sábado, 20 de setembro de 2008

Muzak...

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AS FESTAS DE NATAL E DE FIM DE ANO são sempre um ponto alto numa das misérias mais nefastas dos séculos XX e XXI: o barulho! Televisões, rádios, buzinas de carros, altifalantes nas ruas, árvores de Natal sonorizadas, foguetes, apitos de toda a espécie: as forças do mundo unem-se neste propósito desumano e incompreensível que é o de fazer barulho. Como se este fosse uma expressão da alegria, um sinal de felicidade ou um sintoma de satisfação. Como se os decibéis fossem a medida exacta do bem-estar! Não há canto e recanto que escape. Casas particulares, comércios, ruas, alto das montanhas, monte alentejano e escarpa duriense: em todo o sítio chega o barulho da festa, a estridente manifestação de que alguém está vivo e pretende assinalar a todos a sua condição. Ainda não percebi exactamente se as pessoas têm medo de passar desapercebidas, se querem afugentar o diabo que trazem nelas ou se simplesmente querem dar nas vistas. Uma coisa é certa: fazem barulho. Ou não se importam que outros o façam. Tem-se a impressão de que um indivíduo tem receio da solidão e do silêncio. Que já não quer ouvir os ruídos naturais da vida, nem sequer ser ouvido. Que a própria voz humana é incómoda.
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Terminadas as festas, nasce a esperança de reencontrar um pouco de silêncio e recato. Mas as ilusões morrem depressa. É possível que o volume de som baixe ligeiramente, mas a verdade é que o barulho se mantém. Veio para ficar. Há algumas décadas, instalou-se. Todos os anos aumenta. Todos os meses se diversifica. Todos os dias encontra novas formas de demonstração e uso. Entra-se num autocarro ou no comboio: há música. Sobe-se num elevador público, desce-se a um estacionamento subterrâneo: há música. Entra-se num avião ou numa sala de cinema: há música. Até em jardins públicos, a música brota dos altifalantes pendurados nas árvores. Música aparentemente doce, música aos berros, música estridente, música suave para atrair ao consumo, música agressiva para fazer as pessoas esquecer sabe-se lá bem o quê, música envolvente, mas música, sempre música. Música empacotada, música contínua sem fim, música indistinta, música feita de sortidos americanos e pots pourris das Caraíbas, música russa ao ritmo da Pigalle, mas música, sempre música. Telefona-se para um serviço, uma repartição, um banco: enquanto procuram ou se espera, enquanto se vai ver o dossier ou se pede esclarecimento ao computador, o incauto cliente leva com música. Fado ou guitarra. Orquestra ou bateria. Jazz ou valsa, tudo serve. Com relevo para os mais usados: “As quatro estações”, “Eine kleine Nachtmusik” e “Para Elisa”.
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Nos restaurantes, cafés e bares, é um martírio. Televisões sempre abertas, aos berros, com desporto e telenovelas, talk shows ou a meteorologia. Rádios sempre no máximo, com relatos de futebol, notícias ou simplesmente música. A partir das dez horas da noite, mais ou menos, o volume de som aumenta, pois a gerência quer correr com os comensais, para mudar de turno ou para fechar as portas sem pagar horas extraordinárias. Esse gesto leva as pessoas a falar mais alto. Ao mesmo tempo, o vinho bebido anima os clientes, que se excitam cada vez mais a falar. Como os vizinhos falam alto e a música já está aos gritos, todos se preparam para falar com cada vez mais energia. Nos centros comerciais, há música geral, mas cada loja, cada armazém, acrescenta a sua. Até em casas privadas, é fácil encontrar televisões ligadas todo o dia e aparelhagens em ruído perpétuo.
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Recentemente, os “Walkman” primeiro, os “iPod” depois, permitiram algum optimismo: com a música individual, talvez a ambiental desaparecesse ou fosse considerada obsoleta. Começámos a ver, com algum encanto, uns seres estranhos a sacudir a cabeça e a tremer os braços, com as orelhas devidamente equipadas com auscultadores. Raramente os vizinhos eram incomodados por aquelas extravagantes estridências. Infelizmente, os resultados não foram bons. O barulho individual veio acrescentar-se ao colectivo.
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Há uns anos, uma empresa americana chamada Muzak especializou-se em produzir pacotes de música. Organizava a sua mercadoria, com apoio de psicólogos e outros especialistas, de acordo com os locais onde a música iria ser ouvida. Fábricas, escritórios, centros comerciais, cafés, discotecas, aeroportos, elevadores, ruas, boutiques, aviões, comboios ou serviços públicos: para cada caso havia uma solução. Chegou a fazer-se música empacotada para que as galinhas pusessem mais ovos e as vacas dessem mais leite. Foi estabelecida a certeza de que a música fazia os consumidores comprar mais. Até se acreditou em que, nos hospitais, os pacientes curavam mais depressa, desde que adequadamente embalados. Milhares de empreendedores imitaram esta pioneira e o termo “Muzak” passou a designar genericamente esta nova praga urbana. Após uma ou duas décadas de pandemia, começaram a surgir as reacções. Gente que não gostava de música em permanência, pessoas que desejam falar e ser ouvidas e indivíduos que prezam o silêncio ousaram manifestar a sua repulsa por esta doença. Em países civilizados, na Suécia e em Inglaterra, já é possível adquirir nas livrarias e nos quiosques guias de restaurantes, de hotéis, de comboios e de comércios sem “Muzak” e sem televisões abertas. Começa a ser de bom-tom apreciar o silêncio. Nalgumas elites, o sinal já foi dado. Dentro de alguns anos, as classes médias, os intelectuais e as profissões liberais começarão a dizer que o barulho é próprio do povo, que a música empacotada é possidónia e que o silêncio é chique.
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O futuro é fácil de adivinhar. Dentro de poucos anos, os movimentos ecológicos, actualmente tão distraídos diante dos malefícios do barulho, vão descobrir que é necessário “colocar o barulho na agenda política”. Ao mesmo tempo, o Serviço Nacional de Saúde perceberá que gasta milhões de euros com doenças, sequelas e traumas provocados, directa ou indirectamente, pelo excesso de barulho. Por outro lado, as classes ilustradas, logo seguidas pelos imitadores habituais, tenderão a detestar o barulho e a mostrar que o silêncio as distingue do povo. Começará então a campanha contra o ruído. Um dia, o governo fará as contas e perceberá que o silêncio pode ser eleitoralmente vantajoso. Em conjunto, estas forças poderosas desviarão as suas armas contra o barulho. Começarão a surgir benefícios fiscais para o silêncio, salas reservadas para quem quiser fazer ruído e restaurantes ou comércios “music free”. Os discos pagarão taxas e os altifalantes impostos especiais. Nos automóveis, os rádios serão condicionados ou proibidos. As buzinas serão substituídas por sinais luminosos. A própria voz humana poderá ser taxada. Nesse dia, não tão longe de nós quanto se possa pensar, lá terão os defensores da liberdade de lutar por algo que sempre detestaram, o barulho, a música empacotada e as televisões aos berros. Triste sina!

