quinta-feira, 14 de julho de 2016

Sem Emenda - As Minhas Fotografias

Cortejo com crianças, nacionalismo e ditadura, Brasil – Tempos áureos de patriotismo. Numa pequena cidade, perto do Rio de Janeiro, comemora-se o dia do Brasil, o Dia da Pátria Brasileira. É o 7 de Setembro, aniversário da Declaração de Independência. Por todo o país, realizam-se cortejos e festejos, fazem-se cerimónias poéticas e recreativas, presta-se homenagem à Pátria e aos Patriotas, organizam-se colóquios e conferências, repetem-se os discursos inflamados dos políticos, desfilam jovens de rostos ruborizados pelo orgulho de pertencer a tão grande país! O país vive sob regime de ditadura militar. Nos carros e nas vitrinas, um dístico com as cores do Brasil invectiva o passeante: “Ame-o ou deixe-o”! Noutros locais, este formidável “Tu és nosso!”. Era assim, em 1971.
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DN, 10 de Julho de 2016

Sem emenda - As dívidas da Pátria

Já hoje sofremos sanções e não é pouco! Os juros que pagamos são superiores aos dos outros países. Os investimentos, nacionais e estrangeiros, caíram a pique. Continua a exportação de capitais para países mais seguros e bancos mais honestos. Nos mercados, o dinheiro para Portugal é escasso ou muito caro. Os credores internacionais têm dúvidas. Todas estas realidades têm nomes mais técnicos e suaves, mas são verdadeiras sanções. Parece que não chegam! Ainda são precisas mais!

Como é evidente, devemos pagar sanções. E ser punidos. É bom que assim seja. A impunidade é um defeito grave. Quem não faz o que deve tem de assumir as consequências. Em última análise, quem sofre com as sanções são os contribuintes. Sabemos isso. Por isso as sanções podem ser injustas. Mas são instrumentos necessários a pôr os políticos em ordem e a obrigá-los a ter disciplina. Sobretudo é o modo de informar os eleitores que os seus políticos governaram mal, tomaram decisões erradas, gastaram o que não é deles e não fizeram contas porque queriam ser eleitos. As sanções são uma condição necessária à formação de um juízo racional dos eleitores. Sem sanções, não há políticos a despedir, não há governantes indisciplinados a castigar, não há mentirosos a punir, nem há demagogos a contrariar!

Distribuir o que não há, gastar a mais e não pagar dívidas merece castigo! Mentir nas contas, gerir mal e favorecer a corrupção deve ser punido! Decretadas pelas autoridades competentes, as sanções servem para tornar evidentes aos eleitores os erros e os defeitos dos seus políticos. 

Por isso é confrangedor o actual debate sobre sanções, assim como a onda de patriotismo bacoco que o governo e os seus apoiantes fomentam. É ridículo declarar guerra à União Europeia e à Alemanha! É idiota invocar a pátria para aumentar a dívida! É infantil tentar camuflar os erros políticos sob as roupagens da dignidade nacional! O patriotismo sempre foi o refúgio dos demagogos, dos ditadores e dos aldrabões.

Estamos a chegar lentamente ao país dos crédulos: nós temos sempre razão, eles, nunca! Os debates parlamentares resumem-se a isto. Os fiéis de um culto só acreditam no seu sacerdote. Os simpatizantes de um partido só confiam nele. O pensamento é o do rebanho. Inteligência, informação, razão e rigor são dispensados. Estas semanas de futebol só vieram agravar os espíritos. O que importa é ganhar, nem que seja com a mão, dizia alguém na televisão. A lógica é a mesma. Com argumentos nacionalistas, que as esquerdas envergonhadas designam por patrióticos, com emoções patetas e com sentimentos totalmente deslocados, pretende-se manter aliados e iludir eleitores. Sendo que os apoiantes comunistas e bloquistas querem mais do que isso. Querem mesmo dar cabo do Euro, do Tratado orçamental e desta União. Para o que esperam evidentemente pela cumplicidade pacóvia dos socialistas e pelos sentimentos patrióticos dos Portugueses vexados na sua dignidade nacional!
Verdade seja dita que os outros intervenientes não se portam melhor. O que faz com que seja difícil compreender o que realmente se passou e está em causa. Portugal infringiu ou não as regras? Quando? Por quanto? Quem foram os responsáveis? E os outros países da União? Esta trata todos da mesma maneira, como diz, ou com parcialidade, como parece? A União ainda não conseguiu demonstrar que, na questão dos défices, está a ser justa e equitativa. O PSD não provou que a sua gestão ficou abaixo do défice. O governo não conseguiu demonstrar que a sua actuação não agrava os défices. Chegámos ao ponto do inferno das emoções, próprio do patriotismo: o que fizemos é bem, porque fomos nós. O que eles fizeram é mau, porque foram eles. Ao que nós chegámos!
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DN, 10 de Julho de 2016


segunda-feira, 4 de julho de 2016

Sem emenda - A deriva europeia

Em percentagem do total mundial, a população europeia está a diminuir. Além disso, é a mais envelhecida. A parte da União Europeia no produto global, perto de 15%, está em decréscimo. As taxas de crescimento da economia europeia são das mais reduzidas do mundo. A União deixou de ser uma grande potência industrial. E é cada vez menos uma potência financeira insubstituível. A capacidade científica da Europa atrasa-se em relação aos Estados Unidos e já está ameaçada por outros continentes. Sem a América e sem a Grã-Bretanha, a defesa e a segurança da União Europeia são quase inexistentes.

