domingo, 10 de dezembro de 2017

Sem Emenda - As Minhas Fotografias

Judeu em oração, com chapéu, na esplanada do Muro das Lamentações – Este senhor usa um chapéu tradicional, um dos vários usados habitualmente, com relevo para a Kipá (solidéu) e o Shtreimel (em pele), os mais curiosos de todos. Jerusalém é um dos sítios mais carregados de história. Todas as variedades de cristãos, judeus e muçulmanos têm aqui os seus lugares sagrados. Além de outros, David, Salomão, Cristo e Maomé andaram por ali. Na cidade, com seis mil anos, há centenas de sinagogas, igrejas e mesquitas. Nada é simples, nada é fácil. Se há sítio no mundo onde há problemas sem solução, Jerusalém é um deles. Equilíbrio instável, paz provisória, tempo de espera… são estas as expressões que substituem as de paz, estabilidade ou solução. Há milhares de anos que é assim. A recente decisão do presidente Trump é estranha. É um governo estrangeiro que, de facto e não de direito, designa a capital de Israel! O gesto, criticado por quase todo o mundo, tem potencialidades para desencadear mais uma série interminável de acidentes e incidentes. Mais uma…
DN, 10 de Dezembro de 2017

Sem emenda - Como nas claques

A comparação já foi feita: o debate político parece-se cada vez mais com o futebol e respectivas claques. O que interessa é a cor e a camisola. O que conta é saber quem apoia e quem critica. Ou quem é apoiado e quem é condenado. O caso, o objectivo, a decisão, o programa, o valor e a ideia são de menor apreço e quase indiferentes. Importa, isso sim, é saber se é a favor ou contra o grupo, o chefe e o partido. Importa berrar e bramar, ameaçar e apoiar, vibrar de prazer ou rosnar de ódio, bajular ou agredir. Se os meus são criminosos, desculpam-se, porque a culpa é dos outros, batoteiros por definição.
Os meus têm valores. Os outros têm interesses. Os meus têm causas. Os outros têm bolsos. Os meus preocupam-se com o interesse nacional e o bem comum. Os outros só pensam nos seus grupos e nas suas corporações. Os meus são democratas, justos, racionais, eficientes, com causas, pergaminhos sociais, cultura e mérito. Os outros são candidatos a ditadores, oportunistas, mentirosos, prisioneiros dos lobbies e defensores de interesses ocultos. Se, entre os meus, já houve corruptos e aldrabões, esquecemo-nos facilmente. Os corruptos dos outros, por seu turno, são eternos.
Ouvir os socialistas falar hoje dos sociais-democratas e dos populares é ficar a conhecer um rosário de insultos e calúnias. Só comparável ao que se ouve aos sociais-democratas quando estes se exprimem sobre os socialistas; aos comunistas e aos bloquistas quando se referem aos partidos da direita; e a todos e cada um quando se exprimem sobre os outros. Um dos objectivos desta oratória consiste em explicar os saneamentos políticos e as nomeações dos amigos: os que vão sair são incompetentes, mentirosos e eventualmente corruptos. Os que entram, os meus, são exemplos de virtude e competência.
Outra dimensão de fino recorte intelectual é a da culpa. Não fui eu, foste tu! Não fomos nós, foram vocês! O vosso governo fez muito pior! A culpa é do governo anterior! As causas já vinham de trás! A pobreza e a miséria dos professores, a destruição do Serviço Nacional de Saúde, a imprevidência na protecção civil e a vulnerabilidade das instalações militares são da total responsabilidade do governo anterior. Assim como o aumento das desigualdades sociais. Ou o escândalo das energias renováveis. Tal como o anterior governo dizia. E o antes desse.
A este tom grave de acusação não corresponde depois acção judicial. Nem sequer demonstração pública das malfeitorias dos outros. Bem se pode esperar para saber mais sobre as famigeradas parcerias, as falências bancárias, as fugas de milhares de milhões, os offshores, a descapitalização fraudulenta, o mero roubo e os ajustes directos! Bem se pode esperar pela conclusão de processos de negligência na protecção civil!
Como o futebol, a política têm regras próprias e especiais. É permitido mentir, ameaçar, caluniar, roubar, corromper e não cumprir os contratos… E quando não é permitido, é tolerado. E se não é tolerado, o autor fica, em geral, impune. A verdade é que, como no futebol, o que os meus fazem é justo, o que os outros fazem é crime. Os meus podem “meter a mão”, quebrar os pés do adversário e faltar às regras, desde que o árbitro ou o juiz não vejam.
A grandeza deste debate e a qualidade destes termos são surpreendentes! A escola de oratória politica e parlamentar é hoje o comentário desportivo das televisões, horas a fio, diariamente, em todos os canais! O que criou o estilo político parlamentar foi a televisão, o futebol, a democracia directa dentro dos partidos e o sistema eleitoral. O que se diz, mente ou berra não se destina a ser ouvido pelos eleitores, mas sim pelos colegas de partido. São eles que decidirão se um deputado é fiel ao chefe e se é suficientemente agressivo contra os inimigos. Não parece que tão cedo haja condições para alterar este estado de coisas. A calúnia e o insulto têm uma função redentora: a de servir de biombo à falta de justiça.