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«Retrato da Semana» - «Público» de 7 de Janeiro de 2007

14 comentários:

Rui Fonseca disse...

"Triste sina!"

O último lamento é a legenda perfeita para a fotografia que revelou. Uma fotografia tirada com olho de peixe, que nos enreda num circuito sem saída.

E que não nos ajuda nada.

O que mais me impressiona na maior parte dos críticos, analistas, comentadores, e demais autoridades na abordagem da realidade portuguesa, é o gosto pela fotografia dos espaços deprimidos, da humanidade esfarrapada, das nossas incapacidades colectivas, da nossa impotência de ousadia, das nossas alarvidades, da nossa pequenez no corpo e na alma.

É um modismo que acompanha a tendência nas artes plásticas e que, se os artistas antecipam o futuro, nos carregam desde já com pesados fardos de angústia.

E a fotografia para ali fica exposta como ferida a escorrer os fluidos do corpo agonizante.

Sem que ao fotógrafo ocorra colocar uma fotografia ao lado do mundo possível que ele concebe.

Há sempre uma ponte, um caminho a percorrer, entre o mal e o bem, quaisquer que sejam os sentidos que estes extremos assumam.

Que se espera de um sociólogo que se indigna com a fotografia de um extremo, Que nos mostre o outro para vislumbrarmos o caminho. Não?

Imagine-se que o cronista é um médico a exibir-nos radiografias de corpos infectados. Que se espera dele? Que indique o tratamento.

Ou seremos sociologicamente intratáveis?

Anónimo disse...

Concordo consigo, como quase sempre, Caro AB.
Esta questão do barulho, há muito que me irrita também. O problema reside essencialmente na incapacidade que as pessoas têm em compreender que os seus direitos terminam onde os dos outros começam.

RM

António Barreto disse...

Prezado anónimo RM,
Obrigado pelo seu comentário. A essa incapacidade de que fala acrescento a de não conseguirem estar consigo próprios, a do medo do silêncio. Tanto do silêncio sozinhos, como do silêncio com alguém.

António Barreto disse...

