Quando ainda se usavam estes “cestos vindimos”, com cerca de 60 a 70 quilos de uvas. Às vezes, aqueles homens faziam por dia, desta maneira, dezenas de quilómetros a subir ou descer encostas. Os cestos faziam parte do “típico” duriense, cantado e elogiado por escritores e turistas, que quase sempre esqueciam a dureza daquele trabalho. Hoje, felizmente, estão praticamente desaparecidos. Caixas de 20 a 25 quilos e outros contentores, além dos tractores e das camionetas, fazem esse trabalho.
domingo, 16 de janeiro de 2011
domingo, 9 de janeiro de 2011
Entrevista dada a «DN»/«TSF»
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«DN» de 7 Jan 11
P: Nos contactos preliminares para marcar esta entrevista, fez questão de nos sublinhar que não apoia nenhum dos candidatos a estas presidenciais. Porquê?
R: Abandonei a política há muitos anos e se de repente apareço a apoiar algum candidato, corro o risco de dar os sinais errados. Por outro lado, tenho acarinhado muito a minha condição de independente. Sendo acessório, também o cargo que exerço na Fundação Francisco Soares dos Santos me obriga a alguma contenção. Mas também há motivos políticos, que passam pelo meu desapontamento radical com a função do Presidente da República em Portugal. Nós fomos muito especiais, ao tentar encontrar um sistema que não é nem água quente nem água fria, nem carne nem peixe. É uma coisa muito esquisita. Não é presidencialista, não é semipresidencialista, não é parlamentarista.
R: Que explicam, mas não justificam. Nós podemos ter um regime parlamentarista. Em teoria é a minha ambição última, em que o Presidente da República é, eventualmente, eleito indirectamente e produto de uma maioria. Evidentemente, o Presidente nessas circunstâncias não tem tanto poder político...
R: Do ponto de vista teórico era o meu desejo. É o estado mais acabado de uma democracia evoluída, sólida, consistente. É o Governo Presidencial, em que quem dirige é o Governo e em que o mais importante órgão de soberania é o Parlamento. Mas posso admitir que um sistema presidencial tenha, por tradição ou por necessidade... Por exemplo: hoje em dia, em tempos de crise económica e social tão forte, há muita gente que diz que se o Presidente da República tivesse mais poderes havia muito mais estabilidade, não haveria tanta demagogia.
R: Tenho dúvidas. É preciso que haja quem mande, diz-se - e nesse caso o Presidente da República não é o produto de uma maioria (parlamentar ou presidencial), mas o condutor dessa maioria. Isso seria um regime presidencialista. Mas nós conseguimos não ser uma coisa nem outra. Arranjámos este sistema que é uma coisa terrível. Nesta campanha passa-se metade do tempo a ouvir pessoas dizer que querem fazer o que não podem fazer; e a outra metade do tempo a ouvir pessoas dizer que não podem fazer o que gostariam. Isto é totalmente absurdo!
R: As duas coisas. Os presidentes, todos eles, tentaram sempre exercer o seu cargo aquém das potencialidades constitucionais.
R: Acho que sim. Como é que você pode ser entusiasmado quando ouve dizer "isso não posso fazer"? Ou quando ouve um candidato dizer "eu gostava de desenvolver a economia, gostava de acabar com a pobreza", "Eu gostava de falar duro frente aos grandes chefes do mundo"? Isto não é um motivo de atracção para os cidadãos.
R: Acho que tudo se vai passar no domínio do simbólico, qualquer que seja o Presidente eleito estou convencido que, não só por vontade sua mas também pelo funcionamento do Parlamento, estamos condenados a ter eleições nos meses seguintes ou até ao fim do ano - eventualmente esperar-se--á pela votação do Orçamento de 2012. Mas creio que é inevitável. O poder executivo actual está muito, muito desgastado. Quanto ao Presidente eleito vai querer começar de novo, mas vai sentir-se preso, limitado.
R: Acho que sim, e não sou o único a dizê-lo. Se as autoridades políticas portuguesas há um ano tivessem tomado algumas medidas importantes, preventivas da crise, hoje não teríamos metade dos problemas que temos. Se Portugal tivesse feito o que devia, ou mesmo se tivesse pedido, há dois anos, apoio à União Europeia ou ao FMI... eu não percebo esta verdadeira obsessão contra o FMI.
R: Para um problema maior não leva de certeza. É bom dizer que nós pertencemos ao FMI. Tem-se a impressão de que o FMI é uma entidade exterior, tipo KGB ou Gestapo, que vem aí dar cabo de tudo. O FMI também tem interesse que daqui a cinco anos possa reaver os empréstimos feitos.
R: Sem maioria parlamentar é muito difícil. A não ser que haja um acordo formal interpartidário.
R: Agora já não. Tive esperança há dois anos, mas foi uma verdadeira palhaçada - o PS e os outros partidos queriam tudo menos isso. O Presidente da República ajudou a que o Governo fosse de minoria. Tudo foi feito para agravar a situação.
R: Acho que sim. Podia ter dito previamente que era isso que queria, pôr os partidos perante as suas responsabilidades. Acho que eventualmente o fez fechado no seu gabinete, mas isso não é a melhor forma de o fazer.
R: Grande dúvida.
R: Não. Eu gostava que resistisse. Contra mim falo, nunca fui federalista, mas desde o princípio aderi ao euro. A minha esperança era que a disciplina do euro (mais os alemães) iria diminuir a tendência fatal para a demagogia dos governos, iríamos ter uma reduzidíssima inflação, deixaríamos de brincar às desvalorizações. Simples-mente, é verdade que reduzimos a inflação, que não tivemos desvalorização, mas tivemos ainda mais demagogia.
R: Ou as eleições parlamentares ou a posse de um novo Governo, que eu espero que seja maioritário. De um só partido ou de um grupo de partidos. Era bom que nas próximas eleições a população desse um recado aos dirigentes partidários, e dissesse que eles têm de fazer o gesto responsável de encontrar um Governo maioritário. E se esse Governo maioritário não sair das eleições, que façam as coligações ou as alianças necessárias. Os partidos exigem dos portugueses contenção, sacrifícios, responsabilidade, mas são incapazes de fazer a mesma coisa.
.R: Abandonei a política há muitos anos e se de repente apareço a apoiar algum candidato, corro o risco de dar os sinais errados. Por outro lado, tenho acarinhado muito a minha condição de independente. Sendo acessório, também o cargo que exerço na Fundação Francisco Soares dos Santos me obriga a alguma contenção. Mas também há motivos políticos, que passam pelo meu desapontamento radical com a função do Presidente da República em Portugal. Nós fomos muito especiais, ao tentar encontrar um sistema que não é nem água quente nem água fria, nem carne nem peixe. É uma coisa muito esquisita. Não é presidencialista, não é semipresidencialista, não é parlamentarista.
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P: Tem razões históricas...R: Que explicam, mas não justificam. Nós podemos ter um regime parlamentarista. Em teoria é a minha ambição última, em que o Presidente da República é, eventualmente, eleito indirectamente e produto de uma maioria. Evidentemente, o Presidente nessas circunstâncias não tem tanto poder político...
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P:Era esse o caminho adequado para a função presidencial?R: Do ponto de vista teórico era o meu desejo. É o estado mais acabado de uma democracia evoluída, sólida, consistente. É o Governo Presidencial, em que quem dirige é o Governo e em que o mais importante órgão de soberania é o Parlamento. Mas posso admitir que um sistema presidencial tenha, por tradição ou por necessidade... Por exemplo: hoje em dia, em tempos de crise económica e social tão forte, há muita gente que diz que se o Presidente da República tivesse mais poderes havia muito mais estabilidade, não haveria tanta demagogia.
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P: Não acredita nisso?R: Tenho dúvidas. É preciso que haja quem mande, diz-se - e nesse caso o Presidente da República não é o produto de uma maioria (parlamentar ou presidencial), mas o condutor dessa maioria. Isso seria um regime presidencialista. Mas nós conseguimos não ser uma coisa nem outra. Arranjámos este sistema que é uma coisa terrível. Nesta campanha passa-se metade do tempo a ouvir pessoas dizer que querem fazer o que não podem fazer; e a outra metade do tempo a ouvir pessoas dizer que não podem fazer o que gostariam. Isto é totalmente absurdo!
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P: O esvaziamento do cargo é um produto do que fizeram dele os presidentes que tivemos ou do desenho do cargo?R: As duas coisas. Os presidentes, todos eles, tentaram sempre exercer o seu cargo aquém das potencialidades constitucionais.
