quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

“A Identidade Cultural Europeia”, Vasco Graça Moura (*)

TENHO um grande prazer e muita honra em apresentar o livro de Vasco Graça Moura. É um grande pequeno livro, de enorme oportunidade, de indiscutível interesse e de uma evidente erudição. Sublinho este último aspecto: numa altura em que as frases feitas, os lugares-comuns e os clichés têm cada vez mais saída, é reconfortante ver as virtudes da erudição, sentir que uma cultura sólida nos pode ajudar a compreender o mundo em que vivemos e que se nos apresenta, de modo crescente, como um mundo confuso, complexo e incerto. Para já não dizer inseguro. É um pequeno livro sobre um tema difícil e complexo, mas um livro claro, que nos satisfaz um prazer em perigo de extinção: o prazer de saber, de conhecer, de perceber.

O livro “A Identidade Cultural Europeia” é publicado num tempo em que a ela muito se alude, sem que se defina ou sem que se desenhem os seus contornos. Conforme as conveniências, a “Identidade europeia” é a Democracia ou o Estado social, o Cristianismo ou os Direitos do Homem, as Luzes ou o Romantismo. Ou tudo isso. Mas, quando se olha com cuidado, percebe-se que é muito mais, que evolui com o tempo, que é contraditória, que inclui valores universais estimados e reconhecidos, mas também realidades que são o seu contrário. E será esse um dos méritos deste livro: mostrar que a Identidade cultural europeia é um assunto inacabado, um fenómeno em formação e um movimento sem fim.
Percebe-se também o que Vasco Graça Moura nos quer dizer: é difícil ou talvez mesmo impossível definir e estabelecer a Identidade cultural europeia, mas onde ela está, logo se reconhece; quem a vê, dela se apercebe. Noutras palavras, ninguém a define, mas todos a distinguem.
A este propósito, um dos últimos capítulos intitulado “Identidade europeia, auto-reflexão e autoquestionamento” é uma obra-prima, um condensado da evolução de mais de 2000 anos da história europeia, sob o ponto de vista das ideias, dos valores e das artes! É um excelente auxiliar nessa tentativa de distinguir a Identidade europeia, sem a definir.

Em plena crise financeira europeia, que é também económica e política, todos parecem atribuir funções e obrigações à Europa, ou à União Europeia, mas poucos discutem os fundamentos dessas obrigações. Alguns ainda referem a solidariedade, conceito fácil e atraente, mas totalmente deslocado em assuntos internacionais e em relações entre Estados. Estes, para o bem e o mal, têm interesses, não sentimentos. Pode ser que ajudar o outro seja do interesse de um, mas a isso não se chama solidariedade. Pode ser que cuidar da coesão do conjunto seja do interesse de todos e de cada um, mas também a isso não se chama solidariedade. O que é interessante, no entanto, é ver e sentir como, em tempo de crise, se atribuem responsabilidades à Europa e à União. Quer isto dizer que há uma espécie de consenso ou de denominador comum: a Europa tem uma existência, tem interesses e tem responsabilidades. Mas também é interessante ver que essa “espécie de consenso” termina aí, não se reflecte na enumeração de deveres nem na atribuição de responsabilidades.