Prezado Rui Fonseca,
Devo dizer-lhe que fiquei confuso. A frase que cita, "Triste sina", vem num texto sobre um assunto. O que você diz sobre a fotografia "olho de peixe" não rima com o tema acima. Além de que, nas minhas fotografias, pelo menos as publicadas aqui, não há "espaçops deprimidos", como você diz. Tenho vontade de concordar com algumas das suas reflexões (por exemplo, a que alude à moda da estética da miséria e do sofrimento...), mas não sei se realmente estamos a falar das mesmas coisas. Será que a referência à "fotografia" é apenas metafórica?

António Viriato disse...

Muzac ou Ruído ?

Como o compreende quem tem de há muito luta, ingloriamente, claro, contra esta brutalidade avassaladora dos tempos pós-modernos.

Creio que já se justificaria uma «cruzada» pelo direito, se não ao silêncio, pelo menos, pelo direito à ausência de ruído inútil ou supérfluo, como aquele que invade quase todos os espaços públicos, impedindo a conversação e a convivência normais. Isto para já não falar do tipo de música com que somos brindados em quase todo o lado, porque, aí também, o martírio é sem nome.

Quem meteu na cabeça dos donos dos estabelecimentos comerciais que a música atrai clientela e faz aumentar as vendas, que animação significa música em altos berros, qualquer música, em especial o rock debitado em martelados decibéis até à vibração dos nossos pobres órgãos interiores ?

É verdade que existe uma Lei do Ruído, mas quem a cumpre e, sobretudo, quem a aplica ?

Bom início de semana.

Nortada disse...

Não posso estar mais de acordo com o que diz na sua crónica, julgo no entanto faltarem ainda umas variáveis ou camadas, do problema geral que é hoje o ruído.
A fobia ao silêncio para mim é sem dúvida, como diz, o maior motivo da proliferação das fontes de poluição sonora que vivemos, não considerando ser um problema exclusivamente urbano hoje é também e enormemente um problema rural. Esse preenchimento dos vazios com ruído, mais não é, do que uma forma fácil de ir empurrando com a barriga, os momentos de auto-crítica tão incómodos como politicamente incorrectos.
O reino do faz-de-conta, o parece que é, enfim as aparências e o culto por elas será a meu ver a segunda maior razão deste comportamento aberrante, ouvem “música” não tanto para a ouvir e apreciar mas para a exibir e evidenciar que estão a ouvir “música” e que “música” estão a ouvir. A solidão acompanhada, é tanta, que até a música vira teia, na tentativa de capturar posição e, ou interacção social.
Existe também ainda a conotação do silêncio com o retrógrado, sinto-o já desde os anos 70/80 quando os emigrantes de regresso, a primeira coisa que faziam era providenciar quatro altifalantes para a torre da igreja e os quantos metros quadrados de azulejos.
Sempre achei, que a evolução das tecnologias iriam tornar absurda e desnecessária propagação indiscriminada do som, a tecnologia efectivamente está cá, mas engano meu porque a intenção de invadir abusivamente o espaço do próximo existe e está lá no comportamento social e temo que à semelhança de alguns outros da nossa vida social as melhoras estejam completamente dependentes da evolução educacional ( e não de certificação) da nossa sociedade em geral.
Numa vila portuguesa há três anos foi permitida a abertura regular 3 dias por semana de uma discoteca a céu aberto até às 06:00 da manhã a duzentos metros do centro da vila, passou a ser impossível dormir, pois foram necessários um abaixo-assinado, queixas repetidas diariamente à polícia, queixas ao Governo Civil, à Procuradoria Geral da República e ao Ministério do Ambiente enfim numa luta de oito meses para alguém entender o que julgo tão evidente, o silêncio é antes de mais um direito de cada um de nós se sentir.

Rui Fonseca disse...

" Será que a referência à "fotografia" é apenas metafórica?"

É apenas metafórica.

aurora disse...

Um sociólogo não é um filósofo político. É um "analista" da realidade.Só.

Embora o António Barreto seja uma pessoa primeiro e um sociólogo depois.

Como todos nós aliás.
Também me parece que este é um espaço de descompressão para AB, longe dos holofotes do costume.

Flora disse...

Neste contexto, os juízos de valor sobre AB, também me parecem ruído.

Rui Fonseca disse...

"Um sociólogo não é um filósofo político. É um "analista" da realidade.Só."

Não sei onde foi a Aurora buscar um perímetro de competência tão comprimido para os sociólogos mas não vou por aí.

António Barreto, como muitos outros críticos, para além da sua condição de sociólogos, historiadores, etc. são cidadãos com especiais responsabilidades porque a sua opinião atinge milhares de portugueses, enquanto colunistas na imprensa, e milhões quando são participam em programas televisivos.

