, chegava ele. Primeiro em Lausana, depois em Genebra. Dias depois de ele chegar, já estava metido em mil actividades, fundou um Secretariado dos Estudantes no exílio, organizou um encontro, criou uma organização, à frente da qual lhe sucedi uns anos depois.
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Em sessenta anos, houve períodos de grande intimidade, de actividades comuns e também de distância. Curiosamente, estive duas vezes no Parlamento, mas ele não estava. Ele esteve igualmente duas vezes, mas eu não estava. Mais desencontros. Mas tenho para mim que ele faz parte da minha vida. E, para isso, não há distâncias nem separações.
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Biblioteca Municipal de Vila Real, 25 de Junho de 2008
quinta-feira, 3 de julho de 2008
Luz - Escada de xisto
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Esta escada está numa quinta perto de Valença, a caminho de São João da Pesqueira. Há muitas mais como esta, de socalco em socalco. Está em perfeitas condições. Construída à mão, com a técnica dita de “pedra seca”, sem argamassa. (1988).
domingo, 29 de junho de 2008
Pão e vinho
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AO DENUNCIAR A CNA E A CAP, o ministro Jaime Silva usou os lugares comuns habituais: acusou-as de defender interesses político-partidários! Uma de extrema-esquerda, outra conservadora. Para um ministro de um governo partidário, não é mau. Depois de levar uns açoites, corrigiu: referia-se aos dirigentes, não às associações. A diferença é, como se vê, radical. A CAP suspendeu a sua presença no conselho de concertação. O Primeiro-ministro acudiu e tomou conta das negociações a fim de conseguir assinar o acordo. Sócrates fez bem, o ministro merecia, aliás há muito tempo, o despedimento. Sócrates fez mal e deu um sinal do que poderá ser no futuro: quem se zangar com os ministros, tem como recompensa uma graduação.
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Jaime Silva é um daqueles ministros que não são políticos; um daqueles políticos de um governo socialista que não são socialistas e que não cumprem um programa partidário, mas sim um programa nacional, sem preferências políticas, sem doutrina, só para bem do país. Ainda há criaturas assim. Julga-se impoluto e pensa que os outros são parvos. Este ministro tem brilhado pela sua dedicação a Bruxelas e às políticas europeias. Vindo de lá, para lá deve voltar, um dia, com a satisfação do dever cumprido. Sabe tanto da política comum que se transformou numa espécie de embaixador da União. O que quer dizer, literalmente, um carrasco da agricultura portuguesa, assim como das pescas e da floresta. Tem motivado a ira crescente dos agricultores e dos pescadores, a quem responde com discursos processuais e incompreensíveis. Paga mal e pouco, atrasa-se e não tem orientações que não sejam as directivas europeias. É mais um na linha de executantes da política comum e que, metodicamente, vem desmantelando grande parte da agricultura, das pescas e da floresta. Faz bem em financiar as grandes empresas agrícolas, as que têm tecnologia, competência e dimensão. Faz muito mal em não olhar pelas centenas de milhares de explorações, de lavradores e suas associações e cooperativas que não têm acesso à técnica e à qualificação. Em vez de pensar que muitos destes poderiam ser formados e preparados para aproveitar os recursos, este ministro, assim como os que o antecederam, prefere arranjar uma maneira doce de os matar, de os retirar da actividade e de abandonar terras, mares, recursos e pessoas. Jaime Silva tem vindo a liquidar as hipóteses de aparecimento de novas gerações de agricultores e pescadores, mais jovens, com formação, melhores qualificações e uma visão empresarial da sua actividade.
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Desde os anos setenta, após o pedido de adesão à Comunidade Europeia, quase todos os governos concordaram em meia dúzia de linhas gerais. Era necessário obter a maior quantidade possível de fundos e ajudas. Era urgente gastar depressa esses subsídios. Como não havia fundos que chegassem, foi preciso escolher. As comunicações, especialmente as auto-estradas, as infra-estruturas em geral, a energia, certos equipamentos colectivos e alguma indústria mereceram o privilégio. Depois vieram certos sectores menos evidentes, a formação profissional (que esteve na origem de tanto desperdício!), a educação, o turismo e a cultura. Assim como os dois grandes “pacotes”, o aeroporto e o TGV. Com o andar do tempo, os apoios europeus foram-se multiplicando e diversificando, sendo cada vez mais claro que o importante era dar a muita gente e que os critérios de utilidade a prazo não eram os principais. Neste quadro, há muito tempo que se percebeu que houve uma troca: a agricultura, a floresta e as pescas pelas auto-estradas e as infra-estruturas. Este era o interesse da União Europeia e dos grandes países parceiros, não o de Portugal.
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É certo que, para a agricultura, vieram muitos milhões. A aplicação dos dispositivos da política comum dava esse resultado. Alguns desses recursos foram bem utilizados por grandes empresas modernas. Muitos foram mal utilizados, apenas com perspectiva de curto prazo, colheita após colheita, de modo errático. Mais ainda serviram para retirar pessoas da actividade agrícola e piscatória: abater barcos, fechar empresas e liquidar explorações. Percebe-se a tentação política. A União Europeia não queria mais produção agrícola, nem florestas, muito menos pesca. Os dirigentes portugueses queriam dinheiro rápido, resultados visíveis e “modernização palpável”. E ficavam perplexos perante a imensa tarefa que representava a mudança da agricultura, da floresta e das pescas, com estruturas obsoletas e populações desqualificadas e idosas distribuídas por centenas de milhares de pequenas e muito pequenas parcelas, explorações e empresas. Estas políticas conduziram ao que temos hoje: uma agricultura impotente, umas pescas insuficientes e em deterioração e uma floresta desordenada e pouco produtiva.
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Importamos a maior parte do que consumimos. Mesmo em certos casos (leite, por exemplo) em que parece termos chegado à auto-suficiência, a verdade é que tal não corresponde à realidade. Com efeito, as nossas produções de carnes, ovos e leites dependem de uma colossal importação de cereais e rações. Hoje, a nossa “balança alimentar” é gravemente deficitária. Daí não viria mal ao mundo, se tivéssemos produtos industriais e serviços para pagar as importações. Mas a verdade é que nos faltam esses produtos que permitiriam equilibrar a balança.
