terça-feira, 28 de junho de 2016

Sem Emenda - As Minhas Fotografias


Terraço do Círculo de Belas Artes, Madrid – Hoje, em Madrid, vota-se pela segunda vez em seis meses. Não se imaginam os resultados. Mas pensa-se que não serão fáceis. Ao fim do dia, saberemos se a Espanha se prepara para encontrar soluções ou se, com a Grã-bretanha e outros países no futuro próximo, se inscreve na lista das aflições europeias que nos esperam. Neste terraço, mais perto do céu, longe das urnas de voto e dos cartazes de propaganda, a sensação de paz é absoluta. O senhor de mochila não suspeita sequer do que se passa lá em baixo. Envolto no arvoredo dos seus jardins e do Real Botânico, percebem-se os telhados do Museu do Prado. A vista deste terraço é uma das mais impressionantes de Madrid. Fica bem no centro da cidade. Oferece oportunidade para olhar a 360 graus. Não está demasiado alto, o que permite ver e distinguir pormenores. Esta imagem é apenas uma pequena parte do panorama. Foi dedicada ao museu, um dos sítios de eleição deste mundo.

DN, 26 de Junho de 2016

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Sem emenda - Os culpados

Em quinze anos, desde 2000, o crescimento económico português foi, para o período ou em média anual, zero! Nunca tal se viu, na evolução económica recente. Diante da brutalidade destes números, com a esquerda ou com a direita, as esperanças no desenvolvimento económico e social esfumaram-se. O que se esperava que a modernização tivesse trazido, o que se pensava que a integração europeia tivesse produzido, o que se imaginava que a nova economia e os novos empresários tivessem criado, tudo isso parece ter desaparecido! Aspira-se a um crescimento de 0,5 a 1 por cento, como se fosse o El Dorado! Sonha-se com desemprego a 7% como se do paraíso se tratasse! Com o actual endividamento e o respectivo serviço, décadas serão necessárias para libertar recursos indispensáveis para o investimento. Até lá, vamos procurando culpados.

É normal. Compreende-se. Cada crise tem o seu culpado. Nunca é unânime, há sempre polémica, mas, em cada momento, um culpado sobrepõe-se aos outros. Houve um tempo em que era o fascismo. Pela pobreza, pelo analfabetismo, pela doença e pelo atraso, a culpa era do fascismo, da “ditadura terrorista dos monopólios”, segundo a preciosa definição do Dr. A. Cunhal. Também se dizia que os culpados eram cem famílias.

Quando a liberdade parecia despontar, logo surgiram os que a queriam atacar e ficaram responsáveis por todos os desmandos: eram os comunistas, a extrema-esquerda e os militares do MFA. Com a União Soviética à frente. Foram eles os responsáveis pelos desastres da economia, pelo desemprego e pela inflação.

Encerrado esse ciclo, o culpado passou a ser o Estado. A burocracia. Os funcionários. As empresas públicas. E, através do Estado, a Maçonaria. Era no Estado que floresciam a corrupção e a promiscuidade. O sector público nada fazia, nada produzia, só gastava.

Esgotada a ladainha do sector público, chegou a vez das elites. Elites económicas e políticas (nunca as artísticas nem as intelectuais, pois claro…) incapazes de dirigir e enriquecer o país. O povo trabalhava, os trabalhadores cumpriam, mas as elites gastavam ou não se interessavam. E não estavam à altura dos desafios e das necessidades.

Não faltou muito para que se encontrasse um novo grande culpado: o país inteiro, o povo, a população que viveu acima dos meios, muito acima das suas possibilidades. Viver a crédito, com dívidas, como se não houvesse filhos nem dia seguinte, foi a razão pela qual o país se afundou. Todos os Portugueses, com excepção de alguns iluminados, tiveram a sua quota-parte de culpa.

O contra-culpado não tardou: a direita! A direita dos ricos e dos banqueiros. A direita dos patrões. A direita do Partido Socialista, por um tempo. A direita do PSD e do CDS, claro. Com a direita vieram, evidentemente, a União Europeia e os alemães, culpados indesmentíveis da nossa pobreza!

Agora, de repente, temos um novo culpado. Disse o ministro das finanças, Mário Centeno, que a economia não cresce por causa do sistema bancário! Segundo os jornais, ele entende que os trabalhadores portugueses são os que mais trabalham em toda a Europa, como são igualmente, de longe, os que menos ganham. Eis que constitui, diz o ministro, uma força a aproveitar para fomentar o investimento. Para dinamizar esta economia, feita pelos que mais trabalham e menos ganham, é necessária uma banca que funcione. É o que ele promete! Não tínhamos pensado nisso antes. Não nos lembrávamos dos mais de 30 mil milhões de crédito mal parado, nem dos trapaceiros que destruiriam o que sobrava de reputação da banca portuguesa.
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DN, 19 de Junho de 2016

