domingo, 5 de março de 2017

Sem emenda - Titanic

É sempre impressionante ver a maneira como, mau grado os sinais e apesar dos avisos, povos, Estados ou pessoas podem caminhar para o precipício ou o desastre. Fizeram-se guerras, destruíram-se vidas, perderam-se liberdades e caíram regimes democráticos. No entanto, muitas vezes, sabia-se, percebia-se antes… E havia quem tocasse música! E quem não parasse de se divertir! E quem perdesse tempo com questiúnculas… Talvez não estejamos em vésperas de grandes tragédias, mas caminhamos tranquilamente para o desastre.

As transferências para os offshore estão na origem do que será talvez o mais grave gesto suicida da direita portuguesa. A decisão deliberada de poupar os grandes capitais e de lhes permitir uma via de fuga e folga, um caminho expedito para o abrigo e o refúgio ao fisco, com conhecimento do governo, com identidade… Não se sabe ainda quanta malícia, quanto dolo e quanta intenção residem nas decisões, na falta delas, nas “falhas do sistema” e nas tentativas de ocultação. É mesmo possível que o crime seja menor do que se pensa e se reduza a esta espécie de naturalidade inventada pelo capitalismo financeiro e que consiste em julgar que é legal, impune e moralmente aceitável tudo quanto aos mercados diz respeito! A direita pensa que tudo lhe é devido. E permitido. Tão cedo, não terá a direita portuguesa o benefício de nova confiança e de algum crédito. Estas operações têm vindo a ser conduzidas com tanta perícia, por parte do governo e das esquerdas, e com tanta estupidez, por parte das direitas, que se apagou o papel desempenhado pelos socialistas nos anos da brasa dos governos de Sócrates relativamente ao grupo Espírito Santo, à PT, ao BCP ou à Caixa.

Esta espécie de suicídio da direita é de tal modo evidente que permite ao Governo e aos seus aliados desencadear um ataque, há muito planeado, contra o Banco de Portugal e o Conselho das Finanças Públicas. Os governos não gostam de entidades independentes. Este não é pior do que os outros. Mas também não é melhor. É da mesma raça de invejosos e déspotas!

Não é só internamente que se evidencia esta jornada para o desastre, esta maneira de gastar o tempo e os recursos com futilidades. Na Europa e na União, como é sabido, esta caminhada desnorteada é chocante e perturbadora. Basta pensar no próximo acto pomposo: a fim de comemorar os seus 60 anos, a União reúne-se em Roma dentro de dias. Para a ocasião, o presidente Juncker anunciou a publicação de um “Livro branco”. Analisado o seu conteúdo, o que se pode dizer mais apropriado é que o livro vai mesmo branco…

Nunca se viu resolver crises globais, de política e de destino com cinco cenários! Parece uma associação de jovens gestores em preparação para um concurso internacional de Play stations e estratégia! A três semanas da cimeira de Roma e a dias de aprovação de uma declaração formal de relançamento da União, a apresentação solene, em Parlamento, de uma colecção de cinco cenários é o mais impressionante atestado de impotência e de desorientação que se pode imaginar! Nos Estados Unidos e na Rússia, Trump e Putin preparam-se para apertar os europeus. Entendem ambos que podem encostar a União ao muro e traçar as suas fronteiras de interesses e as suas cartografias de intervenção sem ter em conta com uma Europa em crise. Na Ásia, uma poderosa China saboreia os seus novos poderes e ignora seraficamente avisos que lhe são dirigidos em nome da liberdade e dos direitos humanos. Dentro da União, nunca se viveu um tempo como este: ninguém quer entrar, vários querem sair. Ninguém quer o que está, ninguém sabe o que quer. As eleições nacionais de seis países vão ditar o futuro dos 27. Na verdade, as eleições em dois ou três vão ditar o destino de todos. Mas, no deck, à beira da amurada, a orquestra continua a tocar a Ode à alegria.

DN, 5 de Março de 2017

2 comentários:

Cantal disse...

AB defendeu, e ainda defende, a austeridade levada a cabo pelo anterior governo, admirando a resistência de Passos & C.ª. Esteve do lado errado. Não vamos esquecer.
Agora não vale mudar de agulhas… Para isso está cá o sempre disponível sorumbático.

“Os governos não gostam de entidades independentes. Este não é pior do que os outros. Mas também não é melhor. É da mesma raça de invejosos e déspotas!”

Uma vez que o Dr Barreto já foi membro de governos deste país, é caso para perguntar:
- António Barreto é de que raça?
Um alarmista e catastrofista que serve os interesses da direita portuguesa e que continua a pensar que a direita é a “estrada real” e a esquerda “o lado errado da vida”?

“A direita pensa que tudo lhe é devido. E permitido.”

Fantástico, AB! Fico comovida com tanta sinceridade! A direita está, não é verdade?
Está no centro do furacão da crise financeira, económica e política de Portugal e UE.

Hummm… Irá chover?

bea disse...

É assim mesmo, o teatrinho da UE, com escolha de cenário e tudo, para entreter os europeus - ou a eles mesmos, participantes no fogo fátuo.
E eu a julgar que, em prol do país, podiam esquerdas e direitas, por uma vez, unir-se. Mas, com as suas vicissitudes, tem sabor agradável esta nossa união das esquerdas.