É possível que, no actual governo, um ministro mais competente seja capaz de “arrancar” um grande investimento ou um financiamento europeu acima do previsível. É provável que um ministério mais atrevido consiga, por exemplo nas áreas científicas, aprovar um projecto de grandes dimensões e efeitos para a economia e a sociedade. Como é previsível que um departamento oficial mais despachado possa organizar-se melhor e contribuir com mais cuidado para um qualquer serviço público. Nada é certo, mas tudo isso é possível. Só que não é suficiente para bem governar, muito menos para durar uma legislatura. Nem para encontrar consensos sociais e definir objectivos realistas. Tudo isso não basta para estabelecer os fundamentos de alguma estabilidade e garantir um módico de lealdade legislativa e executiva. O bom governo exige tempo e serenidade, não sofreguidão e artimanha. Os arranjinhos poderão disfarçar o inevitável, mas não conseguirão evitá-lo. E o que é exactamente o inevitável? É a crise de governo e de legislatura. A queda do executivo. O afundamento do Primeiro-ministro. A certeza de novas eleições. A alteração dramática de alianças partidárias. É isso o que o governo quer? É esse o grande sonho político deste governo apostado em culpar os outros pelas suas crises, a fim de convocar eleições e delas obter, como nos velhos tempos, uma maravilhosa maioria absoluta?
São mínimas as hipóteses de que isso tudo aconteça e tenha os resultados esperados por estes nossos aprendizes. O mais certo é que as coisas corram mal, que não se obtenha estabilidade, que não se consiga facilmente elaborar um plano de coligação ou aliança à altura das tarefas e das urgências. Como é seguro que o preço a pagar será muito elevado e terá consequências bem negativas para a sociedade e a economia. Tentar evitar os desastres que se avizinham exige esforços e alguma humildade democrática. Como pede racionalidade e sentimento de serviço. Tudo géneros difíceis de encontrar nos tempos que correm.
Ainda por cima, na maior parte do mundo, a ditadura vai vencendo. E na Europa, a democracia vai perdendo. Nos países europeus, os maiores, os mais poderosos e outros, os partidos nacionalistas, de direita radical ou de extrema-direita, são já os primeiros ou os segundos mais votados. Custa imaginar, mas é verdade, que o primeiro partido francês, italiano, austríaco, holandês ou húngaro, assim como o segundo mais votado português, alemão, sueco, belga, espanhol e finlandês pertencem ao grupo dito nacionalista, populista, de direita radical ou da extrema-direita! Estes partidos sabem agitar. É a especialidade deles.
Quase não vale a pena, sob pena de repetição fastidiosa, enumerar as dificuldades em que os portugueses e o mundo vivem. As guerras e as crises económicas que se aproximam ou que aí estão, com especial impacto na energia e na alimentação, deixam qualquer país inquieto. A crise, a fragmentação ou o desmantelamento da NATO, com as suas consequências para a insegurança colectiva e o aumento de despesa, anuncia uma enorme dificuldade da União e das suas principais nações. Pobreza e aumento do custo de vida ameaçam seriamente as nossas sociedades. A política económica e financeira americana, além da política externa e de defesa, vai redundar em verdadeiros calafrios para os europeus. A política chinesa não vai ajudar. Os países europeus frágeis ou instáveis serão as vítimas deste perigoso ciclo político que se anuncia. Só com muita irresponsabilidade é possível agir a pensar apenas no seu partido e nos seus amigos, no poder obtido ou a obter. Com governo frágil, é esse risco que corremos.
Uma aliança ou uma coligação não são soluções milagrosas. Pode mesmo acontecer que sejam condições para facilitar o descuido e a corrupção. Isso é verdade e é sempre um risco a correr. Mas de uma coisa podemos ter a certeza: é que sem maioria parlamentar, sem alianças e sem calendário de legislatura co-responsável, nada de sério é possível, a não ser deixar o campo aberto às tropelias e armadilhas da pequena política. É simples dizer: com aliança maioritária, tudo é possível, o bom e o mau; sem aliança maioritária, o mau é provável, o bom não é possível.
Pensemos nalguns sectores em dificuldade ou em problemas que todos conhecemos. Os serviços de saúde, por exemplo, à espera de um colossal esforço de reorganização e de investimento. Ou o atendimento na Administração Pública e nos grandes serviços em estado catatónico. De referir também a manifesta fragilidade do Estado e do capitalismo português à mercê de predadores públicos e privados internacionais. Ou a eterna, injusta e caótica Justiça, manipulada à vontade pelos seus grandes protagonistas. Sem falar no mais recente desleixo da maior parte das entidades públicas relativamente às consequências das tempestades da região Centro, a começar pela cidade e pelo Pinhal de Leiria.
Se procuramos exemplos do que é um Estado fraco e uma Administração débil, presas de interesses ilegítimos, não é preciso ir muito longe. Como se viu de novo ainda recentemente, todos os assuntos e negócios ligados aos helicópteros, aviões e equipamento de luta contra os incêndios, incluindo o famigerado sistema de comunicação, são próximos de um filme sobre a Mafia. São centenas de milhões. São desastres. É roubo. É impunidade.
Algumas das medidas legislativas que o governo tem vindo a imaginar, como as relativas à nacionalidade, às prestações sociais ou à imigração, são também exemplos de desleixo, de falta de pensamento e de deficiente doutrina. Questões fundamentais, essencialmente simbólicas e de primeira importância para um povo e uma sociedade, são tratadas com mesquinhez, muito cinismo e num estilo de pequeno negócio, como se os destinatários de tais medidas não fossem seres humanos e pessoas frágeis.
Último exemplo em data, a revisão constitucional, encarada como se fosse na mercearia do bairro, sem grandeza nem debate, sem seriedade nem doutrina. Pensa-se na Constituição e na sua revisão como se fosse um isco ou uma armadilha. O governo procura satisfazer a oposição de direita e silenciar a oposição de esquerda, navegando em terra de ninguém, à espera que o relógio adiante, que o futebol continue e que os ânimos arrefeçam na praia. O governo nem imagina o mal que está a fazer ao seu país!
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Público, 13.6.2026

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