sábado, 20 de junho de 2026

Grande Angular - Artificial é, inteligente é que não!

 Em 27 páginas de texto, a moção de estratégia apresentada ao congresso do PSD por Luís Montenegro usa a expressão “Portugal Maior” 90 vezes! É difícil compreender a intenção ou o propósito. Repetir muitas vezes aumenta a capacidade de convicção? Há muito tempo que se sabe que não. A enxurrada de slogans mantém a plateia acordada? Também é conhecido que o efeito é o contrário, isto é, provoca a sonolência. Será que os oficiantes têm necessidade de inventar uma ladainha capaz de juntar esforços? É duvidoso que a monotonia tenha qualquer eficácia. Poderá imaginar-se que, com as grandes tarefas nacionais e internacionais, os dirigentes do partido não tiveram paz de espírito para escrever qualquer coisa de jeito e então recorreram à Inteligência Artificial. É bem possível, mas o resultado é catastrófico. Muito artificial e pouco inteligente. Sem emoção nem razão. Sem pensamento nem projecto. Sem fôlego cultural nem energia criativa. A moção é uma lengalenga burocrática e proclamatória. Um arrazoado com pretensões nacionalistas e aspirações patrióticas, à mistura com fidelidades europeias, atlânticas e mundiais.

 

O texto recorre a expressões de delicado sabor, tão expressivas como a escrita cuneiforme! A moção propõe: Ampliar Portugal. Potenciar Portugal. Desbloquear Portugal. Transformar Portugal. Reformar Portugal. Além de querer fazer de Portugal um HUB intercontinental. Os seus autores querem, naturalmente, criar um Portugal mais português, mais europeu, mais atlântico e mais lusófono. E inevitavelmente fazer de Portugal um país mais seguro e mais resiliente. As ameaças são tão aterradoras quanto as boas intenções. Ampliar? Potenciar? Receia-se o pior. Dá vontade de alertar os portugueses. “Fujam, que eles vêm aí!”.

 

São mais de vinte páginas de lugares comuns, de frases feitas e de slogans sem significado. Não tem uma proposta nova, uma orientação especial de trabalho para o país ou para o governo, nem sequer para o partido. Afirmam-se desejos impróprios em adolescentes, quanto mais em pessoas maduras. Querem Portugal maior em tudo, no trabalho, na ciência, no desporto, na cultura, na justiça e na saúde. Maior na economia, nas empresas e na tecnologia. Maior na igualdade e no bem-estar. Maior em tudo. Maior do mundo. Além de maior, pelo menos noventa vezes, Portugal estará no centro e no foco, enquanto as pessoas estarão no centro, expressões dilectas dos partidos. Não só as pessoas em geral, mas também os estudantes, os trabalhadores, os empresários, os professores, os idosos e os doentes. Todos estarão no centro do país maior.

 

Raramente se escreveu moção tão tola e tão recheada de lugares comuns. Com esta moção, o presidente do PSD e actual Primeiro ministro tem um único objectivo: o de afirmar que não quer governar com o Chega nem com o PS. Que quer governar sozinho, ora com um ora com outro, na esperança de ser derrubado, a fim de obter uma maioria absoluta. A nulidade desta ambição só tem um equivalente, o da mediocridade dos propósitos. O PSD e o seu Presidente, Luís Montenegro, copiam o MAGA do Trump, o da América maior e o da América novamente Grande, mas não têm a força dele, nem os porta-aviões, muito menos os dólares ou as empresas, ainda menos a capacidade de impor ou influenciar. Apesar da linguagem aparentemente grandiosa, a moção traduz um miar temeroso e envergonhado. Parece um bichano invejoso que, ao lado do leão, se limita a gaguejar “eu também!”, “nós também queremos!”, “nós também somos!”.

 

Sabemos que ninguém lê estas moções. Ninguém tem tempo, nem interesse. Nem paciência. Mas o problema é que alguém escreveu esta moção. Alguém a leu. Alguém a aprovou. Mesmo com a ajuda da Inteligência Artificial ou de qualquer outro dispositivo, foi necessário que alguém lesse e alguém aprovasse. 

 

É bom que os congressistas saibam que as suas decisões vão ficar nas biografias, com uma mensagem explícita: “votou a moção de estratégia do Congresso de 2026”! Será pior do que um chumbo a português ou a desenho nos exames do secundário! Quem for capaz de votar esta moção depois de a ter lido, é capaz de tudo. 

 

Mesmo com o desconto que estas coisas merecem, não deixa de surpreender o estado a que o debate político chegou. No Parlamento, supostamente o templo do debate, as coisas são o que são. Não se sabe muito bem porquê, mas o debate parlamentar foi moldado de uma maneira absurda. Mais do que em qualquer outro sítio, a forma leva a melhor sobre o conteúdo. Mas da pior maneira: com berros e gritaria, à beira do insulto, os adjectivos dominam os substantivos. O fútil, a intenção, a armadilha e o espectáculo para a televisão têm o primado. Assistimos, nas últimas décadas, ao declínio da discussão política, do debate cultural. É a redução da política ao grau zero de inteligência. Os cidadãos são considerados espectadores de luta livre. É evidente o desprezo por quem sente e sofre, por quem pensa e ama.

 

Não se pense que foi sempre assim. Não. Há recordação de grandes questões e importantes debates, com sentido e consequência. Sobre a Europa, por exemplo. Sobre a liberdade sindical, o aborto, a televisão privada ou a regionalização. Sobre as revisões constitucionais, com relevo para os poderes do Presidente, a criação do Tribunal Constitucional, a reprivatização de empresas e o desenvolvimento do mercado. Gradualmente, os grandes temas foram desaparecendo. Ou transformados em anedotas. Há temas actuais de primeira importância que ficam à porta da Assembleia da República ou nos estúdios de televisão. A guerra e a paz na Europa e no Próximo-Oriente não mereceram até hoje a atenção séria e demorada dos Parlamentares. A inevitável transformação da NATO também não. As Forças Armadas portuguesas e a política de defesa estão ausentes.  As migrações, em particular a imigração, assim como a política de população, fundamentais nos tempos actuais e próximos, devem vegetar nos corredores e servem sobretudo para questiúnculas paralelas sobre o racismo, a xenofobia e a grandeza pretérita de Portugal. O sistema de educação, tão necessitado de avaliação e de estabilidade a prazo, serve para esgrimir, não para educar. O sistema de saúde, crítico e caótico, serve para acusar, não para tratar. E a justiça, senhores, a justiça, que tanto necessitaria de vossa atenção, do vosso interesse e do vosso empenho, não do vosso silêncio envergonhado!

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Público, 20.6.2026

1 comentário:

Jose disse...

Já li algo parecido sobre a 1ª República.