sábado, 3 de outubro de 2026

Grande Angular - Desgosto grande, ameaça maior

 Erro? Desilusão? Má avaliação? O que foi exactamente, não se sabe. Apenas há a certeza de que se trata de um dos maiores desgostos intelectuais e políticos do presente. De que, pela ilusão, somos seguramente culpados. Mesmo não sabendo se podemos falar de “desgosto intelectual”. Talvez sim…

 

Os últimos anos de vida da humanidade vieram negar ou contrariar qualquer coisa em que acreditava com algum fundamento: dizia-se que o crescimento económico, a prosperidade das famílias e o aumento sustentável de rendimento e de nível de vida só eram possíveis a longo prazo com democracia e liberdade. Dizia-se. Pensava-se. Acreditava-se.

 

Durante grande parte da nossa vida, pensava-se que, a partir de certo momento, a democracia e a liberdade eram essenciais para o progresso técnico e científico, indispensáveis para a prosperidade cultural, insubstituíveis para o desenvolvimento cultural. Poderia ter havido, aqui e ali, na história recente, casos de crescimento e de desenvolvimento técnico e económico com ditadura ou pelo menos sem liberdade. Mas eram sempre, imaginava-se, casos de excepção temporária, sem consistência. E sem desenvolvimento cultural e social, muito menos político. Mas, nesses casos, depressa se veria como a democracia e a liberdade fazem falta. Sem uma e sem outra, não haveria discussão científica, nem progresso técnico em larga escala. Sem ambas faltaria a discussão académica, o melhoramento constante. Por outras palavras, estavam excluídas a escolha e a opção feitas pelos cidadãos.

 

A evidência era enorme. Os países mais desenvolvidos do mundo eram democracias. A maior prosperidade estava nas democracias. Os melhores indicadores de igualdade, de bem-estar e de melhoramento eram cativos dos países com democracia e liberdade. A Rússia comunista, dita URSS, era país poderoso, militarmente muito forte. Capaz de avanços incríveis na exploração espacial, no desenvolvimento tecnológico militar, na força atómica e na aviação militar. Mas tudo isso era apenas uma parte da sociedade. A maior parte da Rússia era subdesenvolvida, pobre, vivia em condições lastimáveis de habitação colectiva, de higiene medíocre e de alimentação deficiente. Nos anos 1980 e 1990, aquando da “implosão” do comunismo e da abertura da sociedade, viu-se bem a miséria daquele país. Tinha tudo, recursos naturais, matérias primas, espaço, poder militar e paz interna, mas rapidamente se verificou que as condições de vida e de trabalho, de habitação e de urbanismo, ficavam a milhas de distância das indústrias militares.

 

 

Outros países comunistas, da Alemanha dita democrática à Bulgária, de Cuba à Coreia do Norte, da Hungria à Polónia, revelavam contrastes ou paradoxos equivalentes. Nesses países, a habitação era execrável, a alimentação medíocre, os transportes incómodos e as fábricas quase sempre obsoletas. A tão gabada igualdade social era negada pela existência de uma poderosa e privilegiada elite política, que se chamava a “Nomenklatura”. Sem democracia, grande parte dos países asiáticos e africanos confirmava o panorama. O Japão era, aliás, uma excelente demonstração: com democracia, cresceu muito mais do que os seus vizinhos, guindou-se a posições maiores na ciência e na economia mundiais.

 

A evidência era inegável. Um país em ditadura, com governo autoritário, sem democracia e sem liberdade tinha limites, esbarrava na história, travava o crescimento e o desenvolvimento. A China comunista, por exemplo, tinha tentado duas ou três vezes crescer economicamente, acabava sempre ml, em mortandade e guerra civil, sem desenvolvimento social e com miséria. As suas várias revoluções e grandes campanhas de mobilização, em especial a Revolução Cultural dos anos 1960, produziram milhões de mortos e dezenas de milhões de presos e de esfomeados entregues a trabalhos forçados.

 

Os anos 1990 anunciavam uma nova era. O número de países democráticos ou a viver em condições próximas de uma democracia aumentava todos os anos. Quase todos os países comunistas deixaram de o ser. Na América Latina, os povos começaram novamente a dizer o que queriam e a fugir da permanente ameaça da ditadura militar. Em África independente, solidamente antidemocrática e ditatorial, começavam a aparecer povos e elites que desejavam aproximar-se da democracia e que tentavam construir um Estado à medida dos valores da liberdade. Na Ásia, onde vive a maior parte da humanidade, surgiam países com experiências complexas de tentativas de construção de algo que se podia parecer com uma democracia.

 

Foram tempos de esperança. Até que chegaram as más notícias. Três, pelo menos. A primeira é a de que, hoje, os Estados não democráticos são a maioria, assim como a população a viver sem democracia. Até a globalização, ao contrário do que alguns chegaram a pensar, se revelou antidemocrática nas suas consequências. O seu privilégio para as questões económicas, financeiras e comerciais deixou de lado e contrariou tudo o que se podia maginar como universalização da democracia e dos valores do direito internacional. A força do dinheiro e das armas parece ser agora a principal inspiração da humanidade.

 

A segunda má notícia reside no facto de, dentro das democracias, grandes e pequenas, surgem cada vez mais tendências antidemocráticas, forças políticas e movimentos de população que lutam contra a democracia e defendem ideias e valores autoritários de vária espécie. O nacionalismo mais ou menos populista avança nos países europeus e ocidentais. Os Estados Unidos, a França, a Alemanha, o Brasil e a Argentina, entre outros, são bons exemplos de enfraquecimento democrático. A União Europeia, um dos pilares democráticos do mundo, está agora ameaçada ou cercada por ideias e forças pouco ou nada democráticas. Trump, Putin, Xi e o Islão dividem a Europa e debilitam a democracia.

 

A terceira má notícia é a negação empírica de uma bela ideia, pelos vistos errada: não é verdade que a democracia seja indispensável para o desenvolvimento económico e social, técnico e científico. Os países sem democracia, sem liberdades, sem debate cultural e sem sociedade aberta também podem crescer, muito e mais do que todos os outros. Até ficar na vanguarda da ciência. A China é o melhor exemplo!

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Público, 26.9.2026

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