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P: Isso ajudará a explicar a falta de atenção que se tem dado a estas eleições?R: Acho que sim. Como é que você pode ser entusiasmado quando ouve dizer "isso não posso fazer"? Ou quando ouve um candidato dizer "eu gostava de desenvolver a economia, gostava de acabar com a pobreza", "Eu gostava de falar duro frente aos grandes chefes do mundo"? Isto não é um motivo de atracção para os cidadãos.
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P: Do ponto de vista do País, estas eleições são pouco importantes?R: Acho que tudo se vai passar no domínio do simbólico, qualquer que seja o Presidente eleito estou convencido que, não só por vontade sua mas também pelo funcionamento do Parlamento, estamos condenados a ter eleições nos meses seguintes ou até ao fim do ano - eventualmente esperar-se--á pela votação do Orçamento de 2012. Mas creio que é inevitável. O poder executivo actual está muito, muito desgastado. Quanto ao Presidente eleito vai querer começar de novo, mas vai sentir-se preso, limitado.
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P: No discurso do 10 de Junho de 2009, antes das legislativas, deixou uma série de avisos ao poder político. Desde aí, o País caiu num pântano?R: Acho que sim, e não sou o único a dizê-lo. Se as autoridades políticas portuguesas há um ano tivessem tomado algumas medidas importantes, preventivas da crise, hoje não teríamos metade dos problemas que temos. Se Portugal tivesse feito o que devia, ou mesmo se tivesse pedido, há dois anos, apoio à União Europeia ou ao FMI... eu não percebo esta verdadeira obsessão contra o FMI.
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P: O FMI é Deus ou o Diabo? Ajudar-nos-á ou levará o País para um problema maior?R: Para um problema maior não leva de certeza. É bom dizer que nós pertencemos ao FMI. Tem-se a impressão de que o FMI é uma entidade exterior, tipo KGB ou Gestapo, que vem aí dar cabo de tudo. O FMI também tem interesse que daqui a cinco anos possa reaver os empréstimos feitos.
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P: Tendo de recorrer ao FMI, a questão é se o Governo tem a força e legitimidade para aplicar essas receitas.R: Sem maioria parlamentar é muito difícil. A não ser que haja um acordo formal interpartidário.
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P: Acredita ainda nessa hipótese?R: Agora já não. Tive esperança há dois anos, mas foi uma verdadeira palhaçada - o PS e os outros partidos queriam tudo menos isso. O Presidente da República ajudou a que o Governo fosse de minoria. Tudo foi feito para agravar a situação.
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P: Acha que Cavaco Silva podia ter feito diferente, nesses dias?R: Acho que sim. Podia ter dito previamente que era isso que queria, pôr os partidos perante as suas responsabilidades. Acho que eventualmente o fez fechado no seu gabinete, mas isso não é a melhor forma de o fazer.
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P: O Parlamento português corre o risco de ficar reduzido a um exercício de soberania encenada nos próximos anos, face à União Europeia?R: Acho que já está, em grande parte. (...) Mas estou convencido de que daqui a cinco ou dez anos acontecerá o desmantelar de algumas estruturas excessivamente federais europeias. Está-se a verificar, sem que as pessoas o queiram assumir, que se foi longe demais - na destruição das soberanias, na destruição da diversidade europeia. E criou-se uma ficção.
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P: E o euro? Resistirá?R: Grande dúvida.
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P: Não está convencido disso?R: Não. Eu gostava que resistisse. Contra mim falo, nunca fui federalista, mas desde o princípio aderi ao euro. A minha esperança era que a disciplina do euro (mais os alemães) iria diminuir a tendência fatal para a demagogia dos governos, iríamos ter uma reduzidíssima inflação, deixaríamos de brincar às desvalorizações. Simples-mente, é verdade que reduzimos a inflação, que não tivemos desvalorização, mas tivemos ainda mais demagogia.
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P: Daqui por um ano, o que imagina que o País esteja a discutir?R: Ou as eleições parlamentares ou a posse de um novo Governo, que eu espero que seja maioritário. De um só partido ou de um grupo de partidos. Era bom que nas próximas eleições a população desse um recado aos dirigentes partidários, e dissesse que eles têm de fazer o gesto responsável de encontrar um Governo maioritário. E se esse Governo maioritário não sair das eleições, que façam as coligações ou as alianças necessárias. Os partidos exigem dos portugueses contenção, sacrifícios, responsabilidade, mas são incapazes de fazer a mesma coisa.
«DN» de 7 Jan 11
domingo, 2 de janeiro de 2011
Luz - Palais Royal, Paris, 1998
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Visitei este jardim dezenas de vezes. Em Paris, volto sempre lá. Equilibrado, sossegado e muito bonito. Com muitas histórias para contar. Ali se poder ler, descansar, beber refrescos e namorar. O Palácio data do século XVII e foi construído para servir de residência ao Cardeal Richelieu. Aliás, o primeiro nome era “Palais Cardinal”. Depois disso, serviu vários políticos (Mazarin, por exemplo), várias rainhas e diversos reis. A seguir à revolução, foi chamado “Palais Égalité” durante um breve período. Ao longo da sua existência, ficaram famosos os seus comércios, boutiques, lojas e cafés de toda a espécie, geralmente de luxo.
domingo, 26 de dezembro de 2010
Luz - Manif, Santiago do Chile, 1971
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Neste ano, festejava-se o primeiro aniversário de eleição de Salvador Alllende... os perigos eram muito e imensos. Como se viu dois anos depois. Todos os partidos de esquerda juntos (PC, PS, MAPU, Partido Radical, etc.) somavam um total de 36% dos votos, contra 34 à direita e 30 ao centro democrata-cristão. Como a esquerda se apresentou em coligação (Unidad Popular), o partido do centro, no respeito por uma tradição não escrita, deixou passar o governo de esquerda. Com uma legitimidade tão reduzida, com uma esquerda muito vanguardista e radical, com uma extrema-direita feroz e agressiva e com uma intervenção empenhada da CIA, a experiência chilena acabou como se sabe. Portugal, em 1975, tentou imitar o Chile... Até as canções e os slogans dele herdou. Hoje, ainda há por aí muito boa gente que procura, com governos minoritários e com a “moção de censura construtiva”, governar com reduzida legitimidade...
domingo, 19 de dezembro de 2010
Luz - Lago Titicaca, 1971
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É um lago mítico. Fica entre a Bolívia e o Peru, a mais ou menos 3.800 metros de altitude, pelo que é certamente um dos lagos mais altos do mundo. É grande, tem cerca de 200 quilómetros de comprimento. E mais de trezentos metros de profundidade... Está povoado de barcos de junco ou de madeira, conduzidos por Índios, ora pescando, trabalhando e transportando as suas mercadorias, ora mostrando-se aos turistas a troco de uma moeda. Agora também há “hydrofoils” para viagens mais confortáveis. Dizem os locais que o lago tem poderes e segredos. E que entidades mágicas e misteriosas habitam as suas margens, as suas pequenas ilhas e, os mais aterradores, as suas profundezas...
domingo, 12 de dezembro de 2010
Luz - Douro, Vinhas, 2009
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Esta imagem tem o condão de mostrar dois tipos de vinhas distintos e muito recentes, com menos de vinte anos: patamares com apenas dois “bardos” e “vinha ao alto”. Na região, especialistas, agrónomos, enólogos, lavradores e outros técnicos procuram, há décadas, os métodos mais adequados à produção da vinha, tentando facilitar a mecanização, manter ou melhorar a qualidade, tornar o cultivo e a vindima mais acessíveis e económicos, preservar a ecologia e as condições naturais, evitar a erosão dos solos... Não é fácil. E às vezes são objectivos contraditórios. Mas vai-se progredindo. Devagar...
domingo, 5 de dezembro de 2010
Luz - Barricadas de 28 de Setembro de 1974
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Já aqui mostrei uma outra fotografia alusiva a este dia e estes acontecimentos. Eis uma “prova” das armas recolhidas num dos postos de vigilância e controlo da Calçada de Carriche. Da primeira vez que publiquei imagens relativas a esta barricada, recebi correspondência crítica. A tentarem explicar-me que estas barricadas tinham tido alguma utilidade e que as ameaças de Spínola e da direita eram reais. Sei isso tudo. E estou convencido de que, sem esse movimento, talvez tivesse havido regresso de forças muito à direita. O ponto não era esse. Gosto de pensar que se a decisão de impedir as manifestações tivesse sido legal, se as forças de segurança fossem as legítimas e se tudo se tivesse passado dentro da lei, outro seria o destino da revolução e da democracia. Bem sei que era uma revolução... Mas a verdade é que o que começa de modo errado, muitos mais passos em falso terá. Como foi o caso por esses anos de 1974 e 1975... Ainda hoje é difícil convencer muita gente que perdemos tempo, recursos e energias com a revolução e a contra-revolução. Como tínhamos perdido tempo com a guerra e a ditadura. Os exemplos de outros países que fizeram mudanças tão importantes como a nossa (Espanha, Checoslováquia, Hungria, Polónia...) e que não perderam tempo são evidência suficiente.
