domingo, 10 de setembro de 2017

Sem emenda - A morte fortuita

Os incêndios florestais de 2017, especialmente os de Pedrógão Grande, entraram para a história. Os mais de 65 mortos deste desgraçado Verão ficam nos anais do último século. Há, por esse mundo fora, em área ardida por exemplo, outros fogos mais graves. Mas, pelo número de vítimas, já figuram entre os mais mortais de todos.

Não só por esse motivo, mas também pela descoordenação e pela imprevisão, caso contrário não haveria este número absurdo de mortos. Pela incompetência. Pela falha dos sistemas de comunicação. Pela incerteza criada com as mudanças de dirigentes de última hora. Pela incerteza da autoridade e da distribuição de responsabilidades. Pela confusão na aquisição de telecomunicações, de carros, de helicópteros e de aviões. Pela insuficiência de serviços profissionais. Pela tentativa de dissolução de responsabilidades. Pela desordem na organização dos apoios à reconstrução. Pela trapalhada na gestão dos donativos. Tudo falhou: o antes, o durante e o depois. E só a recordação das centenas de bombeiros a trabalhar em sofrimento impede de ser ainda mais severo.

Estes temas são sempre políticos. Porque é a política que permite organizar a segurança, socorrer, criticar e corrigir. Infelizmente, os responsáveis, em defesa própria, tentaram afastar a política. E acusaram a oposição de “fazer política”. Esta quis defender-se, mas não escondeu o ar rancoroso. O PSD e o CDS não perderam o tom ressabiado, à espera de ver sangue para gritar ao lobo. Não houve debate sério. O Bloco e o PCP, que quase sempre abordam assuntos difíceis, desta vez, com receio de ferir o seu governo, calaram-se.

O clima de desconfiança cresceu, alimentado pela gestão infeliz dos dinheiros da solidariedade. Não se sabe onde estão. Recomeçar a vida? Reiniciar actividades comerciais e industriais? Reconstruir as casas? Todos os dias chegam, aos jornais e às televisões, queixas de cidadãos a perguntar pelos apoios e a garantir que nada chega. Serão só boatos? Sucedem-se os comunicados de várias entidades, o que só aumenta o descrédito. Nem sequer é provável que haja roubo, mas tão só incompetência, tentativa de protagonismo e luta entre medíocres autoridades.

Como é evidente, todo este assunto é profundamente político. Da prevenção aos sistemas de protecção, da organização da sociedade e das autarquias aos investimentos, das compensações aos subsídios e à reconstrução: há políticas por todo o lado. Política no sentido de escolhas e de opções fundamentais. Infelizmente, não tivemos essa política. O governo calou-se e criou um ónus moral sobre todos, acusando de oportunista quem pretendeu debater. Culpado da desorganização, o governo não quis analisar e tomar responsabilidades. Ainda tentou garantir que responsáveis eram os governos anteriores, mas também aí recuou, quando percebeu que o governo de Sócrates e Costa estava incluído. Na verdade, o maior esforço do governo consistiu na procura do esquecimento. E na tentativa de mostrar que as mortes eram inevitáveis. Ou antes, fortuitas.

A estratégia foi a de afirmar que qualquer discussão do assunto era “fazer política” e “aproveitar”. Com os sentimentos de culpa do PSD e do CDS, com os silêncios dos autarcas que não se querem comprometer e com a abstenção do PCP e do Bloco, não haverá responsabilidades nem correcção dos sistemas de ordenamento e de prevenção. A não ser que qualquer coisa mude. A não ser que os 65 mortos tenham sido a conta necessária para comover o país.

Porque estes problemas são sempre políticos e é necessário, acima de tudo, ajudar e corrigir, esperava-se que o Parlamento e outras instituições reforçassem o seu empenho na tentativa de resolver. Mas não. Praticamente toda a gente se limitou a defender os seus e acusar os outros. Como adeptos ou fieis, sem liberdade nem pensamento. Nem sentido do dever.

DN, 10 de Setembro de 2017

Sem Emenda - As Minhas Fotografias

Torres gémeas de Nova Iorque em 1978 – Eram assim as Torres. Faz amanhã 16 anos que um bando de terroristas, fanáticos políticos e religiosos, financiados por senhores do petróleo e por Estados islâmicos milionários, atirou dois aviões contra estas maravilhosas torres, matando cerca de 
3 000 pessoas e marcando o novo século XXI que começava então. Já tinha havido terrorismo em muitas épocas e vários continentes. Mas este atentado abriu uma nova fase da história. Como se tem visto até hoje. Houve imbecis, na Europa, que declararam, com um sorriso superior, que os Estados Unidos “estavam mesmo a pedi-las”. Houve loucos que, no Próximo Oriente, saíram à rua para dançar e festejar essa “grande vitória”. Houve idiotas que, para desculpar os terroristas, dissertaram sobre “as causas sociais” dos atentados. Houve dirigentes políticos, a começar por George W. Bush, que, em resposta, não foram capazes de evitar erros atrás de erros e contribuíram para o aumento da violência e do terrorismo.

