domingo, 6 de setembro de 2009

Apresentação de “Um só propósito – Homilias e escritos pastorais” Manuel Clemente, Bispo do Porto

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ANTES DE MAIS, uma declaração de interesses. Não sou íntimo de D. Manuel Clemente, mas, em poucos encontros e algumas leituras, ganhei admiração e amizade por ele. É hoje, neste mundo feito de ruído, uma das vozes serenas que ouço com crescente respeito.

É com muito prazer e honra que me associo à apresentação pública do último livro de D. Manuel Clemente, “Um só propósito”. É uma colectânea de homilias, acompanhadas de outros escritos, uns pastorais, outros diversificados e produzidos por várias ocasiões, uns dirigidos a pessoas, outros de reflexão sobre o mundo presente.

Sublinho o facto de serem a publicação das homilias. Estas são, tradicionalmente, textos efémeros. Todos os meses, em todo o país, são aos milhares as homilias proferidas no magistério dos sacerdotes. São textos que geralmente consagram a oralidade. Podem recordar a história, invocar as sagradas escrituras ou reflectir sobre grandes problemas religiosos ou morais, mas são em princípio de relativa actualidade. Muitas vezes se perdem, ali, na congregação de fiéis. A maior parte das homilias de cada sacerdote e da maioria dos sacerdotes nunca vê a forma impressa, nunca têm uma segunda vida de leitura e meditação. Nisso, são o contrário da Academia, onde quase tudo, até as aulas, tem um destino marcado, o da publicação.

D. Manuel Clemente não é o primeiro cujas homilias são editadas. Há antigas tradições de que António Vieira é seguramente um dos principais patronos. E aqui no Porto, também não é uma novidade absoluta: basta lembrar D. António Ferreira Gomes. Por que razão então sublinho este gesto? Porque não é comum, como já disse. Mas sobretudo porque revela uma maneira diferente de exercer as suas funções. Quem publica, quer ser lido. Quem lê, reflecte e pensa. Quem pensa, verifica o pensamento dos outros, dos autores. Quem comenta, acrescenta qualquer coisa. Por outras palavras, quem edita, submete-se ao julgamento dos leitores, quer dialogar com eles, dispõe-se à discussão e expõe-se ao escrutínio. Não se satisfaz com a palavra catedrática, não pretende que acreditem apenas na autoridade do magistério.

Não se trata, uma vez mais, de uma novidade total. Mas as tradições católicas em geral e as portuguesas em particular preferem a oralidade. Para já não falar do culto em latim, belo e misterioso, mas que era sem dúvida uma forma de arredar o debate. Gosto da ideia de publicar as homilias. Como disse, não é totalmente inédito, mas não é assim tão comum. A maior parte dos sacerdotes não o faz. Não é obrigatório fazê-lo, mas é bom e útil.

A homilia pode ser efémera, mas o seu conteúdo não o é. Para os crentes, pode ser uma recordação, uma sugestão para voltar à matéria. Para os não crentes, é a possibilidade de entrar em conversa, em diálogo. Um sacerdote que publica as suas homilias quer falar com os outros, os que não pertencem ou não comparecem à congregação, os que não são do rebanho ou os que não são religiosos. É um sinal de vontade de diálogo. E um sinal de predisposição para a tolerância.
Falar só para os seus é um defeito partilhado por várias profissões e ofícios. São os que só desejam ser ouvidos pela sua tribo. Acontece muitas vezes com certos académicos, filósofos, sociólogos, biólogos ou astrofísicos. Ou com políticos. E com sacerdotes. Poderão fazê-lo com grandeza e elevação próprias da especialização e esta justifica ou explica uma parte desse jeito. Mas não tudo. A vontade de ser lido e ouvido por todos (e de por eles ser comentado) é outra forma de grandeza. Superior, a meu ver, pois se dirige a todos e porque ao veredicto de todos se submete, não apenas aos convencidos ou aos que partilham o segredo do ofício. Desconfio mesmo que os que apenas falam ou escrevem para a tribo são também os que só ouvem ou lêem os seus iguais. Foi com estas reflexões no espírito que entendi uma frase de D. Manuel Clemente: “As Igrejas morrem quando se voltam para si próprias”.

