domingo, 21 de abril de 2013

Apelo

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Publiquei esta fotografia no Sorumbático e no Jacarandá há dois ou três anos. Dei-lhe então a identidade que julgava verdadeira: Solar no Romeu. Parece que me enganei. Já recebi vários desmentidos e diversas sugestões em substituição. Uma convincente, mas nenhuma definitiva. A mais provável será a de um solar em Barrô, na margem esquerda do Douro, perto de Resende, diante de Barqueiros ou de Porto de Rei… A fotografia terá sido feita a partir da margem direita. 
Na impossibilidade de lá me deslocar de imediato, apelo aos leitores e curiosos: onde fica esta casa? Em que estado se encontra hoje? Ainda em ruínas?

domingo, 14 de abril de 2013

Luz - Douro, Pinhão, Vindimas 1985

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Esta imagem encerra um pequeno mistério. Como, aliás, tantas outras, na nossa vida fotográfica! Este rapaz surgiu de repente no meio das vinhas. Ia a passar. Tem ar simpático e afável. Depois de o fotografar, gesto a que ele respondeu com um doce sorriso, pequenos incidentes (duas pessoas chegaram, alguém me chamou, foi preciso tratar de um assunto qualquer…) fizeram com que eu não falasse com ele de imediato. Quando o procurei, tinha desaparecido. Não sei se chegava ou se ia embora. Se era dali, ou de fora. Se ia ou vinha trabalhar. Se aquele cesto estava vazio ou carregado de bens pessoais. Nunca saberei. (1985)

domingo, 7 de abril de 2013

Luz - Cemitério de Jericho, Oxford 2004

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Corro o risco de me repetir e trazer mais imagens do mesmo sítio. Mas este cemitério, no Norte de Oxford, no bairro de Jericho, é de grande beleza e sossego. Perto de minha casa, quando lá estou por uma temporada, por lá passo todos os dias. Às vezes, vou para ali ler o jornal do dia ou ouvir música num iPod. Apesar dos túmulos e das cruzes, o cemitério não tem ar fúnebre. Já vi quem vai para ali conversar ou namorar… A simplicidade e a depuração dos cemitérios ingleses são impressionantes. Parecem abandonados, mas não estão. Não há nenhum sinal de abandono ou desmazelo. (2004)

domingo, 31 de março de 2013

Luz - Florença, 2011

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É sabido que em Florença o que não falta são palácios, solares, mosteiros, conventos, igrejas… Talvez isso explique a falha de memória, que não quero atribuir apenas à minha idade… Em frente ao magnífico Museu Bargello de escultura (Museo Nazionale del Bargello), está uma igreja e um convento, abertos ao público. Ali passei um momento de paz e descanso, depois de ter andado horas a ver as esculturas do Bargello. Na igreja, decorria um culto, o que aumentava o sossego do ambiente. Esta imagem vem dessa pequena pausa. (2011)

domingo, 24 de março de 2013

Luz - Etíopes na Igreja da Natividade, Belém 2012

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Ao chegar à Igreja da Natividade, em Belém, na Palestina ou na Cisjordânia, cruzo-me com uma excursão de umas dezenas de mulheres africanas, peregrinas, todas vestidas de branco: fui informado de que se tratava de Etíopes, vindas de um velho país cristão. Em geral muito altas e elegantes, percorriam os lugares santos com enorme energia e alegria. Nesta fotografia, registei talvez as mais cansadas à procura de sombra. Belém é uma terra estranha. Tudo se mistura ali. Todas as religiões estão lá. Para ir lá, vindo de Jerusalém (meia dúzia de quilómetros…), foi necessário mostrar passaporte, passar o controlo das polícias israelitas e palestinianas e atravessar um muro de betão e circuitos de radar e vídeos… A Basílica da Natividade é um local sagrado tanto para Cristãos como para Islamitas. Diz a lenda que foi ali que nasceu Jesus Cristo. O sítio “exacto” está marcado por uma estrela de prata colocada no chão. A igreja data do século IV e foi mandada erigir por Constantino. Hoje, a Igreja é considerada pertença da Igreja da Arménia, da Igreja Ortodoxa Oriental e da Ordem dos Franciscanos. Tal como noutros locais, no Santo Sepulcro, por exemplo, o condomínio nem sempre é pacífico. Os diferentes cultos e as várias Ordens têm longos e antigos contenciosos que não estão perto de serem resolvidos. Como aliás nenhum conflito naquela região: são, há três ou quatro mil anos, problemas sem solução. (2012)

domingo, 17 de março de 2013

Luz - Oração, Muro das Lamentações, Jerusalém 2012

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Em frente e à volta do Muro, os crentes rezam e meditam. Neste caso e neste local, tive a mesma impressão do que noutros sítios (cristãos ou islamitas), onde o sofrimento parece predominar. Pode ser que seja sobretudo concentração e tensão espiritual, mas a dor é a imagem que se retém. A imensa esplanada em frente ao Muro, ao ar livre, aberta a toda a gente, poderia ser uma circunstância que estimulasse a alegria, mesmo devota. Não é o caso. Quando vejo certas imagens de procissões católicas, de algumas cerimónias evangelistas ou de peregrinações islamitas a Meca, tenho a mesma sensação. Com uma diferença: as manifestações católicas, com os rituais e as recordações de castigos, torturas, martírios e crucifixões, são as mais sangrentas! (2012)

domingo, 10 de março de 2013

Luz - Douro, Sabrosa 1985

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É certamente um dos mistérios da Física: o que a cabeça de uma mulher suporta como peso e o que essa mesma cabeça é capaz de equilibrar! Com ou sem mãos. Com ou sem rodilha ou trouxa. A andar, a subir e a descer. Com bebés ao colo ou filhos pela mão. Pode ser mistério da ciência, mas não é certamente da sociedade nem dos costumes. Elas sabem. Os homens fingem não saber. Ou não se dar conta… (1985)

domingo, 3 de março de 2013

Luz - Jordânia, Petra 2012

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À sombra, com grande calor, momento de descanso e dominó… (2012)

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Luz - Jordânia, Wadi Ram 2012

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A Sul de Petra, fica este deserto famoso. É um dos locais mais áridos da Terra. O Wadi Ram (também se escreve Wadi Rum ou Wadi Ramm em línguas ocidentais) termina na cidade de Aqaba, na costa do Golfo do mesmo nome. O litoral e o respectivo porto é dividido em duas partes, uma Jordana, outra Israelita. Este é o deserto longamente mencinado por Lawrence da Arábia no seu livro “Os sete pilares da sabedoria” e teatro de cenas excepcionais no respectivo filme. Foi este deserto que Lawrence teve de atravessar duas vezes seguidas para salvar um amigo (que depois teve de castigar com a morte...). Ao atravessá-lo, hoje, no conforto de um jeep com toldo e garrafa de água fresca, não se pode deixar de pensar naquela aventura que se transformou em lenda. Curiosamente, foram dois filmes e dois actores que “colocaram no mapa” (horrível cliché contemporâneo...) Wadi Ram e Petra. Peter O’Toole e Lawrence no primeiro; Harrison Ford e Indiana Jones, na segunda. Em ambos os locais e arredores, são numerosos os posters e as alusões aos dois heróis. (2012)

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Convite

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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Luz - Perto da Porta de Damasco, Jerusalém 2012