DN, 10 de Setembro de 2017

domingo, 3 de setembro de 2017

Sem emenda - Tão simples!

Tudo o que corre bem em Portugal é da responsabilidade do governo. Emprego a subir e desemprego a baixar, crescimento do produto, aumento das exportações, paz social, perspectiva positiva ou estável nos mercados internacionais, aumento das pensões, melhoria das receitas da segurança social, diminuição de alguns impostos e até medalhas desportivas: não fora o preclaro governo e nada disso seria realidade.

Tudo o que corre mal em Portugal é da responsabilidade de outros. O endividamento, a diminuição de investimento público, as dificuldades na saúde, os atrasos na justiça, as deficiências na segurança, os fogos florestais, o roubo de Tancos, a impunidade da corrupção, o conflito com os médicos e as tensões nas forças armadas encontram-se nessa situação: culpas evidentes do governo anterior, da oposição e do estrangeiro.
           
O grande debate político parece ser esse. O da narrativa e do discurso de culpa. É simples. Parece verdade. Mobiliza os fanáticos. Excita os adeptos. Tem efeitos psicológicos garantidos. O produto vende-se bem e há quem compre. Aliás, não se pode dizer que haja mentira. No mundo ocidental, é o que se sabe, nunca se viu um governo assumir responsabilidades por erros ou desastres. E sempre se ouviu atribuir culpas a outros, ao governo anterior e ao estrangeiro.

Vésperas de orçamento, semanas antes de eleições autárquicas e meio da legislatura: momento ideal para identificar culpados e negociar. Momento estratégico para que contribuem, dentro de poucas semanas, as eleições alemãs. A estranha configuração da maioria parlamentar e de governo acrescenta complexidade. A evolução próxima da política portuguesa merece especial atenção.

A situação actual apresenta perigos enormes, mas também potencialidades benéficas. Entre estas, conta-se evidentemente a possibilidade de mudança do Bloco de Esquerda e do Partido Comunista. O que, apesar das aparências, não é impossível. O Bloco, partido de transição e de trânsito, poderá converter-se sem dificuldade a uma política democrática e realista, com umas pinceladas reformistas e alguma radicalidade cultural e de costumes. Uma boa análise de classe deste partido, das suas origens e do seu programa dir-nos-á exactamente isso.

Quanto ao PCP, imagina-se que este partido poderia conhecer, finalmente, a sua Primavera, quem sabe se a sua metamorfose e transformar-se em partido democrático, de esquerda, de base sindicalista, pragmático e radical, mesmo se pouco liberal. Não é impossível que a sua evolução constitua um dos mais interessantes casos contemporâneos. O “novo quadro político” e as “relações de forças”, os dois critérios mais importantes da definição estratégica comunista, sugerem essa possibilidade. O apoio a este governo é mais do que oportunismo e pode ter longo alcance. Até hoje, o PCP só apoiou os governos de dois primeiros-ministros, Vasco Gonçalves e António Costa. O primeiro foi o desastre conhecido. O segundo… não se sabe.

Infelizmente, não há só boas perspectivas. Há também perigos, entre os quais dois graves. O primeiro seria o PS afastar-se da sua história liberal e democrática, ficando apenas fiel à tradição jacobina. Se assim for, fica o país a perder e a esquerda condenada, no futuro, a pastorear reivindicações, não sem antes danificar ainda mais a posição de Portugal no mundo.
O segundo seria o de repetir o ciclo de Sócrates: distribuir o que se não tem, investir o que não se poupou, gastar o que não é nosso, endividar-se e fazer aproveitar amigos políticos e patrícios financeiros. Não parece exagerado imaginar que tal possa acontecer. Na verdade, alguns dos mais importantes ministros e secretários de Estado deste governo foram, com António Costa, os pilares dos governos de José Sócrates.
Nada está escrito.
DN, 3 de Setembro de 2017


Sem Emenda - As Minhas Fotografias

Linha de montagem na Autoeuropa – Esta imagem tem pouco mais de dez anos. Talvez as coisas não sejam hoje muito diferentes. Evoluíram com certeza. Mas já na altura era impressionante o ambiente em que se vivia na fábrica. Das roupas dos trabalhadores ao ruído de fundo, dos processos de construção aos robots em uso, tudo parecia ficção. É o maior investimento industrial, o primeiro exportador e a empresa que gera mais empregos indirectos. Os seus trabalhadores são dos mais bem pagos do país. O clima social tem tradição de ser o que há de melhor. O mais provável é que o actual conflito se resolva a contento dentro de algumas semanas. O que está ali em jogo é muito mais do que parece: o sector, o investimento e a economia. Se as coisas correrem mal, é bom saber quem serão os responsáveis: os sindicatos, em primeiro lugar, a empresa e o governo, depois. Se correrem bem, ficam os três de parabéns. Mas espera-se que se retire uma lição: a luta de classes está de regresso e o partido comunista bem cavalga toda a sela.

