quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Violência familiar


NÃO HÁ estatísticas. Nunca haverá. Mas estou convencido que a “violência doméstica” se define principalmente por dois factos. Primeiro: é a violência exercida pelos homens contra as mulheres. Segundo: é a violência praticada pelo Pai, pela Mãe, ou pelos dois contra as crianças. Por isso prefiro falar de “violência familiar”, predominantemente masculina. É bom evitar os efeitos perniciosos do eufemismo.

Também não possuo estatísticas, mas tenho a certeza que a violência familiar de carácter sexual é quase exclusivamente da responsabilidade dos homens, sendo as vítimas as mulheres e as filhas crianças ou adolescentes. Prefiro estes conceitos crus e realistas a outros termos mais suaves ou neutros.

Não há evidência empírica, muito menos números que mereçam confiança, mas o que se vê é pouco. O que se sabe ou o que é visível é apenas uma parte muito pequena desta sórdida história que é a da violência masculina contra as mulheres e as crianças da família. Quem é violento não diz nem confessa. Quem é vítima tem medo de dizer. Quem é agredido tem vergonha de revelar. Quem vê ou sabe não tem coragem para denunciar. Quem ouve falar acha muitas vezes normal. Quem regista não presta atenção. Quem investiga arranja quase sempre desculpas. Quem julga tem pretextos e escapatórias. Quem estuda dissolve na sociedade as culpas individuais.

Também não há elementos credíveis sobre as várias modalidades de violência, mas tenho para mim que os fenómenos essenciais são, por um lado, a pancadaria física de toda a espécie e, por outro, a agressão sexual nas variantes conhecidas. Não é de bom tom dizê-lo, mas a combinação entre violência e violação tem o condão de atrair um grande número de homens, tanto actuais como antigos. É uma combinação que associa o poder ao animal, com a sofisticação da humanidade mais brutal. Creio que mesmo as especialidades mais requintadas de violência psicológica e simbólica têm, na agressão física e sexual, a causa, o instrumento e o fim como explicação principal.

Apesar da falta de dados, estou finalmente convencido que a violência sexual masculina e a violência familiar atravessam todas as classes sociais, todos os meios culturais, todas as regiões, todas as convicções políticas e todas as religiões. Analfabeto ou doutorado, patrão ou trabalhador, católico ou muçulmano, citadino ou campónio, minhoto ou transmontano, popular ou erudito: nos anais da violência masculina e familiar há de tudo!

Por mais sólidas que sejam as minhas convicções, não consigo perceber! Porquê? Que leva um homem a chegar a casa, desancar a mulher que é suposto amar, violar a filha púbere e bater no filho adolescente? Não percebo. Qual a razão? Será porque a maior parte desta violência é invisível? Será porque o cinema, a fotografia, a televisão e a literatura nos habituaram? Porque a maioria das vítimas se calam? Porque a opinião pública não considera esta violência importante nem grave? Será porque todos pensam finalmente que sempre foi assim? Porque as pessoas acham que a violência faz parte integrante das famílias? Porque o senso comum aceita que a violência seja um instrumento de educação e uma forma de expressão afectiva? De tudo um pouco. Mas nada disso me basta como resposta. A verdade é que há coisas difíceis de perceber. Porque são complexas e porque exigem muito conhecimento. E sensibilidade. Ou então a capacidade de se colocar dentro da pele dos agressores ou das vítimas. Ou finalmente porque são mesmo difíceis de entender. Não consigo perceber. Perceber é uma das mais fascinantes actividades humanas que se conheça. Perceber é meio caminho andado para compreender. Ora, compreender é aceitar. E aceitar é quase tolerar. E tolerar é concordar. Ou ficar indiferente. Esta também é uma armadilha da compreensão.

Creio compreender a violência política e social; a militar e a policial; a terrorista e a racial; a religiosa e a económica. Isto é, creio ser capaz de enumerar razões e causas verosímeis de fenómenos de violência nas variedades descritas acima. Mas não consigo perceber a violência familiar. Não consigo perceber como se troca o amor pela pancadaria. Por que se substitui o sexo pela agressão. Por que se prefere a violação à carícia. Por que se procura e obtém prazer na violação e na agressão da filha.

Os dicionários e as enciclopédias não ajudam muito a compreender. A não ser que se fizesse um dicionário de preconceitos e ideias imbecis ou um vocabulário de termos sórdidos do machismo. Com contributos qualificados. “Uma boa bofetada nunca fez mal a ninguém”, diz o popular com ar convencido. “Quando chegares a casa, bate-lhe! Se não souberes porquê, ela sabe!”, conta, com um sorriso cúmplice, o conhecedor das tradições árabes.” No fundo, bem lá no fundo, as mulheres querem é ser dominadas”, garante o fino psicólogo. “É conhecido: quando uma mulher diz ‘não’, quer dizer ‘sim’”, afirma o especialista em linguística analítica. Mais truculento, mas não menos generalizado, o perito em ideias gerais assegura que  “no fundo, são todas umas putas”. O perito em provérbios não esquece de atribuir às mulheres o famoso “quanto mais me bates, mais eu gosto de ti”, uma espécie de santo e senha para todas as selvajarias. E mesmo a música tradicional e a cultura popular contribuem para tão importante auxiliar da língua portuguesa. Uma das mais famosas cantilenas da história de Portugal reza assim:

Sebastião come tudo, tudo, tudo,
Sebastião come tudo sem colher,
Sebastião fica todo barrigudo
E depois dá pancada na mulher.

Tentei, para meu benefício, enumerar as possíveis causas da violência familiar e machista. São numerosas. O poder, com certeza. A frustração dos maridos. O ciúme, justificado ou não. O desejo de outras, concretizado ou contrariado. O medo de outros, de terceiros que possam olhar para as suas mulheres. Os falhanços e as negas. Os males da vida profissional. As maçadas do emprego. As dificuldades económicas. As vicissitudes do futebol. As perdas ao jogo. O álcool, sendo que este nunca vale por si, vem sempre com alguma coisa atrás. Resumindo e concluindo: nem uma atenuante, nem uma desculpa, nem um motivo que sirvam para fundamentar a eterna complacência da justiça, isto é, do Direito e dos magistrados, perante a violência contra as mulheres.

