domingo, 27 de março de 2016

Sem emenda - Moral e política


Sempre fizeram mau casamento. Quando uma, a moral, é invocada a propósito da outra, a política, é quase sempre mau sinal. Pode ser impotência da política, isto é, da justiça e da lei para pôr cobro a certas atitudes e determinados comportamentos. Também acontece ser sinal de despotismo ou de ambição totalitária: por exemplo, políticos que desejam impor um código moral de que carecem para os seus actos de governo. Poderá ainda ser, à falta de argumentos racionais, uma tentativa de impor regras por outras vias que não sejam as dos métodos políticos tradicionais, com o que se transforma a religião e a moral em instrumentos de poder. E já não me surpreende que, tantas vezes, os privilegiados e favorecidos reclamem “ética” e comportamentos “morais” para que os seus dependentes obedeçam e aceitem o estado presente e “natural”. Não me canso, finalmente, de ouvir, todos os dias, gente de várias gerações queixar-se da “falta de ética” e da inexistência de “valores morais” por parte daqueles que, simplesmente, têm valores diferentes e crenças diversas. Nas ruas, nas empresas, nas escolas, nos estádios de futebol, nos recintos de espectáculos, nas repartições, nos comércios e até nas igrejas, muitos que querem conservar e manter a ordem estabelecida reclamam contra a ausência de moral dos outros.

Por vezes, em certas circunstâncias, em determinadas épocas e em vários países, assiste-se a fenómenos ainda mais complexos, tais como o da presunção de que a política de alguém implica uma moral, uma cultura, uma ciência e uma visão de classe totalmente opostas à do outro. E que a verdade de um é incompatível com a verdade do outro. Melhor ainda: à verdade de um opõe-se, por definição, a mentira do outro. A moral de um é combatida pelo interesse do outro. E a honestidade de um é contrariada pela corrupção do outro. Estas são as raízes do fanatismo, político ou religioso. A que não são alheios fenómenos tão diversos como o sectarismo nacionalista ou o facciosismo desportivo.

O que se passa no Brasil, com Lula da Silva à beira de ser nomeado ministro, a fim de evitar ser preso por corrupção, e um juiz federal a tentar impedir aquele gesto, merece toda a atenção. Não para resmungar, mais uma vez, contra a “falta de valores” e a “ausência de moral”, mas sim para perceber o modo como as tribos políticas transformam em virtude não só as suas ideias, como também os seus interesses, os seus crimes e os seus roubos. No Brasil ou na Venezuela, em Portugal ou em Itália, políticos ou banqueiros, empresários ou sindicalistas, assumem a sua mentira e a sua corrupção como actos legítimos na defesa dos seus interesses e pontos de vista que são obviamente lícitos, contra os dos outros, que os combatem com meios evidentemente ilegítimos. Um governante que mente e rouba, um banqueiro que esconde e desfalca, um empresário que corrompe e disfarça, um gestor que favorece e dissimula ou um deputado que falsifica e engana, tem todo o interesse em demonstrar que os seus inimigos são, não a lei nem as instituições democráticas, mas os opositores, os outros partidos, as outras classes sociais, as outras nacionalidades. Por isso, os envolvidos nestes casos procuram, na imprensa, nas televisões e na rua, ganhar as batalhas que nunca venceriam na justiça. Por isso há bandidos que tentam vencer, com a política, o que nunca obteriam com a lei. Por isso, os grandes delinquentes consideram que a justiça e os magistrados estão “ao serviço do inimigo”.
Na América Latina e na Europa, lá como cá, não estamos diante de mais uma escaramuça, mas sim de um grave conflito de cujo resultado depende a democracia. A vitória desta última só pode ser ganha com a justiça. Não chegam as maiorias políticas. Nem os poderes sociais e económicos. Nem a força da rua.
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DN 20 de Março de 2016

Sem Emenda - As Minhas Fotografias

Nicolau Breyner como José do Canto, em “Uma família açoriana”, com Maria João Luís – Há cinco ou seis anos, Nicolau Breyner assediou-me na rua. “Não quer fazer um guião para mim?”. Perguntei-lhe se estaria interessado numa série de televisão que a Maria Filomena Mónica e eu tínhamos escrito vinte anos antes e tinha ficado à procura de realizador... Disse logo que gostava de ler. Era na altura “Os Cantos”, que mais tarde viria a ser “Uma Família Açoriana”. Tínhamos uma condição: a de que o protagonista, José do Canto (na série Vasco Ataíde Câmara) fosse desempenhado por ele, Nico. Três anos depois, a série estava terminada. Feita pela Cinemate para a RTP, com realização de João Cayatte e direcção de Nicolau Breyner, foi exibida em 2013. Nicolau fez uma notável composição da personalidade complexa e contraditória de José do Canto. Tive o privilégio de acompanhar a rodagem em vários momentos. Aproveitei a oportunidade para fazer algumas fotografias e ver a maneira como ele, entre duas cenas, se preparava, entre o silêncio concentrado e a galhofa com os amigos.
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DN, 20 de Março de 2016