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Temos uma área marítima de fazer inveja. Está globalmente subaproveitada, qualquer que seja o ponto de vista: ecológico, económico, científico, energético, de navegação ou turismo. Sem falar nos portos e na construção naval. Portugal tem uma superfície florestal interessante. Tem a maior área do mundo de montado e é o maior produtor de cortiça, mas não se conhece um esforço proporcional dedicado à investigação e ao melhoramento do sobreiro, da azinheira e do sistema de montado. O mesmo pode ser dito do pinheiro, da oliveira e de outras espécies. Portugal não tem clima para a agricultura tradicional, nem para a agricultura europeia. Mas as condições naturais são favoráveis a certos tipos de cultivo, como sejam a floresta, as culturas arbustivas, as plantações permanentes (a vinha, por exemplo), certas pastagens, os prados sob montado e outras espécies, nomeadamente as que podem beneficiar dos Invernos amenos e das Primaveras temporãs. A hortofruticultura tem também, em certos casos, excelentes condições. Nestas áreas, assim como nas do regadio, da correcção de solos, da vinha, da vinificação, da investigação científica, da formação profissional e do processamento industrial, há espaço e necessidade para investimentos colossais, a longo prazo e muito produtivos, sem danificar o ambiente. O ministro Jaime Silva pensa que não. E outros antes dele. Coitados: limitam-se a dizer o que lhes mandam dizer. Em Bruxelas, por causa da política comum. Em Lisboa, por causa das estradas.
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Jaime Silva é um daqueles ministros que não são políticos; um daqueles políticos de um governo socialista que não são socialistas e que não cumprem um programa partidário, mas sim um programa nacional, sem preferências políticas, sem doutrina, só para bem do país. Ainda há criaturas assim. Julga-se impoluto e pensa que os outros são parvos. Este ministro tem brilhado pela sua dedicação a Bruxelas e às políticas europeias. Vindo de lá, para lá deve voltar, um dia, com a satisfação do dever cumprido. Sabe tanto da política comum que se transformou numa espécie de embaixador da União. O que quer dizer, literalmente, um carrasco da agricultura portuguesa, assim como das pescas e da floresta. Tem motivado a ira crescente dos agricultores e dos pescadores, a quem responde com discursos processuais e incompreensíveis. Paga mal e pouco, atrasa-se e não tem orientações que não sejam as directivas europeias. É mais um na linha de executantes da política comum e que, metodicamente, vem desmantelando grande parte da agricultura, das pescas e da floresta. Faz bem em financiar as grandes empresas agrícolas, as que têm tecnologia, competência e dimensão. Faz muito mal em não olhar pelas centenas de milhares de explorações, de lavradores e suas associações e cooperativas que não têm acesso à técnica e à qualificação. Em vez de pensar que muitos destes poderiam ser formados e preparados para aproveitar os recursos, este ministro, assim como os que o antecederam, prefere arranjar uma maneira doce de os matar, de os retirar da actividade e de abandonar terras, mares, recursos e pessoas. Jaime Silva tem vindo a liquidar as hipóteses de aparecimento de novas gerações de agricultores e pescadores, mais jovens, com formação, melhores qualificações e uma visão empresarial da sua actividade.
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Desde os anos setenta, após o pedido de adesão à Comunidade Europeia, quase todos os governos concordaram em meia dúzia de linhas gerais. Era necessário obter a maior quantidade possível de fundos e ajudas. Era urgente gastar depressa esses subsídios. Como não havia fundos que chegassem, foi preciso escolher. As comunicações, especialmente as auto-estradas, as infra-estruturas em geral, a energia, certos equipamentos colectivos e alguma indústria mereceram o privilégio. Depois vieram certos sectores menos evidentes, a formação profissional (que esteve na origem de tanto desperdício!), a educação, o turismo e a cultura. Assim como os dois grandes “pacotes”, o aeroporto e o TGV. Com o andar do tempo, os apoios europeus foram-se multiplicando e diversificando, sendo cada vez mais claro que o importante era dar a muita gente e que os critérios de utilidade a prazo não eram os principais. Neste quadro, há muito tempo que se percebeu que houve uma troca: a agricultura, a floresta e as pescas pelas auto-estradas e as infra-estruturas. Este era o interesse da União Europeia e dos grandes países parceiros, não o de Portugal.
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É certo que, para a agricultura, vieram muitos milhões. A aplicação dos dispositivos da política comum dava esse resultado. Alguns desses recursos foram bem utilizados por grandes empresas modernas. Muitos foram mal utilizados, apenas com perspectiva de curto prazo, colheita após colheita, de modo errático. Mais ainda serviram para retirar pessoas da actividade agrícola e piscatória: abater barcos, fechar empresas e liquidar explorações. Percebe-se a tentação política. A União Europeia não queria mais produção agrícola, nem florestas, muito menos pesca. Os dirigentes portugueses queriam dinheiro rápido, resultados visíveis e “modernização palpável”. E ficavam perplexos perante a imensa tarefa que representava a mudança da agricultura, da floresta e das pescas, com estruturas obsoletas e populações desqualificadas e idosas distribuídas por centenas de milhares de pequenas e muito pequenas parcelas, explorações e empresas. Estas políticas conduziram ao que temos hoje: uma agricultura impotente, umas pescas insuficientes e em deterioração e uma floresta desordenada e pouco produtiva.
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Importamos a maior parte do que consumimos. Mesmo em certos casos (leite, por exemplo) em que parece termos chegado à auto-suficiência, a verdade é que tal não corresponde à realidade. Com efeito, as nossas produções de carnes, ovos e leites dependem de uma colossal importação de cereais e rações. Hoje, a nossa “balança alimentar” é gravemente deficitária. Daí não viria mal ao mundo, se tivéssemos produtos industriais e serviços para pagar as importações. Mas a verdade é que nos faltam esses produtos que permitiriam equilibrar a balança.