Pior que tudo e também difícil de perceber é o que se passa na cabeça e na alma das mulheres e das crianças agredidas e violadas. A começar pela culpa, sentimento horrível quando são as próprias vítimas a afligir-se! A dependência financeira é também um velho tema. O argumento dos cuidados com os filhos também. A fraqueza física é factor indiscutível. A concepção predominante dos deveres da mulher (cozinha e cama) ainda vigora. O medo de falar, de denunciar, de levar mais pancada, de ser violada, de ficar aleijada, de perder os filhos e de ficar sem emprego, este medo fundo que rói os ossos, mói a alma e paralisa as energias. É deste medo e do papel extraordinário que pode desempenhar a ajuda de outrem que fala este livro e de que se ocupam estes cinco contos que se lêem seguramente com proveito, mas que se deveriam ler como se de uma penitência se tratasse. De uma penitência positiva. De uma penitência que nos ajudasse a nunca ser cúmplices, nem sequer pela indiferença.
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Prefácio ao livro Isto não é um conto – Histórias de violência baseadas na vida de seis mulheres, edição da Link e do Montepio, com textos de Afonso Cruz, Alice Vieira, António Figueira, Karla Suárez, Maria Teresa Horta e Patrícia Reis.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Apresentação de Fernando Henrique Cardoso

Senhoras e senhores,
 
A HONRA é minha! E nossa, da Fundação Francisco Manuel dos Santos. É um privilégio apresentar a todos os convidados e participantes deste Encontro um dos mais ilustres homens do século.
Fernando Henrique Cardoso é sobretudo um grande intelectual e um académico. Também foi um grande político. E um grande homem de Estado. Sendo tão difícil ser bem tudo isto, ele conseguiu. Mas fica predominante a sua estatura e a sua vocação de intelectual e académico. Em tempos de políticos profissionais de plástico e de pronto-a-vestir, só um intelectual é capaz de dizer “Falo sempre do jeito que falo, como um professor”! Só um académico tem o atrevimento de, depois de trinta anos de vida política intensa, intitular as suas memórias de “The accidental President”! Só um homem de cultura é capaz de evitar lugares comuns pomposos e dizer que uma das qualidades essenciais do político consiste em “ter os pés no chão e os olhos abertos”!
Quando jovem resistente e adversário da ditadura, Fernando Henrique Cardoso dedicou-se ao pensamento, à teoria e à ciência social. Devem-se-lhe alguns dos escritos mais interessantes sobre o desenvolvimento, o subdesenvolvimento e a dependência. E já então também sobre a liberdade e a democracia. Nunca Fernando Henrique subestimou a liberdade, em nome, por exemplo, do crescimento económico, da independência nacional ou até da revolução social. Num mundo dominado ainda por várias formas de imperialismo, a sua voz brasileira tinha eco longe, na Europa e nos Estados Unidos, incluindo nas Nações Unidas que o reconheceram como um dos mais interessantes e criativos estudiosos do desenvolvimento.
Afastado das universidades pela ditadura brasileira, Fernando Henrique Cardoso estudou e ensinou no Brasil e na América Latina, mas também nos EUA e na Europa, a começar pela Grã-Bretanha e por França. Era reconhecido como um dos mais importantes cientistas sociais da América Latina, das Américas e, se querem mesmo saber, do mundo.
Numa altura em que a direita, na América Latina e em muitos mais sítios, se preocupava sobretudo com o crescimento económico e a esquerda com as desigualdades e a revolução social, poucas foram as vozes que tentaram sempre manter as duas prioridades no horizonte do pensamento e da acção: a liberdade e o desenvolvimento: a democracia e o crescimento; a igualdade e a eficiência. Fernando Henrique tentou. E, em grande parte, conseguiu.
Quando a democracia regressou ao Brasil, Fernando Henrique Cardoso iniciou um percurso político notável. Foi Senador, Ministro dos negócios estrangeiros e sobretudo Ministro das finanças (da Fazenda, diz-se no Brasil). Este último cargo, não o queria! Foi nomeado de madrugada, enquanto dormia. Mas exerceu-o depois de modo inesquecível. Mais tarde, foi presidente do Brasil. À sua acção, como Ministro e como Presidente, ficou ligada a política monetária e financeira, o famoso Plano Real, que trouxe ao Brasil estabilidade, baixa inflação, mais igualdade, mais investimento e nova energia para o desenvolvimento! E além de tudo e sobretudo a consolidação e a estabilidade da democracia. O extraordinário percurso político deste grande país que é o Brasil fica em boa parte a dever-se a este homem e à sua acção firme. Ajudou à abertura do país ao exterior, abriu a economia pela destruição de monopólios e pela privatização de alguns grupos e teve acção efectiva nos sectores da educação e da saúde das regiões e das classes mais pobres.

Pelo que sabemos, do Brasil ou de Portugal, da Europa ou da América Latina, a associação entre liberdade e estabilidade, ou entre desenvolvimento e democracia, é uma das grandes dificuldades dos tempos presentes. Fernando Henrique nunca marginalizou a democracia, nunca subestimou a liberdade, nunca se alheou da população e do povo em nome da estabilidade política. E desempenhou um papel decisivo na reconciliação nacional entre adversários políticos dos tempos da ditadura. Isto, apesar de terem sido tempos de morte, de assassinato, de guerrilha e de tortura. Foi preciso pedir perdão, em nome do Estado, e perdoar, em nome dos cidadãos. Foi preciso reparar, mas também evitar a vingança a fim de preparar o futuro com mais coesão. Em tudo isso, Fernando Henrique Cardoso revelou uma extraordinária perícia e um humanismo a toda a prova.
Nos seus livros, na sua obra à frente do Instituto Fernando Henrique Cardoso, nas suas conferências e na acção muito variada de carácter humanitário e de defesa da cidadania, Fernando Henrique mostra-se sempre fiel a um estilo inconfundível, claro, directo, sem elipses barrocas, sem clichés e com uma fortíssima dimensão cultural. Consegue mesmo coisa extraordinária que é a de ter uma noção de política como decência, sem nunca cair no moralismo vizinho da hipocrisia. Nas suas “Cartas a um Jovem político”, consegue traçar as qualidades e os defeitos do político, sem ilusões, com marcado sentido do serviço público e do bem geral. Com a ternura do professor e o saber da experiência, Fernando Henrique diz-lhe que a política só vale a pena se for para melhorar o país e o povo! Se eu fosse jovem, deixar-me-ia tentar!

Senhoras e Senhores: o Presidente Fernando Henrique Cardoso.
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Fundação Francisco Manuel dos Santos
Encontro “O Presente no Futuro – Os Portugueses em 2030”
Lisboa, Centro Cultural de Belém, 14 e 15 de Setembro de 2012

domingo, 7 de outubro de 2012

Luz - Vale do Inferno, La Rosa, 2008

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Este “Vale do Inferno”, da quinta La Rosa, perto do Pinhão, nada tem de infernal. É um dos trechos mais impressionantes das margens do Douro cultivado. Estes socalcos e estes muros estão entre os mais bonitos, mais altos e mais bem conservados de toda a região. A família Berqvist, proprietária da quinta há mais de 100 anos, mantém estes socalcos e aliás toda a quinta com enorme cuidado. Estes tubos em cartão ou plástico brancos e verdes, que estão a ser aplicados pelas mulheres trabalhadoras, dão uma imagem bizarra... À distância, fazem pensar nas cruzes de um cemitério de guerra... Estes dispositivos ou “tubos” são conhecidos por “Snapmax”, marca da primeira variedade que surgiu na região e assim ficou. Colocam-se à volta do pé tenro da vide, servem para criar uma zona de calor, humidade e conforto. São como uma estufa, nome pelo qual também podem ser conhecidos. Além disso, servem de tutor do crescimento e protegem a videira dos roedores. (2008)

domingo, 30 de setembro de 2012

Luz - Vale do Douro, 2006

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Mais uma vista do Vale deste maravilhoso rio. Fotografia tirada de dentro do rio, a bordo de barco de turismo. A localização é no chamado “Douro superior”. Na margem esquerda, à direita nesta imagem, consegue ver-se uma inscrição numa pequena casa branca: “Quinta do Vesúvio”. Não é o edifício principal da quinta, quase monumental, é apenas uma inscrição de identificação. A Quinta do Vesúvio, mais uma da “Ferreirinha”, a Dona Antónia, era uma das mais famosas daquela senhora e daquele grupo ou família. Há poucos anos, foi vendida ao mais importante grupo de vinho do Porto, o dos Symington. À esquerda da imagem, na que é a margem direita do rio, as escarpas mostram paredes de granito, presente em certos troços de uma região com bem mais xisto. Na rocha, umas estranhas “pinturas” amarelas: são pólenes de árvores e arbustos que dão um curioso colorido a certas partes do vale. (2006).