DN, 10 de Dezembro de 2017

domingo, 3 de dezembro de 2017

Sem emenda - Um Te Deum laico e republicano

Te Deum é a designação de um hino que faz parte da Liturgia das Horas da Igreja Católica. É a forma abreviada de Te Deum Laudamus, Louvamos-te, Ó Deus! O momento apropriado para cantar este hino é o final de Dezembro, quando os fiéis agradecem as benesses recebidas durante o ano decorrido. É também inspiração para músicos que cultivaram o género: Purcell, Charpentier, Mozart, Haydn, Bruckner e outros compuseram, com este título, obras-primas festejadas por crentes e não crentes.
Hoje, as coisas tomam outras formas. Dispensa-se o génio musical. Retira-se o Deus fora de moda. Antecipa-se a cerimónia para o início do novo ano fiscal. Coloca-se em cena o objecto do louvor. Rodeia-se o sujeito de uma corte bem apessoada, que até pode ser um Conselho de Ministros, em vez dos tradicionais querubins. Adjudicam-se os procedimentos a uma Agência de Imagem. Contrata-se uma Universidade “a fim de credibilizar” o exercício, segundo as palavras dos protagonistas.
Seleccionaram-se umas dezenas de figurantes por amostra calibrada, a quem se pagam deslocações, bebidas, um snack e um per diem de ajudas de custo (150 euros, segundo testemunhos). Solicita-se a um sacerdote que se ocupe do ritual. Os figurantes agem como se de um coro grego se tratasse, mas em intervenções sucessivas, não em coral clássico. Às perguntas inteligentes dos figurantes, o solista responde com desenvoltura. A fim de mostrar o espírito de equipa, vários membros da Corte são chamados a participar.
Vozes incómodas fizeram reparos. Foi-lhes dito de imediato que “no ano passado também houve”. A quem referisse que já é a segunda vez que isto se faz, foi esclarecido que o anterior governo também tinha feito algo de parecido na televisão. Aos que estranharam a inclinação dos socialistas, de Costa e de Sócrates, para a propaganda, foi garantido que as direitas, Cavaco Silva, Santana Lopes e Passos Coelho, também o faziam.
É preciso má vontade para comparar esta liturgia honesta à propaganda das direitas! Na verdade, enquanto estas tudo fazem para enganar os cidadãos, as esquerdas apenas se limitam a ouvir o povo, escutar as pessoas, tentar perceber o seu pensamento e entender os anseios profundos da população. Só com muita má fé se pode imaginar que este governo queira fazer qualquer coisa que não seja uma genuína e honrada tentativa de ouvir e de sentir o pulsar dos Portugueses, as suas críticas e as suas sugestões!
Aqueles vinte ministros não eram os patrões dos funcionários presentes no coro litúrgico e em nada intimidavam os que, livremente, pretendiam fazer perguntas: eram coadjuvantes competentes, prontos a ouvir e esclarecer. Aquela Universidade e aqueles académicos eram dedicados à ciência e à cultura, não estavam ali para obter reconhecimento e fama junto de quem decide os orçamentos. Aquela Agência de imagem desempenhou as suas funções de modo isento e com profissionalismo.
O que ali se passou não foi medíocre. Não foi armadilha, nem manipulação. Não foi a transformação da informação em publicidade empacotada. A quermesse de Aveiro é boa e genuína. É uma encenação patriótica e plural. A melhor prova de que é coisa boa reside no facto de, no ano anterior, se ter feito igual. E de dois anos antes, na televisão, organizada pelo governo da direita de Passos Coelho, ter havido coisa parecida!
Os cidadãos que ali se deslocaram prestaram um serviço ao país, dispuseram-se a representar os restantes Portugueses que não puderam estar todos presentes, deram ao governo dados autênticos, entre eleições, sobre o estado da nação. Fizeram-no de modo mais verdadeiro do que as sondagens que não permitem esta consulta de proximidade. Melhor do que o focus group a seguir aos incêndios, este Grupo é uma auscultação em comunhão. É o próprio de um governo para as pessoas, não para os números.