domingo, 28 de novembro de 2010
Luz - Westminster Abbey
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Esta catedral fica perto das Casas do Parlamento. Por essa razão e pela sua beleza própria, há sempre enorme animação nas suas redondezas: deputados, políticos, turistas, excursões e cerimónias oficiais. Aqui foram coroados muitos monarcas, incluindo Victoria e Isabel II. No Canto dos Poetas, encontram sepultados alguns dos maiores poetas ingleses, Chaucer, Tennyson e outros. Centenas de placas memoriais recordam os grandes de Grã-Bretanha, reis, escritores e políticos. (1998).
domingo, 21 de novembro de 2010
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
domingo, 14 de novembro de 2010
Luz - Vista da pirâmide de Keops, Cairo, Egipto
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Também fotografei as pirâmides “de baixo para cima”, como mandam os costumes e os turistas devem fazer. Mas as imagens feitas “de cima para baixo” pareceram-me muito mais interessantes. (2006)
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
domingo, 7 de novembro de 2010
Luz - Varredor, Cemitério dos Prazeres, Lisboa
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Ao contrário das ruas de Lisboa, as do cemitério dos Prazeres estão sempre impecavelmente limpas! (1995)
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
José Luís Saldanha Sanches
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Texto lido na cerimónia evocativa na Universidade Católica.
SENTIR A FALTA de alguém. Eis um sentimento ambíguo. Porque é triste, muito triste, mas também porque é doce, muito doce. Sentir a falta é a melhor homenagem que se pode fazer. É alguém que nos dava e trazia qualquer coisa. Alguém que desempenhava um papel. Alguém para quem olhávamos. Alguém cuja opinião era referência: “que pensaria ele nesta situação?”, eis o que todos nos perguntamos em relação às nossas referências em qualquer situação.
Muitos sentem a falta de José Luís Saldanha Sanches. Os familiares, seguramente. Os amigos, não tenho dúvida. Os colegas e alunos, com certeza. Mas também os cidadãos atentos ao debate público. Em questões de cidadania, dos direitos humanos, de cumprimento dos deveres, da fiscalidade, do sistema de justiça e especialmente da corrupção, tinha-se transformado numa luz. Com o seu quê de Provedor, mesclado de Ancião e Profeta. Nos cafés, aquelas infernais televisões sempre abertas poucas vezes criam o silêncio. Com o José Luís, vi eu, era o caso. As pessoas queriam ouvi-lo.
Na origem deste fenómeno, estão vários atributos. A inteligência, a firmeza de juízo, a cultura e o doce sorriso. Mas havia outro, indelével: a honestidade.
Alguns dirão que a honestidade não merece ser sublinhada, é apenas o cumprimento do dever. Mas a verdade é que, actualmente, a honestidade é referida. Pela sua raridade, talvez. Tempos duros e difíceis, estes que vivemos.
.Muitos sentem a falta de José Luís Saldanha Sanches. Os familiares, seguramente. Os amigos, não tenho dúvida. Os colegas e alunos, com certeza. Mas também os cidadãos atentos ao debate público. Em questões de cidadania, dos direitos humanos, de cumprimento dos deveres, da fiscalidade, do sistema de justiça e especialmente da corrupção, tinha-se transformado numa luz. Com o seu quê de Provedor, mesclado de Ancião e Profeta. Nos cafés, aquelas infernais televisões sempre abertas poucas vezes criam o silêncio. Com o José Luís, vi eu, era o caso. As pessoas queriam ouvi-lo.
Na origem deste fenómeno, estão vários atributos. A inteligência, a firmeza de juízo, a cultura e o doce sorriso. Mas havia outro, indelével: a honestidade.
Alguns dirão que a honestidade não merece ser sublinhada, é apenas o cumprimento do dever. Mas a verdade é que, actualmente, a honestidade é referida. Pela sua raridade, talvez. Tempos duros e difíceis, estes que vivemos.
Texto lido na cerimónia evocativa na Universidade Católica.
domingo, 31 de outubro de 2010
domingo, 24 de outubro de 2010
Luz - Troço do Muro de Adriano
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Construído no século II, a mando do Imperador Adriano. Este, depois do seu antecessor, Trajano, entendeu pacificar as fronteiras do império, tanto na Ásia Menor, como na Germânia ou na Britânia. Este muro, de costa a costa, separava os romanos e os ingleses dos escoceses. (1986)
domingo, 17 de outubro de 2010
Luz - Transporte de leite, São Miguel, Açores
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Esta imagem tem mais de vinte anos. Imagino que hoje é impossível. A “modernização”, a UE e a ASAE não o permitiriam. (1985)
domingo, 10 de outubro de 2010
Luz - Trabalho na eira, Tourém
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Esta aldeia fica no Norte de Trás-os-Montes, concelho de Montalegre, perto de aldeia famosa, Pitões das Júnias. No mapa, as terras de Tourém formam uma espécie de dedo que entra por Espanha dentro. (1981)
domingo, 3 de outubro de 2010
Luz - Tenda de especiarias, La Paz
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Na Bolívia. Nesta tenda, vendia-se tudo. Especiarias, tintas, fio de algodão, grãos variados, folhas medicinais e frutos secos. Mas sobretudo, fetos de lama, como se podem ver a meio da imagem. São instrumentos de bruxaria indispensáveis para certo tipo de mezinhas! (1971)
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
Questões de cidadania
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Advertência
Este foi o texto que apresentei em Coimbra durante uma reunião do Clube dos Rotários de Coimbra Olivais. Como se pode ver, nada de semelhante com as declarações que me são atribuídas a propósito dos direitos sociais e da crise.
A esta explosão de direitos, parece nada haver a opor. Seria uma espécie de progresso das sociedades. Quanto mais direitos, mais igualdade, mais democracia, mais liberdade e mais segurança.
Contra esse optimismo inocente, há todavia reservas. A primeira é quase melancólica. Em princípio, não deveria haver direitos sem deveres e contrapartidas. Esse não parece ser o caso. A modernidade política e cultural incide sobretudo na proliferação dos direitos, não na confirmação dos deveres correspondentes. Os dirigentes políticos são pródigos em direitos, sobretudo nas leis e na Constituição, mas são aparentemente mais contidos na questão dos deveres. Na verdade, são assim porque não querem pagar o ónus eleitoral da afirmação de deveres, mas desejam colectar as vantagens do alargamento dos direitos. O que não impede que as leis correntes consagrem cada vez mais obrigações: taxas, pagamentos, multas, procedimentos, proibições, autorizações, licenças, alvarás, etc. Há mais direitos, menos deveres, mas os cidadãos são cada vez mais dependentes. Até porque são frequentes as obrigações que colidem directamente com direitos antigos. Por exemplo, os dispositivos de vigilância e controlo (chips dos automóveis, câmaras de vídeo, cartão único de cidadão, etc) contrariam os direitos de privacidade e de liberdade de deslocação.
A segunda reserva é mais séria. A identificação e a equiparação de direitos de várias espécies e de vantagens, privilégios, estatutos e benefícios só podem ser prejudiciais para o que é realmente importante: os direitos humanos e os direitos dos cidadãos. Na verdade, cada espécie de direitos tem a sua forma específica de garantia e de protecção. Ora, uma equiparação excessiva conduz necessariamente a uma banalização do significado e do conteúdo de cada direito. Uma falha ou uma violação do meu direito à integridade física ou de votar deve ser severamente punida: tanto o Estado como a sociedade têm o dever de proteger os meus direitos fundamentais e de castigar os prevaricadores. Violações contra esses direitos são crimes públicos. Não são comparáveis com falhas aos meus direitos ao emprego, ao trabalho, à habitação ou ao descanso. Por isso não se trata da mesma espécie de direitos.