O ensaio de Vasco Graça Moura vai ajudar-nos a perceber essa realidade. Construído como uma peça musical do género das “variações sobre um tema”, o autor escreve quinze capítulos, como se fossem andamentos, voltando sempre ao tema central, a essa misteriosa, atraente e complexa “Identidade cultural europeia”. E sempre nos deixa a mesma impressão: a Identidade cultural europeia é sólida, permanente, indelével, de ambição universal e de aspiração perpétua, mas difícil de apreender e sobretudo frágil como alicerce de construção política, económica, militar ou mesmo científica.
Vou desobrigar-me de duas tarefas tradicionais das apresentações de livros. Primeiro, não resumo o livro. Não se resume um livro de 90 páginas! Segundo, não apresento o currículo do autor. Todos percebem porquê. Mas não quero deixar de afirmar que o Vasco Graça Moura é certamente um dos mais interessantes e importantes intelectuais da actualidade. Com uma passagem pelo Governo e outra pelo Parlamento Europeu, com a presença activa em grandes empreendimentos e instituições culturais, associou a acção à criação e ao pensamento. É aqui que ele brilha como escritor, poeta, ensaísta, romancista, colunista de opinião na imprensa e tradutor. Permitam-me sublinhar esta última vocação, este último talento. O Vasco deve ser uma das raras pessoas no mundo que traduziu, para a sua língua materna, obras, sobretudo poesia, que é o mais difícil, de pelo menos cinco línguas de origem! Traduzir para um português de grande qualidade, rigor e beleza, textos e poemas de, entre outros, Shakespeare, Dante, Rilke, Lorca e Villon… É obra! Ainda por cima no respeito pelas regras poéticas da métrica e da rima! Não está ao alcance de qualquer! Não está praticamente ao alcance de ninguém! Os prémios internacionais que recebeu por esse formidável trabalho são o sinal do modo como foi reconhecido pela comunidade culta e académica europeia. Com uma consequência interessante: Vasco Graça Moura é uma das mais sérias demonstrações de um facto frequentemente esquecido: traduzir é uma arte e uma técnica que alcançam os patamares da criação.
Repare-se ainda na coincidência, certamente não fruto do acaso: o que o Vasco trouxe para Portugal, o que traduziu e ajudou a difundir foi o património europeu! Shakespeare, Petrarca, Ronsard e tantos outros! Ninguém fez melhor!
 
Temas de conversa

O mito e a realidade.

Um dos grandes paradoxos da Europa reside na comparação da sua reputação de Europa de paz com a sua história de Europa de guerra. Tu próprio, apesar da crença na Europa, não deixas de aludir a esse paradoxo. Europa parece ser uma atalho ou um símbolo de paz, de solidariedade, de direitos do homem e de cultura, mas é de certeza o continente onde houve mais guerras, civis ou internacionais, mais revoluções, mais massacres, mais guerras de religião, mais liquidação de civis em conflitos militares, mais longas ditaduras, mais campos de concentração ou de trabalho…
As páginas do Google são formidáveis! Escrevi simplesmente “lista de guerras e conflitos na Europa”. A resposta veio em menos de um segundo: centenas e centenas de conflitos e guerras alinhadas por século! Esta Europa de ideias e cultura, de liberdade e de igualdade, passou a maior parte da sua história a fazer a guerra! Ainda no século XX, os mortos foram dezenas de milhões, os presos políticos foram milhões, os anos de ditadura foram dezenas, os civis massacrados foram milhões, as cidades bombardeadas foram dezenas… E nem falo das guerras que fixaram nomes horrendos: Guerra dos Trinta Anos, Guerra dos Cem anos… A que acrescento as Grandes revoluções que fizeram milhares de mortos… E mesmo duas Grandes Guerras que começaram europeias e acabaram mundiais!
A guerra parece ser uma identidade europeia! A guerra é uma vocação europeia!
Curiosamente, não foram guerras contra terceiros, como talvez em Lepanto, em Viena ou no Salado… Foram guerras entre europeus, como em Sadova, Waterloo ou Verdun… É curioso ver como a guerra é um dos factores de identidade da Europa! E ver como hoje os Europeus fogem à responsabilidade militar, à despesa com a defesa e se entregam facilmente à protecção americana!
As guerras entre Europeus foram sempre mais mortíferas do que contra terceiros!
 Até a religião deu, na Europa, guerra! O Cristianismo é seguramente uma reputação europeia. É certo que o Cristianismo não nasceu na Europa, mas foi aqui que ele vingou. Pois bem, na Europa, até a religião deu guerra! Não para salvar o Cristianismo dos seus inimigos, mas para ajustar contas entre Cristãos! Em guerras que foram das mais mortíferas da sua história!
 