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Temos uma área marítima de fazer inveja. Está globalmente subaproveitada, qualquer que seja o ponto de vista: ecológico, económico, científico, energético, de navegação ou turismo. Sem falar nos portos e na construção naval. Portugal tem uma superfície florestal interessante. Tem a maior área do mundo de montado e é o maior produtor de cortiça, mas não se conhece um esforço proporcional dedicado à investigação e ao melhoramento do sobreiro, da azinheira e do sistema de montado. O mesmo pode ser dito do pinheiro, da oliveira e de outras espécies. Portugal não tem clima para a agricultura tradicional, nem para a agricultura europeia. Mas as condições naturais são favoráveis a certos tipos de cultivo, como sejam a floresta, as culturas arbustivas, as plantações permanentes (a vinha, por exemplo), certas pastagens, os prados sob montado e outras espécies, nomeadamente as que podem beneficiar dos Invernos amenos e das Primaveras temporãs. A hortofruticultura tem também, em certos casos, excelentes condições. Nestas áreas, assim como nas do regadio, da correcção de solos, da vinha, da vinificação, da investigação científica, da formação profissional e do processamento industrial, há espaço e necessidade para investimentos colossais, a longo prazo e muito produtivos, sem danificar o ambiente. O ministro Jaime Silva pensa que não. E outros antes dele. Coitados: limitam-se a dizer o que lhes mandam dizer. Em Bruxelas, por causa da política comum. Em Lisboa, por causa das estradas.
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«Retrato da Semana» - «Público» de 29 de Junho de 2008
Esta coluna interrompe agora por algumas semanas.
quinta-feira, 26 de junho de 2008
Luz - Espelho de água do rio Douro.
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A imagem é vista da quinta do Crasto, perto de Gouvinhas. À direita, na margem Sul do rio, vê-se parte da quinta de São Luís. À esquerda, à beira do rio, o caminho-de-ferro da linha do Douro. Esta já só está em actividade até ao Pocinho, já não segue para Barca d’Alva, muito menos para Espanha. É uma das mais belas linhas de comboio da Europa. Mas os portugueses têm esta sina: desaproveitam o que de melhor têm! (2007).
quarta-feira, 25 de junho de 2008
O estado da União
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OS PAÍSES EUROPEUS, sobretudo os grandes e com mais responsabilidades, não podem deixar-se submeter às decisões dos mais pequenos, muito menos aos resultados de um referendo de que resultou uma maioria de escassos milhares de votos. Imaginar que toda a Europa possa ficar condicionada pelos irlandeses é quase uma deficiência intelectual. Tal como imaginar que a União, de carácter federalista, se possa fazer com a unanimidade dos Estados e dos povos. A França e a Alemanha, ajudadas pelos seus clientes e arrastando atrás de si os pequenos países que não se importam de ver aumentar as suas dependências, vão pois tomar as providências necessárias para que a constituição do Tratado de Lisboa seja aprovada. No que serão ajudadas pela enorme, luxuosa e apátrida burocracia europeia. Com ou sem Irlanda. Com ou sem favores prestados e dinheiros dados aos irlandeses. Não podia deixar de ser assim. Só nos contos de fadas é que os gnomos mandam e os anões derrotam os gigantes.
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.. O referendo irlandês teve as suas virtudes. Revelou, uma vez mais, a crise europeia. Exibiu a verdadeira natureza desta União. E mostrou, sem deixar dúvidas, o caminho que esta se prepara para seguir. A reforma das instituições europeias ficará na história como um caso exemplar de esbulho de independências, de esmagamento pacífico de autonomias e de tentativa de destruição de culturas e de carácter. Toda a gente percebeu que a saga da aprovação do Tratado de Lisboa, depois de Maastricht e de Nice, tem como principal objectivo o de retirar poder aos povos e de lhes administrar as soluções das elites esclarecidas. O Tratado foi inventado para retirar aos povos a possibilidade de os discutir e aprovar. O Tratado é incompreensível? A Constituição é absurda? Tanto melhor. São documentos que, justamente, não devem ser compreendidos. E que oferecem explicações úteis para a indiferença crescente dos cidadãos. Votam em eleições e em referendo, dizem os iluminados, por razões nacionais e não por razões europeias! Votam, acrescentam, por causa da crise económica, das desigualdades, dos preços dos combustíveis, das questões laborais e da imigração. Na Irlanda, então, para cúmulo, dizem eles, o “não” foi motivado pelo aborto, pela eutanásia e pelos impostos. Tudo, asseguram, questões locais, paroquiais, nacionais, sem a importância dos reais problemas europeus. Estes argumentos, infantis e destituídos de qualquer inteligência, são repetidos candidamente por todos os servos, sobretudo juristas, da plutocracia europeia. E ninguém, entre essas luminárias, se deu ao trabalho de reflectir nas últimas eleições europeias que deram dois resultados inesquecíveis. Primeiro, uma enorme abstenção. Segundo, o facto de quase todos os que perderam essas eleições foram recompensados, directa e indirectamente, com cargos, responsabilidades e decisões nos actos que se seguiram. Chirac, Schroeder, Tony Blair e Durão Barroso, entre outros, perderam as eleições, mas, pelo jogo do federalismo, moldaram a União que se seguiu! De qualquer modo, ficámos a saber, mais uma vez: para os dirigentes europeus, o emprego, os impostos, a liberdade, a demografia, a família, o sistema de saúde, a educação, a idade de reforma, a legislação laboral e as desigualdades sociais não são questões europeias. Não são problemas relevantes!