Há cada vez mais a tendência para este alargamento de conceito. Hoje, a cidadania é uma soma vastíssima de direitos, incluindo, para além dos humanos, cívicos e políticos, os chamados direitos sociais, económicos, culturais, ao ambiente, à qualidade de vida e, por que não, à felicidade. Creio que esta tendência é errada. Tanto teoricamente como na vida prática.
É sobre as diferenças entre estes direitos e suas implicações que me proponho discorrer nesta sessão convosco.
Gostaria de, com algumas breves considerações, delimitar o conceito de cidadão. Não qualifico nem adjectivo o conceito. Um cidadão com mais ou menos poder é à mesma um cidadão. Um analfabeto é tão cidadão quanto um catedrático. Um cidadão com saúde ou doente é igualmente um cidadão. Um cidadão activo e empenhado na participação cívica e política é tão cidadão quanto um outro passivo, distante e alheado das causas comuns. Um cidadão preso e condenado por crime é um cidadão, mesmo se tem alguns dos seus direitos temporariamente limitados. Uma pessoa que vota é tão cidadão quanto aquela que se abstém. Um cidadão a viver num país onde existe um serviço público de saúde, de educação ou de segurança social é tão cidadão quanto um outro a viver num país onde não existe qualquer forma pública de prestação de cuidados de saúde. Mas um escravo não é um cidadão. E um estrangeiro, com menos direitos que os nacionais, não é um cidadão a parte inteira.
O mesmo digo dos conceitos de cidadania. Não qualifico esta última com adjectivos, qualificações ou circunstâncias. A cidadania não implica humanização ou decência. Um malfeitor é um cidadão. Um rebelde é um cidadão igual a um indivíduo conformado e bem comportado. A bondade, a decência e a eficiência são muito importantes na organização das sociedades e dos serviços públicos, mas não resultam da cidadania. Todos estes são conceitos que derivam de outros valores e de outras entidades. A moral pública, por exemplo. Ou a qualidade de um regime político. Ou ainda as tradições culturais de um povo. Finalmente, a exigência, certamente moral, mas também cultural, de comportamentos que respeitem os outros ou que valorizem a integridade e a autonomia dos seres humanos e dos contemporâneos. O homem que agride a mulher e os filhos, o automobilista que ameaça os transeuntes, o passante que falha nos seus deveres de prestação de apoio a quem corre o risco de morrer, o esperto que passa à frente nas filas dos serviços públicos, são, apesar do seu comportamento moralmente reprovável, eventualmente juridicamente condenável, todos cidadãos com os mesmos direitos e deveres.
Não esqueçamos, por outro lado, que os conceitos sobre os quais reflectimos são conceitos mutáveis que adquirem valor e sentido diferentes conforme os países, as culturas e os tempos históricos. Por exemplo, cidadão já foi uma maneira de distinguir os homens livres dos servos ou dos escravos que com eles conviviam. Tempos houve, com efeito, em que cidadãos livres e escravos coexistiam. Hoje, admitir tal hipótese é negar o sentido essencial de cidadania que deve ser universal. A cidadania já foi um privilégio com exclusão de outros, sendo hoje um estatuto de vocação universal e que dificilmente admite exclusão de outrem. A cidadania, em Roma, era o privilégio de alguns. Noutras circunstâncias, na Idade Média, também. Hoje, é a condição de todos.
A categoria de cidadão já foi uma distinção entre nacionais e estrangeiros. Hoje, do mesmo modo, a tendência universal é a de equiparar estrangeiros e cidadãos em quase todas as situações, até mesmo, último reduto, no cumprimento de deveres militares ou no exercício do direito de voto. A Constituição portuguesa, e bem a meu ver, estipula sem reservas (a não ser a da capacidade eleitoral e política) que os cidadãos estrangeiros residentes em Portugal gozam dos mesmos direitos e estão sujeitos aos mesmos deveres que os cidadãos nacionais. Mesmo a excepção eleitoral foi posta em causa, dado que já é possível, aos cidadãos da União Europeia, exercer alguns direitos de voto em país estrangeiro e em determinadas circunstâncias.
Convém pois reter que direitos, deveres e cidadania são conceitos mutáveis e diversos conforme os tempos e os locais.
A cidadania é uma instituição ou um valor razoavelmente positivo, composta de exigências e atributos, em geral direitos e deveres, que estabelecem os padrões de comportamento entre os indivíduos e entre eles e as instituições que organizam a sociedade. Os atributos da cidadania tendem a ser os mais universais possíveis, sem interferência ou qualificação ideológica, étnica, religiosa, sexual e outra. Ao contrário dos códigos de conduta de inspiração moral e religiosa, os direitos e deveres dos cidadãos tendem a ser neutros desse ponto de vista. As regras de auxílio, de cortesia, de respeito, de civilidade, de estacionamento, de vestuário de comportamento no espaço público são ditadas por critérios morais, jurídicos, religiosos e políticos, mas não pelo critério da cidadania. Por isso, num Estado de direito moderno, quando os critérios étnicos, culturais ou religiosos colidem com o critério da cidadania, este deverá sobrepor-se sempre que estiver em causa o espaço público, as relações entre todos os membros da comunidade e a igualdade de todos perante a lei.
Uma questão muito interessante é a que se traduz na nossa Constituição. Tradicionalmente, os direitos dos cidadãos eram limitados aos direitos fundamentais, aos direitos humanos, aos direitos cívicos e aos direitos políticos. Já se notava aqui um alargamento: os direitos humanos, mais vastos na sua concepção do que os direitos de cidadania, eram já identificados, na linguagem corrente, mas também na Constituição, com os direitos dos cidadãos.
No século XX, uma evolução interessante conduziu ao alargamento da noção de direitos. Em resumo e abreviando, foram sendo criados novos direitos e chegou a falar-se de direitos de segunda e terceira geração. Entre estes, os direitos sociais assumem especial relevo.
Em Portugal, muito particularmente, os direitos sociais foram equiparados aos direitos fundamentais. Formam um capítulo integrado na primeira parte da Constituição intitulada “Direitos e deveres fundamentais”. Nem todas as Constituições o fazem. Talvez a maior parte o não faça. Quer isto dizer que, na ordem jurídica portuguesa, o “direito à saúde”, o “direito ao trabalho”, o “direito à educação” ou o “direito ao alojamento” estão equiparados, para todos os efeitos, aos direitos tradicionais de primeira geração.
Há, evidentemente, problemas. A garantia do direito à vida, à livre expressão, ao voto, à associação e à deslocação é e deve ser oferecida pelo Estado e pela Justiça, a custo, se for necessário, de força e coacção. O mesmo já não pode ser dito do “direito à saúde”, o “direito ao trabalho” ou o “direito à habitação”. Quer isto dizer que, apesar de um tratamento jurídico que os equipara, estes direitos acabam por ter um significado diferente. Num caso, estaremos diante de direitos impositivos, que exigem garantias efectivas e cujas violações podem constituir crimes públicos. Noutro caso, no dos direitos sociais, estamos diante de direitos programáticos que se traduzem numa espécie de aconselhamento do Estado, dos governos e das instituições no sentido de resolver alguns problemas sociais como sejam o desemprego ou a doença. Os direitos sociais obedecem a um princípio ou critério de oportunidade. Os desempregados não têm garantido o seu direito ao trabalho e ao emprego, mas não é por isso que deixam de ser cidadãos, nem é por isso que têm razão de interpor processo seja a quem for.
Um caso interessante merece breve referência. Há um século ou século e meio, surgiu em vários países europeus a ideia de “escolaridade obrigatória”. Praticamente todos os países aderiram a este princípio e tornaram-no lei. Em certos casos, o princípio teve mesmo acolhimento constitucional. Qual a razão? Havia com certeza razões filosóficas, políticas e morais. Mas também havia outras. O Estado tinha interesse em obrigar os pais a enviar os filhos à escola. Militares, por exemplo: era necessário construir exércitos que falassem uma só língua e que se distinguissem dos outros. Económicas, sem dúvida: nas grandes empresas industriais, era indispensável comunicar e organizar o trabalho, o que só era possível com meios de comunicação formal numa só língua. Nacionalistas, com certeza: os Estados modernos nasceram, muitas vezes, com uma relação directa ao princípio de “uma língua, um povo, um Estado nacional”. Esta obrigatoriedade chegou a pontos inesperados, por exemplo, até à proibição de os pais instruírem os filhos em casa. Hoje, a escolaridade obrigatória é um conceito em perda de valor: foi substituído pelo “direito à educação”. Os objectivos são essencialmente os mesmos, suavizados e modificados pelos tempos e pela História, mas o critério primordial alterou-se: a obrigação transformou-se num direito.