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Encontro “O Presente no Futuro – Os Portugueses em 2030” (Sessão de Abertura)


Senhoras e Senhores,
  
EM NOME da Fundação Francisco Manuel dos Santos, saúdo todos os presentes, convidados, oradores, relatores, voluntários, parceiros, agências e empresas organizadoras. Dou-vos as boas vindas e exprimo os meus votos de uma excelente jornada de debates e convívio.
Saúdo o mais velho convidado deste Encontro, com 88 anos. Saúdo a família que inscreveu três gerações, pais, avós e filhos ou netos. Saúdo o mais novo convidado, que, com um mês de vida, ainda não me pode perceber!
Após três anos e meio de existência, esta Fundação tem hoje uma iniciativa de grandes dimensões. Esta é a nossa primeira grande conferência. Pretendemos criar uma tradição ou um hábito. Gostaríamos de realizar um Encontro deste tipo todos os anos.
Este Encontro foi organizado sob a orientação científica de Maria João Valente Rosa, com a ajuda de um Conselho Científico e a colaboração de muita gente liderada pela comissão executiva de José Soares dos Santos e Pedro Castro.
O “Presente no Futuro – Os Portugueses em 2030” foi o tema escolhido. Aproveitámos a publicação pelo Instituo Nacional de Estatística dos resultados finais do Censo 2011. Assim como os trabalhos da PORDATA. E as previsões e projecções da população para 2030 e 2050 preparadas por Maria Filomena Mendes e Maria João Valente Rosa. É uma boa altura para olharmos para nós e para tentarmos descortinar o que podemos ou queremos ser dentro de duas ou três décadas. Com as projecções que serão analisadas ao pormenor durante estes dias, vemos que a população portuguesa se encontra numa fase de extraordinária importância. Alguns cenários sugerem que Portugal pode perder entre dez a trinta por cento da sua população em vinte a trinta anos!
A missão desta Fundação tem, à cabeça, o estudo, a divulgação, a informação, o conhecimento e o debate. Com esta Conferência, cremos estar a cumprir essa missão. Tanto mais que consideramos que o povo português não está devida e suficientemente informado, nem tem oportunidades bastantes para debater os seus problemas e as suas opiniões. Talvez seja esta uma tradição ou um antigo fardo, mas não nos conformamos. Se a nossa primeira preocupação, o nosso objectivo central e o nosso desígnio fundamental é a liberdade, também sabemos que a informação, a opinião independente e o debate público são condições e instrumentos de liberdade. É para isso que queremos colaborar. Porque não acreditamos que as autoridades e as forças políticas sejam suficientes para proteger a liberdade. E parece até que as instituições políticas não estão à altura da gravidade dos problemas, das carências dos Portugueses e da procura de soluções. Por isso temos a certeza de que todos devemos contribuir.
Parece haver algo de estranho. Enquanto, lá fora, no país e na sociedade, se vivem momentos particularmente difíceis, aflitivos mesmo, nós estamos aqui a discutir o que será dos Portugueses dentro de vinte a trinta anos! Enquanto o mundo, lá fora, sofre e luta pela sobrevivência, nós, no conforto deste Encontro, estudamos e discutimos os cenários para 2030! Parece absurdo, mas não é.
Foi uma decisão nossa: prever, projectar e antecipar... Para melhor decidir hoje. Para tudo saber hoje. Para formar opinião hoje. Isto, porque queremos preparar as próximas décadas. E porque pretendemos cuidar de um bem valioso: a liberdade de escolha.
Não me ocorre discutir aqui a política nacional, nem, por exemplo, as recentes medidas oficiais decorrentes dos acordos de assistência internacional. Não é para isso que aqui estamos. Mas sei, sabemos que os Portugueses estão preocupados. Inquietos. Por vezes até aflitos. Vivem um dos momentos mais difíceis da nossa história recente, uma das mais sérias crises sociais e económicas. Muitos não sabem como vão viver amanhã, em 2013 ou 2014, e nós estamos aqui a discutir 2050! Parece irónico, mas não é. Partimos do princípio que as melhores soluções, mesmo para os problemas do dia, são as que forem pensadas com profundidade, com participação e com conhecimento ou informação.
Mais ainda, as decisões tomadas hoje vão moldar o país que teremos em 2030. Nas migrações, por exemplo. Na habitação e no urbanismo. Na organização da educação e da formação profissional. O que fizermos hoje, como o fizermos e quando o fizermos, não terá apenas efeitos nos défices, nos rendimentos ou na segurança de amanhã ou depois. Será o princípio do que seremos dentro de duas décadas.
Se não soubermos cuidar hoje da informação, do debate, da opinião livre e da coesão social, então perderemos mais tarde o bem mais precioso: a liberdade de escolha.
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Fundação Francisco Manuel dos Santos
Lisboa, Centro Cultural de Belém, 14 e 15 de Setembro de 2012

domingo, 23 de setembro de 2012

Luz – Tourada, Terceira, Açores, 2011

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Não gosto de touradas, muito menos quando os bichos estão presos com cordas puxadas por uns tantos rapazolas, bem protegidos atrás dos muros, das árvores ou dos candeeiros. Mas também reconheço que esta modalidade, sem sangue nem farpas ou bandarilhas com arpões, tem muito menos violência do que as outras touradas, a pé ou a cavalo. Já aqui publiquei uma ou duas fotos relativas a uma destas corridas em São Mateus, perto de Angra do Heroísmo. São festas sociais ou romarias onde se come, bebe, intriga, namora e faz negócios. (2011)

domingo, 16 de setembro de 2012

Luz - Tonéis, RCV, Gaia 2007

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Armazém antigo da Real Companhia Velha, em Gaia. Enormes tonéis de vinho do Porto à direita e pipas empilhadas à esquerda. Estas últimas contêm “Colheitas” de 1981 e de 1982. A “Colheita” é uma das especialidades de vinho do Porto. Pertencem a um só ano, uma só vindima, tal como os “vintages”. Mas, ao contrário destes, fazem longos estágios em madeira, isto é, em pipas e tonéis. (2007).