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Dois Judeus ditos “ortodoxos” acabaram de sair do Muro das Lamentações, dirigem-se para a Porta de Damasco. Vão talvez tomar o autocarro. Os dois estranhos chapéus, os caracóis do cabelo, as barbas, os casacos, as calças.. Tudo neles revela a ortodoxia dos rituais e dos uniformes. O telemóvel que um usa pode chocar de repente, pela modernidade, mas tal não será o caso. Esta “ortodoxia” nada tem de comum com artesanato, atavismo ou conservadorismo técnico: há muitos “ortodoxos” que usam as mais modernas tecnologias imagináveis. Nada de semelhante com os “Hamish”, nas comunidades americanas. (2012)

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Luz - Oxford, Port Meadows 2004


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Outro dos meus sítios favoritos, outro dos meus locais cujas fotografias trago aqui com frequência. Port Meadow, no “baldio” de Oxford, oferecido à população da cidade há cerca de 600 anos e que se mantém, através dos séculos, sem urbanismo nem loteamentos, sem construções clandestinas e sem lixeiras, mas com povo, passeantes, turistas, animais de estimação, cavalos, rebanhos de vacas ou ovelhas, patos, barcos no rio, namorados por aqui e por ali, famílias em pic-nic ao fim de semana... (2004)

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

domingo, 20 de janeiro de 2013

Luz - Oração, Muro das Lamentações, Jerusalém 2012

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Outra imagem de dois Judeus em oração junto ao Muro das Lamentações. Um está instalado num curioso móvel de oração. Não era fácil fotografar neste sítio. O ambiente de recolhimento e de privacidade era tal que qualquer fotógrafo se sentiria intruso. É uma velha questão moral que se põe a qualquer fotógrafo uma ou várias vezes na sua vida! (2012).

domingo, 13 de janeiro de 2013

Luz - Santarém, 2009

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Breve exercício de contraluz. Em Santarém, nas vésperas das festas do 10 de Junho de 2009. Por dever de ofício, visitei a cidade umas vezes antes do dia 10. Foram semanas frenéticas durante as quais se tentava acabar dezenas de obras de arranjo, preparo, disfarce, limpeza, reparação, restauro e reconstrução, a fim de mostrar boa cara às altas individualidades e aos visitantes estrangeiros do Corpo diplomático. Imagino que é sempre assim. Nas outras cidades onde também assisti às cerimónias (Lisboa, Castelo Branco e Faro), era mais ou menos a mesma coisa. No meio dessas visitas, este imagem de trabalhadores de construção em contraluz surgiu-me de repente num dos belos conventos góticos que se arranjavam à última hora... (2009)

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Temas prioritários para um semanário

A MERA informação já não deve ocupar as páginas de um semanário. Além dos diários, a Televisão, a rádio e sobretudo a Internet e os canais On line, ocupam-se disso.
Os temas prioritários (política, sociedade, Estado, políticas públicas, cultura) devem ser sempre abordados de uma maneira mais profunda, com mais pormenor e com elevada atenção ao enquadramento.
Um semanário tem mais responsabilidades na actividade de “desvendar” os factos opacos ou “misteriosos” do que os diários ou as televisões.
Muito do que se passa na sociedade e na política é totalmente incompreensível se não for devidamente tratado e esclarecido. As causas concretas da dívida portuguesa e o défice dos anos 2005 a 2013, por exemplo, ainda estão hoje razoavelmente encobertas. 
Muitos dos custos reais ou do investimento por cabeça de habitante e por classe social são ignorados: saúde, educação, universidade, ciência, cultura, etc. Para além dos “sectores”, há temas especiais que deveriam ser constantes, como por exemplo os caminhos da Liberdade, as relações entre Estado e Liberdade, as consequências da crise internacional na Liberdade, os efeitos da crise da União Europeia na Liberdade, etc.
A cultura deveria ser preocupação permanente e merecer desenvolvimento no futuro. Toda a comunicação social está orientada para o espectáculo e a encenação, quando não para a publicidade e a propaganda. É indispensável contrariar essa tendência, o que já se percebeu que em Portugal não acontecerá com os diários, muito menos com a televisões. 
Finalmente, os colunistas de opinião. Estes deveriam constituir, cada vez mais, o privilégio do semanário, um seu traço de distinção. Colunistas independentes, cultos, polémicos, controversos, sem lugares-comuns, sem linha política orgânica e adeptos de uma noção generosa da Liberdade individual.
«Expresso» de 5 Jan 13

domingo, 6 de janeiro de 2013

Luz - Varsóvia 2011

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Este local, perto do centro da cidade, é o que há de mais incaracterístico. Até o ponto de vista parece atabalhoado. A fotografia é feita a partir de um estacionamento. Vários edifícios modernos estão acabados enquanto outros se prepararam para crescer. Lá atrás, ligeiramente encoberta por um candeeiro, a torre da universidade. Este edifício, em puro estilo “gótico-estalinista”, data dos anos 50, foi oferecido pela União Soviética e é a cópia diminuída da universidade de Moscovo, um enorme “bolo de noiva” para a glória da burocracia. O mais interessante desta imagem é a luz estranha que me chamou a atenção. Também me atraiu o facto de me encontrar algures entre a noite e o dia, entre o centro e os arredores, entre a rua e o estacionamento, entre o estalinismo e o capitalismo... (2011)

domingo, 30 de dezembro de 2012

Luz - Oxford, Blackwell’s bookshop

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Em 2004, ainda havia livrarias a sério. Pelo menos em Oxford. A Blackwell’s era um notável exemplo. Tinha instalações em vários edifícios, com numerosas salas, umas enormes, outras bem pequenas e aconchegadas. Havia andares com livros em segunda mão; um antiquário; uma loja só com posters, postais, gravuras, mapas e livros de arte; uma pequena loja com livros de viagem; a grande livraria, com cinco ou seis andares e caves; e finalmente a loja de música, discos, DVD, CD, pautas e livros sobre a música e os músicos. No maior edifício, as salas e os andares estavam divididos segundo úteis disciplinas, estilos, línguas, nacionalidades e géneros. Havia sempre tudo. Quando faltava alguma coisa, demorava horas ou poucos dias a chegar. Podia-se abrir conta como se fôssemos conhecidos. Com a Internet, a Amazon e outras similares, mais os computadores, o Kindle, o iPad e outras tabletes, tudo isso desapareceu. Ou quase. A Blackwell’s está reduzida a duas lojas. Na principal, creio que na esperança de atrair clientes, já há café, refeições, sumos, crepes e outras bebidas. A loja de música, ilustrada nesta imagem, desaparece. O novo mundo tem certamente vantagens. A Amazon é uma delas. Mas tem também inconvenientes. E o desaparecimento das livrarias é seguramente uma delas. (2004)

domingo, 23 de dezembro de 2012

Luz - Vindima em Covas do Douro

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Esta aldeia fica perto do Pinhão. O sítio tem uma antiga denominação, Gontelho, conhecida há séculos nos livros antigos. A aldeia e a região, incluindo as localidades vizinhas de Covelinhas, Gouvinhas, Ferrão, Donelo e outras, produzem excelentes vinhos, especialmente vinhos do Porto, há mais de trezentos anos. Esta imagem tem quase trinta. Só um olhar atento percebe as diferenças com os dias de hoje. Os trajos dos trabalhadores já estão ultrapassados, mesmo se não muito distantes de nós. Os cestos vindimos, mais ao fundo e à esquerda, praticamente desapareceram e foram substituídos por cestos mais pequenos (25 quilos em vez de 70), ou por caixas de plástico, ou por pequenos contentores. Os cestos já não são transportados a costas de homens, mas sim em camionetas e tractores. Os garrafões, de que aqui se vê um exemplar, ainda por lá andam... Os arames dos bardos já não se apoiam em pedras de ardósia (de que há ainda muitas no Douro de hoje), mas em postes de madeira, mais económicos, menos frágeis e mais capazes de resistir aos choques das máquinas. (1985)