Luz - Senhora às compras, na Piccadilly Arcade, em Londres

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Na zona de Piccadilly, há duas destas galerias, datam do século XIX ou do princípio do século XX, são ainda hoje de comércio muito sossegado e de lojas especiais: jóias, antiguidades, alfaiates, acessórios de vestuário, gravatas, luvas, meias, lingerie, prata, relógios e perfumaria. Há a Burlington arcade e a Piccadilly arcade. Esta última mais pequena, talvez mais exclusiva, certamente mais cara. Tem duas entradas, por Piccadilly e por Jermyn street (antiga rua de Londres, famosa pelos seus alfaiates e costureiros para homens). Foi inaugurada em 1909. (2015)

domingo, 20 de março de 2016

Luz - Família de chinesas, com telemóvel, GPS e Trip Advisor, em Alfama, Lisboa

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O que parece ser uma família de raparigas chinesas ou simplesmente um grupo de viajantes bem novas. A curiosidade era que procuravam sítio para ficar, quartos ou apartamentos, com a ajuda dos telemóveis com GPS e uma delas ligada ao Trip Advisor. Nunca tal tinha visto! Pelo que percebi, nem sequer tinham feito reservas de apartamento ou quartos. Ou talvez não tenha percebido bem a sua conversa… (2015)

sexta-feira, 18 de março de 2016

Sem Emenda - As Minhas Fotografias

Correios de S. Petersburgo – É o edifício central. Foi concebido pelo arquitecto Nikolay Lvov e data do século XVIII, ainda no tempo de Catarina. É um raro edifício a manter, ao longo de séculos, a mesma função. São vários edifícios ligados entre si por pontes envidraçadas. No rés-do-chão, um magnífico átrio de atendimento, móveis muito interessantes e decoração curiosa. Estes correios resistiram a tudo: ao Czar, às revoluções, ao comunismo e à sua queda e a quase trinta anos de estremeções democráticos. Quando visitei o edifício, um grupo de soldados atarefava-se a levantar encomendas que tinham chegado em nome deles. Escolheram uma mesa e bancos adequados, abriram as caixas, retiraram vários alimentos, conservas, bebidas, iogurtes, queijo e chocolate. Começaram a comer com uma voracidade impressionante. Eram presentes acabados de chegar de casa da família. Ali mesmo, no grande átrio, decidiram despachar o conteúdo, antes que tivessem de o partilhar, no quartel, com outros soldados.


DN, 13 de Março de 2016

Sem emenda - Serviço e ambição

Todos os Presidentes da República pensam que o seu cargo não é o fim da carreira. Nem uma recompensa, muito menos uma reforma dourada. Todos até hoje desejaram marcar a diferença, acrescentar qualquer coisa, mudar a história, alterar o curso dos acontecimentos. Depois… não deu nada. Ou pouco. Não houve oportunidade. Não souberam. Preferiram as delícias dos jardins de Belém. Sentiram o peso da idade. Ou simplesmente acharam que ter chegado ali já era um êxito e que não valia a pena ter excesso de zelo. Com a excepção da pacificação dos militares levada a cabo por Eanes, todos, pelas boas e más razões, abdicaram da ambição e limitaram-se ao serviço. O que não parece ter desagradado ao eleitorado, pois todos foram reeleitos. Uns com aumento de votos (Eanes e Soares), outros com perdas (Sampaio e Cavaco).

Um balanço dos quarenta anos que levamos de democracia diz-nos que nenhum presidente se portou realmente mal. Nenhum falhou. Nenhum desiludiu nas suas funções de serviço e de último garante. Todos terminaram com a certeza do dever cumprido. Mas também com a sensação de terem ficado aquém da ambição que alimentaram num ou noutro momento. E sobretudo longe do que muitos esperavam que eles tivessem feito. Esta evolução fez com que a função presidencial se tenha vindo a reduzir e limitar. O cargo já não é hoje o que foi ou o que se esperava que fosse. Parece mais uma luz de presença do que um farol.

Este percurso foi confirmado pelo mandato de Cavaco Silva. Não obstante as más sondagens, a maior parte do que não esteve bem, nestes últimos quinze anos, não foi da sua responsabilidade. O problema é que ele não conseguiu diminuir as consequências do que correu mal, não soube prevenir ou evitar. Nem encontrar maneira de ultrapassar os problemas. O que esteve mal? O endividamento. O falhanço da Justiça. A corrupção. A divisão dos portugueses. O despertar de uma espécie de clima de “oposição entre regimes”. E a crispação dos políticos. Nada foi culpa de Cavaco. A ponto de nada disto poder ser apagado só porque temos um Presidente novo, só porque temos Marcelo. A este compete pelo menos tentar evitar, diminuir, reduzir, prevenir… Mas a fonte dos problemas está lá, inteira. A pobreza. A demagogia. A corrupção. O endividamento. A crise internacional. A indefinição europeia.

A campanha de Marcelo, a sua formidável vitória e o seu auspicioso começo não chegam para resolver os problemas acima referidos e que ficam, intactos, à espera de resolução. Não por ele. Mas eventualmente com ele. Dentro de cinco anos, ou dez, se o regime português, a Constituição, o sistema eleitoral e a Justiça estiverem exactamente iguais ao que são hoje, a eleição de Marcelo Rebelo de Sousa terá sido apenas mais uma. A acrescentar às quatro que precederam e aos quarenta anos que antecederam. Estou convencido que o novo Presidente está pronto para o serviço e tem forte ambição. Não sabemos se o primeiro lhe basta ou se a segunda o tenta. Mas ele sabe que, sem ambição e sem obra, será apenas mais um.

O novo Presidente já mostrou com brilho que tem maneira própria e estilo pessoal. Campanha, eleição, posse e primeiros dias: únicos e inéditos. Mas foi tudo espuma. O trabalho duro vem agora, começa esta semana. É difícil pensar que Marcelo fique satisfeito com o que conquistou. E tranquilo com o que tem. Ele sabe que o Presidente da República é o único factor de mudança do regime. Ninguém o quer mudar. Ou antes, os que querem, não podem. Os que podem, não querem nem têm a mesma ideia sobre a mudança. E ninguém sabe se o Presidente quer ou não fazer evoluir o regime. Se não quer, pior para ambos.

DN, 13 de Março de 2016