Sem Emenda - As Minhas Fotografias



Fachada do Banco de Comércio, em Caracas, Venezuela (1971) – Eram outros tempos. No princípio da década de 1970, Caracas era uma cidade de incrível agitação. Tráfego automóvel infernal. O petróleo reinava. Preparava-se a sua nacionalização. É um enorme território (quase um milhão de Km2), com relativamente poucos habitantes (cerca de 30 milhões). É um dos dez maiores produtores de petróleo. Uma das maiores reservas de gás e petróleo do mundo. Tem uma das maiores barragens hidroeléctricas. Um país inesgotável de riqueza. O mais importante cliente de computadores Magalhães. Bairros de lata e favelas de dimensão apocalíptica. A história recente deste país é uma sucessão de euforia, riqueza, pobreza, quedas, rupturas, golpes, ditaduras, crises e miséria. Hoje tem talvez a mais alta inflação do mundo. Desordem conhecida. Permanente ameaça de desastre. Presos políticos e agitação constante. Racionamento de comida, água, pão, arroz, luz eléctrica, gasolina… Um pesadelo.
DN, 19 de Junho de 2016

terça-feira, 14 de junho de 2016

Sem emenda - As sanções europeias

Depois de ter a certeza de que as instituições europeias não castigariam Portugal, os partidos parlamentares decidiram aprovar um protesto contra as eventuais sanções. Não havia riscos e ficavam todos bem, pensava-se. Assistiu-se então ao espectáculo lamentável de um Parlamento que não se entende a propósito de um voto “patriótico” de repúdio! Qual associação de estudantes, aquela assembleia, perante uma hipotética ameaça europeia, nem um texto medíocre aprovou. Protestar daquela maneira é adolescente e prova de menoridade. Mas nem sequer conseguir alinhar três parágrafos sobre o assunto é simplesmente infantil! E sinal de que o clima político está mau, a caminho de péssimo. Foram aprovados dois protestos… Os socialistas votaram dos dois lados…

Deveria, evidentemente, haver sanções. Não há outra maneira de estimular um país à disciplina orçamental e financeira. A proverbial incapacidade dos Portugueses para conseguir disciplina e rigor financeiro só pode ser tratada de duas maneiras. Uma, com ditadura, o que já foi experimentado no passado com os maus resultados conhecidos. Outra, com sanções impostas por quem tem legitimidade para o fazer, o que só parece competir à União Europeia.

Portugal é incapaz de alcançar de livre vontade os equilíbrios financeiros e orçamentais necessários a um bom desenvolvimento económico. A adesão ao Euro, há quinze anos, justificava-se pela necessidade de pôr ordem nas finanças portuguesas. A seriedade europeia, prolongamento da severidade alemã, era um excelente argumento para justificar a adopção do Euro. Infelizmente, os resultados foram os piores. A indisciplina portuguesa aumentou. A complacência europeia foi total. O interesse dos países exportadores e credores transformou-se em cumplicidade e co-autoria dos desmandos. A demagogia, a corrupção e a trapaça bancária foram moeda corrente durante duas décadas. Mais ou menos aquelas durante as quais Portugal deixou de crescer. Até hoje.

É todavia ridículo e ilegítimo impor sanções a Portugal e, ao mesmo tempo, desculpar a França e ser complacente com a Itália e a Grécia. E já ter desculpado a Alemanha, quando ela precisou. Além disso, a União Europeia e o BCE não souberam, durante quinze anos, impor disciplina e ser mais severos no acompanhamento. Sem equidade e sem eficácia, a União perde autoridade.

            Este não é o momento para impor sanções a Portugal nem a qualquer outro país. A União tem primeiro de se reconstruir, depois podemos voltar a pensar nisso. Mas, se não houver sanções, nem agora, nem mais tarde, em Portugal ou noutro membro não cumpridor, nunca mais haverá disciplina. Nem cá, nem lá. E se assim for, adeus Europa, adeus União!

Começa a desenhar-se uma “frente comum”, uma “aliança implícita” entre países do Sul, Latinos, mediterrânicos e socialistas: Portugal, Espanha, França, Itália e Grécia. Esta convergência pode dar mais peso a uma eventual posição portuguesa. Mas o problema é que com este sindicato de caloteiros, jamais conseguiremos o mínimo de disciplina necessária a um esforço de investimento e de crescimento. Com tantos economistas à solta por essa Europa fora, não se conseguirão inventar mecanismos mais eficientes de salvaguarda da disciplina orçamental e financeira e do rigor nas contas públicas?

Para os Portugueses, o grande problema é o endividamento e o défice público. Nestes capítulos, Portugal é incorrigível. Aproveitam-se todas as oportunidades para aumentar a dívida e a dependência. Os Portugueses não têm vergonha de dever dinheiro aos outros. São tão perversos que até se sentem bem, isto é, com direito a ter dívidas! Não têm emenda, parece que só a mal ou à força é que os Portugueses ganham juízo financeiro!