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.. A crise, muito séria, é a do desajustamento entre as intenções e as realidades. A do abismo irreversível que se instalou entre os Estados e as classes políticas, por um lado, e os povos e as sociedades, por outro. A do desvirtuamento definitivo do, sempre equívoco, “projecto europeu”, que vai perdendo os valores, que tanto proclamou, da diversidade, da autonomia e da liberdade. A da futilidade dos desejos das elites políticas europeias que pretendem unanimidade e federalismo, homogeneidade e uniformização. A Europa é vaidosa como uma velha gaiteira. E arrogante como um fidalgo falido de smoking coçado. Os seus dirigentes gabam-se do Estado de protecção mais generoso do mundo, da construção política mais original, da cultura mais consistente, das mais belas cidades, da liberdade mais enraizada e da paz mais duradoura. Ano após ano, os mitos vão ruindo. A cultura europeia é americana. O trabalho é imigrado. A produção é chinesa. O capital estrangeiro. A economia frágil. A ciência dependente. A tecnologia subalterna. A impotência manifesta. Os europeus não querem correr riscos, nem tratam da sua defesa. Estão disponíveis para negociar com o diabo. Não têm energia, não possuem forças armadas. Comportam-se como se tivessem um inimigo comum, os Estados Unidos. Não os terroristas, não as ditaduras, mas os Estados Unidos. Os europeus são cada vez mais utilizados por terceiros endinheirados que assim perdem o respeito por tanta cultura, tanta originalidade e tão glorioso passado. Os dinheiros do petróleo, dos armamentos, de todos os tráficos ilícitos e da grande especulação começam a mandar na Europa e a condicionar as suas políticas e a sua diplomacia.
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.. A União vai sair, aparentemente, desta crise. Dentro de um ou dois anos, uma nova engenharia terá sido encontrada. Dentro ou fora, a Irlanda deixará de incomodar. Novas perturbações serão evitadas por novos mecanismos. Alguém virá dizer que a crise está ultrapassada e que a União entrará numa nova era. A mecânica da Comissão, do Conselho e do Parlamento Europeu estará oleada e preparada para funcionar a 27 ou mais. As decisões serão mais fáceis. Evidentemente, sabe-se, haverá alguns problemas. Na economia, na sociedade, no comércio externo, na ciência e na tecnologia. Forças centrífugas em acção. Dificuldades no emprego e no crescimento económico. Problemas sociais e demográficos. Conflitos laborais e desigualdades sociais. Deriva dos sistemas de saúde, educação e segurança. Aumento dos preços da energia e dos alimentos. Certo. Mas são todos problemas locais. Nada disso é europeu. A grande Europa, a grande União passa ao lado disso. Passa ao lado de questões menores.
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«Retrato da Semana» - «Público» de 22 de Junho de 2008
segunda-feira, 23 de junho de 2008
Luz-Bairro da Sé, Porto
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É um dos bairros urbanos mais antigos do país. De certas casas se diz que as suas fundações e parte do rés-do-chão datam dos séculos XIII e XIV. São belíssimas construções de granito em ruas estreitas. Há muito que este bairro deveria estar restaurado, arranjado, com as infra-estruturas modernas (esgotos, saneamento, águas, redes eléctricas, etc.) e melhores condições de vida. Alguma coisa foi feita, sobretudo nas partes exteriores do bairro. Mas, no seu miolo, há ainda muito por fazer e nem sempre as condições de vida são boas. Por outro lado, esta parte histórica do Porto (é Património mundial da UNESCO!), sobretudo nas áreas que datam do século XIX (o Porto burguês da Mouzinho da Silveira, da rua Nova dos Ingleses, da praça do Infante, etc.) está em curso de despovoamento e de abandono progressivo. É uma enorme tristeza ver o centro histórico do Porto a degradar-se diante dos nossos olhos! (2006).
Aparências
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MANUELA FERREIRA LEITE foi eleita. Pode prever-se seriedade, estudo, trabalho e responsabilidade. Pouca demagogia, também. O resto não se sabe. Com este modo de eleição directa dos líderes, prática populista e demagógica, tem de se esperar pelo congresso para ver a equipa dirigente e o programa. E para avaliar as reacções dos seus opositores. Logo se verá se Ferreira Leite tem condições para governar o partido. São muito altas as probabilidades de dissidência e cisão. Mas qualquer previsão é, por enquanto, arriscada.
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Não se pode é esquecer que Ferreira Leite não tem assento no Parlamento. O que lhe diminui fortemente a margem de acção. Além disso, os deputados foram eleitos por outra direcção. O que agrava as coisas. Mas esta é uma quase tradição nesta democracia tão pouco parlamentar. Na verdade, é longa a lista de chefes de partido que, durante todo ou parte dos seus mandatos, não tinham cadeira no Parlamento, nem tinham sido previamente eleitos: Cavaco Silva, Marcelo Rebelo de Sousa, Vitor Constâncio, Jorge Sampaio, Freitas do Amaral e Paulo Portas estiveram nessa situação! O que faz pensar sobre a função e a natureza dos partidos.
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PROSSEGUEM AS GREVES e as manifestações. Funcionários públicos, professores, enfermeiros, pescadores, automobilistas, camionistas... O mal-estar social é evidente. A grande manifestação de Lisboa atingiu uma dimensão surpreendente. Mas o governo despreza manifestações e números. Diz o Primeiro-ministro que só os argumentos lhe interessam, não os números. Coitado! Não sabe que as manifestações e os números são argumentos.
A evolução económica não dá sinais de melhoria. Nem agora, nem a prazo. Sócrates e Pinho continuam a divulgar, todos os dias, as dezenas e centenas e milhares de milhões de euros de investimentos estrangeiros, nacionais e do Estado. Parece que nunca mais acabam. Mas a verdade é que a alegada cornucópia é muito inferior ao necessário. E as obras públicas, necessárias ou inúteis, continuam a ser o principal recurso desta economia frágil e destas políticas económicas de curto prazo.
A evolução económica não dá sinais de melhoria. Nem agora, nem a prazo. Sócrates e Pinho continuam a divulgar, todos os dias, as dezenas e centenas e milhares de milhões de euros de investimentos estrangeiros, nacionais e do Estado. Parece que nunca mais acabam. Mas a verdade é que a alegada cornucópia é muito inferior ao necessário. E as obras públicas, necessárias ou inúteis, continuam a ser o principal recurso desta economia frágil e destas políticas económicas de curto prazo.