O paradoxo da cultura e do património.

Na Europa, o mais comum, o mais perene e o mais conhecido é a cultura! Mas a União não se faz com cultura!
A União, aliás, dedica muito pouco tempo, dinheiro e energia à cultura.
Como é possível a União repousar sobretudo no que a separa, as culturas nacionais?
Há momentos, neste livro, em que se pensa que a cultura, as artes, as ideias, a identidade e o património são indeléveis e indestrutíveis.
Mas também é sugerido que os Estados, as políticas, as religiões e sobretudo a economia podem tudo destruir… Menos o património e o legado! Será assim?
Mas também há no teu livro sinais de alerta em sentido contrário. Sugeres que a economia, as finanças, os mercados podem destruir o património, deixá-lo decair e desaparecer…

Há alguns anos, um filme que ganhou a Palma de Ouro em Cannes, chamava-se, em francês, “Entre les murs”; em português, “A turma”: e em inglês, “Tha class”. Esse filme retratava a vida quotidiana de uma turma, algures no 20º arrondissement de Paris. Os conflitos, a indisciplina, as relações interculturais e interétnicas são alguns dos temas principais. Mas o mais impressionante, o mais chocante deste excelente filme é a sua tese central: já não é possível haver um cânone comum, um património cultural, um legado familiar a todos. As crianças asiáticas, africanas, europeias e árabes pouco tinham de comum: referências culturais, autores, arte… Nada! A não ser futebol e música pop…
Que lição retirar desta fábula? Que a Europa do futuro terá, como património, apenas as pedras? Saint Denis, Alcobaça e santa Maria del Fiore… Nada mais?

O paradoxo dos contributos negativos.

Para a Europa, contribuem sobretudo as realidades nacionais, contrárias ao espírito comum. Segundo o lugar-comum politicamente correcto, a diversidade é a maior riqueza da Europa, da identidade europeia! O paradoxo é evidente!
A Europa tem ou não realidades próprias ou sobretudo realidades nacionais? A Europa é uma soma de diversidades nacionais? Como é possível que tanta diversidade faça uma unidade?
Entre os valores reconhecidos, a democracia parece ser parte integrante do ideal europeu! Mas a verdade é que, só no século XX, um grande número de países europeus conhece quase tantos anos de ditadura como de democracia!
A diversidade foi a maior fonte de guerras e lutas, de conflitos e animosidade! Quer isto dizer que a identidade europeia foi também feita pelos seus contrários! Fenómenos internacionais ou transversais como o Cristianismo, o Renascimento ou as Luzes fizeram a Europa tanto cromo as histórias individuais de cada país. E fenómenos que marcaram negativamente a história, como certas formas de racismo, de perseguição religiosa e de despotismo político acabaram por contribuir para a Identidade europeia, por eles próprios mas também pelas lutas e reacções que desencadearam. A Inquisição, o Colonialismo, a Escravatura, o Terror, o Fascismo ou o Comunismo fazem parte da Identidade europeia. A Europa cresceu na luta contra eles!
De tudo se faz uma identidade. Nós temos certamente a tendência a privilegiar o lado bom, os aspectos positivos: o Renascimento, as Luzes, os Direitos do Homem… Mas o menos bom e o negativo não farão parte da identidade? O imperialismo, a escravatura, certas formas de intolerância e a exploração não farão parte dessa identidade? Que pensarão disso os Africanos, os Índios, os Árabes e os Asiáticos?
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(*) - Ensaios da Fundação Francisco Manuel dos Santos
Lisboa, Dezembro de 2013

5 comentários:

António Barreto disse...

O que consolidará a unidade da europa será a solidariedade; convergência da evolução socio-política resultante sucessivos e múltiplos conflitos históricos e...uma ameaça externa comum consubstanciada atualmente pela China, India e, sobretudo...EUA.