domingo, 16 de dezembro de 2012

Luz - Muro das Lamentações, Jerusalém 2012

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A minha visita ao Muro das Lamentações trouxe-me a confirmação de um facto por mim conhecido há muito: mesmo conhecidas por outras vias, mesmo vistas mil vezes em cinema, fotografia ou televisão, mesmo lidas dezenas de vezes em jornais ou livros, mesmo contadas vezes sem fim por outras pessoas, certas coisas, pessoas ou situações, quando visitadas pela primeira vez, surpreendem-nos sempre! Foi o que aconteceu neste Muro famoso. Foi o que senti quando me aproximei de pessoas como esta que rezavam diante do Muro, por vezes inteiramente coladas às pedras! O ambiente à volta é inesquecível. Há tensão, disciplina, silêncio, murmúrio de orações, medo de provocações e um sentimento pouco amistoso por parte dos que querem rezar em privado e são perturbados pelos numerosos turistas que querem ver, às vezes compreender, quase sempre fotografar. Em certos dias não se pode entrar, ou falar ou fotografar. Noutros dias especiais, os gentios são afastados. Há cânticos e melopeias. Há silêncios que parecem gemidos. Naquelas fendas entre as pedras, como a que se vê nesta imagem, jazem milhares de bilhetes com nomes e orações, pedidos e promessas... De vez em quando, uma operação de limpeza liberta as fendas para que tudo recomece. Há sítios que ficam aquém do que se espera e são verdadeiras desilusões. Há locais que correspondem ao que se pretende. Há ainda os que ultrapassam tudo o que se esperava. Nesta última categoria, incluo Veneza, o deserto do Sara, Hong kong, Nova Iorque, Chartres, a Patagónia, o Machu Pichu... Israel e o Muro ficam neste grupo, sem dúvida. Pelas boas e pelas más razões.   (2012)

domingo, 9 de dezembro de 2012

Luz - Port Meadows, Oxford 2004

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Já não é a primeira vez (nem será a última...) que trago aqui fotografias de Port Meadows e do seu baldio. Este pertence ao povo da cidade de Oxford há quase 600 anos! E lá resiste à construção, aos loteamentos, aos patos bravos... No Verão e nos fins-de-semana todo este terreno se anima com banhistas, leitores, ginastas, namorados, atletas, famílias em piquenique, ciclistas e passeantes que se dirigem aos Pubs da vizinhança!

domingo, 2 de dezembro de 2012

Luz - Perto de Petra, Jordânia 2012

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No meio do deserto, uma tenda e uma família de beduínos. Duas pessoas e dois animais dão vida a esta aridez absoluta. Dizem-me os meus companheiros que a família e respectiva tenda tanto podem ficar aqui semanas ou meses, como partir amanhã, sem que ninguém ou quase saiba para onde vão. 

domingo, 25 de novembro de 2012

Luz - Belém, Igreja da Natividade, 2012

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Duas irmãs orientais diante de um azulejo com orações e indicações práticas na mesma língua. Tenho vergonha de ainda não ter decifrado a língua do painel e a nacionalidade das irmãs. Aquela igreja fica perto de Jerusalém, em Belém, na Palestina, isto é, na Jordânia, ou antes na Cisjordânia, quer dizer, por agora, em Israel! É um sítio mágico de peregrinação. Gente de todo o mundo, de chineses a etíopes, de índios americanos a bolivianos, de russos a brasileiros, de tudo havia por ali. O sítio é feio, o urbanismo horrendo, o conforto inexistente, as filas de espera monstruosas, a falta de água absoluta, as vigarices dos mercadores dos templos mais que muitas, o barulho dos autocarros insuportável, o pó intolerável, as facilidades de banho pouco recomendáveis... Mas lá que o sítio é mágico... Mesmo para um agnóstico!

terça-feira, 20 de novembro de 2012

António-Pedro Vasconcelos, «O Futuro da Ficção», FFMS, 2012

Por Maria Filomena Mónica
O PRIMEIRO aspecto a notar é ser este livro atravessado por uma profunda nostalgia, o que não fica mal a um romântico. O tom usado confere à obra, como aliás ao seu autor, um fascínio invulgar. Não fosse isto e alguns leitores poderiam olhá-lo como uma ostentação provinciana de cultura. Mas se ele cita muitas obras-primas é por o exercício ser necessário ao que pretende demonstrar, isto é, que, ao longo da História Europeia, houve ciclos de criatividade, de curta duração, seguidos por longas noites de silêncio.
O livro tem muitas qualidades. Refiro a mais óbvia, a familiaridade com que o autor fala do arco temporal que vai da Grécia clássica ao mundo moderno. O relato tem qualquer coisa de teleológico, o que, em vez de me irritar, acabou por me encantar, talvez por conhecer o António Pedro há tantos anos. Leia-se o que vem na pág. 23: «Hoje não é heresia reconhecer que o século que acabou foi o século do cinema». Depois da tragédia grega, da pintura renascentista, do iluminismo, dos romances realistas, da poesia simbolista, eis que chega a arte suprema, a 7ª, que «vai retomar, no século XX, o fio que se foi urdindo, ao longo de vinte e oito séculos, através de constantes migrações, a grande História da Ficção no Ocidente». Basta olhar John Wayne, em A Desaparecida, de John Ford, para compreendermos do que está a falar.
O autor sabe que precisamos de uma gesta para sobreviver, como sabe que modernamente nada nem ninguém encarnou melhor esse desejo do que Hollywood e John Ford. É quase inexplicável, mas aconteceu: desde 1940 que os filmes de Ford, centrados em cowboys e índios, tocaram o coração de pessoas que nada sabiam da forma como os EUA tinham nascido. A imagem do cavaleiro solitário, que, algures num espaço sem fim, apenas com um Colt à cintura, enfrenta o Mal, permanece um dos grandes mitos da cultura contemporânea.
Mas voltemos a outra das suas teses, a do desaparecimento do romance. Aqui, as nossas diferenças são maiores. É possível que o romance, tal como o herdámos do século XIX, esteja a morrer, mas não é certo. Aceito que as experiências de romancistas que se puseram a brincar com a estrutura narrativa ou enveredaram por malabarismos com palavras redundaram em fracasso. Foi por terem optado pelo experimentalismo pretensioso que alguns escritores recentes, como, por exemplo, Jeannette Winterson, que, em 1985, publicou um romance notável, Oranges Are Not the Only Fruit, deixaram de me atrair. Mas, na narrativa ficcional, há qualquer coisa – seja ela em livro, no palco ou na televisão - que nunca desaparecerá. Porque os homens jamais se cansarão de ouvir ou de ler histórias. Talvez neste ponto – deve ser o único – seja mais optimista do que o António Pedro. Não antevejo um mundo sem ficção, porque ela é essencial ao ser humano.
Falo por mim. Desde a infância que leio romances e nunca se me pôs a questão de saber se estaria a perder tempo. O que pretendia era entrar num mundo novo, conhecer pessoas diferentes, chorar com dramas alheios. Não teria sobrevivido à infância se não tivesse «sido» Tom Sawyer, muito menos à adolescência se não me tivesse identificado com Cathy. A ficção fala de nós e ainda, ou sobretudo, desse «eu» que poderíamos ter sido, para usar o título do mais famoso poema de Robert Frost, «The road not taken». Por vezes, compreendemos melhor o mundo através da ficção do que olhando-o através da janela. 
Abordei já algumas divergências. Quero ainda falar de outra, talvez a mais importante, que diz respeito à suposta degradação do nível cultural das massas populares. Para me ater apenas às televisões, é evidente que temos, diante de nós, uma programação pior do que a que, noutros países é oferecida. Reconheço que nunca, desde que entrámos no século XXI, vi nada que se possa equiparar às séries televisivas escritas por Alan Bennett, Dennis Potter ou John Cleese, nos anos 1970 e 1980. Mas esse mundo, onde apenas existia, ou quase, um canal generalista, desapareceu. O que não quer dizer que tudo quanto se vê na TV seja mau: basta recordar as séries produzidas pela privada HBO ou por Steven Bocho. Se Shakespeare estivesse vivo, optaria por escrever para a TV? E que faria Dickens diante das possibilidades abertas pelos DVDs? 
Quanto à ficção escrita, só o tempo separará o trigo do joio. Não há outra maneira, nem outro juiz. Por isso, não vale a pena chorarmos sobre uma eventual decadência. Bastou-me olhar a estante, que fica ao lado do meu computador, para ver algumas obras-primas, de autores tão diferentes quanto Doris Lessing, V. S. Naipaul ou Philip Roth.
Apesar de partilharmos inquietações, não aceito a visão apocalíptica do António Pedro. Em primeiro lugar, a civilização do espectáculo apenas tornou visível o que há muito existia, isto é, o gosto boçal por determinados entretimentos populares. Aquilo de que nos devemos ocupar é de oferecer aos nossos filhos e netos uma boa educação, o que pressupõe a existência de uma rede de escolas públicas decente, onde o Canon clássico seja ensinado. Tanto eu como ele pertencemos a uma minoria privilegiada, a classe média, o que nos pode levar a ter uma visão distorcida do mundo contemporâneo. Enquanto eu e ele líamos, e sublinhávamos, Stendhal, muitos raparigas e rapazes da nossa idade andavam pelos montes a guardar rebanhos. Antes de começarmos a chorar a perda de um mundo que nunca existiu, temos de nos perguntar quantas pessoas, há 100 ou 200 anos, tinham acesso à cultura superior.
Tão pouco aceito a sua ligação do termo «globalização» à diminuição da qualidade da produção cultural, tal como expressa numa frase que aparece perto do final (pág 59): «Os progressos da globalização trouxeram consigo uma atomização da cultura, uma proliferação das ficções e uma democratização dos meios de a produzir. Hoje, qualquer um pode ser criador. E, no entanto, nunca houve tão poucos criadores». Não é verdade. Foi o António Pedro que me recomendou um livro, fruto do fenómeno da globalização – neste caso, da emigração da América do Sul para a do Norte – que merecera a sua atenção, a obra The Brief Wondrous Life of Óscar Wao», de Junot Diaz (2007).
Termino com uma gracinha que diz muito sobre as diferenças culturais entre os países. Aquando do escândalo envolvendo Hugh Grant em Los Angeles – quando o famoso actor foi apanhado num carro, estacionado na via pública, dentro do qual uma prostituta se dedicava à prática de sexo oral - um jornalista perguntou-lhe se não tencionava consultar um psicoterapeuta. A resposta foi: «Não, em Inglaterra, preferimos ler romances»
[1]. O António Pedro pode estar descansado. Como em séculos pretéritos, talvez mais do que em séculos pretéritos, o mundo precisa de ficção. O público fragmentou-se, mas haverá sempre lugar para obras de qualidade. Não, não vamos esquecer de Aristóteles, nem, muito menos, ter de esperar dez séculos para o redescobrir.