DN, 3 de Dezembro de 2017

Sem Emenda - As Minhas Fotografias

Par de namorados, com telemóvel, na Cidade Proibida, Pequim – Em poucas semanas de visita à China, das quais uma na capital, foi este o único par de namorados que vi exibindo na rua um gesto de ternura, partilhada aliás com o telemóvel que era seguramente um objecto de interessada comunhão. Ao que parece, os Chineses não gostam de liberdades excessivas, do Google e de manifestações de sentimentos na rua! Talvez a Cidade Proibida tenha inspirado estes dois jovens… O Palácio que ocupa esta cidade tem seis séculos de existência. Já esteve degradado várias vezes, mas sempre recupera e renasce. É o maior palácio do mundo, uma verdadeira cidade! Consta que tem 9.999 divisões, mas parece que a prova nunca foi feita! Era daqui que o Imperador governava a China, o Império e, julgava ele, o mundo.

DN, 3 de Dezembro de 2017

domingo, 26 de novembro de 2017

Sem emenda - Os escravos em Portugal: Um Memorial

Excelente ideia a da construção de um memorial situado à beira Tejo, entre a Ribeira das Naus e o Campo das Cebolas, locais onde, segundo consta, o tráfico de escravos tinha assento. Não se sabe se a proposta, feita por uma associação, será aprovada e concretizada. Nem qual será a sua forma ou configuração. Mas a ideia é boa. Sobretudo se for mais do que um memorial passivo e inerte. Se for um museu, um local de reflexão ou um centro de referência. Várias instituições desse género, nos Estados Unidos, em Inglaterra, na Holanda, em Angola e no Senegal, mostram como se pode fazer. Genocídios, holocaustos, massacres, autos-de-fé, deportações violentas, assassinatos em massa, Goulag, campos de concentração e outras formas de exercício de poder e violência devem ser estudados. Para que não se esqueça. Espera-se, aliás, que esta iniciativa tenha melhor sorte do que um projecto de lei de criação de um Museu dos Descobrimentos, a construir na Cordoaria, apresentado há mais de trinta anos e, infelizmente, nunca realizado.
O tráfico de escravos e a escravatura foram, à luz do que somos hoje, fenómenos horrendos que a humanidade conheceu, durante séculos e em quase todas as latitudes. Da Índia à China, do Egipto à Mesopotâmia, de Roma a Berlim, de Lisboa ao Rio de Janeiro e da Costa do Marfim aos Estados Unidos. Centenas de milhões de escravos foram vendidos, comprados e transportados entre continentes e em várias direcções, conforme as geografias. Para estes fluxos de mercadoria humana, Portugal também contribuiu de modo significativo, com especial incidência no tráfico estabelecido entre África e as Américas. Terá mesmo sido, no Atlântico e durante três ou quatro séculos, um dos seus protagonistas e principais beneficiários.
Em poucas palavras, a escravatura e o tráfico de escravos marcaram tempos e povos. Ainda hoje, em certos países africanos ou muçulmanos, há práticas, legais ou não, equiparadas à escravatura. Provavelmente, foi a África o continente que forneceu mais escravos. Segundo os valores morais contemporâneos, o tráfico está mesmo entre os piores traços da evolução da humanidade. Juntamente com os trabalhos forçados, a tortura, o assassinato, o genocídio e a conquista, a escravatura foi mais um capítulo da história que o progresso combateu durante décadas e para o qual foi conseguindo remédios, interdições, castigos e sobretudo condenação moral e jurídica.
O processo histórico foi tal, até ao presente, que a escravatura se encontra erradicada em grande parte do mundo. Na maior parte do mundo, talvez seja possível afirmar. A libertação dos escravos, a abolição da escravatura e a emancipação dos servos e escravos transformaram-se mesmo em objectivos centrais dos defensores do progresso e do melhoramento dos povos. A abolição da escravatura está a par de outros grandes movimentos da humanidade como os direitos humanos e a igualdade. Tal como a democracia, a cidadania e a liberdade religiosa, a escravatura e a respectiva abolição merecem um memorial.
Se for, evidentemente, um memorial que explique, que dê contexto e enquadramento, que informe, que nos ajude a compreender. Não um memorial que se limite a condenar os negreiros e os Portugueses… Não um memorial de autoflagelação que, por razões de oportunismo histórico e demagogia política, pretenda afirmar que o colonialismo dos Portugueses foi mais cruel do que o dos outros, que o racismo dos Portugueses é pior do que o dos outros, que a escravatura dos Portugueses foi mais hedionda do que a dos outros, que a escravatura organizada pelos europeus e pelos brancos foi mais dolorosa do que a dos Árabes, dos Chineses, dos Indianos ou dos Africanos…
E também não um memorial que, conforme sugerido por alguns proponentes, terá de ser feito por artistas africanos ou descendentes de africanos… Isso é racismo! Puro e simples!

