sexta-feira, 18 de março de 2016

Sem Emenda - As Minhas Fotografias

Correios de S. Petersburgo – É o edifício central. Foi concebido pelo arquitecto Nikolay Lvov e data do século XVIII, ainda no tempo de Catarina. É um raro edifício a manter, ao longo de séculos, a mesma função. São vários edifícios ligados entre si por pontes envidraçadas. No rés-do-chão, um magnífico átrio de atendimento, móveis muito interessantes e decoração curiosa. Estes correios resistiram a tudo: ao Czar, às revoluções, ao comunismo e à sua queda e a quase trinta anos de estremeções democráticos. Quando visitei o edifício, um grupo de soldados atarefava-se a levantar encomendas que tinham chegado em nome deles. Escolheram uma mesa e bancos adequados, abriram as caixas, retiraram vários alimentos, conservas, bebidas, iogurtes, queijo e chocolate. Começaram a comer com uma voracidade impressionante. Eram presentes acabados de chegar de casa da família. Ali mesmo, no grande átrio, decidiram despachar o conteúdo, antes que tivessem de o partilhar, no quartel, com outros soldados.


DN, 13 de Março de 2016

Sem emenda - Serviço e ambição

Todos os Presidentes da República pensam que o seu cargo não é o fim da carreira. Nem uma recompensa, muito menos uma reforma dourada. Todos até hoje desejaram marcar a diferença, acrescentar qualquer coisa, mudar a história, alterar o curso dos acontecimentos. Depois… não deu nada. Ou pouco. Não houve oportunidade. Não souberam. Preferiram as delícias dos jardins de Belém. Sentiram o peso da idade. Ou simplesmente acharam que ter chegado ali já era um êxito e que não valia a pena ter excesso de zelo. Com a excepção da pacificação dos militares levada a cabo por Eanes, todos, pelas boas e más razões, abdicaram da ambição e limitaram-se ao serviço. O que não parece ter desagradado ao eleitorado, pois todos foram reeleitos. Uns com aumento de votos (Eanes e Soares), outros com perdas (Sampaio e Cavaco).

Um balanço dos quarenta anos que levamos de democracia diz-nos que nenhum presidente se portou realmente mal. Nenhum falhou. Nenhum desiludiu nas suas funções de serviço e de último garante. Todos terminaram com a certeza do dever cumprido. Mas também com a sensação de terem ficado aquém da ambição que alimentaram num ou noutro momento. E sobretudo longe do que muitos esperavam que eles tivessem feito. Esta evolução fez com que a função presidencial se tenha vindo a reduzir e limitar. O cargo já não é hoje o que foi ou o que se esperava que fosse. Parece mais uma luz de presença do que um farol.

Este percurso foi confirmado pelo mandato de Cavaco Silva. Não obstante as más sondagens, a maior parte do que não esteve bem, nestes últimos quinze anos, não foi da sua responsabilidade. O problema é que ele não conseguiu diminuir as consequências do que correu mal, não soube prevenir ou evitar. Nem encontrar maneira de ultrapassar os problemas. O que esteve mal? O endividamento. O falhanço da Justiça. A corrupção. A divisão dos portugueses. O despertar de uma espécie de clima de “oposição entre regimes”. E a crispação dos políticos. Nada foi culpa de Cavaco. A ponto de nada disto poder ser apagado só porque temos um Presidente novo, só porque temos Marcelo. A este compete pelo menos tentar evitar, diminuir, reduzir, prevenir… Mas a fonte dos problemas está lá, inteira. A pobreza. A demagogia. A corrupção. O endividamento. A crise internacional. A indefinição europeia.

A campanha de Marcelo, a sua formidável vitória e o seu auspicioso começo não chegam para resolver os problemas acima referidos e que ficam, intactos, à espera de resolução. Não por ele. Mas eventualmente com ele. Dentro de cinco anos, ou dez, se o regime português, a Constituição, o sistema eleitoral e a Justiça estiverem exactamente iguais ao que são hoje, a eleição de Marcelo Rebelo de Sousa terá sido apenas mais uma. A acrescentar às quatro que precederam e aos quarenta anos que antecederam. Estou convencido que o novo Presidente está pronto para o serviço e tem forte ambição. Não sabemos se o primeiro lhe basta ou se a segunda o tenta. Mas ele sabe que, sem ambição e sem obra, será apenas mais um.

O novo Presidente já mostrou com brilho que tem maneira própria e estilo pessoal. Campanha, eleição, posse e primeiros dias: únicos e inéditos. Mas foi tudo espuma. O trabalho duro vem agora, começa esta semana. É difícil pensar que Marcelo fique satisfeito com o que conquistou. E tranquilo com o que tem. Ele sabe que o Presidente da República é o único factor de mudança do regime. Ninguém o quer mudar. Ou antes, os que querem, não podem. Os que podem, não querem nem têm a mesma ideia sobre a mudança. E ninguém sabe se o Presidente quer ou não fazer evoluir o regime. Se não quer, pior para ambos.