DN, 3 de Setembro de 2017

domingo, 27 de agosto de 2017

Sem emenda - Preto e branco

Com campanha eleitoral, é inevitável que se fale de racismo. O passado colonial é terreno fértil para o tema. Em certas áreas é costume dizer-se que Portugal não é um país racista e há gente que até gosta imenso de pretos. Noutras, é hábito dizer-se que Portugal é racista e por isso temos de pedir desculpa aos Africanos.

É difícil tratar deste assunto sem incorrer em ódios vigorosos. Em Portugal, há racistas. Há práticas legais ou comuns de carácter racista. Há comportamentos racistas da responsabilidade de brancos europeus, cristãos ou ateus. As vítimas são ciganos, negros, judeus, muçulmanos, chineses e outros. Também há comportamentos racistas da responsabilidade de africanos, ciganos, chineses e muçulmanos, sendo as vítimas brancos, europeus, cristãos e ateus. Portugal não é um país racista. Talvez já tenha sido. Mas hoje não é. Há racistas, mas não é racista. Não se conhecem normas públicas ou legais que estipulem a inferioridade de etnias ou a redução dos seus direitos.

Estatisticamente, a corrupção, a trafulhice, a promiscuidade, o nepotismo e o peculato são fenómenos praticados maioritariamente por brancos e europeus. Ninguém se lembra de dizer que aqueles crimes são europeus e brancos. Nem há quem garanta, muito menos, que os brancos e europeus sejam todos vigaristas.

Os maiores crimes, em volume de negócios, cometidos em Portugal nas últimas décadas, foram da responsabilidade de banqueiros e da autoria de empresários portugueses, brancos e cristãos, com a ajuda de alguns africanos e chineses, mas a ninguém ocorre afirmar que todos os corruptos, ladrões, culpados de branqueamento e enriquecimento ilícito são católicos portugueses e brancos. E também não se diz que todos os empresários brancos e portugueses sejam corruptos.

Tão mau quanto o crime é o preconceito. Um vigarista aflige tanto quanto um racista. O crime de um branco incomoda tanto quanto o de um negro. A vigarice de um rico empresário é tão condenável quanto a do sindicalista. Um criminoso branco é tão responsável quanto um criminoso negro, não há atenuantes que resultem da família, da origem social ou da cor da pele.

É preconceito pedir desculpa aos povos africanos. É preconceito demagógico pedir perdão pela escravatura ou pela exploração de há cem ou quinhentos anos. É preconceito ignorante esquecer que esclavagistas foram também africanos, árabes, indianos e chineses!

Tão má quanto o preconceito e o crime é a generalização. A generalização abusiva, a popular e a elitista, a dos brancos e a dos negros, é vício de pensamento e calúnia certa. Os homens são todos iguais… A direita é fascista, a esquerda é comunista… Os políticos são vigaristas… Os ciganos são bandidos… Os brancos são racistas… Os negros são ladrões… Os imigrantes fazem tráfico de droga… Os muçulmanos são terroristas… Os chineses não pagam impostos… Os portugueses gastam o dinheiro em mulheres e vinho… Os empresários são aldrabões… Os sindicalistas são preguiçosos…

Há ciganos a viver de abonos e subsídios indevidos. Há africanos a viver de extorsão, jogo ilegal e tráfico de droga. Há ucranianos a viver da prostituição e do lenocínio. Há asiáticos que fogem ao fisco e não respeitam as leis do trabalho. Mas, pela lei da estatística simples, há muitos mais brancos, europeus e cristãos a cometer aqueles crimes. Se muita gente se lembra de dizer que os ciganos e os africanos são isto e aquilo, já não pensam em dizer o mesmo dos Portugueses, brancos e cristãos. O preconceito racista começa aí. Mas também é preconceito racista desculpar ou perdoar os crimes dos africanos, dos asiáticos e dos ciganos por serem o que são. É preconceito e crime desculpar o terrorismo porque é cometido por islamitas. É preconceito e crime desculpar o tráfico de droga porque é da autoria de africanos. É preconceito e crime desculpar qualquer comportamento ilegal por causa da etnia, da religião, dos motivos políticos e das crenças religiosas. Um racista branco não é pior do que um racista negro. E um terrorista cristão não é melhor do que um terrorista muçulmano.

DN, 27 de Agosto de 2017

Sem Emenda - As Minhas Fotografias

Fila de turistas para entrar na Torre de Belém – Era um dia razoável, sem multidões. Mas a espera já era grande. Pior do que esta, ali ao lado, a fila dos Jerónimos. Em dias de 35 graus centígrados, é preciso amor à arte e muita curiosidade para este exercício. Também é verdade que a Torre de Belém merece. Pena é que não haja sistemas mais bem pensados, reservas, tickets, entradas com hora marcada e outras formas de organização. Incluindo visitas à noite, neste caso perfeitamente justificadas. Nos últimos anos, os milhões de turistas vieram sem prevenir. Portugal não estava preparado. Agora, vai demorar tempo. Mas sejam bem-vindos! Apesar da desorganização e da nossa falta de previsão, os turistas fazem-nos bem. À cabeça, ao emprego e às carteiras. Apesar de já haver por aí quem proteste, quem queira impor limites e quem goste de viver fechado. Era o que faltava! Venham turistas!
DN, 27 de Agosto de 2017