DN, 12 de Junho de 2016

Sem Emenda - As Minhas Fotografias

Há cinquenta anos, em Champigny, Paris – Este fim-de-semana, há festa portuguesa em Paris. Com Presidente da República, Primeiro-Ministro e tudo. Muitos dos que por lá andarão devem lembrar-se de como era há quase cinquenta anos. Era assim, Champigny, um dos mais inóspitos arredores de Paris. Um dos bairros de lata mais miseráveis da Europa! Só de pensar que se fugia de Portugal, a “salto”, correndo todos os riscos do mundo, para ir viver num lugar destes! De Verão, o sol e o calor escondiam muitos males. De Inverno, com chuva, frio e neve, era este lamaçal. Mas havia trabalho e emprego. Oportunidades. Esperança. E liberdade para procurar melhor. Na Europa, sítios destes terão acabado. Ou quase. Mas imigrantes ainda existem. Cada vez mais, mesmo. Só que agora vêem de mais longe, têm outra cor de pele, rezam a outros deuses, falam línguas mais distantes. Muitos deles vêm de países destruídos pela guerra civil e com uma obsessão: a de que a Europa lhes dê emprego e paz. E um refúgio.

DN, 12 de Junho de 2016

domingo, 12 de junho de 2016

Luz - Europeu e Africano com Muçulmanas à entrada do Metropolitano, perto de Somerset House, Londres

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À entrada da estação de metropolitano de Temple, não longe da grande avenida de Strand, quase à beira do Tamisa. Num pequeno ajuntamento de pessoas, só etnias e nacionalidades são talvez meia dúzia delas! (2015)

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Sem emenda - Portugueses e Árabes

É impossível encontrar, a propósito de quem quer que seja, um sentimento comum a todos os Portugueses. Ainda bem. O mesmo, aliás, se pode dizer dos outros povos: o consenso é coisa rara, utópica mesmo. Mesmo quando está em causa a opinião sobre outros países, não há consenso. São muitas vezes impressões e preconceitos, aumentados quando se envolvem questões de religião, de identidade e de história. O nacionalismo é uma realidade complexa e delicada. É sabido que os Franceses não gostam dos Alemães nem dos Americanos. Que os Portugueses não morrem de amores pelos Espanhóis. Que os Polacos abominam os Russos. Que os Croatas detestam os Sérvios. E que os Escoceses não têm inclinação pelos Ingleses. Daí a ter certezas sobre os sentimentos colectivos vai um longo e delicado caminho. O anedotário não define um carácter nem uma cultura. Mas lá que existe…
Se começarmos a procurar com um pouco mais de pormenor, é possível, todavia, encontrar tendências e percepções dominantes. Entre esquerdas e direitas, por exemplo, não é difícil encontrar inclinações frequentes. Assim, relativamente aos Árabes e aos Muçulmanos, duas entidades de que muito se fala recentemente, parecem claras certas atracções de estimação.

Salvo excepções, a direita detesta os Árabes, menos os ricos. Dá-se mal com eles, a não ser que tenham dinheiro. Está disposta a tudo para negociar com eles.
Não lhes conhece a história. Não distingue entre Árabes, Turcos e Persas. Nem entre Muçulmanos e Semitas. Não gosta, mas aprecia aqueles que, nos seus países, mantém a produção petrolífera e alimentam bolsas e bancos internacionais. Agrada-lhe o princípio dinástico que, monárquico ou republicano, tanto tem influenciado o poder nalguns países árabes.
Não lhes perdoa o passado, nem o que fizeram, nem o que não fizeram. Deixa-lhes fazer o que querem no futuro, desde que paguem bem. Aprecia os déspotas e ditadores, porque se espera deles que tragam estabilidade.
Não se importa muito com o modo como os Árabes em particular e os Muçulmanos em geral tratam as mulheres.
Olha com distância e por vezes indiferença para os conflitos violentos entre Judeus e Árabes: a eliminação recíproca agradaria a muita gente da direita.
A direita não gosta de Árabes, nem de Judeus.

Salvo excepções, a esquerda gosta dos Árabes. E dos Muçulmanos. Tem medo, mas gosta deles. Não lhes conhece a história. Não distingue entre Árabes, Turcos e Persas. Nem entre Muçulmanos e Semitas.
Perdoa-lhes tudo, incluindo a violência e o despotismo, por alegadamente terem sido, no passado, vítimas da escravatura e do colonialismo. Deixa-lhes fazer o que quiserem, porque lhes reconhece o direito à desforra, dado que foram humilhados. Para a esquerda, actos de terrorismo e outros desmandos, praticados por muçulmanos, têm sempre uma circunstância atenuante no imperialismo e na pobreza.
Em todo o universo muçulmano e em especial no mundo árabe, guerras, terrorismo, tortura, pobreza, desigualdade, ditadura e intolerância têm uma causa principal: o ocidente, os europeus, os americanos e a politica europeia dos séculos XVIII, XIX e XX.
A esquerda não gosta da maneira como os Árabes em particular e os Muçulmanos em geral tratam as suas mulheres, mas entende que são particularismos culturais que merecem respeito.
Olha com indignação para os conflitos violentos entre Judeus e Árabes: culpa Israel, mas os principais responsáveis são os americanos e os europeus.
A esquerda não gosta de Judeus, mas gosta de Árabes.

A direita gosta de Lawrence, mas prefere vê-lo a manobrar por longe. A esquerda não gosta de Lawrence, mas gosta de o ver a intrigar. A esquerda gosta do deserto. A direita gosta de tâmaras.

DN, 5 de Junho de 2016