domingo, 18 de novembro de 2012

Luz - De Aqaba a Petra, Jordânia 2012

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Na estrada de Aqaba para Petra e depois para Amã, capital da Jordânia. São centenas de quilómetros através, quase sempre, do deserto. Esporadicamente, uma aldeia ou uma vila. Ao longo da estrada, dos dois lados, vestígios humanos, de restos de tentativas a inícios de promessas. Há de tudo: comércios, uma tasca, uma loja de comes e bebes, uma estação de gasolina, uma repartição da polícia ou um posto militar. Tentativas de plantação de árvores, condutas de petróleo, tubos de rega gota a gota, um raro oásis de verdura e pomares com umas centenas de metros quadrados e umas tendas de beduínos. Por volta de Petra, sítio admirável, estamos em terra de Harrison Ford e Indiana Jones: não faltam fotografias e referências. De Aqaba ao Wadi Ram (o deserto ali ao lado), estamos em locais de Lawrence da Arábia e de Peter O’Toole. E também não faltam fotografias, cartazes, lojas com esses nomes e outras alusões de mau gosto. Aqaba é a única saída para o mar e o único porto que serve a Jordânia. Daí a auto-estrada que leva pessoas e sobretudo mercadorias até à capital e às cidades e vilas do Norte. Durante a longa viagem, inaugurei um novo estilo de fotografia (novo... para mim...), que consiste em fotografar, a partir do carro ou do autocarro, sempre em andamento, disparando a máquina digital, não digo ao acaso, mas com inusitada frequência. O que sai é em grande percentagem inútil. Mas aqui e ali aparecem surpresas! As cores dos edifícios, sempre inacabados, são o que há de mais fantasioso. Talvez para compensar a monotonia do deserto. Chamo a este estilo “road photography”, a completar com a “train photography”, que pratico no seguimento e sob a inspiração de algo mais sério, firmado e antigo que é a “street photography”.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

domingo, 11 de novembro de 2012

Vinho do Porto, Ferreira, Gaia, 2006

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À janela da Sala de provas do armazém da Casa Ferreira, em Gaia. Em frente, do lado de lá do rio, a cidade do Porto (com a magnífica Casa da Alfândega à esquerda). Na prateleira, no primeiro plano, estão as “provadeiras”, com amostras de vinho, prontas para prestar provas. Estes copos foram, durante décadas, os próprios dos profissionais da adega que com eles faziam os seus testes e as suas provas. A dimensão, o pé, a largura em baixo e o diâmetro na boca permitiam fazer vários exercícios para melhor conhecer a cor, o aroma e a “perna” do vinho. Recentemente (vinte ou trinta anos) começaram a ser usados por conhecedores em suas casas, por vezes em bares e restaurantes especializados ou garrafeiras mais cuidadosas. Finalmente, há cerca de dez anos, a exemplo do que a região do Champagne tinha feito há décadas, as organizações do vinho do Porto (Instituto, empresas, produtores e Casa do Douro) entenderam lançar um copo novo e apropriado ao vinho do Porto. Encomendaram-no a Siza Vieira. Este fez algo de muito parecido com esta provadeira, com pequenas alterações no pé, na base e nas proporções. No essencial, é uma provadeira. (2006)

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Farmácia, Saúde e Sociedade


     NADA na minha vida anunciava que eu viria um dia dirigir-me a um Congresso dos Farmacêuticos! Na minha vida profissional, nas minhas funções passadas ou nas áreas em que tenho algum estudo, nada encontro que me aproxime da vossa profissão. Mesmo assim, certamente por bondade do vosso Bastonário, aqui me apresento depois de ter aceitado o seu amável convite, que tanto me honrou. Apesar do título (“Farmácia, Saúde e Sociedade”), o meu tema será sempre mais a sociedade do que a Farmácia.