A Europa tem o mais generoso, solidário e acolhedor Estado social. É o continente onde mais se gasta por habitante em saúde, educação, cultura, apoio à família e ao rendimento, segurança social e apoio ao desemprego. É o único continente onde todos os países são democracias. É o continente que atrai maior número de turistas internacionais.

Em contas aproximadas, valores proporcionais e conceito alargado, a Europa tem actualmente cerca de 3,5 milhões de refugiados. É o continente que recebe mais refugiados vindos de outros continentes. Este é um enorme esforço de que muitos europeus podem ou devem estar orgulhosos.

A Europa parece transformar-se num parque temático. Ou num sítio do Património da UNESCO. O Estado social europeu, em qualquer das suas versões, da alemã à portuguesa, da inglesa à sueca, é uma obra-prima de solidariedade. Mas também é a condenação à bancarrota inevitável.

Poderá a Europa receber ainda mais refugiados e imigrantes em desespero? Talvez. Mas não esqueço os 3,5 milhões que já cá estão. Há limites, mas raras são as pessoas que querem falar dos limites. Sabe-se que se trata de questão difícil. Como estabelecer os limites? A que níveis? Com que regras?

Vai ser muito difícil encontrar uma resposta equilibrada para qualquer daquelas perguntas. Uns querem abrir as portas, sem limites. Outros querem fechar as portas, sem excepções. Uma solução equilibrada é aquela que não põe em causa (ou o menos possível…) os direitos dos cidadãos, as liberdades públicas, os valores culturais europeus, a solidariedade humana e os direitos universais.

A recusa europeia de considerar a imigração e a corrente de refugiados como uma questão política a tratar a tempo e horas, com rigor, tornou tudo mais difícil. A recusa europeia de aceitar que poderia haver uma política de controlo e de gestão dos imigrantes e dos refugiados atrasou e agravou os problemas. A ponto de entrarmos em crise ameaçadora. A evolução política de cada país, como na Inglaterra agora e outros a seguir, revela as ameaças.

O mar do Sul, o “cemitério” mediterrâneo, os campos de refugiados, as multidões nas fronteiras e os conflitos políticos em tantas cidades europeias estão aí para revelar o que já sabemos, uma crise sem precedentes. As reacções políticas dos eleitorados, as derivas xenófobas, confirmam o mal-estar crescente. Não basta dizer que se trata de xenofobia e de racismo. Às vezes é, às vezes não é. Os cidadãos europeus têm o direito de preferir viver com imigrantes ou sem imigrantes.

A política será chamada a resolver, a encontrar as soluções equilibradas. Mas, por enquanto, tem contribuído para tornar tudo mais difícil. A direita defende valores europeus, as tradições culturais e o legado cristão. A esquerda defende valores universais, o laicismo, a solidariedade internacional e o multiculturalismo. A direita quer fechar, para preservar a Europa. A esquerda quer abrir, para mudar a Europa. Nenhuma parece ter razão.

Os Europeus têm o direito de querer mudar. Os Europeus têm o direito de querer conservar. Ambos têm razões. Nenhum tem a razão. O caminho é abrir, mas com critério e controlo. E integrar, com generosidade e liberdade.


DN, 3 de Julho de 2016

Sem Emenda - As Minhas Fotografias

Senhora e seu telemóvel, com pedinte, jovem de costas e saco a tiracolo e clientes da esplanada, perto de Leicester square, em Londres – Cena simples de rua. Não há qualquer relação entre as figuras da imagem. É um dos interesses possíveis ou dos encantos imprevistos da chamada “street photography”. Somos nós, observadores ou fotógrafos, que damos unidade ao que a não tem ou parece não ter. Londres, por estas paragens, é um viveiro de todas as condições sociais, de nacionalidades e etnias, de vestimentas e comidas desvairadas. É também por aqui que caem os turistas em quantidade. Não muito longe, ficam Trafalgar, Picaddilly, a National Gallery, os teatros, a Ópera e Covent Garden. É um dos corações de Londres. Hoje, todas estas belezas se preparam para nos deixar, nós europeus! Vão-nos fazer falta!
DN, 3 de Julho de 2016


terça-feira, 28 de junho de 2016

Sem emenda- Perdas e danos

 Assim, de repente, para assombro de todos, a Grã-bretanha (ou Reino Unido, ou Inglaterra, logo se verá) entregou a União Europeia à Alemanha e foi-se embora. A Europa ficou mais pobre. Menos livre. Menos diversa. Menos criativa. Mais fraca. Mais indefesa. Menos culta. Mais burocrata. Mais aborrecida. Menos atraente. 