Quando um crítico aponta uma situação condenável a sua condição de cidadão civicamente respopnsável impõe-lhe que aponte a quem se dirige o caminho que, segundo ele, deve ser tomado.

A propósito deste assunto escrevi em tempos um comentário no mesmo sentido a propósito de um artigo de AB sobre a intervenção do actual ministro da agricultura.

https://www.blogger.com/comment.g?blogID=267863663911790384&postID=7094713518720493478

Não foi comentado.

Mais recentemente, e a propósito de uma apreciação feita por outro crítico sobre o mesmo assunto escrevi:

...V. acha que ao cidadão comum não compete apresentar sugestões, assiste-lhe o direito de criticar.
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Não concordo.
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O direito à crítica é um direito de cidadania e um dos referenciais de uma sociedade democrática. Acontece que não há direitos sem obrigações. Pelo menos ao nível da responsabilidade que impende sobre a consciência cívica. Repare que V. só pode criticar aquilo relativamente ao qual tem, ou estabelece, uma referência. Dito de outro modo, só é possível, honestamente, dizer que uma coisa está mal se quem diz souber, ou pensar que sabe, como a mesma coisa estaria bem, ou, pelo menos, melhor. E também deve quem critica ter uma ideia, pelo menos aproximada, da forma como pensa que possa ser percorrida a distância que vai da situação má para a situação boa.
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A vivência democrática é isso mesmo: a discussão pública dos problemas e das soluções. Claro que não temos todos os dados que os governantes dispõem, ou é suposto disporem, mas a discussão para além da crítica irresponsável, porque daí não passa, obrigará a uma cada vez maior transparência entre a sociedade e os governantes. Podemos errar? Erraremos certamente muitas vezes nos nossos pressupostos. Mas se ao errar provocarmos o esclarecimento, ficaremos mais habilitados para a próxima.
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V. é filho de pescador. Eu sou filho de agricultor. Alguma vez alguém do ministério apareceu por lá a promover a habilitação dos pescadores? Nos meus sítios nunca os vi, e continuo a não ver nenhum. Ora isto precisa de ser dito: Ponha lá V. o ministro que puser, se ele não varrer o ministério de alto a baixo nunca mais terá a casa limpa.E nós continuaremos a não perceber para que serve o ministério da agricultura.
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Além de negociar com Bruxelas, claro.

Sílvia disse...

Concordo com o António quando diz que não gostamos de estar a sós connosco mesmos. Há quem diga até que temos muito medo da verdade... Se calhar, receamos pensar naquilo que nos pode dificultar a vida.

Anónimo disse...

Ruído: Vejo-me na necessidade, periódica, de deixar na Fertagus (o comboio da Ponte 25 de Abril) uma reclamação pelo facto de emitirem música a bordo (ontem era a RFM, os anúncios da RFM, etc., um massacre), não se podia ler! O Metro de Lisboa está horrível com publicidade sonora a escorrer de altifalantes tipo chuveiros, ninguém consegue escapar, i.e. ninguém consegue pensar. Há aqui direitos de personalidade que ninguém invoca e que qualquer dia não existem.
Estive recentemente num hotel de 5 estrelas que serve "música" em todo o lado, inclusive a partir dos canteiros de flores!
O Português tem horror ao silêncio - há aqui matéria para os psicanalistas. Quanto ao barulho em que diariamente o embrulham e se embrulha (anestesia?) resignamo-nos quase todos ou então pensamos "que é mesmo assim". O silêncio não é um valor. Para quem não é surdo de todo é uma luta diária.
Cumprimentos.
A Rodrigues

António Barreto disse...

Prezado A. Rodrigues,
O seu comentário suscita-me uma réplica: assim toda a gente que não gosta deste barulho de cidade faça como você, eu e talvez uns pucos mais. Isto é, assim todos protestassem ou reclamassem! O mundo seria melhor. Nos restaurantes, em particular, já é uma rotina: chego e peço para baixar a música! Agora, nos hoteis também. E vou ver, nos Centros Comerciais, estações de caminho-de-ferro, comboios, Metro, etc., todas as possibilidades que existem de reclamar!

teessea disse...

É provável que já tenha lido a crónica da Alexandra (Lucas Coelho) no “Ípsilon” de sexta-feira. O que aquela jovem jornalista escreveu foi um bom pretexto para eu retomar a questão da “Muzak”. Porque, de facto, ou se disciplina ou nós temos de passar a usar protectores do ouvido. Uma opção que talvez até seja uma estratégia (eventualmente perversa mas) com resultados decerto muito interessantes.