Permitam iniciar com uma recordação ou uma alusão à longínqua época dos meus doze anos. A minha Tia Maria de Jesus era sócia de uma farmácia. A Farmácia Castro, na Régua. Era aí que eu passava longas tardes, durante o Verão, a ouvir as notícias, a ver os clientes, a arrumar medicamentos, por vezes mesmo a atender fregueses (como se dizia então...), devidamente supervisionado pelo senhor Coelho, o sócio e farmacêutico. Muita gente vinha a essa farmácia aviar receitas, mas também pedir conselhos e ajuda. Mais do que tudo, as pessoas vinham conversar, saber notícias, passar um pouco da tarde. Queixavam-se da saúde, da própria e da dos outros, mas era a conversa o género mais procurado. Uns analfabetos vinham mesmo pedir que lhes lessem cartas de longe. A Farmácia era um local de sociedade e convívio, de ajuda e reunião, de distracção e coscuvilhice... As pessoas tinham conta na Farmácia, pagavam ao mês. Ali se deixava recados e encomendas. Algum correio podia ser dirigido para ali. Foi ali que aprendi coisas que não me ensinavam em casa ou de que só se falava entre dentes e em murmúrio.

Já direi em breve por que razão entendi aludir a estas recordações. Antes, acrescento que, mal comecei a pensar nesta reunião, me lembrei imediatamente não só da Farmácia Castro, da Régua, como também das farmácias Almeida, Barreira, Baptista e Galeno, todas em Vila Real. Como é possível, com tantas falhas de memória próprias da minha idade, recordar tão bem as farmácias de Vila Real que deixei para trás há mais de cinquenta anos? Ao lado das farmácias, vou evidentemente encontrar a livraria, a pastelaria, o café... São os locais de iniciação e socialização e as instituições de aprendizagem.

Não me ouvirão fazer a defesa imobilista das velhas instituições e empresas, nem me ouvirão dizer que antigamente é que era bom e que hoje “tudo andou para trás”. Não seria verdade. As novas cidades, o novo comércio, as novas grandes instituições têm muito de bom e de eficaz. Mas nem sempre são melhores. Ou antes; nem sempre são só isso. Há muito que aprendi que o “progresso”, com aspas, nem sempre é progresso, sem aspas. Com a evolução tecnológica e organizativa, ganha-se muito, mas também se perde. Perde-se em humanidade, em contacto de qualidade com os outros, os vizinhos e até os familiares. Em tempos de crise, como os que vivemos hoje, as instituições humanas, as redes de relações de amizade e de família, as empresas civis, as comunidades locais e autárquicas e o universo associativo seriam ou podem ser excelentes amparos para os que vivem com dificuldades. E por mais eficazes que sejam as grandes instituições e empresas, nunca se conseguirá, creio, obter a qualidade humana que tanta falta faz a quem sofre ou necessita de ajuda.

Como é evidente, tudo isto vem muito a propósito das farmácias. São quase por definição instituições de pequena dimensão, descentralizadas, distribuídas pelos bairros, pelas cidades e pelas vilas. São empresas humanas e humanizadas. São instituições que vivem mergulhadas na sociedade e nas comunidades locais. São, em poucas palavras, mais do que empresas económicas e mais do que agências comerciais. Não conheço os problemas dos farmacêuticos e das farmácias, nem pretendo elogiar-vos só por estar na vossa presença, mas é este o papel das farmácias que desejo sublinhar, recordar e promover.

É verdade que há problemas das farmácias. Problemas jurídicos, legais, comerciais, institucionais e outros. Sobre eles pouco poderei dizer e seria muito oportunista fazê-lo aqui. Sei que as questões das margens legais e das dívidas do Estado estrangulam as farmácias. Sei que há graves perturbações no abastecimento de medicamentos motivadas por interesses ilegítimos e de que sofrem não apenas as farmácias, mas, em primeiro ligar, os cidadãos, os clientes e os doentes. Sobre esses problemas, as farmácias têm a minha simpatia. Não por razões de oportunidade, muito menos corporativas. Mas porque entendo que é relevante o papel das farmácias na qualidade de vida e na decência tanto das comunidades locais como das sociedades modernas.

Gostaria que as farmácias tivessem mais liberdade, mais autonomia e mais capacidade. E que fossem sempre instituições dos bairros onde estão instaladas. Mais uma vez, não é melancolia reaccionária. Não é nostalgia. É vontade e esperança de ver sociedades institucionalmente enriquecidas. Há países bem mais desenvolvidos do que Portugal, como os escandinavos ou os Estados Unidos, onde é frequente ver farmácias e outras empresas de bairro prosseguirem a desempenhar um papel crucial na organização das comunidades e na salvaguarda de valores humanos e humanistas. Com certeza que as grandes superfícies, as grandes lojas e as grandes cadeias de distribuição trouxeram vantagens, algumas vantagens. Mas também trouxeram inconvenientes. Nem tudo o que é moderno é progresso. Como disse acima, há muito progresso negativo.

Não se pense também que as farmácias pertencem a uns senhores e umas senhoras de grande idade, com pouca formação e reduzidos conhecimentos, em formato de velhos caciques locais, uma espécie de museu vivo de outras épocas! Bem pelo contrário! Fui ver os números e verifiquei que a rede de farmácias e a profissão de farmacêutico poderá mesmo ser do que de mais moderno existe. Ostentam dados bem na média europeia, seja na cobertura territorial, seja na cobertura da população. Estão, na Europa, entre as que mais farmacêuticos diplomados empregam.  São, em Portugal, um dos sectores proporcionalmente mais qualificados e mais jovens. Mais de um terço dos seus trabalhadores têm grau superior. Cerca de 40% têm menos de 35 anos e quase 70% têm menos de 45 anos! Tomaram muitos sectores económicos ou sociais do nosso país exibir dados semelhantes!

Mais ainda. Sem falar da dimensão social e de convívio de que falava acima, a rede de farmácias presta formidáveis serviços públicos não remunerados, não contabilizados, sem encargos para os cidadãos e sem custos para o Estado. A intervenção das farmácias e dos farmacêuticos directamente em programas e acções de grande envergadura, como sejam o acompanhamento na diabetes, a troca de seringas, a recolha de radiografias, a destruição de medicamentos fora de prazo, a vacinação e outras boas práticas permitem incalculáveis poupanças, mas sobretudo inestimáveis vantagens de cuidado e humanização.

Permitam-me alargar um pouco a reflexão. Os critérios e princípios que se aplicam às farmácias e ao seu papel na sociedade não são exclusivos deste sector de actividade. Bem pelo contrário. Em tempos tão difíceis como os que vivemos, é indispensável que as instituições humanas, sociais e civis estejam presentes, não sejam destruídas e sejam aproveitadas. Não são as repartições nem as grandes organizações que vão salvar, no dia-a-dia, as pessoas e as famílias. Ao lado da grande política e dos grandes dispositivos financeiros e legais, são as instituições humanas que tratam das pessoas. E são as mesmas instituições que devem ser chamadas a participar e colaborar no esforço colectivo. Nesta crise, cujo fim não se conhece, é cada vez mais evidente e necessário governar com os cidadãos, as empresas e as instituições. É cada vez mais importante partilhar os problemas e as soluções, evitando assim esta prática corrente dos últimos anos de tomar medidas como quem atira armas de arremesso contra as populações. Os últimos governos têm-se distinguido nessa especialidade, a de governar sem dizer nada antes nem durante, só depois.

            Faça-se a analogia. Pense-se que a rede de farmácias é também a rede de empresas, de instituições, de associações e de sociedades. Imagine-se o papel que poderão ou poderiam desempenhar na análise dos factores de crise, na detecção de situações difíceis, na procura de soluções razoáveis, mesmo duras, mesmo difíceis. Esta força interior poderia ser um travão dos erros de análise, previsão e cálculo tão frequentes. Como poderia ser um ser um antídoto para a falta de conhecimento da realidade. Lamento que o meu país esteja a receber ordens da maneira mais primitiva que se possa imaginar. Chegam brigadas de técnicos e especialistas organizar os sectores e as áreas de actividade, trazendo consigo ementas de serviços de grande qualidade e de enorme competência, mas destituídos de conhecimento, de sensibilidade e de contacto directo. Lamento que o meu país não tenha sabido evitar o ponto a que chegámos. Lamento que as nossas elites, os nossos partidos políticos e as nossas autoridades não tenham prevenido, nem saibam ou queiram cuidar. Lamento que possa parecer que não há outra solução que não seja a de receber instruções...