domingo, 9 de setembro de 2012

Luz - Terceira, Açores 2011

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Num intervalo de uma tourada à corda ou corrida de touros á corda, em São Mateus, a poucos quilómetros de Angra do Heroísmo. Há duas centenas ou mais destas corridas ao longo do ano. Realizam-se nas aldeias, nas vilas ou nos bairros das cidades. Parece mesmo que existe uma “coordenação” a fim de evitar que haja muitas corridas ao mesmo tempo. É tradição própria da Ilha Terceira, mesmo se noutras ilhas se pode esporadicamente organizar uma tourada parecida. As primeiras destas touradas de que há registo datam do século XVII. Há verdadeiros fanáticos que percorrem a ilha de tourada em tourada. E de cerveja em cerveja, acrescente-se... Os touros são largados nas ruas, durante pequenos percursos, de quinhentos a mil metros, amarrados a uma corda que se vai esticando até certo limite. As pessoas aproximam-se e fogem quando o touro chega. Não consta que haja feridos graves. Não se maltratam os touros de modo excessivo. Terminada a tourada, os animais voltam para as pastagens e ainda podem ser utilizados mais umas tantas vezes. É cerimónia social e romaria, mais do que arte tauromáquica. Dentro de casa, em cima dos muros ou atrás das grades, os visitantes e os turistas não correm grandes perigos. A maior parte, aliás, está atarefada e consumir enormes piqueniques e imensas grades de garrafas de cerveja. Uns rapazolas mais destemidos lá vão tentando impressionar as moças... Só uma vez vi um levar umas “marradas” sérias. (2011).

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Carta endereçada à Directora do "Público" (*)

Senhora Directora, 
POR VÁRIAS vezes, no decurso das últimas semanas, fui surpreendido por escritos alusivos à “História de Portugal” da autoria de Rui Ramos (coordenador), Bernardo Vasconcelos e Sousa e Nuno Gonçalo Monteiro, publicada em 2009. A maior parte desses textos apareceram no Público e o seu principal autor é Manuel Loff. Sei bem que a liberdade de expressão não pode ser limitada de ânimo leve, nem sequer pela qualidade. Mas é sempre triste ver que a inteligência, o rigor e a decência têm por vezes de ceder perante essa liberdade última que é a de publicar o que se pensa. 
 Quando tive a honra de apresentar o livro, na Sociedade de Geografia, anunciei o que para mim era um momento histórico. Com efeito, esta “História de Portugal” quebrava finalmente o duopólio fanático estabelecido há muito entre as Histórias ditas “da esquerda” e da “direita”. 
As várias formas de “nacionalismo” e de “marxismo” e respectivas variantes tinham dominado a disciplina durante décadas. Apesar de algumas contribuições magistrais (e a de José Mattoso é das principais), ainda não se tinha escrito uma História global, compacta e homogénea que rompesse com a alternativa dogmática, que viesse até aos nossos dias e que, especialmente para o século XX, “normalizasse” a interpretação da 1ª República e do Estado Novo. Ambos estavam, mais do que qualquer outro período, submetidos à tenaz de ferro das crenças religiosas e ideológicas e ao ferrete das tribos. 
Com esta História, estamos longe daquela tradição que cultiva e identifica inimigos na história. Agora, deixa de haver intrusos e parêntesis. Os regimes políticos modernos e contemporâneos, de Pombal à Democracia, passando pelos Liberais, pelos Miguelistas, pela República e pelo Salazarismo, eram finalmente tratados com igual serenidade académica, sem ajustes de contas. 
Um dos feitos desta “História” consiste na “normalização” do século XX, marcado por rupturas e exibindo feridas profundas. Por isso me curvava diante dos seus autores, homenageando a obra que ajuda os Portugueses a libertarem-se de fantasmas. Mas, sinceramente, já não esperava que ainda houvesse demónios capazes de despertar o pior da cultura portuguesa.
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(*) Enviada no dia 1 de Setembro de 2012 e publicada no dia 3.

domingo, 2 de setembro de 2012

Luz - Stand de rua, Moscovo 2010


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Os curiosos que procurem os seus heróis preferidos. Procurem-se heróis. Estão lá todos... Lenine, Estaline, Mao Tsé Tung, a Gorda do circo, Buda, um Marine, todos os bichos imagináveis incluindo um T-Rex, “La République”, o Tio Sam, Ghandi e o Papa... Do outro lado da estrada, fica a Universidade de Moscovo, o mais acabado e imponente edifício de puro “gótico estalinista”. (2010)

terça-feira, 28 de agosto de 2012

«Imagens perdidas»


Angela Camila Castelo-Branco, com quem colaboro há alguns anos em tudo o que é fotografia, publicou esta versão no blogue dela, “Grand Monde” – ver [aqui]. 
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Revista Egoísta, edição de Junho de 2012


Deserto do Sara, Argélia 1973


Imagens Perdidas
Fotografias de António Barreto

Selecção e organização de Ângela Camila Castelo-Branco


        Há propostas de trabalho que nos atraem, mas inquietam. Patrícia Reis, na sua persistente vontade de surpreender, resolveu quebrar os preceitos habituais de formato de publicação da revista Egoísta, decidindo que a edição de Junho de 2012 seria redonda como a Terra. No seguimento da apresentação de um outro portefólio de fotografias de António Barreto, realizado para a revista anual da Fundação Eugénio de Almeida (América’78 - Kodachromes de António Barreto), a editora desafiou o fotógrafo a contribuir com um conjunto de 12 imagens para o número 49 da Egoísta, sob o tema “Noite”.


Se o tema, dado a múltiplas interpretações, permitia fazer correr livremente a imaginação, já o formato da publicação desestruturava, a priori, toda a lógica de concepção e enquadramento concebido no acto fotográfico. A fotografia, enquanto  resultado de um espaço figurativo perspectivado pelo fotógrafo, obedece também a uma organização que é limitada pelo plano focal do aparelho. Captamos imagens através de visores de vários formatos: rectangulares, quadrados ou redondos. Na ausência de manipulação, seja por distorção, sobreposição de negativos, montagem, ou intervenção do Photoshop,  o resultado final é sempre confinado a dois formatos: quadrado e rectângulo; redondo é que nunca, se exceptuarmos os primeiros rolos da Kodak ou as fotografias obtidas a partir das câmaras Pinhole.

Apesar de ter presente que o olhar do fotógrafo constitui o essencial do acto fotográfico, seleccionar e organizar um conjunto coeso, que obedecesse ao critério atrás descrito, proporcionou discussão e obrigou a uma reinterpretação das imagens. Uma tarefa trabalhosa e entusiasmante, tanto mais que António Barreto participou e teve sempre voz activa na decisão da escolha final.

O presente conjunto de fotografias respeita uma narrativa evolutiva em diversos momentos e situações da actividade humana. Nem sempre aquela mudança resulta no desaparecimento de uma actividade, quase sempre evidencia a transformação ou adaptação da mesma a uma outra realidade. O fotógrafo mostra-nos a agricultura, o comércio, o trabalho, o pão que nos chega à mesa e o lazer, em especial a terra da qual tudo podemos esperar: a aridez oxidada dos desertos, a passividade com que é rasgada e preparada para receber as sementes, a generosidade com que nos recompensa nas colheitas.

