segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Sem emenda - Prova dos nove…

Era, há muitos, muitos anos, uma cantilena infantil apropriada a descobrir os mistérios dos números. Matrículas de automóveis e aniversários, por exemplo. Ou então, em vésperas de ano novo, tirava-se a prova dos nove. 2017? Dois mais um, três, mais sete, dez, noves fora um: é o primeiro, ganha tudo! Em 2016, noves fora nada: perde tudo! Em 2019, noves fora três: é a conta que Deus fez. Ou 2014, noves fora sete: quem não pode não promete! Batia sempre certo. Quase…

A prova dos nove, para Portugal de 2017, começa agora, hoje mesmo, primeiro de Janeiro. O ano vai ser especialmente difícil. Aliás, os clichés mais gastos são todos verdadeiros: “incerteza”, “ameaça”, “perigos” e “riscos”. Centenas de pessoas perguntadas pelos jornais e pelas televisões, optimistas e pessimistas, começam e concluem os seus testemunhos com as mesmas expressões.

Será Portugal capaz de combater a crise instalada e aparentemente adormecida? Poderão os dirigentes políticos e económicos encontrar soluções para os nós que parecem cegos? Quem observa e quem vê gosta de se entreter a prever a duração e a habilidade. É um passatempo divertido, mas inútil. Por maior que seja o jeito e a esperteza, enquanto não houver investimento e crescimento, tudo se manterá frágil e perigoso.

O pior de tudo é talvez o endividamento, o que vem de trás e o que não cessa de aumentar. É seguramente a maior chaga de que o país sofre. Apesar da tendência dominante para subestimar os efeitos do endividamento, a verdade é que este é tão nefasto quanto a falta de liberdade, o caos nas ruas, o desemprego ou a miséria. Com a agravante de ter feito de Portugal um pária dependente. Ainda hoje, é lamentável ver como grande parte dos dirigentes e até mesmo da população não considera a dívida realidade ameaçadora. Muitos Portugueses têm uma atitude como a do fidalgo arruinado, com gostos caros, poucos recursos e a impressão de que tudo lhe é devido. Muitos acham mesmo que não se deve pagar a dívida e que tal atitude é virtude soberana.

A verdadeira prova dos nove é a do investimento e do crescimento económico. Sem um e outro, não haverá bem-estar, nem equidade, nem menor desigualdade, nem mais justiça, nem melhor educação e mais saúde. A prova dos nove não será a dos subsídios, dos aumentos de pensões, de férias e feriados, da redução de horas de trabalho, do aumento de salários mínimos e médios, dos benefícios de saúde e de educação ou dos abonos sociais de toda a espécie. Se tudo isso, que é excelente, não resultar do crescimento económico, do investimento, do aumento da competitividade, da abertura de novas oportunidades comerciais e das melhorias na organização do trabalho, então tudo isso será demagogia de pouca duração. Será mesmo a antecâmara do desastre. Essa é a prova dos nove: o investimento, que gera crescimento, que produz desenvolvimento e que está na origem do progresso social. A prova dos nove deste governo não é a da sua duração nem a da solidez do seu apoio parlamentar. Não é difícil obter sustentação enquanto os três perceberem que os que caírem morrem. A prova também não é a dos resultados das múltiplas negociações e dos numerosos compromissos que, todas as semanas, o Governo tem de realizar com os partidos da esquerda parlamentar. É fácil negociar quando todos têm a ganhar e todos receiam o adversário. É fácil enquanto se pode assinar cheques. A verdadeira prova dos nove não será a do aumento da despesa, mas sim a da diminuição do endividamento. 
A superstição da numerologia é favorável. 2017? Dois mais um, três, mais sete, dez, noves fora um: é o primeiro, ganha tudo! Se houver investimento… Se não, noves fora nada!

DN, 1 de Janeiro de 2017

5 comentários:

Sem dono disse...

A que investimento se refere? Ao público, ao privado, ao estrangeiro? Atrapalham-se, é? O Estado impede o investimento das poupanças das famílias e empresas, por poucas e pequenas que sejam? Os impostos serão assim tão elevados que impeçam o investimento estrangeiro? Não há poupanças para investir? As mais-valias foram todas para a Holanda? Bora lá falar do sistema financeiro como se o cidadão português fosse muito burro, s.f.f.

Antes de colocar o dedo no ar para verificar donde poderá surgir melhor habilidade e proveito para si e para os seus, conviria que fizesse um balanço das suas contas que, como se sabe, saíram furadas, não sendo sequer necessário fazer a prova dos nove.
Ora vamos lá a saber: ao contrário do que AB previa, a solução governativa à(s) esquerda(s) funcionou, o que quer dizer que o motor da “geringonça” não gripou; houve respeito pela Constituição, devolvendo-se os salários aos funcionários públicos; apesar disso, as contas do Estado estabilizaram e a economia deu mostras de algum crescimento, embora de forma pouco expressiva; a UE chantageou, mas aprovou e não castigou; o PR dissipou de vez o fantasma de crise política, deixando a direita insatisfeita e muito nervosa e, por fim, a eleição de António Guterres para o mais alto cargo da ONU, o que lhe deve ter custado muito a engolir. Tudo isto deve ter sido uma maçada.

A verdade é que não será com cantilenas, clichés, superstições e crises artificiais que daremos a volta à dívida pública que nos sufoca. Havendo dinheiro para pagar a dita, nos termos acordados, não sobrará, com certeza, dinheiro para manter e melhorar o estado social, nem sequer para outro investimento público. Dito isto, acredito que, para se conseguir mais investimento e crescimento, teremos de, antes de mais, rever as condições de pagamento da dívida junto dos credores, caso contrário, não sairemos facilmente desta debilidade económica e raquitismo financeiro que nos preocupa, correndo o risco de ficarmos verdadeiramente “pobres”.
Em 2017, espero que a vontade de renegociar a dívida pública seja superior á vontade de “ir aos pobres”.

bea disse...

Também sou pela renegociação da dívida que não significa negar o seu pagamento nem viver acima das nossas possibilidades. Mas concordo consigo quando diz que minorar a dívida e aumentar o investimento é fundamental para o país.

Cristovão d' Orey disse...

Doninha Sílvia Carmo “Sem dono”, atingiu o auge da sua rasquice! A avaliar pelas suas palavras e indirectas, o seu grande drama é a estupidez e a canalhice. E em si, a estupidez tem um poder tremendo. É estado. É absoluta!

Como dizia Claude Chabrol “La bêtise est infiniment plus fascinante que l'intelligence... L'intelligence a des limites, la bêtise n'en a pas!”

Sem dono disse...

Olha que não...
No próximo mês, se ainda houver caixa de comentários, juro que serei um lírio da paz (Spathiphyllum wallisii). Absolutamente "rasca", claro está!

Sem dono disse...

Acabei de ler no meu telemóvel uma mensagem anónima do 9361372...com um discurso intimidante para com a "doninha fedorenta" atribuindo-lhe ligação familiar a AB entre outras coisas.
Mais informo que não me intimidam desta maneira. Aliás, podem-me atribuir a família que quiserem, mas de uma coisa podem ter a certeza: eu não pertenço à firma de AB. Ponto final. E também não estou "obcecada" por ele. Quem me conhece da blogosfera, e não só, saberá que há muito que dedico algum do meu tempo livre a contrariar o catecismo de santos que encontro pelo caminho, alguns dos quais com pés de barro. Um de cada vez, é certo.

Tenham um excelente 2017.