Falar com todos, falar para todos, é uma forma de pertencer ao mundo. Mas é sobretudo uma maneira de se sentir empenhado e comprometido perante os outros. Eis uma qualidade que se aprecia em qualquer pessoa, académico ou electricista, sacerdote ou filósofo, médico ou agricultor. Pensar em si e nos seus é o próprio dos homens, de todos os homens. Pensar nos outros é o próprio dos homens de excepção.

Por que razão falo deste empenho, deste comprometimento, desta maneira de pertencer ao mundo? Há, com este Bispo, alguma coisa de especial que peça esta reflexão? Com certeza. O compromisso dos homens da Igreja perante os outros é uma questão complexa e polémica.

Há décadas, talvez séculos, que a questão da intervenção da Igreja e dos sacerdotes na vida pública é discutida com intensidade. Já antes das revoluções liberais, mas sobretudo depois delas, era um tópico recorrente. Poderia pensar-se, por isso, que o problema está esclarecido. Não é verdade. É uma “eterna questão”. Uma verdadeira “vexata quaestio”, eternamente debatida, mas sem solução à vista. Em Portugal, volta sempre.

Em caricatura, os termos do debate são simples. Uns consideram que a Igreja e os sacerdotes só devem exprimir-se publicamente em matéria religiosa; outros entendem que a Igreja deve estar presente em muitas áreas e em muitos debates com importância para a vida colectiva, incluindo em assuntos como a economia, o social, a cultura, os costumes e as leis. Estes os termos da divergência que, por vezes, pode traduzir-se em tons azedos.

Consensuais parecem ser apenas duas ideias: a da separação da Igreja e do Estado; e a da não intervenção da Igreja em questões puramente partidárias. O que de nenhum modo esgota o debate. Quanto a este, o meu entendimento é o de que a Igreja deve intervir publicamente em tudo o que à condição humana diz respeito. Prefiro que o faça às claras, diante de todos, do que nos corredores do poder ou nas antecâmaras do Príncipe, como foi muitas vezes o caso. Se assim for, a Igreja exige para si a liberdade que reconhece aos outros. Os cidadãos ficam a ganhar com isso. É absurdo pensar que a Igreja apenas se ocupa de religião. Qualquer que seja o seu Deus ou a sua concepção da vida eterna, é sempre na Terra, em sociedade, na República, na cidade, que os homens vivem as suas vidas. Como diz a frase feita, é na “Terra que se ganha o Céu”. É possível que haja congregações que preferem ignorar a sociedade, viver fora dela. É a sua escolha livre. Mas, em geral, é na cidade que as Igrejas vivem ao lado dos homens.

Por outro lado, é obviamente um erro pensar que a Igreja se limita aos sacerdotes ou à hierarquia. A Igreja é composta por todos os crentes, os fiéis, a congregação ou a comunidade. Seria incompreensível que apenas os sacerdotes fossem condicionados e limitados, na sua expressão, aos assuntos religiosos. E seria absurdo que as pessoas religiosas não tivessem todos os direitos de cidade!
Nos seus livros, nos que conheço, D. Manuel Clemente não se exprime directa e explicitamente sobre esta questão. Por que a tal aludo então? Porque o que ele pratica, nas suas homilias, nas suas intervenções públicas e nos seus escritos, é a tradução de uma escolha: ele é favorável, creio, a esta concepção aberta do papel da Igreja. Fala para todos, espera debate e diálogo, assume as suas responsabilidades pelo que pensa e diz, sujeita-se ao contraditório e sente que é seu dever ocupar-se da vida dos homens e das mulheres na Terra e em sociedade.