Não há quem possa compensar o que desaparece. Ninguém, nenhum país poderá preencher o vazio agora criado. O que a União europeia perdeu, de facto, não tem substituição. Perdeu uma das nações mais antigas e influentes do mundo e da história. Talvez o povo com o maior apego à liberdade que se possa imaginar. A mais antiga e experiente democracia do mundo. O único país que não conheceu, nos últimos séculos, a ditadura. A mais consolidada tradição de autonomia individual perante o Estado. As Forças Armadas mais bem treinadas, mais organizadas e mais operacionais da Europa. A Polícia mais civilizada do mundo. Uma das mais fortes tradições sindicais. A língua mais falada por nativos e estrangeiros. Algumas das melhores universidades do mundo e as melhores universidades da Europa. Alguns dos melhores museus do mundo. A mais sofisticada cultura literária, musical, artística e científica. A primeira praça financeira da Europa e uma das principais no mundo.

As opiniões são as mais diversas e contraditórias que se pode prever. É natural. Mas a verdade é que estamos a iniciar um caminho (uns dirão que esse começo data de pelo menos dez ou quinze anos, de Maastricht e de Lisboa…) com mais obstáculos desconhecidos, mais riscos e ameaças do que se esperava desde há pelo menos seis décadas. Os alargamentos e o fim do comunismo foram factores de incerteza, mas sempre com esperança. Desta vez, o sabor é o da derrota e o odor é o do perigo iminente. Estão abertas as portas às forças centrífugas e aos separatismos, assim como aos devaneios extremos da direita e da esquerda e ao radicalismo. A mediocridade da maior parte dos dirigentes políticos nacionais e dos grandes burocratas europeus é tal que estão convencidos de que venceram esta batalha. Julgam que tudo vai ser mais fácil e que vamos ficar aliviados com a saída dos incómodos ingleses. A verdade, todavia, é que a União, Bruxelas e as potências europeias que sobram (Alemanha e França, já nem contando a Itália e a Espanha ou a Polónia) acabam de sofrer talvez a sua mais completa derrota. Apesar deste monumental desastre, o pior da União, isto é, do Conselho, da Comissão, do Parlamento, do Eurogrupo e do Banco central ainda está para vir. As suas reacções, próprias de quem não aprendeu, virão agravar uma situação já de si dramática. As iniciativas da Alemanha e de Bruxelas já revelam uma indisfarçável vontade de represália. Depois da tormenta financeira, das dificuldades do Euro e das crises das dívidas soberanas, após os ataques terroristas, ainda em plena crise de imigrantes e refugiados e sob a ameaça do radicalismo de esquerda e direita, a União europeia entra definitivamente nos cuidados intensivos.

Confesso sentir raiva contra os ingleses que assim optaram por abandonar o barco comum e decidiram amputar a minha Europa e a minha União de tantos bens, de tanta história e de tanta tradição. Mas é uma raiva especial. Matizada pela alegria de saber que se tratou da decisão de um povo livre. Mesmo se errada ou perigosa, a decisão foi livre. Mais uma lição para os Portugueses que deixaram que todas as decisões europeias e constitucionais fossem tomadas sem a sua participação. Mais uma lição para os Portugueses que se limitarão, de futuro, a seguir o cortejo, a desejar que as coisas corram bem. Ou a esperar que não corram mal…

DN, 26 de Junho de 2016

Sem Emenda - As Minhas Fotografias


Terraço do Círculo de Belas Artes, Madrid – Hoje, em Madrid, vota-se pela segunda vez em seis meses. Não se imaginam os resultados. Mas pensa-se que não serão fáceis. Ao fim do dia, saberemos se a Espanha se prepara para encontrar soluções ou se, com a Grã-bretanha e outros países no futuro próximo, se inscreve na lista das aflições europeias que nos esperam. Neste terraço, mais perto do céu, longe das urnas de voto e dos cartazes de propaganda, a sensação de paz é absoluta. O senhor de mochila não suspeita sequer do que se passa lá em baixo. Envolto no arvoredo dos seus jardins e do Real Botânico, percebem-se os telhados do Museu do Prado. A vista deste terraço é uma das mais impressionantes de Madrid. Fica bem no centro da cidade. Oferece oportunidade para olhar a 360 graus. Não está demasiado alto, o que permite ver e distinguir pormenores. Esta imagem é apenas uma pequena parte do panorama. Foi dedicada ao museu, um dos sítios de eleição deste mundo.

DN, 26 de Junho de 2016