segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Sem emenda - Esquerda, direita e vice-versa

Está aberto um novo ciclo político. Como já houve noutros tempos, de má memória, antes e depois do 25 de Abril. São tempos de fanatismo. De exclusão. De afrontamento sem tréguas. São tempos de esquerda contra a direita, que geram tempos de direita contra a esquerda. Há quem goste. Há quem considere que essa é a grande política, o regresso da política e outras banalidades. Mas sabemos que não é verdade. Com o país assim dividido, perdem-se meios de acção e oportunidades de compromisso e de cooperação.

Há com certeza esquerda e direita. Em muitas coisas, são diversos e querem coisas diferentes. Mas há muito mais. O país e a política não se resumem a isso. Há a cultura, a nação, a religião, a etnia, a região, a idade, a arte, a ciência, o trabalho, o desporto, o amor, boa parte da economia, a educação, a saúde, o património e muito mais onde esquerda e direita não têm qualquer espécie de importância, podem até ser nefastos.

O que nestes tempos de fanatismo marca a diferença entre esquerda e direita é o autor. O que a direita faz é de direita. O que a esquerda faz, de esquerda é. A autoria marca o conteúdo, não o contrário. É o estilo dos déspotas. A mesma coisa, feita por alguém de esquerda ou de direita, é de esquerda ou de direita. Austeridade, poupança, frugalidade ou rigor: se os responsáveis forem de esquerda, é de esquerda. Se forem de direita, é de direita. Medidas da responsabilidade de partidos da direita são fogo para a esquerda, devem ser condenadas e consideradas roubo. Se postas em prática por gente de esquerda, são detestáveis para a direita e consideradas assalto.

Diminuição das garantias, redução das liberdades individuais, restrição de direitos, violação do segredo bancário e do sigilo de correspondência: estes gestos têm duas interpretações. Feitos pela esquerda, de esquerda são, festejados pelas esquerdas e repudiados pelas direitas. Feitos pelas direitas, de direita são, aplaudidos pelas direitas e vilipendiados pelas esquerdas. Gastos com a defesa, despesa com a segurança e equipamentos para as polícias: conforme o governo, assim estes orçamentos serão de esquerda ou de direita, apoiados pela tribo apoiante, condenados pela tribo oposta.

Negócios com capitalistas, entendimentos com multinacionais, favores a empreiteiros, incentivos a investidores, projectos de equipamento e parcerias: são empreendimentos de esquerda ou de direita, conforme os governos que as fazem, não conforme os méritos da obra.

Corrupção, crime e delinquência: é muito fácil, perante uma qualquer destas realidades, verificar que esquerdas e direitas se comportam de modo simétrico. Simpatizam, toleram ou condenam consoante o autor. As políticas e as medidas contra o terrorismo e a violência têm o mesmo destino: se vierem da esquerda, são de esquerda, aplaudidas pela esquerda e condenadas pela direita. Se vierem da direita, são de direita, festejadas pela direita e opostas pela esquerda.

Quase já não há matérias em que a esquerda e a direita democráticas sejam capazes de, sem trauma, estar de acordo. Quase já não há valores comuns. Com esta divisão exclusiva, toda a esquerda deixa de ser democrática para a direita e vice-versa. Nos debates parlamentares, já se fala de esquerda e de direita como se fossem pestes ou pragas sem salvação.

É natural que haja “paz social”, isto é, ausência de greves, enquanto os sindicatos de esquerda tenham acesso ao poder e os partidos de esquerda possam frequentar os corredores do governo. Também é natural que haja “clima optimista” para os negócios, enquanto os patrões tenham fácil contacto com os governantes e os partidos da direita sejam bem-vindos nas antecâmaras dos ministérios. Tudo isso é natural e faz parte do jogo político. Infelizmente.

DN, 2 de Outubro de 2016


4 comentários:

bea disse...

É ou parece irremissível: os homens são cada vez mais os mesmos. Incapazes de se unir em função de um bem maior e mais amplo que a bipolaridade esquerda-direita. Perigoso por muito motivo, mas sobretudo porque traz ao povo o cansaço da politiquice à portuguesa, a descrença nas organizações partidárias e a falta de caminho por onde andar. Pode originar uma deriva.

Sílvia Carmo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Sílvia Carmo disse...

Que exagero!...
Este texto revela uma visão apocalíptica da atual situação política nacional com a qual se pretende lembrar e incutir medos e insegurança de antanho aos portugueses. Trata-se, portanto, de uma peça a incluir na estratégia concertada levada a cabo também por outros fazedores de opinião como, por exemplo, Rui Ramos, José Manuel Fernandes e Fátima Bonifácio, para quem o engenho político do atual governo lhes provocou uma ferida profunda ainda em carne viva. Quase toda esta gente cresceu na estrema esquerda e, agora assediados à direita, pretendem dar lições de democracia às gerações mais novas, porém, só os velhos e analfabetos reverentes os seguem, como se poderá constatar nas caixas de comentários espalhadas por vários lugares.
Na verdade, a direita portuguesa, a partir do momento que percebeu que a tradição já não é o que era e que “as esquerdas” deixaram de ter apenas uma função decorativa no parlamento, entrou em paranoia, o que não deixa de ser preocupante. Esta gente delira e vê marxismo-leninismo em todo o lado. Até já se lembraram de trazer o PREC à colação para provocar os medrosos…
A nova geração de portugueses não tem paciência para fanatismos, revivalismos nem para liberais de pacotilha e não parece querer reduzir o seu discurso político e cívico à dicotomia esquerda /direita.
Por aquilo que me é dado observar, verifico que as gerações mais jovens parecem libertas dessa carga ideológica. Será para essas que teremos de olhar e não para o passado, por mais que nos esteja ainda atravessado.

Sílvia Carmo disse...

Em vez de "estrema esquerda" deve ler-se "extrema esquerda". Sorry!