Nos tempos que correm, as distinções são necessárias. A dignidade de cada variedade de direito é diferente. As garantias e a protecção do Estado e da Justiça também devem ser diferentes. Como diferentes são os deveres do Estado.
Diz-se com frequência que a pobreza, o desemprego, a falta de instrução ou o desconforto são atentados aos direitos dos cidadãos. Não é verdade. As condições sociais, económicas e culturais em que as pessoas vivem são condições para o exercício da cidadania, mas não constituem características do conteúdo desses direitos. As questões sociais e económicas podem facilitar e estimular ou dificultar o exercício dos direitos individuais e as condições de cidadania. Mas não são essenciais à definição dos direitos nem da cidadania. Um doente, um pobre, um deficiente, um rico e um analfabeto são sempre cidadãos. Um escravo não! Uma pessoa sem direitos individuais, sem direito de voto e sem liberdade de expressão e associação ou não é cidadão ou tem as suas capacidades de cidadania limitadas e coarctadas.
É verdade que as condições económicas e sociais condicionam os comportamentos individuais e colectivos, assim como as relações entre grupos e indivíduos. Como é verdade que os cidadãos que sofrem condições de despojamento, de miséria e de precariedade ou fragilidade não são talvez os mais aptos a exercitar os seus direitos de cidadão. Mas repare-se: são estes que muitas vezes permitem as pessoas lutar ou defender os seus interesses.
Há condições sociais, culturais e económicas que têm influência no exercício dos direitos dos cidadãos. A instrução, por exemplo. Saber ler e escrever, ter uma educação secundária, possuir uma formação profissional e uma cultura geral, ajudam fortemente à consciência dos direitos individuais e constitucionais, permitem melhor reclamá-los e defendê-los. Mas não são as condições sociais e económicas que criam esses direitos. Melhoram, as aptidões para o seu exercício, mas não os constituem, não lhes são essenciais.
Para terminar, uma rápida observação. Por que razão me empenho tanto em sublinhar a diferença entres estes direitos? Entre cidadania e moral? Entre civismo e decência? A primeira razão é porque não quero banalizar os direitos de cidadania. São, em certo sentido, mais invioláveis do que outros. São o princípio mesmo sobre o qual assentam as nossas instituições e a nossa liberdade. A segunda razão reside no paralelismo que estabeleço com a democracia. Também neste caso, para mim, o conceito não tem adjectivos nem qualificações. Democracia “económica”, “social” ou “cultural”: eis termos que não utilizo, nem lhes vejo utilidade. Democracia é um princípio político, um consenso, com dignidade constitucional, entre as classes dirigentes de um país e entre elas e a população. Esse consenso é estabelecido à volta de regras simples. Todos votam segundo a regra de uma pessoa um voto. O voto é secreto e individual. Quem vence governo e respeita a minoria. Há eleições periódicas e regulares. Todos se podem candidatar. Poucas mais são as regras. O resto, o acesso à cultura e à saúde, a frequência da escola e da universidade, a qualidade do ambiente e a tranquilidade das cidades, a harmonia nas relações humanas e a certeza do Direito são atributos das sociedades, dos seus princípios de organização moral e das suas tradições e costumes. Nada disso é democracia. Apesar de tudo isso ser tão bom quanto a democracia.
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Rotary Club dos Olivais
Coimbra, 27 de Setembro de 2010
Advertência
Este foi o texto que apresentei em Coimbra durante uma reunião do Clube dos Rotários de Coimbra Olivais. Como se pode ver, nada de semelhante com as declarações que me são atribuídas a propósito dos direitos sociais e da crise.
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NOS TEMPOS ACTUAIS, todos os dias assistimos à referência permanente aos direitos humanos e aos direitos dos cidadãos. Tudo se transformou em direitos. Vida, expressão, associação, deslocação, privacidade, bom nome e reputação, escola, cultura, saúde, segurança social, emprego, habitação... Há dias, um antigo presidente da República disse mesmo que “a água de boa qualidade é um direito humano fundamental”.
A esta explosão de direitos, parece nada haver a opor. Seria uma espécie de progresso das sociedades. Quanto mais direitos, mais igualdade, mais democracia, mais liberdade e mais segurança.
Contra esse optimismo inocente, há todavia reservas. A primeira é quase melancólica. Em princípio, não deveria haver direitos sem deveres e contrapartidas. Esse não parece ser o caso. A modernidade política e cultural incide sobretudo na proliferação dos direitos, não na confirmação dos deveres correspondentes. Os dirigentes políticos são pródigos em direitos, sobretudo nas leis e na Constituição, mas são aparentemente mais contidos na questão dos deveres. Na verdade, são assim porque não querem pagar o ónus eleitoral da afirmação de deveres, mas desejam colectar as vantagens do alargamento dos direitos. O que não impede que as leis correntes consagrem cada vez mais obrigações: taxas, pagamentos, multas, procedimentos, proibições, autorizações, licenças, alvarás, etc. Há mais direitos, menos deveres, mas os cidadãos são cada vez mais dependentes. Até porque são frequentes as obrigações que colidem directamente com direitos antigos. Por exemplo, os dispositivos de vigilância e controlo (chips dos automóveis, câmaras de vídeo, cartão único de cidadão, etc) contrariam os direitos de privacidade e de liberdade de deslocação.
A segunda reserva é mais séria. A identificação e a equiparação de direitos de várias espécies e de vantagens, privilégios, estatutos e benefícios só podem ser prejudiciais para o que é realmente importante: os direitos humanos e os direitos dos cidadãos. Na verdade, cada espécie de direitos tem a sua forma específica de garantia e de protecção. Ora, uma equiparação excessiva conduz necessariamente a uma banalização do significado e do conteúdo de cada direito. Uma falha ou uma violação do meu direito à integridade física ou de votar deve ser severamente punida: tanto o Estado como a sociedade têm o dever de proteger os meus direitos fundamentais e de castigar os prevaricadores. Violações contra esses direitos são crimes públicos. Não são comparáveis com falhas aos meus direitos ao emprego, ao trabalho, à habitação ou ao descanso. Por isso não se trata da mesma espécie de direitos.
Há cada vez mais a tendência para este alargamento de conceito. Hoje, a cidadania é uma soma vastíssima de direitos, incluindo, para além dos humanos, cívicos e políticos, os chamados direitos sociais, económicos, culturais, ao ambiente, à qualidade de vida e, por que não, à felicidade. Creio que esta tendência é errada. Tanto teoricamente como na vida prática.
É sobre as diferenças entre estes direitos e suas implicações que me proponho discorrer nesta sessão convosco.
Gostaria de, com algumas breves considerações, delimitar o conceito de cidadão. Não qualifico nem adjectivo o conceito. Um cidadão com mais ou menos poder é à mesma um cidadão. Um analfabeto é tão cidadão quanto um catedrático. Um cidadão com saúde ou doente é igualmente um cidadão. Um cidadão activo e empenhado na participação cívica e política é tão cidadão quanto um outro passivo, distante e alheado das causas comuns. Um cidadão preso e condenado por crime é um cidadão, mesmo se tem alguns dos seus direitos temporariamente limitados. Uma pessoa que vota é tão cidadão quanto aquela que se abstém. Um cidadão a viver num país onde existe um serviço público de saúde, de educação ou de segurança social é tão cidadão quanto um outro a viver num país onde não existe qualquer forma pública de prestação de cuidados de saúde. Mas um escravo não é um cidadão. E um estrangeiro, com menos direitos que os nacionais, não é um cidadão a parte inteira.
O mesmo digo dos conceitos de cidadania. Não qualifico esta última com adjectivos, qualificações ou circunstâncias. A cidadania não implica humanização ou decência. Um malfeitor é um cidadão. Um rebelde é um cidadão igual a um indivíduo conformado e bem comportado. A bondade, a decência e a eficiência são muito importantes na organização das sociedades e dos serviços públicos, mas não resultam da cidadania. Todos estes são conceitos que derivam de outros valores e de outras entidades. A moral pública, por exemplo. Ou a qualidade de um regime político. Ou ainda as tradições culturais de um povo. Finalmente, a exigência, certamente moral, mas também cultural, de comportamentos que respeitem os outros ou que valorizem a integridade e a autonomia dos seres humanos e dos contemporâneos. O homem que agride a mulher e os filhos, o automobilista que ameaça os transeuntes, o passante que falha nos seus deveres de prestação de apoio a quem corre o risco de morrer, o esperto que passa à frente nas filas dos serviços públicos, são, apesar do seu comportamento moralmente reprovável, eventualmente juridicamente condenável, todos cidadãos com os mesmos direitos e deveres.
