segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Sem emenda - A Democracia, a Ditadura e o Divino

Após cinquenta anos de desenvolvimento, de protecção social, de paz e de liberdade, o mundo ocidental entrou em crise. Economias e sistemas políticos não acertam. As populações não acreditam. As forças centrífugas fazem sentir o seu efeito. Em quase todos os países democráticos surgem perturbações e ameaças difíceis de conter. Na maior parte desses países, é fácil encontrar o preconceito como resposta ao preconceito. Ou o nacionalismo como reacção contra a liberdade e o cosmopolitismo. Meio século de esplendoroso progresso parece ameaçado.

Estamos a viver tempos difíceis. As democracias estão a falhar. São como aqueles motores de automóvel que, aos soluços, dão sinais de que alguma coisa, gasolina, velas ou carburador, está a falhar. As democracias têm tido enormes dificuldades em lidar com a fúria capitalista e a ganância financeira. Têm revelado fraqueza em tratar com as esquerdas revolucionárias. São débeis na reacção ao nacionalismo. Têm mostrado pusilanimidade em combater os grandes grupos económicos multinacionais. Não conseguem sobrepor-se à ditadura das sondagens, da publicidade e da propaganda. Têm tendência para deixar crescer as desigualdades sociais. Perdem o sentido de Estado e rendem-se facilmente ao mercado. São frágeis perante a demagogia das esquerdas e o populismo de toda a gente. Têm medo dos estrangeiros, dos refugiados e dos imigrantes. Têm receio de parecer racistas. Quase conseguem conviver com o terrorismo, sobretudo o reclamado pelas minorias. Encontram razões sociais, origens familiares e causas políticas para explicar, justificar e desculpar o crime, o terrorismo, a violência doméstica, o insucesso escolar e a falta de disciplina. Têm medo de parecer autoritários. As democracias deixam-se deslizar e não conseguem evitar a deriva da demagogia e do preconceito.

Democratas começam a pensar que, se a democracia não é capaz de combater esses novos inimigos, talvez seja de imaginar soluções mais duras, nacionalistas de esquerda ou de direita, capazes de contrariar os estrangeiros, liquidar o mercado e eliminar a iniciativa privada. Uns procuram recorrer à religião e ao divino, sejam os cultos estabelecidos, sejam as novas seitas. Outros, pelo contrário, culpam o divino e procuram contrariar todo e qualquer contributo das religiões para a vida colectiva.

Dentro e fora da democracia, os esforços para casar governo e igreja, para ligar política e religião, sucedem e aumentam. Donald Trump não gosta de Darwin e já fez declarações arrepiantes sobre os fundamentos religiosos da família. Putin vai buscar os chefes da igreja ortodoxa cada vez que se vê atrapalhado. Enquanto o papa Francisco irrompe pelos territórios tradicionais da esquerda, as direitas europeias afastam-se da religião ou sonham com uma restauração tridentina. Na China, os poderes procuram de novo em Confúcio uma ajuda para o comunismo do dia. Noutros países asiáticos, tenta-se encontrar em Buda colaboração para combater os temores. Em Israel, em Gaza, em Teerão, em Riade, em Bagdade, em Manila e em Jacarta os Estados tentam conviver com a religião e convencer os fiéis. Na Turquia, Erdogan revê as relações do Estado com a religião. Noutros casos, a religião apodera-se das alavancas dos poderes políticos e militares.

Há ditadores que encontram fácil ligação com os deuses e as Igrejas. Outros que se lhes opõem ferozmente. Há igrejas que combinam bem com o poder político ditatorial. Outras que calam e consentem. Outras ainda que não consentem e são caladas.

Apesar da escravatura, mau grado a Inquisição, não obstante a contra-reforma e outras formas de cumplicidade das igrejas com o pior das políticas, os cristãos têm a seu crédito a fundamental separação entre Deus e César, entre a Igreja e o Estado e entre a Bíblia e a Constituição. Não é pouca coisa.