            Esta ligação das autoridades e dos governos à população revela-se essencial, não para suavizar ou repetir erros e dívidas, mas para melhor cuidar dos cidadãos e associá-los ao esforço comum. É tanto mais essencial quanto a confiança dos cidadãos na política, nos políticos, nas instituições e nas administrações públicas está em perigoso declínio. Estudos a publicar brevemente mostram que, em dez a vinte anos, a confiança dos cidadãos desceu de valores próximos dos 50% a 70% para níveis de 14% a 30%.

            Viver com as farmácias, jovens, competentes e próximas da população, pode ser uma metáfora para a política necessária para todo o país em tempos de crise.

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Congresso Nacional dos Farmacêuticos
Lisboa, 2 de Novembro de 2012

domingo, 4 de novembro de 2012

Luz - Vinhas no Douro, 2006

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Outra imagem de um conjunto de vinhas do Douro. As formas “gráficas” das vinhas são infinitas. Neste caso, sejam os taludes e respectivas vinhas na horizontal, sejam as vinhas “ao alto” denotam plantações recentes, talvez datando dos últimos vinte anos. (2006)

domingo, 28 de outubro de 2012

Luz - Vílnius, Lituânia, 1995

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Numa igreja da capital. Várias mulheres rezam. Ao fundo, umas imagens queimadas denunciam um potente reflexo de ouro e prata. Nesta cidade, é impressionante o número de belas igrejas que cruzamos por todo o lado. De pequenas capelas a imponentes catedrais. De todos os estilos e de todas as tradições. Passa-se com facilidade das influências romanas às germânicas e destas às russas. O culto é sobretudo católico. Mas também há ortodoxos e alguns protestantes. (1995)

domingo, 21 de outubro de 2012

Luz - Vila Nova de Gaia, 1979

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Cais de Gaia sobre o rio Douro. A poucos metros do início da ponte D. Luís. Três publicidades (e uma nesga de outra...) anunciam outras tantas caves de vinho Porto. É domingo de manhã. O longo cais de Gaia, atrás das personagens, revela o miserável estado em que se encontrava ainda há pouco tempo. Ainda não tinha sido objecto de enorme arranjo, reparação, reordenamento e limpeza, incluindo a construção de todos os bares e restaurantes que fazem a noite de Gaia e o almoço dos turistas. (1979)

domingo, 14 de outubro de 2012

Luz - Veneza, 1971

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Rua da cidade. É o fim da tarde de um dia de Outubro. A rua, banal, está suja. Três mulheres diferentes. Só eu sei quem são e o que fazem neste improvável encontro, melhor dizendo, cruzamento. (1971)

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Violência familiar


NÃO HÁ estatísticas. Nunca haverá. Mas estou convencido que a “violência doméstica” se define principalmente por dois factos. Primeiro: é a violência exercida pelos homens contra as mulheres. Segundo: é a violência praticada pelo Pai, pela Mãe, ou pelos dois contra as crianças. Por isso prefiro falar de “violência familiar”, predominantemente masculina. É bom evitar os efeitos perniciosos do eufemismo.

Também não possuo estatísticas, mas tenho a certeza que a violência familiar de carácter sexual é quase exclusivamente da responsabilidade dos homens, sendo as vítimas as mulheres e as filhas crianças ou adolescentes. Prefiro estes conceitos crus e realistas a outros termos mais suaves ou neutros.

Não há evidência empírica, muito menos números que mereçam confiança, mas o que se vê é pouco. O que se sabe ou o que é visível é apenas uma parte muito pequena desta sórdida história que é a da violência masculina contra as mulheres e as crianças da família. Quem é violento não diz nem confessa. Quem é vítima tem medo de dizer. Quem é agredido tem vergonha de revelar. Quem vê ou sabe não tem coragem para denunciar. Quem ouve falar acha muitas vezes normal. Quem regista não presta atenção. Quem investiga arranja quase sempre desculpas. Quem julga tem pretextos e escapatórias. Quem estuda dissolve na sociedade as culpas individuais.

Também não há elementos credíveis sobre as várias modalidades de violência, mas tenho para mim que os fenómenos essenciais são, por um lado, a pancadaria física de toda a espécie e, por outro, a agressão sexual nas variantes conhecidas. Não é de bom tom dizê-lo, mas a combinação entre violência e violação tem o condão de atrair um grande número de homens, tanto actuais como antigos. É uma combinação que associa o poder ao animal, com a sofisticação da humanidade mais brutal. Creio que mesmo as especialidades mais requintadas de violência psicológica e simbólica têm, na agressão física e sexual, a causa, o instrumento e o fim como explicação principal.

Apesar da falta de dados, estou finalmente convencido que a violência sexual masculina e a violência familiar atravessam todas as classes sociais, todos os meios culturais, todas as regiões, todas as convicções políticas e todas as religiões. Analfabeto ou doutorado, patrão ou trabalhador, católico ou muçulmano, citadino ou campónio, minhoto ou transmontano, popular ou erudito: nos anais da violência masculina e familiar há de tudo!

Por mais sólidas que sejam as minhas convicções, não consigo perceber! Porquê? Que leva um homem a chegar a casa, desancar a mulher que é suposto amar, violar a filha púbere e bater no filho adolescente? Não percebo. Qual a razão? Será porque a maior parte desta violência é invisível? Será porque o cinema, a fotografia, a televisão e a literatura nos habituaram? Porque a maioria das vítimas se calam? Porque a opinião pública não considera esta violência importante nem grave? Será porque todos pensam finalmente que sempre foi assim? Porque as pessoas acham que a violência faz parte integrante das famílias? Porque o senso comum aceita que a violência seja um instrumento de educação e uma forma de expressão afectiva? De tudo um pouco. Mas nada disso me basta como resposta. A verdade é que há coisas difíceis de perceber. Porque são complexas e porque exigem muito conhecimento. E sensibilidade. Ou então a capacidade de se colocar dentro da pele dos agressores ou das vítimas. Ou finalmente porque são mesmo difíceis de entender. Não consigo perceber. Perceber é uma das mais fascinantes actividades humanas que se conheça. Perceber é meio caminho andado para compreender. Ora, compreender é aceitar. E aceitar é quase tolerar. E tolerar é concordar. Ou ficar indiferente. Esta também é uma armadilha da compreensão.

Creio compreender a violência política e social; a militar e a policial; a terrorista e a racial; a religiosa e a económica. Isto é, creio ser capaz de enumerar razões e causas verosímeis de fenómenos de violência nas variedades descritas acima. Mas não consigo perceber a violência familiar. Não consigo perceber como se troca o amor pela pancadaria. Por que se substitui o sexo pela agressão. Por que se prefere a violação à carícia. Por que se procura e obtém prazer na violação e na agressão da filha.