Não esqueçamos, por outro lado, que os conceitos sobre os quais reflectimos são conceitos mutáveis que adquirem valor e sentido diferentes conforme os países, as culturas e os tempos históricos. Por exemplo, cidadão já foi uma maneira de distinguir os homens livres dos servos ou dos escravos que com eles conviviam. Tempos houve, com efeito, em que cidadãos livres e escravos coexistiam. Hoje, admitir tal hipótese é negar o sentido essencial de cidadania que deve ser universal. A cidadania já foi um privilégio com exclusão de outros, sendo hoje um estatuto de vocação universal e que dificilmente admite exclusão de outrem. A cidadania, em Roma, era o privilégio de alguns. Noutras circunstâncias, na Idade Média, também. Hoje, é a condição de todos.
A categoria de cidadão já foi uma distinção entre nacionais e estrangeiros. Hoje, do mesmo modo, a tendência universal é a de equiparar estrangeiros e cidadãos em quase todas as situações, até mesmo, último reduto, no cumprimento de deveres militares ou no exercício do direito de voto. A Constituição portuguesa, e bem a meu ver, estipula sem reservas (a não ser a da capacidade eleitoral e política) que os cidadãos estrangeiros residentes em Portugal gozam dos mesmos direitos e estão sujeitos aos mesmos deveres que os cidadãos nacionais. Mesmo a excepção eleitoral foi posta em causa, dado que já é possível, aos cidadãos da União Europeia, exercer alguns direitos de voto em país estrangeiro e em determinadas circunstâncias.
Convém pois reter que direitos, deveres e cidadania são conceitos mutáveis e diversos conforme os tempos e os locais.
A cidadania é uma instituição ou um valor razoavelmente positivo, composta de exigências e atributos, em geral direitos e deveres, que estabelecem os padrões de comportamento entre os indivíduos e entre eles e as instituições que organizam a sociedade. Os atributos da cidadania tendem a ser os mais universais possíveis, sem interferência ou qualificação ideológica, étnica, religiosa, sexual e outra. Ao contrário dos códigos de conduta de inspiração moral e religiosa, os direitos e deveres dos cidadãos tendem a ser neutros desse ponto de vista. As regras de auxílio, de cortesia, de respeito, de civilidade, de estacionamento, de vestuário de comportamento no espaço público são ditadas por critérios morais, jurídicos, religiosos e políticos, mas não pelo critério da cidadania. Por isso, num Estado de direito moderno, quando os critérios étnicos, culturais ou religiosos colidem com o critério da cidadania, este deverá sobrepor-se sempre que estiver em causa o espaço público, as relações entre todos os membros da comunidade e a igualdade de todos perante a lei.
Uma questão muito interessante é a que se traduz na nossa Constituição. Tradicionalmente, os direitos dos cidadãos eram limitados aos direitos fundamentais, aos direitos humanos, aos direitos cívicos e aos direitos políticos. Já se notava aqui um alargamento: os direitos humanos, mais vastos na sua concepção do que os direitos de cidadania, eram já identificados, na linguagem corrente, mas também na Constituição, com os direitos dos cidadãos.
No século XX, uma evolução interessante conduziu ao alargamento da noção de direitos. Em resumo e abreviando, foram sendo criados novos direitos e chegou a falar-se de direitos de segunda e terceira geração. Entre estes, os direitos sociais assumem especial relevo.
Em Portugal, muito particularmente, os direitos sociais foram equiparados aos direitos fundamentais. Formam um capítulo integrado na primeira parte da Constituição intitulada “Direitos e deveres fundamentais”. Nem todas as Constituições o fazem. Talvez a maior parte o não faça. Quer isto dizer que, na ordem jurídica portuguesa, o “direito à saúde”, o “direito ao trabalho”, o “direito à educação” ou o “direito ao alojamento” estão equiparados, para todos os efeitos, aos direitos tradicionais de primeira geração.
Há, evidentemente, problemas. A garantia do direito à vida, à livre expressão, ao voto, à associação e à deslocação é e deve ser oferecida pelo Estado e pela Justiça, a custo, se for necessário, de força e coacção. O mesmo já não pode ser dito do “direito à saúde”, o “direito ao trabalho” ou o “direito à habitação”. Quer isto dizer que, apesar de um tratamento jurídico que os equipara, estes direitos acabam por ter um significado diferente. Num caso, estaremos diante de direitos impositivos, que exigem garantias efectivas e cujas violações podem constituir crimes públicos. Noutro caso, no dos direitos sociais, estamos diante de direitos programáticos que se traduzem numa espécie de aconselhamento do Estado, dos governos e das instituições no sentido de resolver alguns problemas sociais como sejam o desemprego ou a doença. Os direitos sociais obedecem a um princípio ou critério de oportunidade. Os desempregados não têm garantido o seu direito ao trabalho e ao emprego, mas não é por isso que deixam de ser cidadãos, nem é por isso que têm razão de interpor processo seja a quem for.
Um caso interessante merece breve referência. Há um século ou século e meio, surgiu em vários países europeus a ideia de “escolaridade obrigatória”. Praticamente todos os países aderiram a este princípio e tornaram-no lei. Em certos casos, o princípio teve mesmo acolhimento constitucional. Qual a razão? Havia com certeza razões filosóficas, políticas e morais. Mas também havia outras. O Estado tinha interesse em obrigar os pais a enviar os filhos à escola. Militares, por exemplo: era necessário construir exércitos que falassem uma só língua e que se distinguissem dos outros. Económicas, sem dúvida: nas grandes empresas industriais, era indispensável comunicar e organizar o trabalho, o que só era possível com meios de comunicação formal numa só língua. Nacionalistas, com certeza: os Estados modernos nasceram, muitas vezes, com uma relação directa ao princípio de “uma língua, um povo, um Estado nacional”. Esta obrigatoriedade chegou a pontos inesperados, por exemplo, até à proibição de os pais instruírem os filhos em casa. Hoje, a escolaridade obrigatória é um conceito em perda de valor: foi substituído pelo “direito à educação”. Os objectivos são essencialmente os mesmos, suavizados e modificados pelos tempos e pela História, mas o critério primordial alterou-se: a obrigação transformou-se num direito.
Nos tempos que correm, as distinções são necessárias. A dignidade de cada variedade de direito é diferente. As garantias e a protecção do Estado e da Justiça também devem ser diferentes. Como diferentes são os deveres do Estado.
Diz-se com frequência que a pobreza, o desemprego, a falta de instrução ou o desconforto são atentados aos direitos dos cidadãos. Não é verdade. As condições sociais, económicas e culturais em que as pessoas vivem são condições para o exercício da cidadania, mas não constituem características do conteúdo desses direitos. As questões sociais e económicas podem facilitar e estimular ou dificultar o exercício dos direitos individuais e as condições de cidadania. Mas não são essenciais à definição dos direitos nem da cidadania. Um doente, um pobre, um deficiente, um rico e um analfabeto são sempre cidadãos. Um escravo não! Uma pessoa sem direitos individuais, sem direito de voto e sem liberdade de expressão e associação ou não é cidadão ou tem as suas capacidades de cidadania limitadas e coarctadas.
É verdade que as condições económicas e sociais condicionam os comportamentos individuais e colectivos, assim como as relações entre grupos e indivíduos. Como é verdade que os cidadãos que sofrem condições de despojamento, de miséria e de precariedade ou fragilidade não são talvez os mais aptos a exercitar os seus direitos de cidadão. Mas repare-se: são estes que muitas vezes permitem as pessoas lutar ou defender os seus interesses.
Há condições sociais, culturais e económicas que têm influência no exercício dos direitos dos cidadãos. A instrução, por exemplo. Saber ler e escrever, ter uma educação secundária, possuir uma formação profissional e uma cultura geral, ajudam fortemente à consciência dos direitos individuais e constitucionais, permitem melhor reclamá-los e defendê-los. Mas não são as condições sociais e económicas que criam esses direitos. Melhoram, as aptidões para o seu exercício, mas não os constituem, não lhes são essenciais.