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AO MESMO TEMPO que se ouvem declarações messiânicas sobre as novas fontes de energia e a poupança de combustíveis, anunciam-se mais auto-estradas, pontes e viadutos. A mão esquerda castiga o automóvel, a mão direita protege e incentiva o automóvel. Prepara-se o fecho definitivo da linha de comboio do Tua, assim como do troço do Pinhão ao Pocinho, na linha do Douro. Mas anuncia-se a construção de um túnel luxuoso e pouco útil sob o Marão, ao preço de perto de 400 milhões de euros. Será, dizem o governo e os construtores concessionários, o maior de Portugal!
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ENTROU FINALMENTE em fase de julgamento o caso de um vendedor de apartamentos de um condomínio na Ajuda, em Lisboa. O queixoso ficou sem o sinal e não aceitou um apartamento que não correspondia às condições contratuais. Nada de anormal, até aqui. Acontece apenas que o julgamento começou 12 anos, digo bem doze anos, depois da ocorrência dos factos. Quantas vezes estes “faits divers”, escondidos num canto de uma página de jornal, são um retrato rigoroso e verdadeiro do país!
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A RTP PROSSEGUE na sua via de renovação e de criação de uma televisão mais popular, mais moderna e mais jovem. Perde audiências, assim como alguns dos seus funcionários e artistas, mas descobre novos valores. A última novidade é um programa intitulado “Telerural”. Passa às terças-feiras, às 21.00, a seguir ao jornal, no melhor horário possível. É mais uma demonstração de populismo grosseiro e de desprezo puro pelas populações e pela decência. O programa pretende parodiar um canal de televisão de um município rural, o “Curral das Moinas”. É ordinário como poucos. Os textos e as graças são de uma boçalidade quase inédita. Reina a obscenidade e a piada grossa. O programa foi feito à imagem, não das populações rurais, mas do pior da RTP. Alegrem-se os optimistas: esta concepção de serviço público teve mais de um milhão de telespectadores!
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PARECE UMA METÁFORA para os tempos que correm. Por iniciativa de japoneses amigos de Portugal, com a ajuda dos respectivos diplomatas, criou-se em Lisboa um “jardim japonês” feito de cerejeiras vindas daquele país. Foi há dois ou três anos. Ali à beira Tejo, junto dos restos da antiga Exposição do Mundo Português, perto de um farol, foi instalado um jardim feito de estranhos mas bonitos montículos de terra semeada de erva. No cimo dos montículos, foram plantadas cerejeiras, árvores especialmente cultivadas no Japão. Cada árvore foi plantada com todo o cuidado, amarrada a uma estaca, regada e tratada. Na altura, fiquei radiante. E tentei antever a beleza que seria aquelas árvores todas em flor! Estava tudo perfeito. A atenção ao pormenor era de rigor. O melhor de Portugal associou-se a este empreendimento: governo, câmara, administração portuária, instituições públicas, as mais importantes fundações do país, as maiores empresas portuguesas e algumas das mais conhecidas empresas japonesas. Há três anos que espero que as árvores cresçam e apareçam as primeiras flores e cerejas. Nada! Nenhuma cresce. De um total de cerca de 400 árvores, só três mostraram meia dúzia de miseráveis folhas ressequidas sem futuro nem desenvolvimento. As restantes estão irremediavelmente secas e mortas! Ou parecem. Fui saber. Quem sabe explicou-me. Primeiro, naquele sítio, com aquelas condições de clima e temperatura, com o sal marinho, a vento e a humidade (e a salsugem), só um milagre faria florir e crescer as cerejeiras. Houve quem alertasse, na altura, mas as opiniões científicas foram consideradas cépticas e ignorantes. Segundo, as plantas, quando chegaram do Japão, estiveram uns meses à espera que a Alfândega as deixasse entrar! É assim! Não se aprende nada!
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«Retrato da Semana» - «Público» de 8 de Junho de 2008
Luz-Bairro 6 de Maio, Amadora
Este Bairro de 6 de Maio é um dos sítios mais pobres e degradados do país. Não é um bairro da lata, não é um conjunto de “barracas”, como havia ainda há poucos anos. É um bairro de pedra, tijolo e cal, em “duro”. Ali vivem, em maioria, imigrantes africanos. Muitas crianças nasceram já em Portugal. Muitos dos habitantes são ilegais. Há sítios, neste bairro, onde as ruas são tão estreitas que mais parecem corredores dentro de casa, até porque não se vê o céu nem o sol. (2006).
A Europa não é o que era
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PARECE QUE FOI FRASE FEITA inventada no século XIX: “Calma no Brasil, que Angola é nossa!”. Verdade ou mentira, o certo é que sobrou para nós, pelo século XX adentro. Já nem se conhecia a sua verdadeira implicação, mas pronunciava-se a propósito de tudo e nada. Até que foi substituída por outra: “Deixa lá Angola, que a Europa está connosco!”. As ideias são parecidas, mas só em parte. Na verdade, perante a primeira perda, a conclusão era a de um novo esforço dos portugueses, mas noutras paragens. Enquanto, diante da segunda, os portugueses se colocavam numa posição de beneficiários de ajuda e assistência.
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.. Durante uns anos, a Europa esteve connosco. Ou antes, alguns países da Europa, designadamente a Alemanha, que nos salvaram das consequências das nossas tropelias. Até chegar a vez da Europa toda, quer dizer, da Comunidade Europeia. Mais uns anos de fartura, as ajudas vieram. Quase tudo o que vinha da Europa era bom. Dinheiros, mercados, importância, reputação e investimento. E um lugar onde os portugueses se sentiam iguais aos outros, o que parecia afastar velhos traumas e indeléveis complexos.
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.. Nos piores momentos destas últimas décadas, e já houve vários, foi frequente pensar-se que, se não houvesse CEE ou UE, se Portugal não pertencesse ao clube, já teríamos conhecido destinos fatais: a absoluta pobreza, uma profunda recessão, desvalorizações consecutivas, golpes de Estado e novos episódios autoritários. Durante anos, a Europa salvou-nos dos nossos demónios, da irresponsabilidade crónica e da demagogia avassaladora que caracterizou quase todos os governos. Pior ainda, protegeu a nossa preguiça e a nossa incapacidade de organizar e prever. A Europa foi manta quente e abrigo, casa acolhedora para os momentos críticos de transição e adaptação.