DN, 8 de Janeiro de 2017

Sem Emenda - As Minhas Fotografias



Mustafa Kemal Atatürk nas ruas e nas paredes de Istambul – Há quase cem anos, Atatürk tomou o poder na Turquia. Foi o principal dos “Jovens turcos”, movimento de oficiais. Governou durante vinte anos e cuidou das sequelas do desmoronamento do império Otomano. Antes, tinha derrotado os aliados (entre os quais Churchill) em Galipoli, com o que adquiriu fama de herói. Depois de ter conquistado o poder, modernizou a Turquia, onde criou à força um Estado laico. Proclamou a República. Fez de Ancara a capital. Tentou o desenvolvimento económico. Combateu o comunismo e o fascismo. Estabeleceu uma Administração Pública ocidental. Substituiu a charia pelos códigos civil e penal europeus. Estimulou o nacionalismo moderno. Refez as forças armadas. Desencorajou as roupas tradicionais. Baniu o turbante, o fez e o véu. Substituiu o alfabeto árabe pelo latim com variações. Acabou com a lei seca e permitiu o álcool. Não ordenou os massacres de mais de um milhão de arménios (a partir de 1915), mas, depois de chegar ao poder, nos anos 1920, completou a limpeza étnica da Anatólia. Por toda a Turquia, são milhares os monumentos, as esculturas, as pinturas e as fotografias de Atatürk.
DN, 8 de Janeiro de 2017

Um grande plebeu: Mário Soares

 Morreu um homem extraordinário. Em todos os sentidos da palavra. Fora do habitual. Invulgar. Pouco frequente. Que causa admiração. Impressionante. E que merece respeito.
Foi excessivo em tudo, nas virtudes e nos defeitos. Nos acertos e nos erros. Mas, no essencial, na liberdade, na dele e na dos outros, foi justo, foi certeiro, foi inflexível.
Foi simultânea e sucessivamente amado, detestado, respeitado, temido e desprezado como poucos Portugueses do seu tempo.
Não lhe devemos um programa, que o não tinha. Nem uma estratégia, com que não perdia tempo. Muito menos uma visão do mundo ou do país, que não cultivava. Mas devemos-lhe uma formidável intuição, a certeza da liberdade, à qual tudo se submete.
Por estes dias, vão sobrar os elogios. Até dos seus adversários e inimigos. A crítica também, até dos seus amigos. Essa é a sua riqueza, a de um grande plebeu, de quem tudo conhecemos e que se fez a si próprio. E que nos ajudou, para o melhor e o pior, a ser o que somos.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Sem Emenda - As Minhas Fotografias

Senhor descansa a caminho de Petra, Jordânia – Petra fica a poucas centenas de quilómetros de alguns dos locais mais perigosos do mundo: Síria, Iraque… E de cidades memoráveis pelas piores razões: Alepo, Palmira, Mossul… Nos caminhos que levam até à cidade encantada, não se ouve o barulho da guerra ou do terror. Mas toda a gente sabe que, ali ao lado, não há paz e só há medo. De repente, no meio do caminho, este senhor que nem calculo quem seja. Nabateu? Saudita? Jordano? Iraquiano? Não faço a mínima ideia. Só sei que o seu porte altivo e sereno, a descansar, entre duas caminhadas no esplendoroso sítio, é um conforto para quem pensa naquela região, nas chacinas de centenas de milhares de civis, nas cidades arrasadas, no terrorismo na sua mais primitiva forma e na destruição selvagem de património da humanidade com puros intuitos totalitários. Nestes dias de fim e de começo de ano, um facto novo faz história: uma trégua maior (será cumprida?) é assinada pela Rússia, pela Síria e pela Turquia, na ausência dos Estados Unidos e da Europa.
DN, 1 de Janeiro de 2017

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Sem emenda - Prova dos nove…

Era, há muitos, muitos anos, uma cantilena infantil apropriada a descobrir os mistérios dos números. Matrículas de automóveis e aniversários, por exemplo. Ou então, em vésperas de ano novo, tirava-se a prova dos nove. 2017? Dois mais um, três, mais sete, dez, noves fora um: é o primeiro, ganha tudo! Em 2016, noves fora nada: perde tudo! Em 2019, noves fora três: é a conta que Deus fez. Ou 2014, noves fora sete: quem não pode não promete! Batia sempre certo. Quase…

A prova dos nove, para Portugal de 2017, começa agora, hoje mesmo, primeiro de Janeiro. O ano vai ser especialmente difícil. Aliás, os clichés mais gastos são todos verdadeiros: “incerteza”, “ameaça”, “perigos” e “riscos”. Centenas de pessoas perguntadas pelos jornais e pelas televisões, optimistas e pessimistas, começam e concluem os seus testemunhos com as mesmas expressões.