Para terminar, uma rápida observação. Por que razão me empenho tanto em sublinhar a diferença entres estes direitos? Entre cidadania e moral? Entre civismo e decência? A primeira razão é porque não quero banalizar os direitos de cidadania. São, em certo sentido, mais invioláveis do que outros. São o princípio mesmo sobre o qual assentam as nossas instituições e a nossa liberdade. A segunda razão reside no paralelismo que estabeleço com a democracia. Também neste caso, para mim, o conceito não tem adjectivos nem qualificações. Democracia “económica”, “social” ou “cultural”: eis termos que não utilizo, nem lhes vejo utilidade. Democracia é um princípio político, um consenso, com dignidade constitucional, entre as classes dirigentes de um país e entre elas e a população. Esse consenso é estabelecido à volta de regras simples. Todos votam segundo a regra de uma pessoa um voto. O voto é secreto e individual. Quem vence governo e respeita a minoria. Há eleições periódicas e regulares. Todos se podem candidatar. Poucas mais são as regras. O resto, o acesso à cultura e à saúde, a frequência da escola e da universidade, a qualidade do ambiente e a tranquilidade das cidades, a harmonia nas relações humanas e a certeza do Direito são atributos das sociedades, dos seus princípios de organização moral e das suas tradições e costumes. Nada disso é democracia. Apesar de tudo isso ser tão bom quanto a democracia.
Rotary Club dos Olivais
Coimbra, 27 de Setembro de 2010
domingo, 26 de setembro de 2010
Luz - Templo em Luxor, Egipto.
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O senhor sentado à esquerda está a fazer um eterno e lento trabalho de conservação e limpeza. Dizia o guia que me acompanhava que alguns destes “artistas” podiam estar por ali dez ou mais anos a limpar meia dúzia de colunas! (2006)
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
Luz - Templo em Edimburgo
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Edimburgo é uma das mais belas e interessantes cidades do mundo. Vários séculos, da alta Idade Média aos tempos contemporâneos, passando pelo Barroco e as Luzes, sem esquecer os mais activos dias da burguesia comercial do século XIX, deixaram marcas importantes na cidade. (1986)
domingo, 19 de setembro de 2010
Luz - Teatro La Fenice, Veneza
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É um dos mais famosos teatros de Ópera do mundo. Em 1996, a exemplo do que já tinha acontecido no século XIX, o teatro ardeu! Soube-se que foi fogo posto, mas nunca se descobriu o criminoso. Sei que foi reconstruído e novamente reaberto ao público em 2003, mas ainda o não conheço. No La Fenice, entre muitos outros, foi filmado parte de um dos mais maravilhosos filmes que vi, “Senso”, de Luchino Visconti. (1980)
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
Luz - Tayloriana, Oxford
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A “Institutio Tayloriana” é a Faculdade de Letras e Línguas da Universidade de Oxford. (2004)
A “Institutio Tayloriana” é a Faculdade de Letras e Línguas da Universidade de Oxford. (2004)
sábado, 11 de setembro de 2010
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
domingo, 5 de setembro de 2010
Luz - Rio Douro, de Gaia
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À esquerda, Gaia. Ao fundo, à direita, a ponte da Arrábida. Construída nos anos sessenta, projectada pelo famoso engenheiro Edgar Cardoso, foi, em seu tempo, uma obra reputada: era o mais vasto arco de betão esforçado (creio que é assim que se designa...) do mundo. (1985)quinta-feira, 2 de setembro de 2010
Luz - Revista de carros, 28 de Setembro de 1974
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Foi o primeiro grande “apertão” da revolução que, gradualmente, deixava de ser democrática para se ir tornando socialista e comunista. Naquele dia, além de centenas de prisões sem culpa, foram feitas barricadas em vários pontos do país, especialmente Lisboa. Civis e militares colaboravam na revista, nesta imagem na Calçada de Carriche. Procuravam-se “bandidos” e “armas”. Neste sítio, ao fim do dia, os “vigilantes” tinham feito um espólio, que também fotografei: três varapaus, duas mocas, um cassetete, três garrafas de litro vazias (seria para fazer cocktails Molotov?), duas facas, um canivete de média dimensão e uma correia de bicicleta. Era com este armamento que a contra-revolução estava em marcha! (1974)
domingo, 29 de agosto de 2010
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
domingo, 22 de agosto de 2010
Luz - Porto e Gaia, Ponte D. Luís
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No tabuleiro superior, ainda circulavam carros. Hoje, só o Metro. No rio, alguns barcos rabelos que já só fazem publicidade ao vinho do Porto. (1990)
No tabuleiro superior, ainda circulavam carros. Hoje, só o Metro. No rio, alguns barcos rabelos que já só fazem publicidade ao vinho do Porto. (1990)
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
Luz - Port Meadow, Oxford
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É um enorme baldio, cerca de 400 hectares, uma “terra comum”, oferecida pelo Rei ao povo de Oxford há mais de 700 anos, com a condição de nada lá se construir e de servir para as pessoas e os animais da cidade e da região. Sete séculos depois, ainda lá está. Sem construções. Sem patos bravos. Limpo e cuidado. Visitado por milhares de habitantes durante todo ano. Ali se estuda, corre, anda de bicicleta, se faz correr os cães, se alimenta as vacas e as ovelhas, se anda de barco, se namora, se procura a solidão e se bebem cervejas... (1998)
domingo, 15 de agosto de 2010
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
Luz - Ponta Delgada
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O “Relvão”: é uma espécie de Jardim da Liberdade. Foi aqui que uma parte das tropas liberais acamparam enquanto se preparavam para a viagem de mar e o futuro desembarque no Mindelo. Ao que consta, ninguém, nem os generais ou o Rei, sabiam onde desembarcariam. (1990).
domingo, 8 de agosto de 2010
Luz - Perto do Muro de Adriano
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Entre a Escócia e a Inglaterra, o Imperador Adriano (ano 120 da nossa era) tentou fazer a paz. Pensou que era necessário separar os ingleses e romanos dos escoceses, povo atrevido, orgulhoso e revoltado. Como outros reis ou presidentes, escolheu a construção de um muro para evitar confrontos. A sua largura (ou comprimento) é de cerca de 120 km, de costa a costa. Ainda hoje sobram inúmeros troços desse muro, assim como instalações militares e civis. Certos locais são absolutamente maravilhosos. (1984)
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
Luz - Parque perto do Crescent de Bath
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Um enorme parque imaculado. Ao fundo, à direita, o início dos edifícios que formam o Crescent de Bath, uma notável construção. (1996)
domingo, 1 de agosto de 2010
quinta-feira, 29 de julho de 2010
Luz - Oxford
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Entrada para a Faculdade de Línguas (Institutio Tayloriana). Ao fundo, um pouco da fachada do Ashmolean Museum, o mais antigo museu do mundo. (2002)
domingo, 25 de julho de 2010
Luz - Ocupação de herdade, 1975
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Naquele Verão, num domingo, fui passear para o Alentejo. Perto do Gavião, a circulação estava interrompida. Havia agitação. Fiquei por ali umas horas a observar. Uma herdade estava a ser ocupada. Os varapaus não denunciam especial violência. Mas várias armas não enganam e mostram bem ao que se vinha. (1975)
quinta-feira, 22 de julho de 2010
Luz - Numa estação de comboio, Inglaterra
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Estes rapazes estão à espera de um comboio. Não sei para onde iam, nem de onde vinham. Não me admiraria que se dirigissem a um qualquer campo de futebol. Fazer das suas... (1996)
domingo, 18 de julho de 2010
quinta-feira, 15 de julho de 2010
domingo, 11 de julho de 2010
Luz - Nova Inglaterra, EUA
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É uma rua qualquer, de uma cidade qualquer, em Nova Inglaterra, nos Estados Unidos. (1978)
quinta-feira, 8 de julho de 2010
Luz - Nossa Senhora do Sameiro
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Neste Santuário, os sinais da guerra colonial ainda eram evidentes anos depois de acabada. Aliás, ainda hoje, em muitos locais de fé e peregrinação, sobram imagens daqueles tempos e daqueles dramas. (1986)
domingo, 4 de julho de 2010
Luz - Nos banhos de Bath, Inglaterra
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Entrada para os “Banhos da Rainha”. Apesar da fachada bem mais recente, lá dentro, as instalações datariam do tempo dos Romanos, um exagero evidente, mas com alguma razão de ser. (1984)
quinta-feira, 1 de julho de 2010
domingo, 27 de junho de 2010
quinta-feira, 24 de junho de 2010
Luz - Nas margens do Douro, Entre-os-rios
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Não muito longe deste local pacífico, aconteceu um dos maiores desastres da história recente do país: a queda do autocarro na ponte de Castelo de Paiva. (1978)domingo, 20 de junho de 2010
O Cicerone de almas
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FEZ-NOS REGULARMENTE COMPANHIA durante décadas. Nos jornais, na televisão, nos cinemas... No espaço público. Aparecia sempre que se previa, mas surgia onde não era esperado. Levou muita gente pela mão. Na religião ou na política. Na pintura e no cinema. Nos livros e na música. Finalmente, nas cidades portuguesas. Mostrou-nos a sua vida, os filmes, os livros, os quadros e as cantatas da sua vida. Da sua e de outras vidas.