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HOJE, A SITUAÇÃO é diferente. Tudo o que corre mal vem da Europa. Da Europa e da globalização. Ou porque as coisas são mesmo assim. Ou porque a covardia dos políticos portugueses é moeda corrente. A agricultura foi quase destruída, por causa da PAC. A frota de pesca abatida, os pescadores reciclados e o pescado apanhado por espanhóis e outros, por causa da Europa. A ASAE bate a torto e a direito, por causa da Europa. Os bancos têm lucros obscenos e os gestores têm vencimentos próprios de outras galáxias, porque as regras europeias são assim e porque o mercado está aberto. Mal suportamos a concorrência dos países de Leste, da China e demais asiáticos, por causa da Europa. O Estado não pode intervir, não tem meios legais e não recorre aos mecanismos habituais de subsídio e protecção, por causa da Europa. Mas o Estado concentrou poderes e decisões, talvez como nunca no passado, graças à Europa. Da Europa, não temos os salários, os preços dos bens de consumo, os horários de trabalho, os subsídios de desemprego, o salário mínimo, as pensões, as reformas e a prontidão dos serviços de saúde. Mas temos o imperativo de eliminar o défice e de apertar o cinto, assim como a obrigatoriedade de abrir os concursos a empresas internacionais. Espanhóis, italianos e franceses sabem proteger as suas economias e dispõem de sofisticados instrumentos de protecção ou promoção, enquanto os portugueses obedecem aos ditames europeus e não descortinam maneira de invocar o interesse nacional. A Europa já foi modelo e ambição. Hoje, para muitos portugueses, é ameaça. Excepto para os que recorrem à emigração, que, para surpresa de muitos, recomeçou como nos anos sessenta.
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POR UMA VEZ, em muito tempo, os portugueses não têm para onde olhar. Brasil, África e Europa pertencem ao passado. Com a particularidade de a Europa e o mundo terem deixado de ser fronteiras e horizontes a explorar e se terem transformado em ameaças e fontes de crise. Por uma vez, em muito tempo, os portugueses têm de contar consigo, só podem mesmo contar consigo próprios. O que, numa sociedade livre e num mundo aberto, é muito mais difícil. Habituados e contar com expedientes e bodes expiatórios e mal educados pela demagogia política, os portugueses comprazem-se em aspirar a muito mais do que podem e têm direito. Consomem mais do que lhes é permitido pelos seus rendimentos. Querem mais do que lhes autoriza a sua produtividade. Devem muito mais do que ganham num ano. Adoptaram os tiques da cultura do êxito, dos vencedores, da gente bonita e da exibição de capa cor-de-rosa. E parece não se importarem com as enormes desigualdades sociais que fazem desta sociedade um pesadelo moral e estético.
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A CRISE ECONÓMICA e social está instalada em Portugal. E bem instalada. Não há sinais de qualquer alívio a curto prazo. Ninguém espera uma melhoria efectiva antes de dois ou três anos. Algumas das causas desta situação vieram de fora. A começar pelos custos dos petróleos e da energia em geral, contra cujos aumentos nem sequer a Europa souber tomar providências a tempo. Mas Portugal já estava mal, muito mal, antes deste terceiro choque do petróleo. Há praticamente oito anos que Portugal vem perdendo, em termos absolutos e relativos. A verdade é que a “nossa” crise é em geral muito superior à dos parceiros europeus. Quer isto dizer que somos os principais culpados. Desperdiçámos anos, recursos e oportunidades. Perdemos com a ditadura e a guerra. Perdemos com a revolução e a contra-revolução. Perdemos também com três décadas de facilidade e demagogia. Assim chegámos ao ponto de perceber que ninguém virá em nosso socorro, que não há mais soluções fáceis e que, de fora, não virá mão redentora. Só de nós próprios virá qualquer remédio. E isto não significa orgulho, nem raça. Muito menos talento ou história. Significa tão simplesmente estudo, persistência e organização. E, sobretudo, trabalho.
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«Retrato da Semana» - «Público» de 1 de Junho de 2008
Futebol
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IMAGINO QUE UM GRANDE NÚMERO de concidadãos tenha uma ideia clara sobre os problemas do futebol que ocuparam a crónica da semana. Terá ou não havido corrupção de árbitros? Houve coacção com ou sem resultados? Foram efectivamente pagas “luvas”, presentes” e “favores sexuais” e tiveram realmente consequências nos estádios? Houve ou não clubes beneficiados com estes gestos ilícitos? Há provas de actos e de tentativas de corrupção? Depois de ler jornais, ouvido rádio e visto televisão, percebi que quase toda a gente que se exprime sobre o assunto sabe exactamente o que se passou. Confesso que não tenho a mínima ideia. Reparo, todavia, que os campos estão divididos e extremados: conforme a origem, o local de residência, as preferências clubísticas e os círculos sociais, as pessoas dão ou retiram razão à Liga de Clubes, à Federação, aos clubes em concreto e a cada um dos dirigentes e árbitros. Os argumentos de uns e de outros são fortes, plausíveis e simétricos. As denúncias de interferências externas, como a política, os negócios, os clubes rivais e outros interesses merecem igualmente crédito. As acusações feitas a alguns dirigentes de clube, que se consideram intocáveis, são pesadas e credíveis. O argumento de que há perseguições, contra os clubes do Norte, por parte dos interesses de Lisboa, da Federação e da política, tem pés para andar. De qualquer maneira, se vier a demonstrar-se que as provas são sólidas e os castigos justos, podemos quase regozijar-nos com este feito histórico. Quase. Na verdade, o caso deixa gosto amargo. Os processos de justiça, como é habitual, demoraram anos. E, graças aos recursos e apelos, estão longe de acabar. Por outro lado, este vendaval punitivo sobre o futebol e sobre o Porto não esconde o facto de parecer haver várias justiças. Nem os clubes de Lisboa estão sob o mesmo escrutínio. Nem na política e nas actividades económicas se encontra semelhante severidade. O “Apito” dá resultados, mas o “Furacão” fica-se pela estratosfera. E algumas decisões políticas sobre os grandes concursos nem sequer foram examinadas.