As 12 fotografias aqui intencionalmente geminadas, procuram mostrar “Imagens Perdidas”. São fragmentos de vidas e rotinas dispersas no tempo, intemporais portanto mas, apesar de tudo, imagens que se sentem à vontade no presente. Assim, o homem montado num jumento transportando folhas de palma, segue o seu caminho pelas areias do deserto, indiferente à estrada de asfalto que o ladeia (M’zab, Argélia 1973). Por ventura, a sua resistência ultrapassa a das modernas viaturas, cujas carcaças sucumbem à areia dos desertos, como testemunha o esqueleto de um “carocha” no deserto do Sara, fotografia do mesmo ano na Argélia. Ainda no norte de África, e daí para o sul da Europa, apenas dois anos separam a fotografia do costureiro “berbere”, que ganha a vida com uma máquina de costura em Beni Esguen, da fotografia em Lisboa onde conversam à janela de um primeiro andar do número 141 da Rua Augusta os alfaiates da Eugénio de Moraes, Lda.

Das vindimas no Douro ao casal que semeia na Beira Litoral, a agricultura sempre presente, imagens marcantes de um país que, contudo ainda hoje importa quase metade dos produtos alimentares que consome. Com o olhar fixo na câmara de António Barreto, o vendedor de alhos, em Ponta Delgada, é observado com espanto por um rapaz descalço que calcorreia a calçada negra da cidade com a mesma vivacidade com que os meninos em Argel se apressam a levar o pão para a mesa que os espera. Em Angra do Heroísmo, ao olharmos com uma certa nostalgia a fachada do Café Atlântico, distribuidor de espumantes e vinhos das Caves Monte Crasto, esquecemos que os líquidos que a boca pede são fruto de trabalho árduo suportado por homens que, até ao fim do ciclo da vindima, podaram, enxertaram, cavaram, colheram e transportaram às costas os cestos carregados com 60 quilos de uva.

Trinta a quarenta anos nos separam destas fotografias que parecem fazer parte de uma realidade longínqua. Mudaram os transportes, substitui-se a força braçal pelas máquinas, intensificou-se a produção, alargaram-se fronteiras... Para melhor ou pior, em continua batalha de criatividade, o engenho e a arte do homem transformaram a natureza!

Ângela Camila Castelo-Branco


M' zab, Argélia 1973



      Douro 1975                   Beira Litoral, ca. 1975


      Argel, Argélia 1973                Tourém, Trás-os-Montes 1982


     Ponta Delgada, Açores ca. 1980       Angra do Heroísmo, Açores 
                                                                  ca. 1980

                          Beni Isguen, Argélia 1973          Lisboa 1975

                Grécia 1975                 Budapeste, Hungria 1974


António Barreto
 © Fotografia Ângela Camila Castelo-Branco

domingo, 26 de agosto de 2012

Luz - Serralves, Porto 2006


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 Este museu foi desenhado por Siza Vieira. O seu casamento com a Casa de Serralves e respectivo jardim parece feliz e harmonioso. Siza fez aqui mais uma vez o que ele sabe fazer de melhor: ir buscar a luz onde ela está, donde ela vem, e levá-la cuidadosamente aos sítios onde ele a quer. Parece que o faz com as mãos. Parece que consegue que a luz faça caminhos curvos, dobre esquinas, suba escadas... (2006)

domingo, 19 de agosto de 2012

Luz - Rua de Nova Iorque, 1978

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Nova Iorque é assim... (1978)

domingo, 12 de agosto de 2012

Rua de Hay-on-Wye, 1990

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Nunca me cansarei de visitar e fotografar esta aldeia... A tabuleta anuncia uma visita histórica guiada ao castelo, às livrarias, ao mercado... (1990)

domingo, 5 de agosto de 2012

Luz - Rua de Barbados, 1971

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Uma rua qualquer... Uma fotografia qualquer... Uma maneira de andar... Uma pose de estar encostado à parede... (1971)

domingo, 29 de julho de 2012

Luz - Rio Nilo, diante da cidade de Assuão, Egipto 2006

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Estamos ainda longe da famosa barragem. Mas a cidade tem esse nome. Na minha juventude, a construção desta barragem estava altamente colocada na lista dos objectos de admiração. Fiquei fascinado diante da ideia (e do projecto e da realização...) de “desmontar” o famoso monumento de Abu Simbel e voltar a construir umas centenas de metros ao lado e acima do nível da água da futura albufeira. Proteger a cultura e modernizar, “dominar a Natureza”, como se dizia na altura, eram programas de optimismo histórico! Hoje, essas obras estão lá, para orgulho de muitos, com certeza. Mas entretanto sabe-se que o Nilo teve problemas ecológicos muito sérios, milhões de hectares de terras férteis viraram areia ou foram perdidos para a agricultura, a fauna fluvial transformou-se e empobreceu... Com o que sabemos hoje, teríamos feito a obra igualmente? Passei na região uns dias, entre as águas do Nilo, as margens férteis, as vilas e os mercados e os monumentos. É sítio inesquecível. (2006)

domingo, 22 de julho de 2012

Luz - Da Régua ao Pocinho

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Na linha de caminho-de-ferro, da Régua para o Pocinho. Nesta última estação, o caminho-de-ferro termina. Já não vai até Barca d’Alva, muito menos até Espanha. É a Linha do Norte, que começa no Porto, em S. Bento ou na Campanhã, e ia até Espanha, recebendo ainda passageiros das linhas “afluentes” do Tâmega, do Corgo, do Tua e do Sabor, todas fechadas, condenadas, abandonadas e destruídas. É uma das mais belas linhas de comboio do mundo, com dezenas de quilómetros à beira do Douro, por vezes a meia dúzia de degraus ou poucos metros do rio. Traçada entre vales e vinhas, serviu, durante um século, gente e mercadoria e sobretudo vinho e materiais para a vinha. Afastou os barcos rabelos, foi afastada pelos camiões e pela estrada. Em qualquer parte do mundo, pelo menos nos países civilizados onde houvesse linhas de caminho-de-ferro como estas, sobretudo as do Douro e do Tua, tudo seria feito, em nome da cultura, da qualidade de vida, do turismo decente, da história, da decência, do ambiente e da estética, para que fossem preservadas. Não é assim entre nós! Triste sina!

domingo, 15 de julho de 2012

Luz - RCV, Gaia. 2006

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Armazém da Real Companhia Velha, em Vila Nova de Gaia. Um dos maiores e mais antigos. Actualmente, em vias de reconversão. Vivia-se, neste armazém, o vagar da história. Respirava-se a humidade do tempo e sentia-se o silêncio do passado. A reduzida luz proporcionava sombras e relevos extraordinários. E tudo isto ajudava ao envelhecimento do vinho do Porto.