Uma expressão que ele utilizou uma vez, num seu texto, resume bem um programa, o seu, e uma vida, a sua: “Dar a ver...”. Parece que não fez outra coisa. Deu a ver ideias e formas, coisas e almas. Mas também caminhos, ora sensatos, ora irreverentes e inconformistas. Foi o que ele fez na política e no pensamento, nas artes e nas letras, no cinema e na música, entre amigos ou com os seus leitores.
Nos cineclubes, com jovens estudantes, a quem mostrava aquela que viria a ser uma das suas grandes artes. Na JUC (Juventude Universitária Católica) e no “Encontro”, onde procurou Deus e os homens e onde também teve desencontros. No “Tempo e o Modo”, no “Independente” e no “Público”, além de outros jornais, manteve colunas que rapidamente criavam fiéis encantados com a sua versatilidade, a sua cultura e a maneira como levava os seus leitores, quase de braço dado, a visitar Itália, a ouvir Bach ou a rever John Ford.
Durante anos, primeiro na Gulbenkian, depois na Cinemateca, deu a ver milhares de filmes e centenas de cineastas, oferecia aos cinéfilos umas “folhas de sala” inesquecíveis, onde, além da ficha técnica, deambulava pela arte e pela ficção, divagava sobre o belo ou o cruel, sobre as mulheres ou a aventura.
Trazia consigo a Itália toda, da mitologia ao Renascimento, da ópera ao cinema, para que sempre soube chamar os interessados. Conheço pessoas que visitaram igrejas, viram quadros e filmes, passearam por praças e ouviram música por causa do João, depois de terem lido mais uma crónica sua.
Dedicou-se à política, sobretudo antes do 25 de Abril, pela liberdade. Talvez isso explique a previsão que alguém fez um dia: quando vivermos em democracia, o João Bénard deixará de se ocupar de política. Antes disso, lutou pela democracia, contra a guerra, por una Igreja diferente e pela cultura.
Com a sua geração de estudantes e católicos, percorreu o caminho que levou tantos à democracia e à irreverência. Ficou-lhe desse tempo um especial jeito para combinar o moderno com o clássico, o razoável com a rebeldia.
Na política, andou com muitos, com todos os que queriam a democracia, mas talvez tenha sido mais socialista do que outra coisa. Sobra dos seus episódios políticos a percepção clara de um homem independente.
Nestas suas funções, celebrou o Porto, Beja, Setúbal, Aveiro, Viseu, Angra do Heroísmo, Bragança, Guimarães e Viana do Castelo... Em cada cidade encontrou a palavra justa, a evocação histórica, a história local e a personalidade ou a personagem adequada a recordar. Fê-lo sempre com excepcional graça e com a muita cultura que tinha, sem nunca recorrer ao lugar-comum, um dos seus mais odiados inimigos e um dos piores hábitos das cerimónias oficiais. E ainda encontrou tempo e oportunidade para prestar homenagem a amigos seus. Festejou Sophia e Eugénio de Andrade, Jorge de Sena e Agustina, Júlio Dinis e Camilo, sem esquecer Bocage, Camões e Pessoa. E não lhe foi necessário um grande esforço para, nesta volta às capitais de distrito, referir Buñuel e El Greco...
Nos seus discursos, agora reunidos, cantou a divisão e a unidade. Qualificando-as. A divisão de opiniões (“Divididos - bendito seja Deus! - por diversas opções religiosas, ideológicas e políticas”) e a unidade de cidadãos (“...é bom que haja adversários. Mas não há inimigos”.).
Criou uma fórmula feliz com que terminava os seus discursos: “Senhor Presidente da República: muito obrigado por me ter dado a palavra. Minhas Senhoras e Meus Senhores: muito obrigado por me terem escutado”. Tenho saudades de o ouvir dizer isto mesmo.
Uma expressão que ele utilizou uma vez, num seu texto, resume bem um programa, o seu, e uma vida, a sua: “Dar a ver...”. Parece que não fez outra coisa. Deu a ver ideias e formas, coisas e almas. Mas também caminhos, ora sensatos, ora irreverentes e inconformistas. Foi o que ele fez na política e no pensamento, nas artes e nas letras, no cinema e na música, entre amigos ou com os seus leitores.
Nos cineclubes, com jovens estudantes, a quem mostrava aquela que viria a ser uma das suas grandes artes. Na JUC (Juventude Universitária Católica) e no “Encontro”, onde procurou Deus e os homens e onde também teve desencontros. No “Tempo e o Modo”, no “Independente” e no “Público”, além de outros jornais, manteve colunas que rapidamente criavam fiéis encantados com a sua versatilidade, a sua cultura e a maneira como levava os seus leitores, quase de braço dado, a visitar Itália, a ouvir Bach ou a rever John Ford.
Durante anos, primeiro na Gulbenkian, depois na Cinemateca, deu a ver milhares de filmes e centenas de cineastas, oferecia aos cinéfilos umas “folhas de sala” inesquecíveis, onde, além da ficha técnica, deambulava pela arte e pela ficção, divagava sobre o belo ou o cruel, sobre as mulheres ou a aventura.
Trazia consigo a Itália toda, da mitologia ao Renascimento, da ópera ao cinema, para que sempre soube chamar os interessados. Conheço pessoas que visitaram igrejas, viram quadros e filmes, passearam por praças e ouviram música por causa do João, depois de terem lido mais uma crónica sua.
Dedicou-se à política, sobretudo antes do 25 de Abril, pela liberdade. Talvez isso explique a previsão que alguém fez um dia: quando vivermos em democracia, o João Bénard deixará de se ocupar de política. Antes disso, lutou pela democracia, contra a guerra, por una Igreja diferente e pela cultura.
Com a sua geração de estudantes e católicos, percorreu o caminho que levou tantos à democracia e à irreverência. Ficou-lhe desse tempo um especial jeito para combinar o moderno com o clássico, o razoável com a rebeldia.
Na política, andou com muitos, com todos os que queriam a democracia, mas talvez tenha sido mais socialista do que outra coisa. Sobra dos seus episódios políticos a percepção clara de um homem independente.
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Este volume inclui os discursos de João Bénard da Costa, Presidente da Comissão das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Ele exerceu esse cargo durante dez anos. Morreu o ano passado e ainda hoje nos faz falta.Nestas suas funções, celebrou o Porto, Beja, Setúbal, Aveiro, Viseu, Angra do Heroísmo, Bragança, Guimarães e Viana do Castelo... Em cada cidade encontrou a palavra justa, a evocação histórica, a história local e a personalidade ou a personagem adequada a recordar. Fê-lo sempre com excepcional graça e com a muita cultura que tinha, sem nunca recorrer ao lugar-comum, um dos seus mais odiados inimigos e um dos piores hábitos das cerimónias oficiais. E ainda encontrou tempo e oportunidade para prestar homenagem a amigos seus. Festejou Sophia e Eugénio de Andrade, Jorge de Sena e Agustina, Júlio Dinis e Camilo, sem esquecer Bocage, Camões e Pessoa. E não lhe foi necessário um grande esforço para, nesta volta às capitais de distrito, referir Buñuel e El Greco...
Nos seus discursos, agora reunidos, cantou a divisão e a unidade. Qualificando-as. A divisão de opiniões (“Divididos - bendito seja Deus! - por diversas opções religiosas, ideológicas e políticas”) e a unidade de cidadãos (“...é bom que haja adversários. Mas não há inimigos”.).
Criou uma fórmula feliz com que terminava os seus discursos: “Senhor Presidente da República: muito obrigado por me ter dado a palavra. Minhas Senhoras e Meus Senhores: muito obrigado por me terem escutado”. Tenho saudades de o ouvir dizer isto mesmo.
quinta-feira, 17 de junho de 2010
Luz - Miúdos de bairro
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Perdi horas a tentar descobrir ou lembrar-me do sítio desta imagem. Não consigo. Talvez no Porto... Só a homenagem da T-Shirt aos BeeGees fornece uma indicação. Mas podia ser em qualquer sítio do mundo... (1979)
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