DN, 13 de Março de 2016


domingo, 13 de março de 2016

Luz - Cabeleireira de homens na avenida Almirante Reis, Lisboa

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Há alguns anos, se era para homens, era Barbeiro. Agora, Cabeleireiro é corrente. Além disso, se era para homens, só homens cortavam. Agora, são homens e mulheres a fazer de barbeiros e cabeleireiros. Finalmente, ser era Barbeiro, era só para homens. Se era Cabeleireiro, era só para mulheres. Não havia misturas, nem do lado da oferta, nem da procura. Agora, é tudo mais fácil, mais simples, com menos preconceitos. Mesmo assim, quando vou cortar o cabelo a uma Cabeleireiro de mulheres ou misto, sinto, da parte das clientes que já lá se encontram quando entro um certo desconforto. Recordo que, nas primeiras idas lá, o Cabeleireiro dizia às senhoras, enquanto eu procurava cadeira: “Componham-se, minhas senhoras!”. Creio que aqui, na Almirante Reis e muitos outros sítios, tudo isso está ultrapassado! (2015)

sábado, 12 de março de 2016

Sem emenda - O Carrossel

Quando muito parecia mostrar o caminho de uma relativa acalmia, tudo se deteriorou. Poderia pensar-se que a falta de dinheiro, a supervisão dos credores e a fiscalização das instituições internacionais fossem sedativos para a rotação de cargos políticos e empresariais. Também era legítimo imaginar que o elevado número de políticos, altos funcionários, banqueiros e empresários condenados ou arguidos fosse um dissuasor das manobras de nomeação de amigos e um travão nos circuitos da promiscuidade. Além disso, as leis recentes e as funções da CRESAP (Comissão de Recrutamento e Selecção para a Administração Pública) poderiam desempenhar um papel moderador dos apetites políticos e partidários. Mas não! Desenganemo-nos.
As demissões e as nomeações regressaram. Aliás, nunca tinham cessado. A promiscuidade voltou. O Carrossel recomeçou. E vai durar o tempo que dure o governo e a legislatura. Como esta mudança de governo e de maioria foi aparentemente mais radical do que as anteriores, é possível que o movimento seja mais rápido. Nos dois sentidos. Da vida privada e dos partidos para a Administração e as empresas públicas, por um lado. Do governo, do Parlamento e da Administração para as empresas lucrativas, públicas ou privadas, nacionais ou internacionais, por outro. Por obra e graça do Governo, as nomeações de favor, de amigos, de camaradas e de convergência de interesses já começaram, precedidas de ameaças e demissões vingativas. O recrutamento, por empresas privadas, de antigos membros do Governo e de deputados, começou também. São, aliás, primos direitos: a promiscuidade, o nepotismo, a corrupção e o favoritismo.
Contra o Banco de Portugal e seu Governador Carlos Costa, o Primeiro-ministro António Costa andou mal! Encoraja a deslealdade, dá luz verde à quezília institucional, assim como dá cobertura ao comportamento caceteiro de governantes e deputados. Contra António Lamas e o CCB (Centro Cultural de Belém), o Ministro da Cultura João Soares esteve mal, pior ainda com Elísio Summavielle. Na sua associação à financeira ARROW, a actual deputada e antiga Ministra das Finanças Maria Luis Albuquerque esteve mal, muito mal!
Parece pouco, mas não é. São três exemplos, diferentes na forma, similares no ânimo, no cume das personalidades e dos encargos. Daqui para a frente, poderá dizer-se que abriu a caça! Parece novo, mas não é. Depois das PPP e das direcções-gerais, dos institutos e das empresas de obras públicas, das estradas e das pontes, dos bancos a privatizar e dos privatizados… Após as grandes empresas de energia, comunicações e petróleos e dos grandes serviços públicos… Depois disto tudo, é um recomeço. Como a caça, que abre regularmente.
Vai ser muito interessante ouvir deputados e governantes alegar que o que fazem os seus amigos é legal e ético! Enquanto as mesmas coisas feitas pelos seus adversários políticos não são uma coisa nem outra. Vamos ouvi-los e vê-los torcerem-se pelos seus companheiros e camaradas, elogiando as respectivas honras e excelsas virtudes, mas sempre denunciando a ilegitimidade, a ilegalidade e a corrupção dos mesmos gestos e comportamentos quando da autoria dos seus rivais. Vai continuar a ser interessante ouvir António Costa acusar Passos Coelho que acusa José Sócrates! Será curioso ouvir os actuais governantes e seus apoiantes acusar, com fundamento, o governo social-democrata e popular das malfeitorias com o BANIF, o BES, o BNP, as PPP e os SWAPS. Tal como será curioso ouvir os social-democratas demonstrar, com provas, que foram os socialistas os culpados. Não fazem as leis que deveriam fazer. Não respeitam as leis que fazem, nem a moral que pregam. Como o carrossel, gira e volta e anda à roda!