Para a Posteridade e mais Além disse...

solidariedade? convergência de evolução socio-política? bolas atão vamos todos ser da front nazionalle

ou escreve-se fronda

con substanciada...pois

non non a ameaça é dos parasitas internos sô doctore

e há tantos

basta ver a lista
O ex-reitor da Universidade de Lisboa António Sampaio da Nóvoa alertou para o “instrumento de dominação” em que se transformou a crise, usada para “legitimar ideias que, de outra forma, nenhum de nós, estaria disposto a aceitar”. “Serve para impor soluções ditas inevitáveis que corrompem a nossa capacidade de decisão e a nossa liberdade”, criticou Sampaio da Nóvoa, na cerimónia de abertura do ano académico 2013-2014 da Universidade de Lisboa.
Perante a assistência de dois ex-presidentes da República – Ramalho Eanes e Jorge Sampaio –, da procuradora-geral da República, Joana Marques Vidal, do presidente do Tribunal de Contas, Guilherme d’Oliveira Martins, de figuras partidárias da política nacional, como Ferro Rodrigues e João Cravinho, e do ministro da Educação e Ciência, Nuno Crato, o ex-reitor Sampaio da Nóvoa referiu “a guerra” – “sim, a guerra”, sublinhou – contra as artes, humanidades e ciências sociais, que, disse, “não é de agora”.
“Volta e torna a voltar, sobretudo nos tempos de crise, nos tempos em que justamente mais precisamos das humanidades”, declarou, questionando-se se “nada interessa a não ser o que tem uma utilidade imediata”. “Utilidade imediata? Mas para quê? E para quem? Repita-se: a poesia é a única prova concreta da existência do homem. Ninguém decretou a existência da literatura, das artes e da criação. Ninguém decretará a sua extinção, o seu desaparecimento, a sua inutilidade. Temos um dever de resistência perante esta visão empobrecida do mundo, do conhecimento e da ciência. Não há culturas dispensáveis”, defendeu.
A propósito dos 40 anos do 25 de Abril, que se celebram dentro de 2 meses, Sampaio da Nóvoa recordou o jovem que era então, a viver essa “situação única, irrepetível”, que fazia crer que “o futuro de todos estava no mais pequeno gesto de cada um”. “Hoje parece que vivemos a sensação oposta. Sentimos que, façamos o que fizermos, nada muda. Que tudo se decide num lugar longe de nós, num lugar distante da nossa vontade. Precisamos de recuperar essa energia de Abril. Porque somos responsáveis pelo que fazemos, mas também somos responsáveis pelo que deixamos de fazer. Somos responsáveis pelas lutas que travamos, mas também por aquelas a que renunciamos”, reiterou.
O antigo reitor da Universidade de Lisboa afirmou ainda a necessidade de a universidade “se libertar das amarras”, de “estar presente em todos os debates da sociedade” e mais ligada à economia e às empresas, defendendo mais autonomia e uma “conceção radicalmente diferente da relação do Estado com a universidade”. “Assim como está é que não, definitivamente não”, disse.....e disse mesmo e ficou tudo como estava
a fundação da universidade de lisboa muda pouco...

Para a Posteridade e mais Além disse...

é o estado mais corporativo da eurropa benzódeus

solidariedade para os gregos segundo churchile é dare-lhes-ses um roi qu'elles detestavam e um governo que lhes tirasse as armas e os direitos

a solidariedade eurropeia é assis desde que os celtas dizimaram os iberos e os iberos exterminaram os bárbaros que falavam euzkarra e outras merdas dessas

conflitos históricos duma europa que dividiu os povos do mundo a régua e esquadro?

pois ....e milagre da fatinha tem nã?

António Barreto disse...

Este António Barreto não é o autor do blogue.

Sara Gomes disse...

obrigada