Os dicionários e as enciclopédias não ajudam muito a compreender. A não ser que se fizesse um dicionário de preconceitos e ideias imbecis ou um vocabulário de termos sórdidos do machismo. Com contributos qualificados. “Uma boa bofetada nunca fez mal a ninguém”, diz o popular com ar convencido. “Quando chegares a casa, bate-lhe! Se não souberes porquê, ela sabe!”, conta, com um sorriso cúmplice, o conhecedor das tradições árabes.” No fundo, bem lá no fundo, as mulheres querem é ser dominadas”, garante o fino psicólogo. “É conhecido: quando uma mulher diz ‘não’, quer dizer ‘sim’”, afirma o especialista em linguística analítica. Mais truculento, mas não menos generalizado, o perito em ideias gerais assegura que  “no fundo, são todas umas putas”. O perito em provérbios não esquece de atribuir às mulheres o famoso “quanto mais me bates, mais eu gosto de ti”, uma espécie de santo e senha para todas as selvajarias. E mesmo a música tradicional e a cultura popular contribuem para tão importante auxiliar da língua portuguesa. Uma das mais famosas cantilenas da história de Portugal reza assim:

Sebastião come tudo, tudo, tudo,
Sebastião come tudo sem colher,
Sebastião fica todo barrigudo
E depois dá pancada na mulher.

Tentei, para meu benefício, enumerar as possíveis causas da violência familiar e machista. São numerosas. O poder, com certeza. A frustração dos maridos. O ciúme, justificado ou não. O desejo de outras, concretizado ou contrariado. O medo de outros, de terceiros que possam olhar para as suas mulheres. Os falhanços e as negas. Os males da vida profissional. As maçadas do emprego. As dificuldades económicas. As vicissitudes do futebol. As perdas ao jogo. O álcool, sendo que este nunca vale por si, vem sempre com alguma coisa atrás. Resumindo e concluindo: nem uma atenuante, nem uma desculpa, nem um motivo que sirvam para fundamentar a eterna complacência da justiça, isto é, do Direito e dos magistrados, perante a violência contra as mulheres.

Pior que tudo e também difícil de perceber é o que se passa na cabeça e na alma das mulheres e das crianças agredidas e violadas. A começar pela culpa, sentimento horrível quando são as próprias vítimas a afligir-se! A dependência financeira é também um velho tema. O argumento dos cuidados com os filhos também. A fraqueza física é factor indiscutível. A concepção predominante dos deveres da mulher (cozinha e cama) ainda vigora. O medo de falar, de denunciar, de levar mais pancada, de ser violada, de ficar aleijada, de perder os filhos e de ficar sem emprego, este medo fundo que rói os ossos, mói a alma e paralisa as energias. É deste medo e do papel extraordinário que pode desempenhar a ajuda de outrem que fala este livro e de que se ocupam estes cinco contos que se lêem seguramente com proveito, mas que se deveriam ler como se de uma penitência se tratasse. De uma penitência positiva. De uma penitência que nos ajudasse a nunca ser cúmplices, nem sequer pela indiferença.
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Prefácio ao livro Isto não é um conto – Histórias de violência baseadas na vida de seis mulheres, edição da Link e do Montepio, com textos de Afonso Cruz, Alice Vieira, António Figueira, Karla Suárez, Maria Teresa Horta e Patrícia Reis.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Apresentação de Fernando Henrique Cardoso

Senhoras e senhores,
 
A HONRA é minha! E nossa, da Fundação Francisco Manuel dos Santos. É um privilégio apresentar a todos os convidados e participantes deste Encontro um dos mais ilustres homens do século.
Fernando Henrique Cardoso é sobretudo um grande intelectual e um académico. Também foi um grande político. E um grande homem de Estado. Sendo tão difícil ser bem tudo isto, ele conseguiu. Mas fica predominante a sua estatura e a sua vocação de intelectual e académico. Em tempos de políticos profissionais de plástico e de pronto-a-vestir, só um intelectual é capaz de dizer “Falo sempre do jeito que falo, como um professor”! Só um académico tem o atrevimento de, depois de trinta anos de vida política intensa, intitular as suas memórias de “The accidental President”! Só um homem de cultura é capaz de evitar lugares comuns pomposos e dizer que uma das qualidades essenciais do político consiste em “ter os pés no chão e os olhos abertos”!
Quando jovem resistente e adversário da ditadura, Fernando Henrique Cardoso dedicou-se ao pensamento, à teoria e à ciência social. Devem-se-lhe alguns dos escritos mais interessantes sobre o desenvolvimento, o subdesenvolvimento e a dependência. E já então também sobre a liberdade e a democracia. Nunca Fernando Henrique subestimou a liberdade, em nome, por exemplo, do crescimento económico, da independência nacional ou até da revolução social. Num mundo dominado ainda por várias formas de imperialismo, a sua voz brasileira tinha eco longe, na Europa e nos Estados Unidos, incluindo nas Nações Unidas que o reconheceram como um dos mais interessantes e criativos estudiosos do desenvolvimento.
Afastado das universidades pela ditadura brasileira, Fernando Henrique Cardoso estudou e ensinou no Brasil e na América Latina, mas também nos EUA e na Europa, a começar pela Grã-Bretanha e por França. Era reconhecido como um dos mais importantes cientistas sociais da América Latina, das Américas e, se querem mesmo saber, do mundo.
Numa altura em que a direita, na América Latina e em muitos mais sítios, se preocupava sobretudo com o crescimento económico e a esquerda com as desigualdades e a revolução social, poucas foram as vozes que tentaram sempre manter as duas prioridades no horizonte do pensamento e da acção: a liberdade e o desenvolvimento: a democracia e o crescimento; a igualdade e a eficiência. Fernando Henrique tentou. E, em grande parte, conseguiu.
Quando a democracia regressou ao Brasil, Fernando Henrique Cardoso iniciou um percurso político notável. Foi Senador, Ministro dos negócios estrangeiros e sobretudo Ministro das finanças (da Fazenda, diz-se no Brasil). Este último cargo, não o queria! Foi nomeado de madrugada, enquanto dormia. Mas exerceu-o depois de modo inesquecível. Mais tarde, foi presidente do Brasil. À sua acção, como Ministro e como Presidente, ficou ligada a política monetária e financeira, o famoso Plano Real, que trouxe ao Brasil estabilidade, baixa inflação, mais igualdade, mais investimento e nova energia para o desenvolvimento! E além de tudo e sobretudo a consolidação e a estabilidade da democracia. O extraordinário percurso político deste grande país que é o Brasil fica em boa parte a dever-se a este homem e à sua acção firme. Ajudou à abertura do país ao exterior, abriu a economia pela destruição de monopólios e pela privatização de alguns grupos e teve acção efectiva nos sectores da educação e da saúde das regiões e das classes mais pobres.

Pelo que sabemos, do Brasil ou de Portugal, da Europa ou da América Latina, a associação entre liberdade e estabilidade, ou entre desenvolvimento e democracia, é uma das grandes dificuldades dos tempos presentes. Fernando Henrique nunca marginalizou a democracia, nunca subestimou a liberdade, nunca se alheou da população e do povo em nome da estabilidade política. E desempenhou um papel decisivo na reconciliação nacional entre adversários políticos dos tempos da ditadura. Isto, apesar de terem sido tempos de morte, de assassinato, de guerrilha e de tortura. Foi preciso pedir perdão, em nome do Estado, e perdoar, em nome dos cidadãos. Foi preciso reparar, mas também evitar a vingança a fim de preparar o futuro com mais coesão. Em tudo isso, Fernando Henrique Cardoso revelou uma extraordinária perícia e um humanismo a toda a prova.
Nos seus livros, na sua obra à frente do Instituto Fernando Henrique Cardoso, nas suas conferências e na acção muito variada de carácter humanitário e de defesa da cidadania, Fernando Henrique mostra-se sempre fiel a um estilo inconfundível, claro, directo, sem elipses barrocas, sem clichés e com uma fortíssima dimensão cultural. Consegue mesmo coisa extraordinária que é a de ter uma noção de política como decência, sem nunca cair no moralismo vizinho da hipocrisia. Nas suas “Cartas a um Jovem político”, consegue traçar as qualidades e os defeitos do político, sem ilusões, com marcado sentido do serviço público e do bem geral. Com a ternura do professor e o saber da experiência, Fernando Henrique diz-lhe que a política só vale a pena se for para melhorar o país e o povo! Se eu fosse jovem, deixar-me-ia tentar!