Será Portugal capaz de combater a crise instalada e aparentemente adormecida? Poderão os dirigentes políticos e económicos encontrar soluções para os nós que parecem cegos? Quem observa e quem vê gosta de se entreter a prever a duração e a habilidade. É um passatempo divertido, mas inútil. Por maior que seja o jeito e a esperteza, enquanto não houver investimento e crescimento, tudo se manterá frágil e perigoso.

O pior de tudo é talvez o endividamento, o que vem de trás e o que não cessa de aumentar. É seguramente a maior chaga de que o país sofre. Apesar da tendência dominante para subestimar os efeitos do endividamento, a verdade é que este é tão nefasto quanto a falta de liberdade, o caos nas ruas, o desemprego ou a miséria. Com a agravante de ter feito de Portugal um pária dependente. Ainda hoje, é lamentável ver como grande parte dos dirigentes e até mesmo da população não considera a dívida realidade ameaçadora. Muitos Portugueses têm uma atitude como a do fidalgo arruinado, com gostos caros, poucos recursos e a impressão de que tudo lhe é devido. Muitos acham mesmo que não se deve pagar a dívida e que tal atitude é virtude soberana.

A verdadeira prova dos nove é a do investimento e do crescimento económico. Sem um e outro, não haverá bem-estar, nem equidade, nem menor desigualdade, nem mais justiça, nem melhor educação e mais saúde. A prova dos nove não será a dos subsídios, dos aumentos de pensões, de férias e feriados, da redução de horas de trabalho, do aumento de salários mínimos e médios, dos benefícios de saúde e de educação ou dos abonos sociais de toda a espécie. Se tudo isso, que é excelente, não resultar do crescimento económico, do investimento, do aumento da competitividade, da abertura de novas oportunidades comerciais e das melhorias na organização do trabalho, então tudo isso será demagogia de pouca duração. Será mesmo a antecâmara do desastre. Essa é a prova dos nove: o investimento, que gera crescimento, que produz desenvolvimento e que está na origem do progresso social. A prova dos nove deste governo não é a da sua duração nem a da solidez do seu apoio parlamentar. Não é difícil obter sustentação enquanto os três perceberem que os que caírem morrem. A prova também não é a dos resultados das múltiplas negociações e dos numerosos compromissos que, todas as semanas, o Governo tem de realizar com os partidos da esquerda parlamentar. É fácil negociar quando todos têm a ganhar e todos receiam o adversário. É fácil enquanto se pode assinar cheques. A verdadeira prova dos nove não será a do aumento da despesa, mas sim a da diminuição do endividamento. 
A superstição da numerologia é favorável. 2017? Dois mais um, três, mais sete, dez, noves fora um: é o primeiro, ganha tudo! Se houver investimento… Se não, noves fora nada!

DN, 1 de Janeiro de 2017

sábado, 31 de dezembro de 2016

O espectro europeu

Por mais que nos esforcemos por olhar para Portugal, a verdade é que o nosso país não conta muito para o futuro que se adivinha ou receia. Ao lado dos grandes problemas da actualidade, Portugal pesa pouco. Muito para nós, mas pouco para o mundo. Ainda por cima, endividados como estamos, dependemos dos outros. Isto é: da Europa!

É para esta que devemos olhar. É a Europa que condiciona o futuro do nosso país. Ora, o mau estado em que se encontra o continente e sua União não é de molde a dar-nos esperança. Pelo contrário. É possível que, da Europa, venham mais factores de intranquilidade. Ficar na União já não é o bem maior, é o mal menor!

Na verdade, vivemos hoje os tempos mais perigosos que a Europa conheceu desde o fim da segunda guerra. Nem o surto terrorista dos anos setenta é comparável com o momento actual. Com efeito, havia então capacidade de resposta e não abundava o complexo de culpa. Os anos anunciavam prosperidade. Em quase tudo (liberdades, progresso, protecção social e cultura) a Europa revelava força e confiança, era invejada pelo resto do mundo. Apesar da ETA, do IRA e dos grupelhos esquerdistas com propensão para o terror, a segurança e o bem-estar eram características cobiçadas. Ainda mais tarde, o fim do comunismo não provocou medo: foi alegria e esperança.

Esses tempos estão longe. Hoje, terrorismo e insegurança são a regra do jogo. A defesa europeia é incipiente. A população está envelhecida e reage mal ao rejuvenescimento que a imigração poderia trazer. A pressão dos refugiados da guerra e dos foragidos da fome é enorme e a Europa não está preparada para os receber, nem para os recusar.