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O FUTEBOL CLUBE DO PORTO está a pagar. Começou, há vinte ou trinta anos, por ser um intruso. Apenas tolerado. Depois, transformou-se no clube dominante. O seu perene presidente teve os comportamentos que se lhe conhecem: inteligente, competente, autoritário, organizado, irascível e déspota. Como qualquer cacique político, assentou os pés em terreno sólido: apoio popular, estabilidade da sua organização, bons resultados e uma arrogância dominadora sem quebra. Sem esquecer uma intransigência absoluta e o uso de uma permanente retórica destinada a lembrar, todas as semanas, que o Porto e o seu clube têm inimigos. Ora, não é admissível que um clube da segunda cidade e do Norte provinciano exerça uma hegemonia quase sem falhas. Tarde ou cedo, o Porto haveria de pagar. Ainda por cima, o clube de futebol venceu onde a cidade e a região perderam. A seguir ao 25 de Abril, notou-se um acréscimo do poder político e económico do Porto. Dali vinham os empresários, os exportadores que garantiam a sobrevivência do país, os eleitores que permitiam que a democracia vingasse, a Igreja e a sua reserva moral, as tradições, os grandes caciques locais e as novas iniciativas económicas e empresariais. No Porto, nasciam bancos e grupos económicos. No Norte, trabalhava-se. No Norte, produzia-se. E no Norte cresceu a ideia de que àquela força era necessário acrescentar poder político. Durante uns anos, pareceu que era verdade. Depois, gradualmente, o Norte perdeu. O Porto perdeu. Menos o Futebol Clube do Porto, que ganhou. Até que ponto as vitórias do futebol toldaram o espírito dos seus dirigentes, permitindo-lhes acreditar na sua impunidade e na ideia de que tudo é permitido quando se ganha?
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HÁ ALGUNS MESES, havia um programa que a RTP exibia fora de horas num dos canais de cabo. Creio que era na RTPN. Chamava-se “A Liga dos Últimos”. Para quem não viu, trata-se de um programa especial e insólito: segue e faz reportagem dos clubes de futebol das divisões inferiores e distritais. Em vez das glórias internacionais, das transferências de milhões de contos por jogador, das ligas europeias milionárias e das grandes querelas futebolísticas nacionais, tínhamos o “Portugal profundo” e o “verdadeiro povo” dos domingos. O “conceito” é simples: os pobres e os humildes também têm direito. O futebol não é apenas um desporto de ricos e milionários, de urbanos e classes médias, ou de gente bonita que faz as capas das revistas. Não. O futebol é também do povo. Por isso se mostra o povo. Campos de terra batida, jogadores com quarenta anos e barriga proeminente, clubes carregados de dívidas e destreza desportista mais ou menos nula. Jogos de nenhum interesse e de estética duvidosa. Os desafios desenrolam-se por entre enorme gritaria, piadas da plateia e berraria de toda a gente. Por esse programa passam clubes que nunca ganham um desafio, que estão em vésperas de desistir e que por vezes têm dificuldades em alinhar o número adequado de jogadores. Clubes que vão falir pois não têm dinheiro para pagar os balneários ou a electricidade. Clubes que pertencem à dona de um bar ou ao patrão de uma empresa de mudanças com duas camionetas. Não sei por que carga de água, o programa é hoje de “culto”. Os urbanos gostam e deliciam-se. Dizem-se ali boçalidades cruas. Toda a gente bebe cerveja a mais. Aquelas brincadeiras de bairro ou de aldeia aspiram agora ao momento de glória que lhes é trazido pelo facto de os novos dirigentes da RTP terem passado o programa para a RTP1, às 21.00 horas de sexta-feira. Pega directamente no telejornal, precede o concurso diário. Continuam as graçolas brejeiras de mau gosto. Os palavrões disfarçados. As ordinarices mais rascas. Reina o machismo mais soez que se pode imaginar. Muita gente é filmada deliberadamente para parecer “feia, porca e má”.
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Poderia pensar-se que o programa faz parte da nova “grelha” da RTP, da sua estratégia e das suas novas concepções que preconizam uma televisão popular e divertida, em poucas palavras, uma “televisão para todos”, um “verdadeiro serviço público”. O que resulta é, além de paradoxal, confrangedor. Não apenas intelectualmente, mas sobretudo social e moralmente. É uma hora de autêntico desprezo social pelos aldeões, pelos provincianos, pelos pobres, pelos gordos, pelos mais velhos, pelos ignorantes e pelos analfabetos. Que, aliás, se oferecem em espectáculo de escárnio. É uma espécie de “racismo social”: coitados, tão estúpidos, mas praticam futebol! São tão puros! Tão autênticos!
Poderia pensar-se que o programa faz parte da nova “grelha” da RTP, da sua estratégia e das suas novas concepções que preconizam uma televisão popular e divertida, em poucas palavras, uma “televisão para todos”, um “verdadeiro serviço público”. O que resulta é, além de paradoxal, confrangedor. Não apenas intelectualmente, mas sobretudo social e moralmente. É uma hora de autêntico desprezo social pelos aldeões, pelos provincianos, pelos pobres, pelos gordos, pelos mais velhos, pelos ignorantes e pelos analfabetos. Que, aliás, se oferecem em espectáculo de escárnio. É uma espécie de “racismo social”: coitados, tão estúpidos, mas praticam futebol! São tão puros! Tão autênticos!