DN, 26 de Novembro de 2017

Sem Emenda - As Minhas Fotografias

Gente de Alfama, Faias e muçulmanos, perto do Martim Moniz, em Lisboa – É uma das ruas mais étnicas de Lisboa. Alguns portugueses, paredes-meias com indianos, muçulmanos de várias origens, africanos, chineses… Ao que parece, as relações entre estes grupos nem sempre são pacíficas. Mas também não consta que sejam frequentes os conflitos muito violentos. Nesta imagem, o muçulmano mais ocidentalizado (pelas roupas…) faz lembrar um “Faia”, personagem típico dos bairros de fadistas de Lisboa de antigamente. Uma belíssima fotografia de Gérard Castello-Lopes tem esse título. Segundo os dicionários, um Faia é “indivíduo que tinha modos e falar especiais e costumava, nos seus folgares, cantar e tocar o fado”. Também se podia simplesmente dizer “Fadista”. Aquele pé contra a parede, enquanto se olha ou diz piropos às raparigas, se fuma um cigarro e se usa o telemóvel, não engana ninguém!

DN, 26 de Novembro de 2017

domingo, 19 de novembro de 2017

Sem Emenda - As Minhas Fotografias


À beira Tejo, do alto do Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa – No estuário do Tejo, há alguns marcos de nobreza e memória. A Torre de Belém é o mais formidável. O Cais das Colunas tem admiradores, é um dos locais privilegiados para as “selfies”. A Central Tejo é edifício atraente. Entre os contemporâneos, podem citar-se a Torre de Controlo de Pedrouços, assim como a Fundação Champalimaud, o MAAT e o Terminal de Cruzeiros. Vamos ver como se comportam no futuro, o que deles dirão as novas gerações. Apesar da estética muito discutível, o Padrão dos Descobrimentos é um dos mais conhecidos. Foi construído em 1940 para a Exposição do Mundo Português. Mas era tudo de gesso e cal. Foi reconstruído a sério, em pedra e betão, em 1960. O acesso público ao terraço, onde foi feita esta fotografia, só é possível a partir dos anos 1980. Lá em baixo, o passeio à beira rio é de uma serenidade inesquecível. Ouvem-se as gaivotas e as vozes das pessoas a falar todas as línguas do mundo.

DN, 19 de Novembro de 2017