domingo, 8 de julho de 2012

Luz - Quinta do Infantado, Covas do Douro, 1979

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Numa prensa, à beira de um lagar, depois de se ter retirado o vinho, sobra o mosto que vai ser prensado e escorrido até que não sobre qualquer líquido. Este vinho assim feito não é em geral aproveitado para os melhores lotes. Na verdade, desta maneira extraíam-se também matérias que não faziam bem ao vinho: concentração excessiva, taninos a mais, madeira ácida, até resinas...

domingo, 1 de julho de 2012

Luz - Porto, 1975

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Diante de um cartaz pouco legível, mas de significado inequívoco.

domingo, 24 de junho de 2012

Luz - Passeio em Berlim, Unter den Linden, 2010



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Esta avenida, cujo nome é literalmente “Debaixo das Tílias”, foi uma das glórias de Berlim no século XIX. Numa das extremidades, encontra-se a Porta de Brandenburgo. Não muito longe, o Reichstag. Embaixadas (Americana, Russa, Britânica, etc.) ficam ali, assim ciomo museus, Ópera e Universidade. A avenida cruza várias outras famosas, incluindo Friedrichstrasse e Wilhelmstrasse. Era talvez o centro da cidade em grande parte do século XIX e nas primeiras décadas do século XX. Depois da guerra e da divisão, a avenida ficou no “lado de lá”, a Leste. Manteve-se um sítio interessante e mesmo “chique”, na versão comunista, mas obviamente declinou. Depois da reunificação, o restauro, a reciclagem, o aproveitamento e a reorganização têm sido formidáveis. Sem que tivesse havido uma decisão política, sem que se tenham aprovado decretos disparatados e voluntariosos, o grande centro de Berlim, de negócios, de turismo, de cultura, de ciência e de arte voltou a deslocar-se e regressou a estas paragens. A famosa Ilha dos Museus está por ali perto. A Câmara da cidade tem mantido uma disciplina severíssima, depois de ter criado normas e regras que impedem, por exemplo, a demolição sem justificação e a construção de arranha-céus. Unter den Linden voltou a ser o eixo central da cidade.

domingo, 17 de junho de 2012

Luz - Palais Royal, Paris 1998

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Palácio parisiense que nunca perco quando visito a cidade. Já aqui publiquei várias imagens com alguns apontamentos sobre a história do palácio, dos seus jardins, dos bares e restaurantes, assim como das tertúlias literárias e dos cafés políticos (quase sempre revolucionários) que o palácio albergava. Arcadas deste género, com os seus enfiamentos geométrico, sempre foram uma tentação para a fotografia.

domingo, 10 de junho de 2012

Luz - M’Zab, Sara, Argélia, 1972

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Vindo não se sabe donde, indo para qualquer sítio, este homem transporta ramos de palmeira, certamente de tamareira. O M’Zab é ao mesmo tempo um vale, um oásis e uma região da Argélia, na parte Norte do Sara. É um sítio maravilhoso, composto de cinco cidades muito especiais habitadas pelos Mozabites, uma tribo de Berberes. A mais importante é Ghardaia. A que mais me impressionou é Beni Isguen. São pequenas cidades com uma arquitectura fabulosa, a ponto de terem sido consideradas há duas ou três décadas património mundial da UNESCO. Diz-se que o jovem Corbusier se inspirou naquelas construções muito bem adaptadas às condições de clima, extremamente seco e árido. Quando por ali andei, o termómetro chegou aos 50 graus! Quando viajávamos de carro, pelas pistas ou pelas estradas, era frequente um acontecimento destes: de repente, sem que se perceba o destino ou a origem, aparecia uma pessoa! Com ar de quem estava perfeitamente orientada! Só se via areia para um lado e para os outros!

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Estudar em tempos de crise (*)

TENHO GRANDE prazer e honra em estar convosco neste dia tão especial para os antigos estudantes e futuros profissionais. Em muitos países, este dia é considerado um dos mais importantes da vida de cada um. Desejo-vos felicidades e um longo percurso profissional e pessoal!

Não vou ao ponto de considerar a juventude ou o estudo como período de quarentena ou de estágio, mas há algo disso. Quarentena, como disse um historiador francês, ao falar daquele período em que se não está cá nem lá... Ou estágio, como dizem os vinicultores, quando deixam os seus vinhos a preparar... Mesmo sabendo que os estudantes trabalham cada vez mais e que os trabalhadores são obrigados a estudar, a verdade é que a partir de agora a vida para muitos de vós vai mudar. A vossa participação na vida colectiva adquire hoje novo sentido. A responsabilidade para com a vossa comunidade assume nova feição. A assunção de uma ideia de estratégia e de construção do futuro é agora definitiva e premente. Apesar de saber que a vida adulta e profissional é, para muitos, feita de mudança, pode ligar-se o dia de hoje ao fim de uma longa transição. Os sentimentos essenciais de preparação, investimento, urgência, esperança e independência vão evoluir, conhecer novas formas.

Para alguns, o estudo foi um prazer. Para outros, um sacrifício. Para uns foi fácil. Para outros, uma corveia, um fardo a exigir árduo esforço. Quase todos se terão sentido adiados, em preparação, em permanente processo de diferimento. A todos direi o mesmo: foi uma decisão justa! Estudar e aprender é certamente o que de mais certo fazem e fizeram até hoje.

Já ouço vozes que murmuram nesta sala. Então e o desemprego? E a crise económica? E a falta de saídas profissionais? Só vos posso dizer em palavras simples: sem estudos, sem diploma, sem grau, seria pior. E quem o não tivesse, arrepender-se-ia toda a vida.

Apesar das frustrações actuais, mau grado o desemprego de milhares de licenciados e graduados, não obstante a incerteza que parece dominar a nossa existência contemporânea, uma preparação cultural, profissional e técnica é de indiscutível valia. Tiveram razão os que insistiram e persistiram. Sabe-se hoje que um graduado ou titular de um qualquer diploma superior tem muitas mais possibilidades de encontrar emprego, de formar uma empresa ou de criar a sua própria actividade independente, do que outra pessoa sem grau ou diploma. Há países em que a razão é de um para cinco, isto é, o diplomado tem cinco vezes mais possibilidades de encontrar o seu emprego do que o que não fez estudos superiores.

Vale a pena determo-nos um pouco mais nesta questão do emprego e do desemprego dos universitários e dos titulares de diplomas de estudos superiores. Que pensar do desperdício de recursos e da frustração dos licenciados que, um ano depois do seu grau, ainda hoje trabalham em “call centers”? Como olhar para esta enorme despesa, seja das famílias, seja do Estado, com uma preparação que nem sempre tem saída? Qual a racionalidade deste investimento que tantas vezes parece não ter retorno? É imaginável, em tempos de crise, baixar drasticamente o esforço de estudo e aprendizagem? É aconselhável, em tempos normais ou de dificuldades, planificar os estudos, isto é, formar e preparar apenas as pessoas que poderão ter emprego e que correspondam às necessidades da sociedade, das empresas e das instituições?