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«Retrato da Semana» - «Público» de 11 Mai 08
A arte da irrelevância
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“BOA NOITE, ZÉ”. Este “Zé” também pode ser Manuel, Clara, António, Ana, Júlio, Judite, Rodrigo ou Alberta... É a maneira como os “enviados” ou “correspondentes” dos serviços de informação das televisões entram “em directo” nos boletins noticiosos. Dirigem-se directamente ao locutor de serviço e esforçam-se por dar à notícia um ar simultaneamente familiar, informal e tenso. Qualquer dos canais serve de exemplo. Começou por ser uma moda, acabou por se transformar num padrão. Os canais de televisão amam os directos. Dá mais proximidade. É mais instantâneo. É mais genuíno. Desastre ou festa, conferência de imprensa ou surto de meningite, tempestade ou atentado terrorista: desde que possível, o enviado ou correspondente faz um directo. Quando calha, há mesmo diálogo com o “pivot” do telejornal. Frequentemente, segue-se (ou antecede) “uma peça” previamente gravada, sobre o mesmo assunto, pelo mesmo enviado, não sendo aliás certo que haja diferenças ou evolução entre “a peça” e “o directo”. No meio das notícias, em “directo real” ou “directo gravado”, aí vem o correspondente no Líbano, em Timor Leste ou na praia da Luz... Chegam a fazer-se “directos” para que o correspondente, depois de repetir o “Boa noite Zé”, afirme que “ainda” não se sabe o que aconteceu...
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Os “directos” são, em geral, de má qualidade. Os melhores profissionais tentam fazer trabalho decente, mas a maioria traz o que tem ou lhe encomendam: emoções, sensação de ineditismo e a certeza de que “está em cima do acontecimento”. Mas, naturalmente, gaguejam, hesitam e exprimem-se mal. Pedem licença para interromper pessoas que estão a fazer o seu trabalho ou que fazem a sua vida e disparam perguntas. As respostas são, em maioria, irrelevantes, nada adiantam à notícia ou ao esclarecimento. Há alguns meses, quando a tensão ia alta com o caso da menina inglesa desaparecida, chegámos a ouvir uma “enviada” dizer, em directo pois claro, que nesse dia não tinha acontecido nada e que a “monotonia” só tinha sido quebrada por um grupo de “motards” que viera mostrar a sua solidariedade. Quase todos os dias vemos “directos” deste género: ainda não se sabem os resultados, as pessoas por quem se espera ainda não chegaram, o julgamento ainda não acabou ou o senhor que está a ser interrogado pela polícia ainda não saiu.
Muitos dos enviados tentam mostrar, pela transpiração, pelos trajes ou pelo ambiente em redor, que estão em situação escaldante: se forem ouvidos choros, gritos, tiros ou explosões, tanto melhor. Quando se trata de conferências de imprensa, em especial feitas por políticos, mas os gestores também começam a aprender, o “directo” marca as horas, as pessoas submetem-se aos ditames do “enviado” e da estação de televisão. Após algumas frases ditas pelo interessado, o “enviado” retoma o microfone e faz um resumo do que já se ouviu. Ouve-se este por cima do conferencista. Quem está na sala deve aliás ouvir os dois, quantas vezes o repórter mais alto do que o conferencista.
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Os “casos dramáticos” e as “tragédias humanas” são os preferidos. Suicídio, crime passional, acidente de automóvel, rapto de criança, assalto a banco ou desastre natural são momentos excelentes para os “directos”. Mas um caso de tifo numa aldeia, uma intoxicação alimentar, mesmo benigna, numa escola ou um incêndio de pneus velhos num pardieiro também vêm a jeito. Os boletins de notícias tentam começar sempre por aí. Só depois surgem as notícias de interesse geral, os factos políticos, o desporto e, eventualmente, as notícias internacionais. Durante o boletim, quando é possível, a anteceder ou suceder ao espaço publicitário, entram novos casos humanos, aliás, prévia e repetidamente anunciados com tons de sensação. Como os serviços noticiosos duram uma hora na RTP e mais ainda nos outros canais, é necessário encher, “meter chouriços” como se diz no meio, entrevistar espontâneos, ouvir o povo e pôr emoções no ar. Todos nos lembramos do desastre de Castelo de Paiva que foi o momento crucial de fundação do novo estilo, que já rondava pelas televisões, mas que ainda não tinha o estatuto de pérola profissional. Foi nessa altura que vimos “enviados” a tentar fazer chorar parentes das vítimas ou simples testemunhas e quase agredi-los de microfone em riste. Esta última semana em que todos os canais comemoraram (é o caso de dizer...) o primeiro aniversário do desaparecimento da criança da praia da Luz, uma coincidência pôs logo em agitação as redacções: uma menina de Valpaços teria desaparecido em Matosinhos. As “brigadas” do “directo” apresentaram-se logo ao serviço. Para sua infelicidade, a menina apareceu pouco tempo depois. Foi uma frustração!
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Os serviços de notícias dos três canais ditos “generalistas”, sem excepção, são cada vez mais divertimento e espectáculo e cada vez menos informação. Desapareceram os comentários inteligentes e informados. Foram-se os especialistas que podem ajudar a compreender. Acabou o recurso a documentação e arquivo que permita colocar os factos em contexto e percebê-los melhor. A explicação serena e fundamentada foi abolida. As notícias internacionais, quando há, foram resumidas a rumores e resumos incompreensíveis, a não ser que se trate de terrorismo, pedofilia ou grande desastre. As notícias deixaram de ter o tempo necessário de reflexão. Os jornalistas fazem cada vez menos a “edição” das “peças”, das imagens e das reportagens dos “enviados” e “metem os brutos”, isto é, põem no ar as sequências em bruto, tal como chegaram dos “enviados” ou das agências.
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O “directo” é o maior incentivo à preguiça que se conhece. Dispensa trabalho e reflexão. Não precisa de inteligência ou estudo. É o que existe de melhor como veículo de emoções, até de histerismo. É finalmente o factor de mutação da notícia em espectáculo. É a autorização para não pensar nem investigar. É a troca deliberada, feita pelos editores e pelos jornalistas, de reflexão, do estudo, da investigação e da edição, todo este trabalho que deveriam ser os pergaminhos do jornalismo, pela aparência do imediato, do espectáculo, da concorrência entre canais e do despacho. É o reino das emoções em directo, o contrário mesmo do que deveria ser o bom jornalismo. O “directo” não é a causa primeira, mas é o instrumento de degradação da televisão. É, sobretudo, a destruição da informação e da inteligência.
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«Retrato da Semana» - «Público» de 4 Mai 08
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