domingo, 11 de junho de 2017

Sem Emenda - As Minhas Fotografias

Monumento aos Combatentes, em Lisboa – Situado no Forte do Bom Sucesso, ao lado da Torre de Belém, em Lisboa, este monumento foi inaugurado em 1994 e destina-se a celebrar os mortos nas guerras do Ultramar. Mas cada vez mais se pensa que todos os mortos em serviço, em qualquer guerra, merecem a mesma homenagem, sem olhar a crenças políticas, ao governo do dia, à data do conflito, ao local da guerra nem à situação militar concreta. A morte ao serviço do país é o fundamental. No extenso muro que constitui parte essencial do monumento, podem ler-se os nomes dos cerca de oito mil soldados mortos. O Dia do Combatente comemora-se no Mosteiro da Batalha, a 9 de Abril, dia da batalha de La Lys, na Flandres, em 1918. Mas o 10 de Junho, dia de Portugal, tem vindo a associar os Antigos Combatentes às respectivas cerimónias: desde 2010, felizmente, os representantes das suas associações e da sua Liga juntam-se às unidades militares em parada e cortejo.

DN, 11 de Junho de 2017

domingo, 4 de junho de 2017

Sem emenda - Caracas!

O que se passa na Venezuela é, a todos os títulos, grave. Sob o domínio de uma ditadura demagógica e populista, um país rico encontra-se falido, dá sinais de caos e miséria, em permanente revolução e à beira de uma perigosa insurreição. O seu governo é imprevisível e goza de uma grande tolerância internacional, talvez por ser uma ditadura esquerdista e tropical, que destruiu, em pouco mais de quinze anos, um país moderno e em desenvolvimento, apesar de muito desigual. Os primeiros anos de ditadura serviram para uma radical distribuição de riqueza e uma diminuição da pobreza, facilitadas pelas receitas do petróleo, cujas reservas estão entre as mais vastas do mundo. A política americana em relação à Venezuela pecou várias vezes por interferência. A quebra de proventos do petróleo e a política dos governos de Chavez e Maduro são as causas essenciais da actual desordem.

Há muitas décadas, os emigrantes Portugueses elegeram a Venezuela como um dos países de destino favoritos. Talvez sejam hoje quase 500 000, ninguém sabe ao certo, mas este número deve incluir muitos de segunda geração. Parece que haverá quase 200 000 pessoas inscritas nos consulados. É muita gente. Com a evolução da situação actual, muitos vão querer regressar a Portugal. Não se sabe quantos. Mas o país precisa de estar pronto para que regressem muitos. Mais vale estar preparado a mais do que a menos. A Madeira é a principal origem de emigrantes para a Venezuela. Será também o principal ponto para retorno.

Já regressaram à Madeira, em poucos meses, cerca de mil. Ao todo, em dois ou três anos, perto de quatro mil. Mais de 800 já se inscreveram nos centros de emprego. Muitos procuram casa. E lugar nas escolas para os filhos. O governo da República tem a estrita obrigação de fazer tudo e mais alguma coisa. Directamente e através do governo regional. As instituições europeias têm a obrigação de apoiar estes refugiados que não podem ser penalizados pelo facto de não serem africanos ou asiáticos.

Tanto quanto sei, o governo regional está a fazer o que pode. Se está, muito bem. Mas deve ser pouco. Tem de ter o apoio do governo da República, assim como das instituições europeias. Se Portugueses regressarem da Venezuela, serão, a muitos títulos, refugiados. Mais ainda, serão também retornados. Sobre estes, temos obrigação de saber aquilo de que falamos. Não é possível imaginar que os Portugueses da Venezuela sejam tratados como foram muitos retornados das colónias, em 1975, nem como muitos refugiados Muçulmanos e Africanos que hoje chegam à Europa. Convém não esquecer que não é apenas à Madeira que aqueles emigrantes estão a regressar, é a Portugal!