As minhas respostas a estas perguntas são todas negativas. Por várias razões. A primeira é porque se trata de tarefa absolutamente impossível. Por mais sofisticadas que sejam as técnicas de previsão, por mais rigorosos que sejam os métodos de ponderação da incerteza, nunca foi possível prever as necessidades profissionais com dezenas de anos de antecedência. Ora, é disso que tratamos: das necessidades económicas, sociais e técnicas de uma geração em relação à seguinte. Em educação, quando planificamos, é para gerações, não para dois ou três anos. Regimes ditatoriais, Estados que se julgavam omniscientes e governos convencidos que dominavam o futuro tentaram, mas nunca conseguiram. Ao decretar hoje que precisamos, dentro de vinte ou trinta anos, de dois mil médicos, três mil advogados ou quatro mil engenheiros, estamos a fazer o necessário para cometer um erro difícil de corrigir. Nenhum dos métodos seguidos até hoje, seja a planificação central, seja a total liberdade de escolha (ou a “mão invisível”, como se poderia dizer...) produziu uma qualquer solução para este problema. Mesmo em Portugal, que não tem ditadura, planificação ou omnisciência, podemos comparar duas tradições. A do planeamento, como é o caso da Medicina e da Enfermagem; e as da “mão invisível”, nos casos de muitos cursos como sejam o ensino, a sociologia, a comunicação social, as relações internacionais, o jornalismo, os recursos humanos e a gestão de empresas. No primeiro caso, a insuficiência é absurda e o recurso a profissionais estrangeiros é permanente. No segundo caso, o desemprego é abundante e a frustração quase geral.

Que fazer então? A meu ver, simplesmente deixar a sociedade ajustar-se, permitir que as decisões sejam tomadas pelos próprios, fazer com que a formação seja a mais aberta possível e a mais flexível que se imagina. Ao mesmo tempo, organizar o acesso aos estudos e às profissões de modo a não deixar degradar a qualidade das formações e a promover o rigor. Estudar é certamente um direito social; mas também é uma faculdade ligado ao mérito. E não esqueçamos nunca que a formação técnica e cultural é ela própria geradora de novas aspirações e novas necessidades.

De qualquer maneira, o critério essencial para a organização dos estudos superiores não é para mim o da adequação às necessidades económicas e empresariais do futuro. Muito mais importantes são os critérios ligados ao progresso humano, à liberdade e à autonomia dos cidadãos; ao desenvolvimento da ciência e da cultura; e à promoção do conhecimento e da procura da verdade.

Por outro lado, o desígnio essencial, o objectivo mais importante do ensino e da formação superior não é o da aprendizagem de uma profissão e de uma técnica, critérios certamente interessantes, mas não suficientes. O decisivo numa formação superior é a cultura geral, o raciocínio e o método. Numa expressão simples: aprender a pensar! Por mais sofisticadas e operacionais que sejam as técnicas aprendidas e dominadas, é a capacidade de raciocínio, de relação entre disciplinas e abordagens, de análise e de crítica, de adaptação a novas situações, de inovação e de interrogação, que dá conteúdo e missão ao ensino superior. Qualquer ofício, qualquer profissão aprendida com o enquadramento da cultura geral e da interdisciplinaridade própria do ensino superior adquire uma versatilidade e uma polivalência de incalculável valor.

Esta linha de pensamento conduz-nos a outro aspecto bem actual. Na Europa em geral e em Portugal em particular (tal como em mais dois ou três países mediterrânicos), vivemos um tempo de crise e dificuldade que tem levado a políticas de austeridade, de poupança e de contenção de despesas. Tanto despesas públicas, como privadas. Tanto despesa como crédito. O endividamento das famílias, das empresas, dos bancos e das Administrações Públicas é de tal monta que ninguém escapa aos programas ditos de austeridade e de contenção. Portugal é um dos países mais atingidos e mais empenhados nesse esforço. A este propósito, convém perguntar: como administrar esse programa de austeridade? Que sectores devem ser mais atingidos e mais poupados? Será que a educação e a formação devem estar incluídas nos sectores onde a austeridade se faz sentir? Será que todos os sectores da vida colectiva devem ser atingidos por igual? Será que faz sentido poupar alguns sectores? Quais? Com que critérios?

A minha resposta é a seguinte.  Tal como os grupos humanos, as classes sociais, as instituições e as empresas, todos os sectores devem ser objecto de poupança e austeridade. Todos os sectores devem sobretudo ser objecto de reforçada luta contra o desperdício. Mas alguns sectores devem ser protegidos de um excesso de austeridade. Sem privilégios, devem ser objecto de algum esforço. Entre esses, a educação sem qualquer dúvida. Porquê? Porque é, a prazo, um sector com capacidade reprodutiva e com potencialidade para proporcionar um retorno. Direi também o mesmo na sua formulação negativa: porque é um dos sectores em que um recuo geracional mais desgaste ou mais estragos produziria. Um excesso de austeridade, em tempos de crise, pode simplesmente ser irrecuperável na geração seguinte. Pode deixar cicatrizes que dificilmente saram. E diminuirá seguramente as próprias capacidades e energias para ultrapassar a crise.

É possível que outras pessoas digam algo de parecido a propósito de outros sectores, da saúde à segurança social, do emprego à segurança pública, do ambiente à energia ou da indústria à produção alimentar. É possível, sim. Isso faz parte do debate democrático a que só uma decisão informada e pública pode dar continuidade e solução. Ora, a verdade é que não sentimos isso neste nosso actual tempo de crise. Que se saiba, que seja conhecido e partilhado por muitos, os Portugueses não realizaram nem assistiram a um debate sobre as alternativas e as prioridades. Têm assistido, isso sim, a uma sucessão de decisões e medidas destinadas a poupar e conter a despesa em todos os sectores imagináveis, sem que haja, a meu ver, a perspectiva que aqui sublinhei, a de preservar as situações que podem melhor permitir a recuperação ulterior.

Gostaria ainda de alertar para um segundo ponto: esta ideia de que estudar em tempos de crise é aconselhável, recomendável e ainda mais necessário do que habitualmente parece aplicar-se exclusivamente às autoridades e aos poderes públicos. A maneira como exprimi o meu ponto de vista pode sugerir isso. Se é esse o caso, aproveito para corrigir. Esta ideia, na minha opinião, diz respeito a toda a gente, públicos e privados, pais e filhos, escolas e famílias, empresas e instituições. Incluindo estudantes. Em tempos de crise, o melhor que podem fazer, para além de procurar e encontrar soluções de sobrevivência própria e dos seus, o melhor que podem fazer, dizia, é estudar e preparar o futuro, seja este o tempo de duração da crise, sejam os tempos que virão depois. E, para isso, o esforço público não é suficiente. O contributo das famílias é indispensável. Não só em termos quantitativos, mas também qualitativos. Na verdade, a decisão de cada um é mais inteligente e mais sensível do que a regra burocrática e administrativa, universal e abstracta. A regra, do ponto de vista dos direitos, é fundamental. Mas, vistas as coisas do lado da vida real e dos percursos familiares e pessoais, a decisão individual e concreta é essencial.