DN, 6 de Março de 2016

Sem Emenda - As Minhas Fotografias

Galaxy Soho, Beijing, China – Este edifício foi construído, na capital chinesa, pela reputada arquitecta iraquiana Zaha Hadid. Residente em Londres, foi a primeira mulher vencedora do Pritzker em 2004. Faz enormes obras públicas, aeroportos e conjuntos urbanísticos, além de grandes construções de carácter cultural, como óperas ou salas de concertos, tendo também feito residências e pontes. Já construiu nos quatro cantos do mundo, de Nova Iorque a Beijing, de Abu Dhabi a Londres e Berlim. É um dos arquitectos da moda. As cidades ficam orgulhosas por terem os seus edifícios arrojados. Que o são, com certeza. Perante as suas formas, não é fácil ficar indiferente. No caso deste Galaxy Soho, foi como se tivesse tido um choque estético. Era deslumbrante! Depois, com o tempo… Fica-se com a impressão de que estes edifícios são literalmente atirados para cima ou para dentro de uma cidade, onde permanecem indiferentes a tudo o resto… Quando o visitei, em 2014, estava vazio, dois anos após a inauguração…

DN, 6 de Março de 2016

domingo, 6 de março de 2016

Luz - Sala de pintura da Tate Gallery, vista por entre colunas

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Em Londres, quase nunca faltei a uma visita à Tate Gallery (a antiga, dado que a Tate Modern, edifício à parte, me tem dado grandes desgostos…). Para muita gente, incluindo eu próprio, a National Gallery (e a sua deliciosa Sainsbury Wing) ocupava todo o espaço e todo o tempo. A Tate não aguentava a comparação! Até que, gradualmente, os valores se impuseram. Primeiro, os numerosos Turner que ali estão depositados e visíveis. Depois, várias colecções e acervos em quantidade e qualidade excepcionais, incluindo o Hogarth, Constable, Whistler, Pré-rafaelitas, Bacon, Freud e muitos outros. Ao contrário da National, a Tate tem uma formidável colecção de pintura moderna e contemporânea, nomeadamente inglesa. Há uns anos que divido o meu tempo e nunca falho a Tate (velha…). (2015)

quinta-feira, 3 de março de 2016

Livro de reclamações- Infâmia

O Dr. Carlos Costa é um homem decente e um profissional experimentado. Já deu suficientes provas da sua dedicação à causa pública. Exerce as funções de Governador num dos piores momentos da história do Banco de Portugal, da economia nacional e do sistema bancário. Para esse cargo, foi designado pelo Primeiro-ministro de um partido e confirmado pelo Primeiro-ministro de outro. Tanto quanto se sabe e é público, esteve isolado durante os períodos mais difíceis, como a bancarrota de 2011 e o acordo com a Troika. Os governantes e outras entidades refugiaram-se então atrás da independência do Banco e da sua verdadeira tutela, o Banco Central Europeu. Além disso, o Banco de Portugal teve de enfrentar sozinho os casos do BES, do BANIF, do NOVO BANCO e os restos do BPN. As autoridades portuguesas evitaram contactos com o Banco. Este colocou-se na difícil posição de charneira, entalado entre o governo nacional e o banco europeu. Ambos preferiram desaparecer do palco. Ambos deixaram que “o outro” ficasse com as responsabilidades, sobretudo se houvesse desastres, o que era praticamente inevitável.
Não tenho competência para avaliar a actuação técnica do Governador Carlos Costa. Não sei se cometeu erros. Como não sei se as suas responsabilidades são superiores às do Governo e às do BCE. Mas nada justifica o comportamento do Primeiro-ministro, que acaba de o maltratar. Em público e covardemente, pois sabe que não haverá contra-ataque. O Primeiro-ministro abriu uma desconfiança e uma quezília entre instituições, o que é inédito e grave. Portugal ficou a perder. O sistema bancário também. Não se percebe se o Primeiro-ministro agiu assim porque quer nomear um camarada, porque quer agradar aos seus aliados mais desbocados ou simplesmente porque é imaturo. Mas lá que é infame, é! E a moda pode pegar. O Dr. João Soares, Ministro da Cultura, teve atitude semelhante com o Presidente do CCB.


DN, 28 de Fevereiro de 2016