O governo não deve falar alto. Deve estar calado. E ser discreto. E não fazer demagogia. Mas deve estar pronto e mostrar aos Portugueses de lá que está preparado. O governo não deve fazer barulho a mais sobre este problema. Um Secretário de Estado foi a Caracas e tratou do assunto com cuidado? Muito bem. Há dispositivos de segurança que começam a estar preparados, para as viagens e os transportes? Há sistemas prontos a funcionar para a saúde, os cuidados de emergência, a habitação e as primeiras necessidades? Há cuidados para crianças e idosos? Há sistemas imaginados para rapidamente ajudar quem pode trabalhar? Há apoios para apoiar quem quiser criar empresas? Há uma boa articulação, sem política de permeio, entre o governo da República, o governo regional e as instituições europeias?

O facto de a ditadura venezuelana ser de esquerda não deve embaraçar o governo português. O facto de os Portugueses da Venezuela não serem muçulmanos não deve inibir o governo. Esses mesmos factos não deveriam impedir a imprensa de estar mais atenta. A discrição, em todo este tema, obriga o governo e as autoridades, não os privados, nem os jornalistas. O que, neste caso, se fizer a mais, com ruído excessivo e exibicionismo, será criminoso. Tanto como se não se fizer nada nem o suficiente.

DN, 4 de Junho de 2017

Sem Emenda - As minhas Fotografias


Ponte sobre o Tejo – Começou por ser de Salazar. Depois foi do 25 de Abril. Mas é sempre a ponte sobre o Tejo! Demorou menos de quatro anos a construir. Inaugurada em 1966, terminaria seis meses antes da data prevista. Entre 1996 e 1999, foram feitas as obras que levaram à construção do segundo tabuleiro, isto é, do caminho-de-ferro. Ao mesmo tempo, construía-se a nova ponte. A certa altura, um grupo de engenheiros suíços e alemães veio a Portugal para, segundo uma amiga, “ver essa formidável ponte que vocês estão a aí fazer…”. Dispus-me imediatamente a conduzir os senhores. Quando chegámos à ponte Vasco da Gama, olharam para mim com surpresa e riram com vontade. “Esta ponte é muito bonita, mas não tem nada de especial. Verdadeira proeza foi o que fizeram na ponte de ferro suspensa, para adaptar ao comboio! Essa, sim, vai ficar na história da engenharia!”. Esta vista não é das mais comuns. Parece uma construção do Meccano… Será que alguém sabe hoje o que é o Meccano?
DN, 4 de Junho de 2017

domingo, 28 de maio de 2017

Sem emenda - Quem deve teme

Nas vésperas da cimeira da NATO, em Bruxelas, o ministro português da defesa prestou declarações às televisões. Não terão sido esclarecimentos formais, em ocasião oficial, mas o tom é elucidativo. Confirmou o ministro, com um sorriso de boa fé, que era verdade que Portugal não cumpria os seus deveres para a segurança colectiva, nem sequer o compromisso mínimo estabelecido para a despesa com a defesa nacional que é de 2% do PIB. Mas disse também que era preciso considerar a nossa contribuição qualitativa! Esta última é um mistério. As ilhas atlânticas? O mar? As praias? Algo que seja só nosso e mais ninguém tenha? Ou um jeito português especial?

Dos 28 membros da NATO, apenas cinco cumprem: Estados Unidos, Grã-Bretanha, Polónia, Estónia e Grécia. Todos os outros ficam abaixo dos 2%. Como Portugal, com 1,3%. Menção especial para a França, com 1,7%, a Alemanha 1,2%, a Itália 1,1% e a Espanha 0.9%!

Infelizmente, Donald Trump tem razão. Diz ele que os Estados Unidos não estão dispostos a pagar pelos outros, sem que estes cumpram os seus compromissos. E ameaça os europeus. Não se sabe bem de quê, mas deve querer dizer coisa má. O problema é que, neste caso, está certo. Cada país membro da NATO tem de pagar pela sua defesa. A maior parte não paga os 2%. Preferem gastar com coisas mais agradáveis e entregar-se à protecção do poderio americano. A ideia é simples: tudo quanto ameaça a Europa ameaça também os americanos. Como estes são mais fortes e mais ricos, eles que se ocupem disso. E nem sequer a União tem uma política própria de defesa, muito menos uma capacidade autónoma.