Fora da democracia, direita e esquerda não estão interessadas em “salvar a União”, antes vêem na crise actual uma oportunidade para travar o processo de integração e de coesão. Dentro da democracia, direita e esquerda não revelam capacidade para estancar a crise, travar os radicais, combater o terrorismo e impedir a xenofobia.

Com excepção da Alemanha, o peso da Europa no mundo diminui a olhos vistos. O crescimento europeu baixou a níveis ridículos e não conseguirá mais sustentar o bem-estar e garantir o Estado social. Será a Europa capaz de vencer as ameaças que sobre ela pairam? Pergunta de muito difíceis respostas…

A Ocidente, a incógnita da nova Administração americana desafia todos, pessimistas e optimistas. O Presidente eleito tem impulsos ameaçadores: abandonar a parceria atlântica; diminuir o envolvimento militar na NATO; virar-se para dentro, para a América; e olhar para o Pacífico.
A Sul, a Leste e no Próximo e no Extremo Oriente, já não é o cerco à Europa do século XVI, é a tenaz e a asfixia. Há muitas décadas que as fragilidades europeias não eram tão evidentes. A sua defesa autónoma é quase inexistente. Reduzida à solidez alemã, a sua capacidade económica e financeira é débil. A sua política é débil e confusa.

As forças centrífugas ameaçam tornar-se dominantes. Para ser forte e coesa, a Europa ficou muito aquém. Para ser forte e plural, a Europa foi longe de mais. Em qualquer dos casos, a União parece não estar em condições de resolver os seus problemas. Espera por eleições nacionais em vários países, o que agrava a percepção de que a União não existe e a cidadania europeia é uma ficção.

Os optimistas acreditam que a esperança é a última a morrer, que tudo vai correr bem, que há sempre quem salve os povos das catástrofes e que a razão e o bom senso acabarão por imperar. Para eles, a Europa vai ressuscitar ainda mais forte. Os pessimistas pensam que vivemos o crepúsculo da grande civilização ocidental, cristã, europeia, industrial, liberal e democrática. O que vier a seguir não será bom. A Europa já acabou. Os cépticos admitem que uma solução razoável possa, em última instância, surgir e ser perfilhada pela maioria dos europeus, mas que será apenas a menos má das saídas da crise. A grande Europa está condenada. A Europa será uma solução de recurso.

Se houvesse alguém, pessoa, governo ou Estado, com capacidade de convocatória, seria talvez possível que a Europa e os Europeus pudessem iniciar, sem reservas nem tabus, um processo de avaliação e refundação da Europa. Essa convocatória poderia começar por analisar e estudar. Fazer as contas e agir. E perceber que ou há refundação, seja com quem for, ou há funeral.

O problema é que esse alguém não existe. Ou não pode. Ou não quer. A Alemanha é suspeita. A França é irrelevante. A Grã-Bretanha foi tratar da sua vida. A Itália é incapaz. Os restantes não são sequer ouvidos. Só se a indiferença americana e a ameaça russa ajudarem…

