As regras são simples. A primeira é a mais importante, pois influencia todas as outras: fazer como se… Como se tivesse a maioria. Como se tivesse apoio parlamentar. Como se a oposição não incomodasse. Como se houvesse dinheiro para distribuir. Como se a oposição não percebesse.
Outras regras são igualmente claras. Negociar com os principais oposicionistas, separada e alternadamente, a fim de obter maiorias de circunstância. Ora com um, o PS, ora com outro, o Chega, até perceberem que estão a ser enganados. Negociar as leis mais reaccionárias com o Chega, as leis mais sociais com o PS. Na esperança de que estes dois partidos queiram ficar com o mérito de colaborar com o governo.
Ir experimentando, aqui e ali, uns projectos de lei mais difíceis: liberdades, reformas, saúde e educação. Ver como são recebidos pelas instituições, como reage a população. Recuar quando as reacções dos cidadãos não parecem ser favoráveis. E desistir sempre que não seja evidente que o governo é a vítima. Manter todos os projectos que possam revelar inveja das oposições.
Ocupar o espaço público como se não houvesse dia seguinte. Visitar toda a gente, na alegria e na tristeza. Famílias, empresas e autarquias. Em momentos de glória e de luto. Com um cheque no bolso e uma palavra de conforto. Visitas de manhã e à tarde, esporadicamente à noite. Sempre com televisão e jornalistas. Nada falhar: romarias, inaugurações, primeiras pedras, homenagens, aniversários, desastres e vistorias. Os ministros devem prestar declarações, à entrada e à saída. E discursos durante. Cada noticiário deve pelo menos incluir três ministros, todos os dias. Fazer-se sempre acompanhar de ministros, secretários de Estado, directores gerais e dignitários avulso. Multiplicar os assessores de comunicação e contornar os jornalistas.
Avançar com projectos de grande despesa e prazo longo, como o aeroporto, a grande velocidade, as fragatas, os aviões e outros equipamentos militares. Comprometer os orçamentos futuros, por dez a vinte anos, criando assim um rosário de oportunidades, que favorecem as comissões e amarram dependentes.
Ter a apoiar o governo, por via de contratos e de dependências financeiras, todas as empresas de auditoria e consultadoria e todas as entidades ditas de projecto.
Esperar pelo orçamento e por previsíveis votos de confiança ou censura. Fomentar uma aliança de toda a gente, direita e esquerda, capaz de derrotar o governo. Concentrar no orçamento todas as matérias que possam enfurecer a oposição e obrigá-la a ver como única solução o derrube do governo.
Fomentar a esquizofrenia das oposições. Os partidos querem mostrar que são responsáveis e atentos à estabilidade. Mas os partidos também querem mostrar que têm as suas ideias e defendem as suas causas. Querem ter os louros da colaboração e os méritos da oposição. Até ao chumbo do orçamento.
Esperar que o Presidente dissolva o Parlamento. Ir a votos, aumentar o eleitorado, chegar à maioria absoluta, ficar mais quatro ou oito anos. Governar à vontade. Enfim, sós!
Este guião é o que nos governa. São estas as regras, com pequenas variantes de improviso. Até para se ajustar aos seus próprios erros. O que se passou com as reformas da Segurança Social e da Caixa de Aposentações é exemplar. Os governantes libertaram os demónios sem ter percebido. Rapidamente compreenderam que só traria maus resultados. Todas as oposições contra. O Presidente da República contra. A população contra. Lá se ia perder a hipótese de uma demissão salvífica e de uma injustiça cometida pelas oposições. Assim se perdia a hipótese de uma dissolução redentora. Rapidamente a população foi informada que nada estava previsto e que tudo seria adiado para depois das próximas eleições. Para cúmulo do absurdo, o governo anuncia que espera ter pactos, para a Segurança Social e as reformas, com os partidos da oposição, o Chega e o PS. Por outras palavras, o governo espera capturar os partidos antes das eleições. É “truque” infantil. Não chega a ter a astúcia do “truque do Silva”, designação pela qual ficaram conhecidas as habilidades da autoria de António Maria da Silva, talentoso Primeiro-ministro da Primeira República. Aliás, último Primeiro Ministro da Primeira República.
É difícil compreender a lógica e o espírito da acção deste governo. Faltam-lhe “alma” e “visão”, como se diz. Não se detecta nenhuma razão central, para além de gastar o que há para gastar, prometer o que se pode e não pode prometer e selar compromissos com fornecedores, auditores, consultores e compradores. Das poucas vezes que meteu mãos à obra de questões difíceis, fugiu mal percebeu que não ganhava. O governo fugiu das leis laborais quando sentiu que ia correr mal. Fugiu da reforma da Segurança Social porque previu que iria sair mal do episódio. O governo só quer perder por causas que revelem a injustiça das oposições. Tudo fará para ganhar novas eleições.
É difícil compreender esta falta de sentido principal de acção. Não se pode pensar que seja por falta de sabedoria. Mas impressiona o facto de não se ver nenhuma razão substantiva para tanta incompetência, para este vaguear titubeante. Inteligentes são certamente. Conhecedores não se duvida. Experientes a maior parte. Bem informados, tudo leva a crer que sim. Com estudos, quase todos. É um mistério perceber a falta de produção importante, de obra feita, com excepção, pois claro, dos milhares de milhões comprometidos para os próximos anos.
À falta de imaginação ou de alternativa, o governo quer recorrer à solução conhecida. A do derrube injusto, no Parlamento, pelos oposicionistas que apenas querem criar obstáculos. É a solução do “deixem-nos trabalhar”. O problema é que estas coisas não se repetem. O guião é diferente, como diferente é o autor. Os protagonistas são outros, como outros são os tempos.
As consequências das estranhas aventuras do Ministro da Administração Interna e do insólito desastre do Ministro da Educação percebem-se melhor assim. Nenhum dos casos traria vantagens para a causa do “deixem-nos trabalhar”. Tal como as dificuldades da Ministra do Trabalho. Ou os mistérios estratégicos do Ministro da Defesa. Ou os incómodos atlânticos do Ministro dos Negócios Estrangeiros. Nenhum destes casos se resolve, nenhum se esclarece. Na verdade, nenhum contribui para o objectivo central: ser injustamente derrubado! É o desenlace que dá votos.
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Público, 29.8.2026