Pode ainda recordar-se que, há quase vinte anos, a maioria dos partidos parlamentares (se bem me lembro, a única reserva foi do PCP…) acabou com o Serviço Militar Obrigatório. Sem mais. Sem qualquer espécie de ideia sobre o que poderia ser uma contrapartida civil ou de solidariedade. Na verdade, foi a boa demagogia da facilidade e as velhas juventudes partidárias que forçaram a decisão! Mas a ideia estava dada: não se gasta com a defesa, há coisas mais importantes. E de qualquer maneira, a NATO e os americanos estão aí para nos proteger.

Há actividades assim, em que alguém paga, alimenta ou mantém outrem! Eis uma relação que tem tradicionalmente um nome bem feio… E que se aplica às relações entre americanos e europeus na área da defesa.

Portugal não é um caso raro, nem pior do que os outros. Há mais de vinte países da NATO que não respeitam os compromissos nem cumprem as suas obrigações. Dependem dos Estados Unidos. Até ao dia em que Donald Trump lhes dirá: “Não pagam pela vossa segurança? Então deixaremos nós de pagar. Ou não garantimos a vossa liberdade. Ou então exigimos contrapartidas políticas!”. Nesse dia, toda a Europa, com excepção da Grã-Bretanha e pouco mais, se elevará contra a prepotência imperialista americana.

Esta atitude não está isolada. Faz lembrar a de tantos que entendem que os credores devem obedecer aos devedores e que aqueles a quem devemos dinheiro têm de fazer o que queremos e aceitar as nossas condições. Há quem faça disso um programa político: viver à custa dos outros! A defesa é paga pela América. As dívidas serão pagas pelos credores. Os investimentos pelos europeus. Os estrangeiros que paguem a nossa protecção. Devem também pagar os juros e as dívidas, assim como aceitar a renegociação e o perdão da dívida. E devem subsidiar o desenvolvimento. Há mesmo quem queira obrigar os estrangeiros a pagar pela educação em Portugal, dado que depois se aproveitam dos emigrantes portugueses, cuja formação foi paga pelo país. É tão conveniente ter o nosso patriotismo pago por outros! E a independência subsidiada!

            Os povos e os Estados têm o direito de não pagar a defesa, nem as Forças Armadas. Como têm o direito de pedir emprestado a fim de financiar os seus investimentos. Não têm é o direito de exigir que outros os defendam, que outros paguem os seus militares e que outros arrisquem a vida em sua defesa. Nem têm legitimidade para exigir que lhes paguem ou perdoem as dívidas. Em poucas palavras: não têm o direito de viver às custas dos outros, ao mesmo tempo que reclamam a independência e o direito a ser tratado como igual. Até porque não são iguais. Nem independentes.

DN, 28 de Maio de 2017

Sem Emenda - As Minhas Fotografias

Cruzeiro no cais do Terreiro do Paço – É um navio da empresa Costa, conhecida pelos muitos que tem, sempre com Costa no nome. Como Costa Favolosa ou Costa Luminosa. O mais famoso era seguramente, pelas más razões, o Costa Concordia, que virou de bordo e afundou. Este aqui, à beira do Campo das Cebolas, é o Costa Deliziosa! Dentro de pouco tempo, estes navios ficarão todos mais a nascente, no novo cais em construção. Por agora, quem vem da Ribeira das Naus, ao chegar à Praça do Comércio, depara-se com este espectáculo a fazer logo pensar no “Navio dentro da cidade”, do escritor grego André Kedros que escreveu aquele romance nos anos quarenta. Graças aos cruzeiros (além dos voos low cost, com certeza), Lisboa está hoje uma cidade diferente do que era ainda há bem pouco tempo. À beira destes navios (antigamente, dizia-se paquetes…), que chegam a transportar mais de 3 000 passageiros e 1 000 tripulantes, nasceram centenas de tuk-tuk, de roulottes com comes e bebes e vendas de artesanato.

DN, 28 de Maio de 2017