Diário de Notícias, 29 de Dezembro de 2016

domingo, 18 de dezembro de 2016

Sem emenda - Responsabilidades

As recentes intervenções de António Costa, Pedro Passos Coelho, Maria Luís Albuquerque, Mário Centeno, Mário Draghi, Vítor Constâncio, Junker, Dijsselbloem, Durão Barroso e outros de anteriores governos têm o condão de esclarecer situações sobre as quais havia dúvidas.
Que revelação nos foi oferecida por estas personalidades de excepcional peso político? Foi-nos demonstrado que ninguém assume responsabilidades, que ninguém entende ser verdadeiramente autor e responsável pelo que se fez nos últimos anos de vida económica e financeira. Entre o Conselho europeu, a Comissão europeia, o Banco Central europeu, o Eurogrupo, o governo português e o Ministério das finanças, assistimos à mais monumental cena de passa culpas de que os contemporâneos podem ser testemunhas.
Demasiada austeridade? Uso insuficiente dos fundos europeus para resgates e capitalização? Ausência de investimento e de medidas compensatórias? Ataques aos pensionistas e aos funcionários públicos? Afastamento das empresas? Favoritismo na selecção? De tudo isso, os culpados são peças de um carrossel de irresponsabilidade. Mas são sempre os outros!
Há uma espécie de covardia política nas instituições nacionais e europeias que atinge as raias da obscenidade. Infelizmente, parece não haver qualquer maneira de forçar à correcção, de castigar quem errou, de obrigar à autocrítica, de retirar poderes e confiança política… À entrada da porta da responsabilidade política, é melhor despir toda a esperança, abandonar todas as ilusões…
A culpa é do FMI. Ou da Comissão europeia. Ou do Banco Central europeu. Ou do governo anterior. Ou do actual. Ou do Banco de Portugal. Tem de ser de alguém. Que errou. Que se enganou. Ou que desejou esta política que deu mau resultado. Nem seria necessário um culpado, bastaria um autor. Mas há evidentemente o “sistema”. Em especial o sistema de duplas soberanias (nacional e europeia) e de democracia limitada. Que tudo leva a crer que esteja a chegar a seu termo. Mas que se prepara para deixar mortos e feridos pelo caminho.
Se deixarmos estas grandes narrativas internacionais e europeias, se viermos a casa, não falta matéria para ilustrar esta tão insólita e nefasta noção de responsabilidade. Ou antes, de irresponsabilidade.
Os episódios da banca, os disparates do Banif, do BPN, do BES e da CGD que levaram a créditos mal parados e que exigem agora verbas astronómicas de capitalização e de cobertura de prejuízos, os empréstimos de favor a amigos para influenciar o sistema bancário e tantas decisões pouco fundamentadas deveriam ter assinatura, algures, deveriam ter identidade e responsabilidade anexas ao processo. Mas não, a responsabilidade fica no “sistema”, esta que é a entidade mais famigerada da vida nacional, responsável pelas avarias da electricidade, as facturas erradas dos telefones, os exageros na conta do gás, os atrasos nos centros de saúde e a desordem na educação. É o “sistema”.

Também os recentes incidentes dos malfadados SWAPS, verdadeiros instrumentos de roleta e extorsão, que vão custar centenas de milhões aos contribuintes, deveriam trazer amarrados aos processos umas etiquetas com a identidade dos signatários, a fim de percebermos o porquê e o quem destes prejuízos.
Evidentemente, o que acima se diz aplica-se também às PPP, as famosas e sedutoras Parcerias Público Privadas, que vão custar centenas ou milhares de milhões, não ficando os contribuintes, que tudo vão pagar, a saber quem é responsável. O que era essencial, até porque um dia destes, os mesmos que afundaram a banca, que extorquiram o contribuinte, que erraram nos seus programas económicos, que prestaram favores ilegítimos, que por vezes se ajudaram e ajudaram os seus amigos, esses mesmos se preparam para voltar a atacar, mais dia menos dia, mais governo menos governo. Se ao menos estivéssemos prevenidos…
DN, 18 de Dezembro de 2016


Sem Emenda - As Minhas Fotografias

O Terreiro do Paço em dia chuvoso e enevoado, Lisboa – Esta praça continua a ser uma das mais bonitas da Europa. Cores, proporções, arcadas, volumetria, o cais das colunas, o rio, as laterais simétricas, as colinas de Lisboa atrás dos edifícios e o início das ruas paralelas da Baixa, tudo se conjuga para este equilíbrio sereno raro na arquitectura da capital. Os principais arquitectos responsáveis foram Eugénio dos Santos e Reinaldo Manuel. Entre “Terreiro do Paço” e “Praça do Comércio”, continuo a preferir a primeira designação. Traduz majestade e poder, valores para os quais a praça foi pensada. Os ingleses do século XIX chamavam-lhe “Black Horse square”, o que sugere que as cores esverdeadas do bronze de D. José a cavalo (da autoria de Machado de Castro) deveriam estar bem escuras. Ainda há vinte anos, a praça era um cafarnaum, com milhares de carros estacionados, frotas automóveis dos ministros, engraxadores, arrumadores, vendedores e fotógrafos ambulantes. Agora, turistas e gente a andar. E a ver o Tejo. A fotografar. E a namorar.
DN, 18 de Dezembro de 2016

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Sem Emenda - As Minhas Fotografias