Estas questões não são, evidentemente, tão simples quanto pode parecer nas minhas palavras. Aprofundando a análise, poderemos perguntar: então, se a Igreja, os sacerdotes e os fiéis se podem e devem exprimir sobre tudo o que é humano, então podem também fazê-lo em terrenos políticos e partidários, em áreas estéticas e artísticas ou em domínios científicos. Nestes casos, como noutros, há claramente tonalidades e especificidades relevantes. Há áreas disciplinares, de actividade e de pensamento, que devem manter entre si algumas fronteiras, uma distância de contenção. Tenho para mim que a religião não se deve imiscuir directa e concretamente na vida política e partidária, como o não deve fazer em questões científicas, artísticas ou estéticas. E reciprocamente. A biologia não pede aos cientistas certidão de crença religiosa. A arte musical não se confina a uma religião. A crença religiosa não exclui nem exige preferências políticas. Tal como não é confortável ver políticos interferir na vida da Igreja, não me parece aceitável observar sacerdotes manifestar as suas simpatias por um partido político. A história da Humanidade, até o presente, é rica de situações em que uma Igreja ou uma religião, se ocupa de questões científicas, estéticas ou políticas: foram, em geral, desastrosas!

O que não quer dizer, uma vez mais, que a Igreja deva estar fora da sociedade. Creio já ter sido claro sobre esse assunto: prefiro uma Igreja dentro da sociedade. Além de todos os argumentos já enunciados, um outro, de actualidade, vem a propósito. Nos tempos que correm, os homens e as mulheres, as sociedades em geral, têm sentido falta de palavras de contenção e serenidade. Ora, a doutrina cristã, a sua tradição moral e o “ethos” sacerdotal predominante estão bem colocados para contribuir. Numa altura em que a ganância, a desumanidade, a exploração da boa fé de outros e a venalidade se transformaram quase em valores universais, precisamos de vozes serenas e de contenção, de correcção moral de paixões destruidoras do respeito de uns pelos outros. Numa altura também em que tantos e tantos se vêm acossados por uma crise terrível que os ameaça no seu essencial, na sua dignidade, nas suas famílias e na sua sobrevivência, não farão falta as vozes de serenidade e de reconforto? Creio que sim. Tenho a certeza que sim. Permita-me que lhe diga, D. Manuel: estou convencido de que os portugueses, os nossos concidadãos, esperam por palavras suas e da Igreja, como de outros, com certeza, que os ajudem a resistir aos tempos.
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Leiam este livro com atenção. Recordem e meditem nas homilias, algumas delas de grande beleza literária e de uma intensa humanidade. Leiam também as suas comunicações diversas, repletas de curiosidade e de divagações eventualmente inesperadas, sobre a Europa, sobre a sociedade civil, sobre a educação, sobre Manoel de Oliveira, o cineasta ou sobre a formidável helenista Maria Helena Rocha Pereira. Ou ainda, num belo texto intitulado “O critério é sempre a pessoa humana”, pensem nas suas oportunas reflexões sobre os direitos dos trabalhadores, sobre a actividade dos sindicatos e sobre o papel da política.

Aproveitem para ler outros livros do mesmo autor. Recordo o seu livro que melhor conheço, “Portugal e os portugueses”, onde D. Manuel Clemente nos fala de um país que designa de “gostoso e custoso colectivo”, uma das mais bem apanhadas fórmulas que conheço para significar este nosso país. Desses portugueses que, diz D. Manuel, vivem sempre aquém. Do que já foram, do que poderiam ser, do que querem ser, do que esperam ser. É nessa distância, entre o “aquém” e a realidade, que se encontra a raiz desta espécie de insatisfação que é a maneira de ser de tantos de nós. Mas é uma insatisfação com ternura, o que faz do nosso um país “gostoso e custoso”.
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Mais ainda que ecuménico, D. Manuel Clemente é, diante da sociedade, um exemplo de tolerância e de empenho. Estes não são lugares comuns. A tolerância, nestes dias presentes, é um bem raro, uma virtude frágil. Muitos dizem que os religiosos, porque crentes, são os mais predispostos à intolerância. Quando, por exemplo, se fala de fundamentalismo, logo se pensa em religião, em muçulmanos, católicos, protestantes, evangelistas, judeus e outros. Digam a palavra fundamentalista e logo se dirá “religião”. É verdade que, entre os religiosos, há forças fundamentalistas geralmente inimigas da tolerância. Mas há uma outra verdade: entre os chamados laicos, entre os agnósticos e os ateus, o fundamentalismo reina também. Os intolerantes que conheço são tanto religiosos como agnósticos. Excluem-se com a mesma fúria e têm a certeza de que os outros estão sempre no erro. Há um fundamentalismo anti-religioso tão perturbador e tão fracturante das sociedades quanto os fundamentalismos religiosos.