A este propósito, desejo referir uma outra questão relativa ao contributo das famílias. Não se pense que este é apenas ou deve ser apenas financeiro. A participação das famílias na vida escolar e académica deveria ser muito superior à que é actualmente. Mais eficiência, mais rigor e menos desperdício seriam talvez de esperar. Mas também escolhas mais certeiras. E organização de cursos com mais racionalidade. A este propósito, sabemos que a situação em Portugal não tem evoluído bem, nem no melhor sentido. O sistema escolar português tem uma tendência acentuada para expulsar da escola os pais, tal como as comunidades e as empresas. Ora, essa evolução, sobretudo em tempos de crise, é negativa. O envolvimento das comunidades e o empenho permanente dos pais são, a meu ver e de acordo com experiências conhecidas em outros países ou em certos estabelecimentos privados portugueses, essenciais para estruturar escolas com melhor performance e mais adequadas às necessidades reais das pessoas. Devo dizer mesmo, no que aos pais diz respeito, que em Portugal é desconhecida a cultura dos “deveres dos pais” perante a escola dos filhos. Parece que a pressão se faz no sentido de que a escola os deve substituir em todas as tarefas e missões. Os próprios pais, muitas vezes, pretendem delegar a totalidade dos processos educativos na instituição. Chega-se mesmo a falar da “formação integral do cidadão” como missão da escola, o que me parece errado sob todos os pontos de vista. À escola compete muito, mas não tudo. E talvez nem sequer a maior parte.

Como dizia no início desta exposição, não acredito na capacidade política de prever as necessidades profissionais, técnicas, culturais e económicas para as próximas gerações. Mas acredito na capacidade humana de decidir sobre a sua própria vida e as suas expectativas. Uma experiência que conhecemos bem é a do “numerus clausus” para os estudos de Medicina. Por um lado, creio que o princípio do dispositivo do “numerus clausus” é positivo. Com efeito, o acesso ao ensino superior, ainda por cima a estudos especialmente caros, condicionado pelo mérito parece-me certo. É necessário merecer frequentar os graus mais elevados de formação e ensino, não se trata meramente de um direito de cidadão ou de um direito social. O “numerus clausus” é um dos mecanismos conhecidos para submeter o acesso às escolas superiores a um critério de mérito.

Por outro lado, o dispositivo, tal como o conhecemos, levou a consequências desastradas. Falta de médicos em vários sectores. Dificuldade em expandir tanto a saúde pública como a medicina privada. Partida para o estrangeiro de centenas de estudantes de medicina. E problemas muito sérios com a acumulação de vínculos profissionais públicos e privados. Mas sobretudo criou uma situação insustentável: estudantes da categoria de “Muito bom”, dezassete ou dezoito valores, são recusados à entrada da faculdade da sua escolha! Um país que assim procede não está bem! Como é sabido, o que acontece em Medicina pode acontecer também noutras áreas académicas. Muito está em causa. É dificultada a reposição de uma geração de cientistas e profissionais. Ficam em crise o direito e as expectativas de quem merece ter acesso às instituições de formação superior. É desvalorizada a ideia de justiça e de recompensa para quem cumpre os seus deveres e alimenta fundadas esperanças. Sem esquecer que o acto de formação e aprendizagem cria por si uma dinâmica de crescimento e progresso. Desengane-se quem pense, por exemplo, que Portugal fica a ganhar com os que vão estudar Medicina para Bucareste, Salamanca, Barcelona ou Praga. Desse modo, alegadamente, poupar-se-iam recursos portugueses, ficando o país a lucrar, depois, com o respectivo regresso. Na verdade, além das frustrações e do desperdício de tempo, o país perderia os efeitos muito positivos de uma disciplina em expansão e desenvolvimento. Sem falar, com certeza, no improvável regresso de muitos desses emigrantes.

Volto ao ponto de partida. Deixo-vos os meus votos de felicidade e de bom trabalho. A maior parte dos vossos estudos superiores desenrolaram-se em pleno clima de crise e de dificuldades. Não sei quais foram os sentimentos predominantes durante estes anos. Imagino que tenham sido de incerteza. É natural. Mas quero dizer-vos mais uma vez: tiveram razão! Parabéns e felicidades.
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(*) - ISLA – Lisboa, 30 de Maio de 2012

domingo, 3 de junho de 2012

Luz - Museu, São Petersburgo, 2011

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Esta é a Galeria Militar do Museu Hermitage, em São Petersburgo. Está decorada com três centenas de retratos de Marechais, Generais e outros oficiais que se ilustraram durante a Grande Guerra Patriótica (a de 1812, contra os exércitos de Napoleão). A Galeria foi construída poucos anos depois e manteve-se desde então. Muitos dos quadros foram pintados por um pintor inglês importante, George Dawe. Entre os retratados, contam-se o Czar Alexandre I (ao fundo, à direita, em quadro de maior dimensão), o príncipe Kutuzov (quem não se lembra da “Guerra e Paz”, de Tolstoi?) e o Duque de Wellington. A presença de estrangeiros, aliados dos Russos contra Napoleão, é assegurada por vários ingleses, alemães, austríacos e prussianos.

domingo, 27 de maio de 2012

Luz - Foz do Douro, Porto, 1985

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É um dos paredões preferidos pelos pescadores da Foz, de Miragaia e dos bairros dos arredores. É praticamente no local da foz do rio, no ponto de encontro com o mar. Ao fundo, atrás do areal, terras de Gaia e da Afurada.

domingo, 20 de maio de 2012

Luz - Miranda do Douro, 1978

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Uma das mais pequenas cidades portuguesas. Já foi sede de diocese (ainda hoje, o título oficial é Bispo de Miranda e Bragança). Terá hoje perto de 2.000 habitantes. O concelho não chega a 8.000. Já não vou lá há mais de vinte anos. Nos anos setenta, as ruas e os edifícios eram assim...

domingo, 13 de maio de 2012

Luz - Mercado, Barbados, 1971


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Estive aqui, quase de passagem, há quarenta anos. É a ilha mais a Leste das Caraíbas. Já havia, por aqui e ali, uns “resorts” de turismo, praia, caça ao tubarão, pesca grossa e daiquiris... Tudo um pouco pindérico. Era o princípio do novo mundo actual. Na cidade, muito pequena, já se notavam placas à entrada dos edifícios com nomes sonantes e insólitos de empresas financeiras e aparentadas: o início dos paraísos fiscais. Mas, no essencial, esta ilha era ainda a que vinha dos romances de aventuras e de piratas. Azáfama aparente e correrias nos mercados, vida tropical por excelência, notando-se uma altíssima densidade de bares e tabernas por metro quadrado. Nas ruas dos arredores e no campo, os aromas eram estranhos. Demorei umas horas a perceber que se tratava de refinarias de beterraba, de fábricas de melaço e de destilarias de rum um pouco por toda a parte, geralmente artesanais. Cheirava a açúcar queimado, a melaço e álcool. Música local porta sim, porta não (Não consigo identificar o género... Fazia lembrar a que se tocava muito na Jamaica e na Trinidad, com instrumentos improvisados, restos de bidões de lata, rodas de carros, etc.). Deve ser esta uma das ideias que se faziam os europeus do Paraíso perdido...