Almoço na escadaria da Grande Arche de l’Étoile, em Paris – Nesta nova urbanização de Paris, que tem quase trinta anos, eleva-se a Grande Arche, monumento tipicamente do género “grand oeuvre”, de iniciativa politica. Neste caso, da autoria do presidente Mitterrand que se interessou muito especialmente pelas grandes obras que “ficariam para a história”. Entre elas, a Étoile, a Biblioteca nacional, a Ópera da Bastilha, o Ministério das finanças, o Parque de La Villette, a Pirâmide do Louvre… Qualquer destes sítios é polémico e não deixa ninguém indiferente. Inúteis… Agressivos… Desconfortáveis… Sem escala humana… Frios… Sem história… Inovadores… De vanguarda… Arrojados… Inspiradores… Como sempre, na arquitectura e no urbanismo modernos, feitos em estúdio e atelier, há um desconforto de habituação. O ambiente parece pouco acolhedor. Em certo sentido, pouco urbano… Verdade é que, com o tempo, tudo fica familiar. Todos se adaptam. Em poucos anos se constrói a urbanidade do quotidiano. Em pouco anos se almoça nas escadas…
DN, 11 de Dezembro de 2016

Causas do não crescimento…

A ausência de crescimento económico é o grande problema da sociedade portuguesa actual. Com crescimento médio de zero desde o início do século, desaparecem as hipóteses de emprego, de financiamento da segurança social e de suporte dos sistemas de educação, de saúde e de justiça.

Com a globalização, foram criadas condições tais para os países fornecedores de mão-de-obra barata que Portugal perdeu grande parte da sua capacidade de manufactura. O rápido desaparecimento da indústria transformadora aumentou a fragilidade da economia. Nalguns países europeus, a indústria em declínio foi substituída por outros sectores, designadamente de serviços. Entre nós, esse processo foi lento e insuficiente. Com o que aumentaram os problemas da balança comercial e diminuiu a capacidade de criação de emprego.

Depois dos grandes apoios que constituíram os fundos, a União Europeia acabou por se transformar num colete-de-forças que retirou a Portugal capacidade de tratar da sua própria economia, dos seus custos e da sua moeda. O Euro foi talvez o mais duro obstáculo às eventuais políticas de promoção de competitividade da economia portuguesa. Com o Euro, não se conseguiu a tão necessária disciplina financeira dos políticos portugueses. Qualquer abrandamento ou qualquer recessão na Europa transforma-se num desastre em Portugal.

            As políticas públicas portuguesas seguidas nestas últimas décadas acrescentaram prejuízos e tiveram efeitos muito negativos. A instabilidade e a demagogia, seguramente. O favoritismo e a corrupção, como se sabe. A visão eleitoral e de curto prazo, sem dúvida. Ao que se acrescenta uma 
Administração Pública de má qualidade, dependente do governo, com uma burocracia excessiva, uma corrupção permanente e uma Justiça muito insuficiente e morosa.

O crescimento permanente do Estado, da respectiva despesa e em especial das despesas sociais criou mais défice e aumentou o endividamento. Para que o Estado cresça sem travão, é necessária uma fiscalidade sem abrandamento. Tudo leva a crer que esta tenha chegado a níveis insuportáveis, incompatíveis com a expansão do investimento. Este último é desencorajado como raramente na história do país.

Ainda por cima, a falta de capital (e de capitalistas…) é agora crónica e quase irremediável. Falta porque não existe. Falta porque não tem atractivos. Falta porque fugiu para locais mais seguros e produtivos. Falta porque procura sítios com menor fiscalidade e menores ameaças de esbulho. Fogem finalmente os capitais à procura de sociedades com mais tolerância para o investimento privado e com governos mais dispostos a programas de segurança.
As causas da falta de crescimento são de diversa ordem. Podem ser externas e nacionais. Estas últimas são as políticas. Porque têm maus resultados, evidentemente. Mas o pior é o facto de terem enfraquecido o país, de lhe terem destruído recursos e de o terem impedido de reagir melhor aos males que vêm de fora. O colossal endividamento português é o lugar geométrico das políticas públicas erradas, do crescimento ilimitado do consumo e das prestações sociais e da debilidade do capitalismo português.

Finalmente, um sindicalismo agressivo, politizado e partidário. Já foi mais agressivo nos anos setenta, hoje é menos nos sectores privados, mas ainda é áspero e pouco dado a negociação nos sectores públicos, como na educação, na saúde, na administração central, nas autarquias, no caminho-de-ferro e nos portos, assim como nos sectores, nos transportes, por exemplo, com grande influência do Estado. Os governos de direita não sabem nem querem negociar com os sindicatos. Os governos de esquerda submetem-se aos sindicatos. O resultado não é bom para ninguém, trabalho, Estado ou capital.
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DN, 11 de Dezembro de 2016