Senhoras e Senhores: o Presidente Fernando Henrique Cardoso.
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Fundação Francisco Manuel dos Santos
Encontro “O Presente no Futuro – Os Portugueses em 2030”
Lisboa, Centro Cultural de Belém, 14 e 15 de Setembro de 2012

domingo, 7 de outubro de 2012

Luz - Vale do Inferno, La Rosa, 2008

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Este “Vale do Inferno”, da quinta La Rosa, perto do Pinhão, nada tem de infernal. É um dos trechos mais impressionantes das margens do Douro cultivado. Estes socalcos e estes muros estão entre os mais bonitos, mais altos e mais bem conservados de toda a região. A família Berqvist, proprietária da quinta há mais de 100 anos, mantém estes socalcos e aliás toda a quinta com enorme cuidado. Estes tubos em cartão ou plástico brancos e verdes, que estão a ser aplicados pelas mulheres trabalhadoras, dão uma imagem bizarra... À distância, fazem pensar nas cruzes de um cemitério de guerra... Estes dispositivos ou “tubos” são conhecidos por “Snapmax”, marca da primeira variedade que surgiu na região e assim ficou. Colocam-se à volta do pé tenro da vide, servem para criar uma zona de calor, humidade e conforto. São como uma estufa, nome pelo qual também podem ser conhecidos. Além disso, servem de tutor do crescimento e protegem a videira dos roedores. (2008)

domingo, 30 de setembro de 2012

Luz - Vale do Douro, 2006

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Mais uma vista do Vale deste maravilhoso rio. Fotografia tirada de dentro do rio, a bordo de barco de turismo. A localização é no chamado “Douro superior”. Na margem esquerda, à direita nesta imagem, consegue ver-se uma inscrição numa pequena casa branca: “Quinta do Vesúvio”. Não é o edifício principal da quinta, quase monumental, é apenas uma inscrição de identificação. A Quinta do Vesúvio, mais uma da “Ferreirinha”, a Dona Antónia, era uma das mais famosas daquela senhora e daquele grupo ou família. Há poucos anos, foi vendida ao mais importante grupo de vinho do Porto, o dos Symington. À esquerda da imagem, na que é a margem direita do rio, as escarpas mostram paredes de granito, presente em certos troços de uma região com bem mais xisto. Na rocha, umas estranhas “pinturas” amarelas: são pólenes de árvores e arbustos que dão um curioso colorido a certas partes do vale. (2006).

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Encontro “O Presente no Futuro – Os Portugueses em 2030” (Sessão de Abertura)


Senhoras e Senhores,
  
EM NOME da Fundação Francisco Manuel dos Santos, saúdo todos os presentes, convidados, oradores, relatores, voluntários, parceiros, agências e empresas organizadoras. Dou-vos as boas vindas e exprimo os meus votos de uma excelente jornada de debates e convívio.
Saúdo o mais velho convidado deste Encontro, com 88 anos. Saúdo a família que inscreveu três gerações, pais, avós e filhos ou netos. Saúdo o mais novo convidado, que, com um mês de vida, ainda não me pode perceber!
Após três anos e meio de existência, esta Fundação tem hoje uma iniciativa de grandes dimensões. Esta é a nossa primeira grande conferência. Pretendemos criar uma tradição ou um hábito. Gostaríamos de realizar um Encontro deste tipo todos os anos.
Este Encontro foi organizado sob a orientação científica de Maria João Valente Rosa, com a ajuda de um Conselho Científico e a colaboração de muita gente liderada pela comissão executiva de José Soares dos Santos e Pedro Castro.
O “Presente no Futuro – Os Portugueses em 2030” foi o tema escolhido. Aproveitámos a publicação pelo Instituo Nacional de Estatística dos resultados finais do Censo 2011. Assim como os trabalhos da PORDATA. E as previsões e projecções da população para 2030 e 2050 preparadas por Maria Filomena Mendes e Maria João Valente Rosa. É uma boa altura para olharmos para nós e para tentarmos descortinar o que podemos ou queremos ser dentro de duas ou três décadas. Com as projecções que serão analisadas ao pormenor durante estes dias, vemos que a população portuguesa se encontra numa fase de extraordinária importância. Alguns cenários sugerem que Portugal pode perder entre dez a trinta por cento da sua população em vinte a trinta anos!
A missão desta Fundação tem, à cabeça, o estudo, a divulgação, a informação, o conhecimento e o debate. Com esta Conferência, cremos estar a cumprir essa missão. Tanto mais que consideramos que o povo português não está devida e suficientemente informado, nem tem oportunidades bastantes para debater os seus problemas e as suas opiniões. Talvez seja esta uma tradição ou um antigo fardo, mas não nos conformamos. Se a nossa primeira preocupação, o nosso objectivo central e o nosso desígnio fundamental é a liberdade, também sabemos que a informação, a opinião independente e o debate público são condições e instrumentos de liberdade. É para isso que queremos colaborar. Porque não acreditamos que as autoridades e as forças políticas sejam suficientes para proteger a liberdade. E parece até que as instituições políticas não estão à altura da gravidade dos problemas, das carências dos Portugueses e da procura de soluções. Por isso temos a certeza de que todos devemos contribuir.
Parece haver algo de estranho. Enquanto, lá fora, no país e na sociedade, se vivem momentos particularmente difíceis, aflitivos mesmo, nós estamos aqui a discutir o que será dos Portugueses dentro de vinte a trinta anos! Enquanto o mundo, lá fora, sofre e luta pela sobrevivência, nós, no conforto deste Encontro, estudamos e discutimos os cenários para 2030! Parece absurdo, mas não é.
Foi uma decisão nossa: prever, projectar e antecipar... Para melhor decidir hoje. Para tudo saber hoje. Para formar opinião hoje. Isto, porque queremos preparar as próximas décadas. E porque pretendemos cuidar de um bem valioso: a liberdade de escolha.
Não me ocorre discutir aqui a política nacional, nem, por exemplo, as recentes medidas oficiais decorrentes dos acordos de assistência internacional. Não é para isso que aqui estamos. Mas sei, sabemos que os Portugueses estão preocupados. Inquietos. Por vezes até aflitos. Vivem um dos momentos mais difíceis da nossa história recente, uma das mais sérias crises sociais e económicas. Muitos não sabem como vão viver amanhã, em 2013 ou 2014, e nós estamos aqui a discutir 2050! Parece irónico, mas não é. Partimos do princípio que as melhores soluções, mesmo para os problemas do dia, são as que forem pensadas com profundidade, com participação e com conhecimento ou informação.
Mais ainda, as decisões tomadas hoje vão moldar o país que teremos em 2030. Nas migrações, por exemplo. Na habitação e no urbanismo. Na organização da educação e da formação profissional. O que fizermos hoje, como o fizermos e quando o fizermos, não terá apenas efeitos nos défices, nos rendimentos ou na segurança de amanhã ou depois. Será o princípio do que seremos dentro de duas décadas.
Se não soubermos cuidar hoje da informação, do debate, da opinião livre e da coesão social, então perderemos mais tarde o bem mais precioso: a liberdade de escolha.
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Fundação Francisco Manuel dos Santos
Lisboa, Centro Cultural de Belém, 14 e 15 de Setembro de 2012