Há termos em voga: assédio sexual
e violência doméstica, por exemplo. Nenhum é falso. Mas ambos escondem qualquer
coisa: a violência masculina! É sobretudo disso que se trata.
Pode haver estudos e análises.
Consultas e exames. Nunca se chegará bem a saber o que leva um homem a espancar
a mulher, a bater na mãe, a desancar a namorada, a surrar a amante e a sovar a
filha! Mas sobretudo a mulher, a mãe dos seus filhos, a pessoa que se ocupa
dele, lhe faz as refeições e trata da casa! Ou simplesmente a pessoa que com
ele vive e dorme.
É uma das piores baixezas da
humanidade! A violência masculina tem razões estranhas: sexo, ciúme,
insegurança, impotência, desconfiança, exibicionismo, ignorância, vingança,
álcool, prepotência… Não é de esquerda nem de direita. Não é do Norte, nem do
Sul. Não é do crente, nem do ateu. Não é do rico, nem do pobre. Não é do
doutor, nem do analfabeto. Não é do inteligente, nem do estúpido. Não é do
velho, nem do novo. Não é do português, nem do estrangeiro. Não é do rústico,
nem do citadino.
Que animal é este, difícil de
compreender, impossível de entender? Podemos recorrer a psicólogos, médicos,
psicanalistas, sociólogos, polícias e juristas: nenhum satisfaz a necessidade
de compreender.
São anualmente cinco a dez mil
mulheres as que, após violência continuada, apresentam queixa. Mas são cinquenta
a cem mil as que nunca apresentaram queixa, não se sabe bem porquê, mas
suspeita-se com certeza. Por medo e pavor. Por timidez e vergonha. Ou por
pobreza e miséria. E são cerca de cinquenta as que, anualmente, já não
apresentam queixa, pela simples razão de que foram assassinadas. Isso mesmo,
assassinadas! Há homens assim, que assassinam a mãe dos seus filhos! Nem
animais!
O homem bate-lhe porque tem
ciúmes, porque ela olhou para outro, no restaurante, porque ela sorriu para
outro, no emprego, porque ela falou com outro, ao telemóvel, porque ela ouviu
as histórias do outro, no autocarro.
Bate-lhe porque o patrão se
zangou, porque o chefe o censurou, porque teve má avaliação no emprego e, ao
chegar a casa, bateu em quem tinha à mão.
Bate-lhe porque deu uma nega, porque
esteve impotente com a amante, porque não conseguiu sair com uma namorada.
Bate-lhe porque ela não obedeceu
a uma ordem dele, porque respondeu ou resmungou, porque ela lhe disse que
estava cansada, que precisava de dormir ou porque não quis fazer amor com ele.
Bate-lhe porque ela lhe disse que
ele bem podia ajudar em casa, com os filhos, com os pais ou os sogros, nas
compras, na louça, nos pagamentos e no lixo.
Bate-lhe porque, no golfe, as
coisas não correram bem, porque as acções na bolsa baixaram 5% num só dia ou
porque o banco exigiu o pagamento da dívida.
Bate-lhe porque bebeu uns copos a
mais, porque o seu clube de futebol perdeu e um amigo lhe estragou o carro.
Bate-lhe porque ela lhe disse que
ele bebia de mais, que podia passar um pouco menos de tempo diante da
televisão, ou no escritório, à noite, ou no café, com os amigos.
Bate-lhe porque é como o
Sebastião, que come tudo, tudo, tudo, que come tudo sem colher, que fica todo
barrigudo e depois dá pancada na mulher.
Bate-lhe porque o peixe estava
queimado e a carne estava crua, porque a mesa não estava posta a horas, porque
ele chegou tarde e o jantar estava frio.
Bate-lhe porque ela esteve a ler
livros que não devia ler, a ver filmes que não devia ver e a ouvir música que
não devia ouvir.
Bate-lhe porque é o seu direito, porque
é a sua mulher, para lhe lembrar que quem manda é ele, porque ela não sabe
cuidar dos filhos, porque os filhos têm más notas, porque é frustrado e
traumatizado, já o pai dele batia na mãe e consta que o avô batia na avó.
Bate-lhe porque ela estava mesmo
a pedi-las, com aquela maneira de se vestir e de se comportar diante de toda a
gente.
Bate-lhe porque ela disse que se
queria separar ou pedir o divórcio.
Bate-lhe porque uns tabefes nunca
fizeram mal a ninguém.
Bate-lhe porque ela gosta.
Bate-lhe porque ela está ali.
DN, 2 de Abril de 2017