Não encontro, nas linhas dos seus livros, uma única sugestão de exclusão seja de quem for. Assim todos os religiosos tratassem os não religiosos como o faz D. Manuel! Assim todos os não religiosos tratassem os religiosos da mesma maneira!

Ao dirigir-se a todos, crentes e não crentes, o sacerdote afirma que a sua missão não se limita ao rebanho, nem ao apostolado, nem ao proselitismo. Como noutras vocações e noutras profissões, os destinatários da missão do sacerdote são todos os seus concidadãos, crentes ou não crentes. Especialmente os fracos, os pobres e os frágeis. Não por razões teológicas, mas por razões humanas e sociais. É mesmo deles, em especial, que fala a Bíblia.

Há quem faça da sua missão uma espécie de comércio: ajudo-te, mas, em troca, recebo a tua fé, a tua alma, a tua consciência ou o teu voto. Também há quem interprete com dignidade altruísta a sua missão e nada queira em troca: D. Manuel Clemente, pelo que diz, pelo que escreve e, tanto quanto sei, pelo que faz, está entre estes.

Não sei o que Deus pensa desta interpretação do sacerdócio. Mas sei que faz bem aos homens. E que é um exemplo. Sei que a evangelização e o apostolado são, para muitos, o capítulo essencial dos termos de referência sacerdotal. Uma espécie de militância, na melhor tradição Paulista. Mas talvez o exemplo seja uma forma superior de sacerdócio.

Não sou propriamente um atrevido que fala do que não lhe diz respeito. Todos podemos e devemos falar da Igreja, tal como a Igreja pode e deve falar de tudo e para todos. Por isso, afirmo que creio detectar uma tensão nas palavras de D. Manuel Clemente. Uma tensão contraditória. Na verdade, nem os Bispos escapam à contradição humana. Ao reflectir sobre a sua missão, a de sacerdote e Bispo, D. Manuel hesita entre o sentido restrito do apostolado dos cristãos, o sentido mais lato da evangelização e uma acepção mais larga ainda, a do testemunho a prestar perante todo o mundo. Neste último caso, dirige-se a todos, cristãos ou não, crentes ou não. Mas parece-me que, nessa contradição, as suas preferências vão com frequência para o último sentido. A sua missão é a de falar a todos, para todos, sem esperar utilitária ou orgulhosamente pela conversão. Eis por que lhe agradeço o seu livro.
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Porto, 25 de Março de 2009

3 comentários:

joshua disse...

Um grande sacerdote e um grande português é D. Manuel Clemente, hoje Bispo do Porto, meu Pastor na minha cidade.

www.angeloochoa.net disse...

‘Meus amigos, que desgraça nascer em Portugal!...’
Boi da paciência, que sempre reencontro,
amo-te, e detesto-te até ao vómito.
Quisesse afagar-te os vis corninhos,
e ririas melífluo, como quem padece coceguinhas.
Conheço-te bem demais, engenhoso atávico ruminante!
Conheço e reconheço ‘teu minucioso e porco ritual…’
E ainda aí estás, a ti igual: Anos 0, anos 60.
Marras agora, como já antes marravas,
no tempo em que te detectaram O’Neill e Ramos Rosa.
Pronto resmungas, desmaias, fazes que desfaleces;
como em derriço; como se te sorrisse um incisivo.
Deixa-me que te diga: Com os 60, que conto, na passagem,
já não estou pra ti virado.
Mas, se esse é teu melhor gozo, envolve-me de blandícias,
revolvendo-me p’lo bandulho.
Estou farto.
Desafias-me a que nem a relance te suspeite.
Tal nojo me mete a tua baba.
Tais emboscadas tramas a poético transporte, meu tesouro.
Cerre os dentes firme, Cego A Alta Luz.
Que aspiras ’inda, mansarrão?
Abre os olhos e vê:
Esses não são já os melhores dias.
Ateimas ’inda?
Continuas, boi boizinho?
Pertinaz aderente,
sei que só sumirás quando, por mim, me der o fora.
Espera sentado,
que vou ali e já venho.

antonio - o implume disse...

A voz da sabedoria reconhecida será sempre serena...